A HISTÓRIA DO ATEÍSMO E SUA DIGRESSÃO COM O REGIME COMUNISTA.
Durante muitos séculos a religião, mais especificamente o cristianismo exerceu o domínio exclusivo sobre a ética e a moral determinando as regras do jogo, de maneira dogmática, pragmática e na maioria das vezes intolerante sob os valores da conduta social ocidental, baseados sobretudo na demonização de instintos humanos vitais, principalmente o desejo sexual. Todos sabemos que o incesto é pegado mas que geneticamente é possível (Darwin casou-se com sua prima e tiveram filhos perfeitos)
Aqui, faz necessário uma digressão entre moralidade cristã e os aspectos sociais como o comunismo associado (ou melhor dissociado) ao ateísmo.
As pessoas acreditam que sem a crença, o temor, a obediência e submissão a uma divindade e as noções de bem e de mal ficaram sem fundamento. Argumentações como essas eu já expus em O PESSIMISMO HUMANO É A RAZÃO EXISTENCIAL DO MAL METAFÍSICO. (veja em: http://netnature.wordpress.com/2011/06/09/o-pessimismo-humano-e-a-razao-existencial-do-mal-metafisico/).
Essas afirmações errôneas nos levam a crer que homicídios, ladrocínios e todos os desvios da conduta social perdem seus significados criminosos e se banalizam em uma sociedade sem Deus. Geralmente fazem analogias aos países com grande Índice de Desenvolvimento Humano e o alto grau de suicídio.
A associação entre ateísmo e desagregação social ou o vínculo entre a ausência de fé numa entidade divina e a imoralidade não é sugerido apenas pela mitologia grega como podemos constatar no mito de Momo mas também em outras mitologias, como a judaico-cristã na qual ainda se preserva tal senso-comum exposto até mesmo ao ridículo.
A associação entre ateísmo e imoralidade (ou loucura) é evidenciada no Salmo 14 da Bíblia onde lemos que o homem sem deus é um insensato e que suas ações são corrompidas e abomináveis. Obviamente que sabemos que a corrupção tem atingido até as denominações religiosas cristãs (veja: DECADÊNCIA E CRISE NO EVANGELHO. - http://netnature.wordpress.com/2011/06/14/decadencia-e-crise-no-evangelho/).
Os valores propostos pela mitologia judaica-cristãos moldam há vários séculos todo o imaginário e toda a moralidade do Ocidente, que durante grande parte da história nortearam as ações institucionais e iniciativas políticas.
Laicismo é coisa nova.
Do ponto de vista histórico as obras de Platão indicam a primeira ocorrência dos termos ateu (e ateísmo) embora com um significado bem diferente do que possuem hoje. No século XV, os tradutores da obra de Platão traduziram esses termos como ímpio. No século XV o ímpio era sinônimo de impiedoso ou ausência de pena. Ainda mais fazendo análogos aos catastróficos resultados dos regimes comunistas na Rússia e China.
Sob outra perspectiva o ímpio é aquele que crê em uma divindade, logo, ele não é um ateu, pois ateu é aquele que nega categoricamente a existência de um criador. O ímpio é a pessoa que segue uma doutrina religiosa diferente a de outra pessoa que também segue uma doutrina religiosa. Para um evangélico o católico é um ímpio.
O ímpio é um deísta.
O deísta é a pessoa adepta de uma religião, sem rituais ou doutrinas de livros sagrados, revelações e milagres. É aquele que crê em um deus como “Moisés”, “Abraão” e Cristo, mas sem seguir uma vertente religiosa. Aqueles que não crêem em deus, mas também não descartam a hipótese da existência de uma divindade, são os céticos (veja também: CÉTICO E ATEU. ALGUMAS DEFINIÇÕES. - http://netnature.wordpress.com/2011/04/26/cetico-e-ateu-algumas-definicoes/). Os agnósticos se consideram estéreis as discussões metafísicas, em particular as discussões em torno da existência ou não de uma dimensão divina.
Na história do ateísmo vemos que sob o ponto de vista filosófico ela não trazia uma sentido conceitual na antiguidade. O termo ateu (sob o conceito que conhecemos hoje) é um termo bastante recente.
O ateísmo só começou a ser construído na segunda metade do século XVII, quando Pierre Bayle (1647- 1706) publicou em 1683 os Pensamentos diversos sobre o cometa.
Bayle desfez o vínculo pretensioso entre religiosidade e virtude e o elo entre ateísmo e imoralidade sustentado sobretudo pelos cristão intolerantes seguidores da Bíblia. Em outras palavras, Bayle (que não era ateu e sim deísta com posições céticas) demonstrou que uma sociedade constituída exclusivamente por ateus é plenamente possível e viável tanto do ponto de vista ético quanto do ponto de vista político sendo tão ou até mais virtuosa e bem organizada do que uma sociedade beatos. Com essa atitude ousada Bayle desmistificou um preconceito secular que até hoje não é absorvido por muitas vertentes religiosas, mantendo aquela velha proposta medieval e inquisicista.
No século XVIII bem no início do Iluminismo francês o ateísmo deixou de ser um xingamento e ganhou definitivamente o seu registro conceitual e filosófico, a descrença em entidades divinas.
O autor desta proposta foi o padre Jean Meslier. Um vigário que viveu de numa pequena aldeia ao norte da França e foi o primeiro pensador da história da filosofia a elaborar um sistema explicitamente ateísta e por assim dizer o primeiro filósofo ateu propriamente dito da história da filosofia.
Não que tenha sido o primeiro ateu da humanidade.
Meslier considerava os deuses, em especial o(s) deus(es) judaicocristão são mitos, fábulas, engodos, artifícios sórdidos criados por espertalhões e por homens inescrupulosos para enganar os humildes, os desesperados e os ignorantes, e com isso consolidarem tiranias e servidões. Nada muito diferente do que acontece em algumas vertentes religiosas até hoje e a indústria da fé que tem posto a vertente evangélica numa decadência exponencial.
Para ele Jesus ele era um desses homens vis, um doente mental, um louco, um fanático, um charlatão. Quanto à idéia de criação, tão fundamental às doutrinas religiosas, Meslier a refutava com escárnio. Para ele, a matéria era a única substância do universo. Ele descartava a idéia do dualismo cartesiano de Descartes que apontava que idéia da junção da matéria e da alma se dava no cérebro do homem.
Segundo Meslier o que as pessoas comumente chamam de alma nada mais é do que manifestações materiais, expressões corporais específicas. De fato, a consciência é o resultado de manifestações dos neurônios do sistema nervoso central e não da alma como já foi demonstrado cientificamente. Meslier além de tudo era familiarizado com propostas comunistas embora não tenha seguido o que os regimes extremistas e sim consciente e ponderado.
Diderot foi um dos grandes nomes do Iluminismo, principalmente na Ilustração francesa, um movimento intelectual que transformou brutalmente a Europa do século XVIII em todos os aspectos, desde o científico ao político, do moral ao artístico e até mesmo o teológico.
Diderot nasceu em uma família muito religiosa. Com tios eclesiásticos influente, um irmão padre austero e fanático, uma de suas irmãs tornou-se freira e acabou morrendo louca num convento. Sua outra irmã, também extremamente religiosa, morreu velha e virgenzinha.
Diderot obviamente tentou não fugir da regra e seguiu carreira eclesiástica focando-se na formação jesuíta, estudou para ser teólogo embora mais tarde tenha percebido que gostava muito da vida mundana, em especial das mulheres, pegando até doenças venéreas. De fato, Diderot chegou a fazer um poema a uma de suas prostitutas que lhe passou sífilis.
Por dois escudos que fez você?
Peguei-lhe a boceta e a fodi
E pelos meus três escudos dois tostões um óbulo
Tive um seio, uma bunda, a boceta e sífilis
Apesar de ser fanfarrão e bastante parecido com o Charlie Harper foi também dramaturgo, escreveu romances, contos, verbetes e diálogos.

Denis Diderot
Ateu e materialista, Diderot desenvolveu a metafísica diderotiana. Diderot recusou categoricamente a existência de uma divindade criadora e ordenadora da natureza e de um juiz supremo do bem e do mal. Por ser materialista, Diderot sustentava a tese de que havia na natureza uma única substância, e essa substância seria a matéria, a qual seria eterna, portanto, incriada (sem começo ou fim).
Assim como Meslier, Diderot foi um filósofo materialista também em outro sentido, no de refutar veementemente a idéia de uma alma espiritual e imortal. Para ele e Meslier o que chamamos de alma nada mais é do que manifestações materiais, expressões psicofisiológicas, as quais envolveriam cérebro, sistema circulatório e respiratório, enfim, o corpo em ação. Ou seja, o simples ato de viver, ou de estar vivo.
Como dizia Diderot, para ser um bom filósofo é necessário ser antes um bom fisiologista ou médico. Com base nessa visão psicofisiológica do homem podemos afirmar que Diderot é também um libertino no sentido epicurista, ou seja, alguém que, a princípio, valoriza as paixões.
Diderot entende por natureza humana a nossa composição psicofisiológica e vai mais além, ele entendia que como o homem é exclusivamente feito de matéria e tudo o que existe na natureza está em constante e implacável transformação, o homem não estaria imune a essas transformações.
É evidente que a reflexão ética de Diderot é muito mais complexa do foram expostos aqui.
Diderot ao contrário do que pensam os mitologistas tinha plena consciência de que Um ateu não mataria ou roubaria. Isso porque se ele o fizesse estaria sujeito a sentir o peso das instituições sociais conservadoras da ordem, a repressão da polícia das leis. Ele poderia ser preso e banido do convívio social.
Partindo para a atualidade, segundo o filósofo romeno/frances Emil Cioran (1911-1995) “Sem Deus tudo é nada; e Deus? Nada supremo”. Nele podemos perceber as duas premissas.
Sendo Deus uma fábula, um mito imaginativo e (muitas vezes) inconsciente do qual os homens abraçam para garantir a si próprios uma estabilidade metafísica, moral e psicológica e existencial conclui-se que deus carece de realidade, portanto carece de existência, em miúdos; Deus é nada.
Por outro lado, quando o indivíduo adquire a consciência de que a religião na qual ele deposita sua fé nada mais é do que uma mitologia ele descobre que depositou sua vida numa mitologia sem autoconsciência e sim em uma tentativa poética de encantar o mundo que vive e preencher o nada natural e o vazio existencial.
Se o indivíduo religioso desperta para o fato de que deus não existe, o tudo ilusório tornasse um nada.
Diante desse contexto desesperador proposto por Cioran poderíamos fazer um análogo aos dias atuais onde o desemprego a injustiça, a violência e as limitações científicas tratam justamente dessa visão de que Sem Deus tudo é nada e Deus nada supremo. De fato a injustiça sempre haverá e portanto sempre haverá motivos para as pessoas preencherem esse vazio, recorrendo ao ilusório e mítico mundo religioso.
A ética sob o ponto de vista de Diderot seria uma fonte que subsidia a resolução desse drama existencial, porque ela carrega a perspectiva de que embora Deus não passe de uma crendice, nem tudo é permitido.
Embora muitos comunistas ateus tenham exterminado vidas é fundamental que a digressão seja feita. É natural vermos uma banalização de filósofos e religiosos a idéia de que os comunistas Stalin e Mao Tse-tung terem matados inocentes por serem ateus.
É fundamental ressaltarmos que embora os comunistas sejam em grande parte ateus (embora eu conheça comunistas que acreditam em Deus) não significa que todo comunista é assassino e que as mortes dos regimes comunistas tenham sido feitas sob a concepção ateística.
Grande parte da luta contra a ditadura militar em nosso país foram feitas por pessoas pertencentes aos partidos comunistas. A pseudo-democracia que temos hoje é fruto dessa guerra histórica de nosso país.
Nem todos os conceitos e propostas dos comunistas são errados, assim como no anarquismo. Karl Marx foi um grande estudioso do sistema capitalista e trouxe conceitos preciosos para a filosofia e a política embora a essência do comunismo esteja errada, afinal o mundo precisa da classe trabalhadora, do pobre (O EX-COMUNISTA (com resenha) - http://netnature.wordpress.com/2011/06/02/o-ex-comunista-com-resenha/).
Stalin antes de ser comunista e ateu era cristão católico e Mao Tse-tung (assim como outros comunistas chineses: Ho Chi Minh, Pol Pot, Fidel Castro) eram budistas. As pessoas tendem a dizer que as mortes causadas no regime comunista foram feitas por ateus. De fato, foram cometidas por ateus, mas não em nome do ateísmo e sim em nome de uma interpretação extremista e radical de um regime político social chamado comunismo. Os regimes comunistas não mataram em nome da inexistência de Deus, como mataram os católicos na era medieval com a Santa inquisição em nome de Deus, ou na guerra de Taiping no extremo Oriente, ou dos Cátaros, ou até mesmo na ascensão do cristianismo (ALEXANDRIA. CRÍTICA DO FILME. (com resenha) – http://netnature.wordpress.com/2011/03/14/alexandria-critica-do-filme-com-resenha/).
As mortes na Rússia, China e Cuba foram em nome do comunismo e não por razões anti-religiosas. Deve existir uma separação entre comunismo e ateísmo, assim como ciência e ateísmo. Dizer que todo ateu é um assassino por natureza é generalizar, é a banalização baseada no senso comum e desinformação, ou será que Dráuzio Varella é um perigo para a sociedade? Será que devo eu avisar meus familiares e meu amor que sou potencialmente assassino segundo a concepção cristã?
Scritto da Rossetti
Palavras chave: Rossetti, Netnature, Paulo Piva, Comunismo, Ateísmo, Diderot, Jean Meslier, Emil Cioran
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Referências
Paulo Jonas de Lima Piva. CADERNO DE ESTUDOS DA UNIFEOB – ano 3, nº 05, 2004. São João da Boa Vista, SP – Brasil – UNIFEOB – A Ética do Ateu. pág 26
Piva, P. J. L. Cadernos de Ética e Filosofia Política 7, 2/2005, p. 99-107



Texto bom, mas a parte do comunismo francamente…seguindo esse ponto de vista deve-se abonar também as atrocidades do cristianismo, pode-se alegar que fora “interpretação” extremista e radical de uma religião; muitos cristão foram perseguidos pelo cristianismo, talvez não tantos como o cristianismo perseguiu outras religiões, mas não muda o fato de de que o comunismo ateu buscou mudar a natureza dos homens e causou a morte de milhões porque desejava criar um mundo sem Deus; não deixa de sem interessante que todas as sociedades que desejavam viver sem Deus como o mundo comunista foi destruido, os que existem estão em ruinas como Cuba e Coréia do Norte, a Europa da União Européia que está com uma cristofobia está falida com sérios problemas de natalidade, a população nativa diminuindo e os islâmicos crescendo…
Existe um digressão clara entre comunismo e ateísmo. Não me aprece sensato matar em nome da não existência de um Deus, mas sim de um regime politico como o comunismo. Guerras e morte são criadas por movimentos políticos, religiosos e socais. O ateísmo não parece me encaixar nisto justamente porque é oposto do regime religioso. As mortes na China, no Vietna, Cuba, Russia foram feitas com base no comunismo.
Eu não acredito em deus mas nem por isso sou comunista. A Estônia e uma série de países europeus ja tem porcentagens altas de ateus e nem por isso matam como os palestinos e israelenses.
Deve-se distinguir onde a religião é a causa e onde ela é usada. Um desavisado poderia dizer que Hitler por ser cristão matou em nome de Deus, mas obviamente não o fez, ele mascarou sua loucura nela. Não podemos misturar religião com regime politico/social. Talvez ai se justifique a necessidade da laicidade por exemplo. De fato o que voce disse faz sentido, não se deve culpar o cristianismo em situações onde ele foi injustamente usado para promover atrocidades, mas é evidente que no caso do filme Alexandria ou na idade média o domínio do poder estava com o cristianismo. Não que devamos ser coniventes mas as pessoas devem conhecer a historia daquilo que acreditam (ou desacreditam) e saber que moralmente nem ateus nem deístas ou teístas são exemplos. O problema é que as vezes os problemas se misturam, como por exemplo a guerra dos judeus e muçulmanos.
A questão equivocada é simplesmente confundir religião com igrejas. NINGUÉM PODE SER ADEPTO DE UMA RELIGIÃO, COMO TAMBÉM DA CIÊNCIA OU DAS ARTES, que são meros acervos de conhecimentos humanos, E NÃO SÃO CLUBES, NEM IGREJAS NEM TORICDADE DO QUE QUER QUE SEJA. O Articulista confunde claramente igreja com religião. Fui adepto da igreja católica, fui até semiarista, MAS SEQUER SABIA DE FATO O QUE ERA RELIGIÃO. Hoje entendo a religião como um mero acervo de conhecimentos humanos, como são as artes e a própria ciência.
Ainda que Deus seja aparentemente paradigma de religião, sequer isso é de fato. O ateísmo é uma religião como outra qualquer, QUE NEGA DEUS. Longo, deus não é paradigma de religião, mas a evolução moral e ética de cada indivíduo, É PARADIGMA DE QUALQUER RELIGIÃO.
Igreja é como empresa ou clube, depende de seguidores que lhe garanta a vida, inclusive financeira. O autor está claramente equivocado na sua explanação sobre ateísmo, comunismo e religião.