REVIVENDO O VELHO DILEMA DA MARIPOSA MORENINHA E DAS MARIONETES DO ONISCIENTE.

Recentemente li um artigo trata da velha questão evolutiva da biologia da mariposa Biston betularia.

Nas áreas industriais, as aves haviam devorado as mariposas tipicamente brancas e deixado para trás as escuras para se reproduzir. Isso explicava por que a população de mariposas escura foi aumentando. E o oposto aconteceu nas florestas intactas onde as traças escuras foram comidas, e as brancas sobreviveram.

Há muitas pessoas desmentindo a idéia da mariposa de Kettlewell. De fato, o experimento é antigo, e não se trata de uma fraude, mas sim da falta de pesquisas. As polemicas sobre a proposta da mariposa são velhas, mas foram retomadas com o cientista espanhol Emilio de Cervantes referindo-se a um artigo publicado no New York Times chamado de “La polilla que falló“, no qual chama a proposta da mariposa de uma verdadeira fraude. Antes de tudo, fraude foi o caso de Piltdown. Mas o interessante é que o Professor Emilio Cervantes deixou uma nota em seu site:

“No he seguido el consejo de un lector que me proponía el cambio de título para la bitácora a “Biología y pensamiento antidarwinista” porque considero que pensar, hoy desde la biología, implica la necesidad de una crítica severa e ineludible del darwinismo.”

“Eu não segui o conselho de um leitor que sugeriu que eu mudar o título do blog para “Biologia e antidarwinista” pensei  porque acredito que o pensamento da biologia hoje envolve a necessidade de uma crítica severa e inevitável do darwinismo.”


A noticia soou mais do que deveria. O professor só tentou refutar o episódio da mariposa, mas acredita em darwin, portanto, deve apresentar em breve novas respostas sob a luz da evolução.

Eu tenho o livro A origem das espécies, é um livro bastante massante porque trás a idéia do que é a seleção natural e então Darwin discorre sobre as toneladas de exemplos que ele encontrou em sua viagem. Até hoje estamos estudando Darwin devido a quantidade de exemplos que ele trouxe para a ciência. O caso da mariposa pode não ser o único a trazer polemica dentro da evolução.

O caso é que independente se a proposta da evolução das mariposas estiver errada ou não, as mariposas, ratos, pombas, pardais, corujas, gaviões, lagartixas, aranhas e escorpiões continuaram existindo na cidade. E até agora eu só encontrei respostas vindo da biologia evolutiva. Como explicar a existência desses animais em áreas urbanas?

Note que a discussão se foca em torno da sobrevivência da variedade negra da mariposa Biston Betularia em áreas industrializadas e a morte das brancas. Em uma área natural o oposto ocorreria.

O caso da mariposa pode sim estar errado, mas se estiver errado então voltamos a questão essencial que nem a ciência nem a religião nem a filosofia respondeu; como explicar o crescimento populacional da variedade preta após a industrialização? Evolução ou coincidência?

Anteriormente ao processo de industrialização a variedade negra correspondia somente a 2% do total de indivíduos da espécie. Agora predomina.

Tenho visto na internet muitas pessoas discutindo a evolução das mariposas. Inclusive pessoas que não tem a mínima noção da evolução, e que nem mesmo conseguem defini-la corretamente. Muitas pessoas dizem que evoluir é ter a forma alterada espontaneamente, com aumento de complexidade ao longo de gerações.

Evoluir não é alterar a forma espontâneamente. As mutações no genoma são casuais, ou seja, aleatórias. Evoluir é conseqüência de um (dentre tantos) mecanismo chamado  seleção natural, que não tem nada a ver com espontaneidade.

O aumento de complexidade não é o foco da evolução também. Os organismos não evoluem com a intenção de se tornar complexos. Pensar dessa forma é humanizar o processo de seleção e as leis que regem a vida, pois estamos atribuindo a ela a capacidade de inteligência e domínio sobre as direções que ela por si só pode desejar.

Se alguém acredita nisso então é infantil o suficiente para acreditar que o planeta terra é uma marionete comandada numa peça de teatro universal.

O foco a complexidade não existe, se o fosse não existiriam as formas de vida microscópicas, não haveria mais organismos simples como planárias, toda forma de vida anterior a nossa (considerando que o homem crê que seja o topo da complexidade) não existiria. Tanto a bactéria quanto os ácaros, o Qiwi ou os tardígrados estão vivos porque estão aptos a sobreviver diante das exigências ambientais.

Evolução se resume a uma única palavra; mudança.

Para as pessoas suportarem esse pensamento de superioridade e mediocridade elas classificam animais em inferiores e superiores, o que biologicamente não existe.

O que vemos aqui é que sim, no universo existe a espontaneidade, o aleatório. Certa vez vi um criacionista dizer que as pessoas acreditam que ordenação espontânea não é uma regra no Universo, mas sim o contrário.

A regra e que existem as duas situações. Existe causa para algumas coisas e outras simplesmente acontecem, é o que diferencia tragédia (o que poderia ser evitado e portanto foi a causa de algo) de fatalidade (como um meteoro caiu na cabeça de alguém). Ou você acredita que aquele meteoro caiu na cabeça daquela pessoa porque alguém externo ao universo fez isso?

Essas pessoas estão erradas, pelos motivos que já discuti em outro texto (Falhas no argumento ontológico e cosmológico https://netnature.wordpress.com/2011/03/28/falhas-no-argumento-ontologico-e-cosmologico/) e porque se acreditassemos nisto, não faria sentido acreditar em Deus, afinal, tudo já esta escrito no livro da vida, nossa causa já existe. Nada que fizermos mudara nosso futuro. A casualidade não existe, tudo tem uma razão, um motivo, uma causa e todo o destino já esta escrito por Deus.

Desta forma o livre arbítrio seria uma ilusão, a liberdade travestida de controle absoluto, com a finalidade de sentirmos que estamos no domínio das coisas, quando na verdade estamos todos errados, somos todos patetas sob o positivismo onisciente, ou simplesmente peixinhos no aquário de Deus.

Voltando ao caso da mariposa. Se o experimento estiver errado (e é possivelmente que esteja) não há problema algum refutá-lo, desde que se explique de acordo com a luz da ciência o que de fato ocorre. Sob a luz do Natural. Devemos considerar diferenças entre os ecossistemas urbanos, e os recursos naturais.

Em um sistema natural, é provável que as pressões seletivas sejam bem diferentes do que o sistema limitado da cidade. Devemos considerar o local onde o evento ocorre. Não é o mesmo estudar as mariposas de Londres e generalizar em escala global. Seria o mesmo que tirar as médias de temperaturas das cidades em locais onde há ilhas de calor e dizer que o mundo esta aquecendo.

Aqui vou deixar um exemplo clássico de como dependendo da situação a condição em que a espécie esta varia. Utilizarei o caso dos estabilimentos.

É comum vermos algumas espécies de aranhas criar estabilimentos. Geralmente em Argiopes spp, Gasteracantha cranciforme, as Cyclosas também fazem com particularidades. Os estabilimentos são estruturas que atuam como estabilizadores da teia. Em definição, os estabilimentos são adensamentos extras de seda de cor prateada fixados na porção central da teia realizado por determinadas espécies de aranhas. Podem ser também detritos associados a tais estruturas de seda, como no caso das Cyclosas.

Estas estruturas são criadas por aranhas diurnas evidentes nas famílias Araneidae, Nephilidae, Tetragnathidae e Uloboridae e ausente em Theridiidae. Sendo que Uloboridae e Araneidae são os principais construtores de estabilimentos. Em aranhas do gênero Argiope apresentam uma morfologia discóide em indivíduos juvenis e zig-zag ou cruciforme em adultos. Em outras espécies são formados por entulhos e restos de presas dispostas linearmente, representadas pelo gênero Cyclosa, ou circular.

Eis aqui um dilema. Estudos realizados por Blackledge e Wenzel, etologistas evolutivos, mostraram que a seda reflete a luz visível e raios Ultravioleta (UV), atuando reduzindo a visibilidade das teias em determinados insetos, atraindo presas. Entretanto, sabe-se que estabilimentos, por serem estruturas mais densas e espessas acabam revelando a localização exata da teia, permitindo que eventuais presas se esquivem. O que potencialmente levaria a incapacidade de sobrevivência da espécie.

Entretanto, novos experimentos demonstraram que além de refletir principalmente comprimentos de onda das cores azul e verde os estabilimentos têm a capacidade de diminuir a visibilidade de insetos e de sinalizar para aves que naquele local há uma teia, permitindo assim que as aves se esquivem e não destruam sua teia, ou seja, sua ferramenta de caça.

Em resumo, o animal tem o dilema de criar ou não o estabilimento?  Se criar, impede os pássaros de quebrarem sua teia, mas os insetos também verão a teia e a aranha perderá a presa. Se não criar, pega as presas, mas corre o risco de ter a teia destruída por pássaros.

Aparentemente esse evento puniria com a morte as aranhas que criam estabilimentos, mas não é isso que vemos. O estabilimento tem outras valores que compensam o risco. É uma analise de custo/beneficio.

Algo análogo pode estar acontecendo com as mariposas. Isso não significa que a evolução esteja errada, significa que não foi estudada e compreendida o suficiente. Inclusive suas variáveis.

Nas áreas industriais nos EUA a situação das mariposas pode ser o contrario de Londres. Mas então porque em Londres aparentemente ocorreu o inverso? Quais os fatores que levaram a respostas distintas? Quais são as variáveis do local? Isso quem vai responder não é a filosofia, o criacionismo nem os espíritos, é a ciência.

Cada local tem sua peculiaridade. Animais podem ser da mesma espécie, mas podem ter comportamentos distintos de acordo com o ambiente na qual estão expostos. Em Sumatra os orangotangos são excelentes exemplos. A ilha é cortada por um grande rio. De um lado da ilha os orangontangos abrem a fruta Néssia com galhos, sendo utilizados como ferramentas, do outro lado da ilha não existe este comportamento. Entretanto, ambas as populações são da mesma espécie.

Se o caso da mariposa estiver errado, não invalida Darwin, ou será que todas as pesquisas de todas as universidades que estudam evolução estão erradas durante todo este tempo? Tudo é fraudulento? Para um criacionista sim, afinal eles são extremamente chegados em uma teoria de conspiração e catástrofes escatológicas.

Scritto da Rossetti

Palavras chaves: Rossetti, Netnature, Mariposas, Darwin, Projetista

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