CÉTICO – PERCEPÇÃO PORNÔ EXTRASSENSORIAL (comentado)

Novas pesquisas provam a precognição paranormal ou a pós-cognição normal?

por Michael Shermer

Psi, ou o paranormal, refere-se a efeitos psicológicos anômalos atualmente inexplicáveis por causas normais. Historicamente, esses fenômenos acabam fazendo-se entender por meios normais ou então desaparecem sob condições controladas. Agora, porém, o renomado psicólogo Daryl J. Bem alega ter evidências experimentais de precognição (percepção cognitiva consciente) e premonição (apreensão afetiva) de “um acontecimento futuro que não poderia ter sido antecipado de outra forma através de qualquer processo de inferência conhecido”, como escreveu recentemente em “Feeling the Future”, na revista Journal of Personality and Social Psychology.

Bem posicionei cobaias humanas diante do monitor de um computador que exibia duas cortinas: atrás de uma delas apareceria uma foto neutra, negativa ou erótica. No decorrer de 36 testes, os indivíduos tinham de pré-selecionar a cortina atrás da qual julgavam ocultar-se a imagem. Depois disso, o computador escolhia aleatoriamente em qual janela projetaria a foto. Quando as imagens eram neutras, o índice de acerto dos participantes não superou 50-50. Mas quando eram eróticas, 53,1% das vezes os indivíduos pré-selecionaram a tela correta, o que Bem reportou como sendo estatisticamente significante.

O psicólogo define isso como “influência retroativa” – imagens eróticas voltam do futuro em um efeito cascata – ou “percepção pornô extrassensorial” (“extrasensory pornception”), como o comediante Stephen Colbert chamou o efeito quando teve Bem como convidado em seu show The Colbert Report.

Estou cético por várias razões. Primeiro, no decorrer dos últimos 100 anos dezenas de estudos que proclamavam resultados estaticamente importantes revelaram ser falhos do ponto de vista metodológico, sujeitos a preconceitos do experimentador, e impossíveis de serem reproduzidos. Essa avaliação, do psicólogo Eric-Jan Wagenmakers, da Universidade de Amsterdã, foi publicada juntamente com o estudo de Bem, na mesma revista.
Segundo, o experimento de Bem é um exemplo de evidência negativa: se a ciência não consegue determinar as causas de X por meios normais, então X tem de ser o resultado de causas paranormais. Ray Hyman, um professor emérito de psicologia da University of Oregon e perito em avaliar pesquisas paranormais, chama essa questão de “o problema da colcha de retalhos”, em que “tudo pode ser considerado psi, mas nada pode contradizer isso”. Basicamente, “se você pode demonstrar que existe um efeito significativo, mas não consegue encontrar quaisquer meios normais para explicá-lo, então você pode alegar psi”.

Terceiro, os efeitos paranormais, que na realidade raramente parecem ser detectados, sempre são tão sutis e passageiros que se tornam inúteis para qualquer aplicação prática, como a localização de pessoas desaparecidas, em jogos de azar, investimentos, etc. Quarto, um efeito pequeno, porém consistente, pode ser significativo (por exemplo, em apostas ou investimentos), mas de acordo com Hyman, o efeito de 3% acima das probabilidades no experimento 1 de Bem não foi consistente em todos os seus 9 testes, que mediram efeitos diferentes em condições variáveis.

Quinto, inconsistências experimentais infestam pesquisas como essa. Hyman ressalta que no primeiro teste de Bem, os 40 primeiros indivíduos foram expostos a um número igual de imagens eróticas, neutras e negativas. Então, no meio da pesquisa, ele mudou o experimento e os participantes restantes apenas compararam imagens eróticas com uma mistura não especificada de todos os tipos de fotos. Além disso, o quinto experimento foi conduzido antes do primeiro, o que sugere a possibilidade de ter havido uma propensão tendenciosa post hoc (do latim, post hoc ergo propter hoc, que significa a inferência “depois disso, logo por causa disso”) na condução dos experimentos ou na divulgação de seus resultados. Bem também informa ter selecionado “a maioria das imagens” no Sistema Internacional de Figuras Afetivas (International Affective Picture System, ou IAPS na sigla em inglês); mas ele não revela quais delas não foram, nem explica por que não foram selecionadas ali, ou qual procedimento utilizou para classificar as imagens como eróticas, neutras ou negativas. A lista de falhas de Hyman chega à casa das dezenas. “Tenho sido um revisor paritário (peer reviewer, em inglês) há mais de 50 anos”, Hyman me disse, “e não consigo pensar em outro revisor que teria deixado essa dissertação passar por uma revisão de pares. Eles foram irresponsáveis”.
Talvez eles não tenham visto o que o psicólogo James Alcock, da York University, descobriu na dissertação de Bem, intitulada “Writing the Empirical Journal Article” (“Escrevendo o Artigo Empírico de Revista”), postada em seu website. Lá ele instrui estudantes: “Pense em seu conjunto de dados como se fosse uma jóia. Sua tarefa é lapidar e poli-la, selecionar as facetas a serem ressaltadas e criar habilmente a melhor apresentação para ela. Muitos autores experientes escrevem primeiro a seção dos resultados”.

Fonte: Scientific american
http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/cetico.html

Resenha do autor

Michael Shermer é um exemplo clássico do que é ser cético em sua constituição filosófica. Obviamente que seu ceticismo abrange a esfera religiosa mostrando que todo ateu é cético a religião, mas que o ceticismo e o ateísmo são coisas diferentes como tenho mostrado no textoCÉTICO E ATEU. ALGUMAS DEFINIÇÕES (https://netnature.wordpress.com/2011/04/26/cetico-e-ateu-algumas-definicoes/).

Aqui ele aborda a suposta premonição que os humanos teriam e que foram evidenciadas por Daryl J. Bem. Eu também discuti o texto de Daryl Bem e fiz algumas suposições céticas quanto a veracidade e a confiabilidade do experimento em questão (veja: QUANTOS SENTIDOS UM HUMANO TEM? (com resenha) –https://netnature.wordpress.com/2011/03/21/quantos-sentidos-um-humano-tem-com-resenha/)

Agora, deixo uma explicação profissional de Shermer que entende do assunto segundo sua formação acadêmica em psicologia.

Scritto da Rossetti

Palavras chave: Rossetti, Netnature, Michael Shermer, Ceticismo, Daryl Bem.

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