POR ONDE SAÍMOS DA ÁFRICA?

Na escola me ensinaram que a História começava no Egito e terminava no século 20, 3 mil ou 4 mil anos depois. Demorei para descobrir que essa História de um pequeno subgrupo de Homo sapiens, influenciada pela tradição judaico-cristã, descreve as ultimas páginas do último capítulo de um longo livro.

Lembro que me espantava com o fato de nossa “civilização” sempre encontrar seres humanos cada vez que “descobria” um novo território. Nunca me explicavam como eles tinham chegado lá. De onde teriam vindo os tupis-guaranis que foram encontrar Cabral na praia? A resposta sempre mencionava uma tal de Pré-História, aparentemente perdida para sempre, descrita rapidamente nos dez minutos iniciais da primeira aula sobre o Egito.

A verdade é que a história do Homo sapiens, muito mais longa e interessante, vem sendo desvendada aos poucos. Começa com o aparecimento ainda misterioso da nossa espécie na África, talvez meio milhão de anos atrás; descreve sua saída da África e a aventura de ocupar cada praia e montanha de cada continente. Passa pelo pouso na Lua e terminará algum dia, quando o último Homo sapiens deixar de existir, talvez extinto pelas suas próprias estripulias.

Um dos capítulos, o que descreve nossa saída da África, talvez tenha de ser editado. Descobriram vestígios humanos, datados de 125 mil anos atrás, em cavernas próximas do Estreito de Hormuz, que separa os Emirados Árabes do Irã. Se essa descoberta for confirmada, significa que deixamos a África quase 60 mil anos antes do que se acreditava.

Os arqueólogos concordam que o homem moderno surgiu na África e se espalhou pelo planeta. Concordam também que outras espécies semelhantes, como nossos primos neandertais e o Homo erectus, aventuraram-se fora da África muito antes de nós.

Esses aventureiros acabaram dizimados por nossos ancestrais ou extintos por outros motivos. Até agora, a teoria dominante é a de que havíamos saído da África por volta de 50 mil ou 60 mil anos atrás, cruzando a extensão de terra que separa o norte do Mar Vermelho do Mediterrâneo, cortada hoje pelo canal de Suez. Consistente com essa teoria, os locais onde teríamos primeiro nos instalado seriam representados pelos sítios arqueológicos como Es Skhul e Qafzeh, localizados na vizinhança de Israel, ocupados cerca de 100 mil anos atrás.

O problema é que um grupo de arqueólogos escavou as encostas de Jabel Faya, entre 2003 e 2010, e agora publicou seus achados. Nessa escarpa rochosa, localizada naquele bico de terra que separa o Golfo Pérsico do Oceano Índico, foram achados diversos conjuntos de pontas de machados feitos de pedra lascada. A tecnologia usada para produzir essas pontas é idêntica à usada pelas aldeias de Homo sapiens na África. Um método sensível, utilizado para descobrir a data de sua fabricação, permitiu aos cientistas descobrir que elas foram produzidas 125 mil anos atrás, numa época que acreditávamos que o Homo sapiens habitava somente a África.

Quando essas descobertas foram combinadas com a recente determinação da altura dos mares há 120 mil anos, os cientistas chegaram à conclusão de que essa população humana pode ter deixado a África cruzando o estreito de Bab al Mandab, que separa o Mar Vermelho do Oceano Índico – já que nessa época, porque o mar estava mais baixo, haveria uma ligação de terra firme entre o sul do que é hoje a Eritreia e o Iêmen. Atravessado o estreito, eles teriam migrado pela costa até Jabel Faya. Essa descoberta colocaria nossa espécie na Ásia antes da massiva erupção de um vulcão na Indonésia, 74 mil anos atrás, que se acredita ter tornado grande parte da Ásia inabitável por milhares de anos.

Se essa descoberta se confirmar (alguns arqueólogos acreditam que talvez essas pontas de machado possam ter sido fabricadas por outra espécie que não o Homo sapiens), a região de Israel e os vales dos Rios Tigre e Eufrates podem não ter sido nosso primeiro lar fora da África. Teremos de ensinar nas escolas que a civilização ocidental não começou nas praias do Mediterrâneo, como ensina a tradição judaico-cristã, mas sim nas costas do Iêmen e do Omã.

Fonte: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110303/not_imp686913,0.php

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