ANTONY FLEW, EX-ATEU, GARANTE: “DEUS EXISTE”

Category: L’amém
Posted on: novembro 9, 2008 10:13 PM, by Kentaro Mori

“As provas inconstestáveis de um filósofo que não acreditava em nada” é o subtítulo deste livro de Antony Flew com Roy Varghese, Deus Existe” (Ediouro, 2008). E é exatamente aquilo que você não irá encontrar ao lê-lo.

Em um livro de quase duzentas páginas, é apenas na página 83 que encontramos a primeira rápida menção ao que levou o filósofo Flew a abandonar o ateísmo que nutriu desde a adolescência. Até então o filósofo se alonga ao contar detalhes de sua vida, indo desde as férias de sua infância com seu pai religioso, seu namoro e casamento, os trabalhos que publicou sobre a questão de deus e como foram recebidos. Tudo em detalhes, exceto aqueles sobre os argumentos por trás desses trabalhos, mencionados apenas de passagem em meio à profusão de datas e nomes de colegas, lugares, instituições.

Depois de tudo isso, você esperaria que a segunda metade do livro finalmente mergulhasse nas “provas incontestáveis”… no que, claro, estará enganado. Não há referências ou bibliogragia indicadas e os argumentos são expostos como um “porque sim”, ou melhor, como um “porque não”. Principalmente um “porque não”, uma vez que apesar de negá-lo explicitamente, as supostas provas defendem um deus das lacunas.

E é então que aqui, no quarto parágrafo, menciono finalmente as provas de Flew. E elas são… o criacionismo. O livro é uma defesa muito explícita do criacionismo, não apenas argumentando que a ciência não pode explicar a origem da vida e inteligência, como é fundamentalmente incapaz de lidar com a questão de “quem escreveu as leis da natureza”, como elas estão ajustadas para nós, e como alguma coisa pode ter vindo do nada. Não pode, “porque não”, a menos que tenha sido criada.

A primeira prova citada, naquela marcante página 83, é a complexidade do DNA. Posteriormente se apresenta mesmo o “teorema do macaco”, sobre como macacos batendo em um teclado nunca produziriam uma obra de Shakespeare, e como isso e algo mais provaria que a “única explicação satisfatória para a origem dessa vida ‘dirigida por um propósito e capaz de se reproduzir’, como a que vemos na Terra, é uma Mente infinitamente inteligente”.

Ao final desses “porque não” que seriam suas provas, Flew se declara “aberto à onipotência”, dando a entender que não só aceita agora como evidente e comprovada a existência de um deus aristotélico, como concede mesmo que a religião revelada, em particular a cristã, pode bem ser verdadeira.

Cede então a palavra a dois apêndices, o primeiro em que o executivo Roy Varghese refuta Dawkins, Wolpert, Harris e Stenger, e o segundo em que o bispo N.T. Wright mostra por que devemos acreditar que a Ressurreição de Jesus de fato aconteceu. Sim, você leu corretamente.

O próprio Flew encerra o livro com dois parágrafos sobre os argumentos de Wright sobre a ressureição, que vê como uma “explicação absolutamente maravilhosa, absolutamente radical e muito poderosa”. E termina falando sobre como Deus é poderoso. Amém.

CRÍTICA
Todas as “provas incontestáveis” do livro são não somente contestáveis como em sua maioria contestadas. Dois exemplos: Dawkins, mencionado várias vezes, de fato mostrou como a obra de Shakespeare pode emergir “evolutivamente”.

Macacos batendo aleatoriamente em um teclado devem realmente levar bilhões de anos para produzir Macbeth, mas a evolução não consiste apenas de batidas aleatórias, e sim da seleção dessas batidas de uma forma bem determinada e cumulativa. Com seu programa Weasel, Dawkins chegou a uma frase de Shakespeare a partir de letras aleatórias em apenas 43 gerações.

Outras “provas” são similarmente contestáveis, como a “sintonia fina” de constantes e leis naturais que indicaria que “o universo sabia que íamos chegar”. É uma apresentação do princípio antrópico forte.

Aqui também, chega-se a mencionar um autor que ofereceu refutação clara, sem no entanto abordar ou compreender a refutação em si mesma. O físico Victor Stenger notou, por exemplo, como o argumento antrópico forte falha em considerar as chances de que vida e complexidade poderiam emergir de outras condições.

Caso você acompanhe algo da retórica criacionista e sua refutação, isso tudo deve soar muito familiar e desapontador… como será possível que um respeitado filósofo que defendeu argumentos claros e lúcidos passe a acreditar em deus com base em “provas” tão pífias, aparentemente desconhecendo sequer a discussão ao redor delas?

A resposta é surpreendente. O livro simplesmente não foi escrito pelo filósofo inglês Antony Flew, e sim pelo pastor evangélico Bob Hostetler (que não é mencionado ou creditado) e o co-autor, também criacionista, Roy Varghese.

GHOSTWRITERS EXISTEM

Com mais de 80 anos, as acusações de que a conversão do filósofo se devem à senilidade podem soar muito desagradáveis, mas o fato é que o próprio Flew admitiu que não escreveu o livro.

“Isso é na verdade coisa do Roy [Varghese]”, disse Flew ao jornalista Mark Oppenheimer do New York Times. “Ele mostrou para mim e eu disse tudo bem. Estou muito velho para esse tipo de trabalho!”.

Varghese admitiu-o também. Segundo o homem de negócios que tem acompanhado Antony Flew nos últimos anos, ele combinou escritos anteriores do filósofo que admira com cartas e entrevistas, organizou tudo, e submeteu à editora que encarregou um autor profissional – o pastor Bob Hostetler – de revisar e editar o trabalho.

Isso explica por que tanto do livro é dedicado a amenidades irrelevantes, como a biografia de Flew – provavelmente obtida por entrevistas –, e há tão pouca coerência e claridade nos argumentos, por sua vez, meros libelos do fundamentalismo cristão. Varghese, por exemplo, ainda repete (ao menos não no livro), a velha história de que segundo cientistas, as abelhas não deveriam poder voar.

Frente a tais revelações, uma declaração atribuída a Flew posteriormente reafirmava que apesar de tudo, ele havia lido o livro antes da publicação e a obra refletia seus pensamentos a respeito. O que talvez seja verdade, mas seria tão ou mais lamentável.

Sabemos ao certo que o filósofo realmente se tornou um deísta, aparentemente defendendo o deus aristotélico. Para ele, deus realmente existe. Além disso, no entanto, não sabemos exatamente por que ele mudou de idéia, e infelizmente, ele mesmo não parece sabê-lo.

Richard Carrier, editor do infidels.org, chegou a manter correspondência com o inglês e o pouco que descobriu não foi claro nem animador. Flew mudava de idéia ou se contradizia facilmente, e isto, com letras de seu próprio punho.

É particularmente deprimente que a questão da senilidade de Flew seja efetivamente relevante aqui, e detalhes pessoais se mesclem com o que poderia ser de fato muito relevante.

Porque Antony Garrard Newton Flew foi um filósofo relevante, e chegou a ser mesmo celebrado em círculos ateístas – comparado a um Dawkins dos anos 1950, embora nunca tenha sido um ateu virulento. Como não é, tampouco hoje, um teísta especialmente virulento.

A virulência nos dois campos do conflito levam à insólita e terrível situação em que um homem idoso é explorado como troféu por fundamentalistas cristãos, apenas para ser atacado sem qualquer sutileza por ateus que não hesitam em acusá-lo simplesmente de caduco.

FONTE: http://scienceblogs.com.br/100nexos/2008/11/antony-flew-ex-ateu-garante-deus-existe.php

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