A GRANDE CONQUISTA.

Especular sobre a evolução é algo bastante comum, e é feito de formas bastante distintas. A ciência muitas vezes especula uma solução para questões elementares, o que chamamos de hipótese. Uma hipótese é uma proposta provisória, com intenções de ser verificada, analisada e portanto pode ser descartada.

Do ponto de vista criacionista a hipótese se restringe unicamente a especular, uma vez que cientificamente não é possível verificar a existência de um design inteligente. No entanto, essa especulação impossibilitada ao empirismo tem sido utilizada de forma errônea para tentar desbancar proposta de Darwin, a evolução ocorrendo sob o mecanismo chamado de seleção natural.

Não vou entrar nos detalhes sobre a evolução ser uma teoria ou um fato consolidado embora vários pesquisadores já a tratem como uma fato. A questão é que em uma hipótese unicamente especulativa e não cientifica não se pode desbancar a teoria da evolução (partindo do principio que ela é ainda somente uma teoria) no meio acadêmico porque a evolução é uma proposta acadêmica, Darwin fazia parte da The Royal Society, uma academia cientifica fundada no século XVIII.

A teoria é uma forma de conhecimento que permite especulações, contudo puramente racionalista, materialista e empirista. A palavra theoría justamente conduz a este pensamento; ação de contemplar, olhar, examinar, especular ou a forma de pensar e compreender um fenômeno a partir da observação e não somente pela especulação. Especular por especular sem o aprofundamento crítico teórico não faz da pessoa um teórico ou criador de hipóteses e sim um cético no sentido anti-filosófico da palavra.

Já distingui o cético sob o ponto de vista filosófico e o cético sob o ponto de vista puramente especulativo em CÉTICO E ATEU. ALGUMAS DEFINIÇÕES. – https://netnature.wordpress.com/2011/04/26/cetico-e-ateu-algumas-definicoes/

Sob esta perspectiva sabemos que a ciência (e a biologia evolutiva) é um mecanismo empírico, ou seja, que baseia suas suposições, especulações hipóteses e teorias sob a luz das evidências materiais; foi que resolvi trazer evidências de uma das maiores transições paleontológicas, evolutivas da historia da vida, o momento da conquista da Terra.

Sob o ponto de vista evolutivo a proposta de que os anfíbios surgiram de peixes de nadadeiras robustas foi descrita pela primeira vez no século XIX pelo americano Edward D. Cope.

Os primeiros anfíbios teriam surgido por volta de 380 ou 400 milhões de anos no Devoniano. Na época de sua descoberta o registro fóssil ainda era bastante escasso, assim como ainda é os registro do pré-cambriano. Cientificamente com as descobertas de novos fósseis e desenvolvimento de novas tecnologias é possível inferir e descobrir mais sobre passados remotos.

Naquela época o único grande exemplar presente nas pesquisas era o Eusthenopteron e o Ichtyostega.

Segundo o professor Alfred Sherwood Romer de Havard o Eusthenopteron tinha a capacidade de sair de um lago e caminhar a outro em períodos de seca. Caminhariam sob nadadeiras robustas e minimamente rígidas que permitiram a viagem e sobrevivência em um novo recurso hídrico.

Em 1952 Erik Javik do Museu Sueco de Historia Natural encontrou na Groenlândia um fóssil de 360 milhões de anos chamado de Acanthostega, exatamente o tipo intermediário entre peixes e tetrápodos.

 Os membros dos Acanthostega não apresentavam tornozelos apropriados para suportar o peso do animal no solo e assemelhava-se mais a remos para nadar. Os ossos do antebraço se assemelhavam proporções anatômicas semelhantes a nadadeira peitoral do Eusthenopteron além de possuir uma longa cauda em forma de remo e longas raias ósseas. O animal possui tanto brânquias quanto pulmões, suas costelas eram ainda curtas, mas a estrutura escapular e pélvica já estavam se desenvolvendo e evitavam que o peso do corpo colabasse o pulmão quando em terra. Embora fosse um animal tetrápodo ainda sim era biologicamente aquático.

O pulmão presente nos primeiros animais terrestre na realidade é uma cooptação da função da bexiga natatória. A bexiga natatória tecnicamente chamada de vesícula gasosa é um órgão auxiliar dos peixes ósseos que realiza a manutenção do equilibro e deslocamento dos animais a determinadas profundidades através do controle da sua densidade relativo a da água. É de fato um saco de paredes flexíveis que pode se expandir ou contrair de acordo com a pressão e a profundidade na qual o peixe se encontra. É bastante vascularizada e forrada com cristais de guanina que a tornam impermeável a gases.

A vesícula gasosa está evolutivamente ligada ao pulmão dos animais terrestres. Acredita-se que os primeiros pulmões eram simples sacos onde o peixe podia armazenar ar da atmosfera quando a água estava em estado de hipóxia. Durante o desenvolvimento embrionário tanto o pulmão quanto a vesícula gasosa têm origem numa envaginação do tubo digestivo e em algumas espécies atuais a bexiga natatória continua a ter uma ligação pneumática com este órgão. Este é um exemplo de relação entre o desenvolvimento ontogênico (ou embrionário) que preservar alguns estágios evolutivos. O mais importante é considerar que não existe nenhuma espécie que possua ao mesmo tempo pulmões e bexiga natatória.

No caso dos Acanthostega há uma característica que é bastante incomum, a presença de oito dedos em cada pata.

Acredita-se que suas patas eram mais utilizadas para andar pela vegetação aquática dos pântanos onde viviam, como as atuais salamandras, podendo rastejar entre poças de água que poderiam secar periodicamente ou ser pobremente oxigenadas. Se alimentavam de pequenos crustáceos, peixes, moluscos e insetos.

Para compreender a presença destes dedos é preciso compreender as situações ecológicas na qual o animal estava situado, a evolução destes membros, o nicho ecológico que ele contemplava e suas relações com outros animais. De fato, o Acanthostega não era o único desafio, um outro tetrapodo primitivo chamado Tulerpeton tinha 6 dedos e até mesmo o Ichtyostega tinha mais de 5 dedos.

Os genes Hox (sonic hedgehog) são um grupo de genes responsáveis pelo desenvolvimento das proporções anatômicas, a simetria e construção corpórea. No caso do desenvolvimento das vértebras de alguns grupos de animais já discuti em LAGARTO SEM OLHOS E SEM PATAS É DESCOBERTO NO CAMBOJA (com resenha) – https://netnature.wordpress.com/2011/05/12/lagarto-sem-olhos-e-sem-patas-e-descoberto-no-camboja-com-resenha/

O mesmo grupo de genes Hox esta presente no grupo dos peixes e dos tetrapodos com com funções ligeiramente diferentes.

Os genes Hoxd 11 e Hoxd13 tem um papel mais pronunciado na evolução dos tetrapodos principalmente no desenvolvimento dos membros como já foi verificado experimentalmente.

A configuração anatômica dos cinco dedos esta associada aos genes Hox, além o desenvolvimento de tornozelos fortes de tal forma a suportar o peso do corpo e o suficiente para ser flexível e suportar o modo de caminhar.

O Acantosthega apresenta duas fileiras de dentes na mandíbula, com pequenos dentículos na fileira mais externa e presas na fileira externa. Essa dentição que foi se modificando ao longo dos anos permitiu os paleontólogos identificarem os fósseis pertencentes ao grupo dos anfíbios.

Na década de 90 foi descoberto na Letônia o fóssil do Ventastega, incluindo seu crânio completo. Vários outros peixes e tetrapodos foram descobertos preenchendo a lacuna entre os Eusthenopteron e Acantosthega.

Um desses fósseis é o Panderichthys achado em Bálcãs com 380 milhões de anos com focinho pontudo e olhos no topo da cabeça. No Canadá foi descoberto o fóssil de um Elpistostege datado em 370 milhões de anos e bem parecido com um Panderichthys.

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Atualmente há fósseis de nove gêneros que explicam os primeiros 20 milhões da evolução dos primeiros tetrapodos. Acredita-se que as primeiras mudanças a ocorrerem nos peixes foram ocasionadas pela necessidade de maior área para respirar. Essa necessidade pode atuar como mecanismo desencadeador de transformação gradual levando a mudanças escapulares (região dos ombros) e nadadeiras temporais.

Essa nadadeiras anteriormente eram direcionadas para trás passaram a ser orientadas para o lado permitindo o desenvolvimento de músculos nesses protomembros. Os dedos podem ter auxiliados na divisão do peso do corpo sobre o solo, de fato o descobrimento de um úmero (osso do braço) de 365 milhões de anos corroboram essa hipótese.

A respiração pulmonar fora da água carregou também mudanças em sua anatomia craniana e mandíbular. O focinho alongou-se e o número de ossos reduziu modificando sua fisiologia, a musculatura do pescoço que lhe permitia movimenta-la para os lados e um espiraculo (ou saco de ar) presente no topo da garganta que pode auxiliar a audição.

A mudança anatomica que levou a um encurtamento do crânio, houve um encolhimento da capsula que aloja o ouvido interno. Registros paleoclimaticos demonstram que essa redução do ouvido interno pode influir na forma como o sistema vestibular interpreta a ação da gravidade. A mudança de audição também esta relacionada ao sistema branquial. O osso hiomandibular que nos peixes servia para auxiliar a movimentação e respiração alojou-se então no orifício dentro da caixa craniana que posteriormente transformou-se no osso que conhecemos hoje como estribo que atuam na fisiologia, amplificação e interpretação das ondas sonoras.

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Desta forma a dieta também pôde mudar partindo para uma alimentação carnívora, especializando-se a caça em águas rasas. Comento crustáceos, peixes, algumas plantas vasculares já presentes no Devoniano.

Na China e Austrália foram descobertos outros fosseis de anfíbios (Sinostega e Metaxygnathus) que vem suportando a proposta da evolução a partir de peixes pulmonados.

Os ancestrais dos anfíbios foram os Sarcopterígios (Sarcopterygii) cujo principal membro é o Celacanto que representa está transição.

O celacanto é um peixe bastante antigo, acredita-se que tenha mais de 400 milhões de anos. Os cientistas acreditavam que o grupo ao qual ele pertencia fora extinto há mais de 60 milhões de anos. Mas um celacanto foi pego no oceano Índico, perto da extremidade sudeste da África, a uma profundidade de 50 m de profundidade em dezembro de 1938.

Nessa época, o professor inglês Smith o examinou e sem dúvida concluiu-se que tratava-se de um Celacanto, considerado hoje um fóssil vivo.

Pouco se sabe a respeito desse estranho peixe. Seu corpo é viscoso e robusto, tem oito nadadeiras, seis dessas nadadeiras ficam na ponta da extremidades, semelhantes a pernas.

Aparentemente é difícil acreditar que um peixe possa sair da água e caminhar a outro recurso natural. Criacionistas argumentam que atualmente não vemos peixes se transformando em animais terrícolas. De fato isso não ocorre porque a seleção natural não cria animais para satisfazer nossa necessidade visual de crer na evolução. Ela simplesmente mantém vivos o aptos e pune com a morte os inaptos. Entretanto, os registros fósseis apresentados aqui claramente mostram a transição da ambiente aquático para o terrestre.

Entretanto há um peixe que realmente apresenta a característica de viver mais fora da água do que dentro dela.

É o Saltador-do-lodo pertencente ao gênero Periophthalmus com mais de 17 espécies descritas cuja mais comum é  Periophthalmus argentilineatus.

Periophthalmus argentilineatus

E um peixe da família dos Gobiidae, peixes anfíbios. Têm capacidade de armazenar água nas câmaras branquiais por várias horas e modificações nas nadadeiras que viabilizam sua locomoção terrestre.

Quando um peixe se encontra em um alagado ou açude formado pela maré baixa, ele encontra um meio de respirar. E isso o saltador-do-lodo consegue com facilidade por meio do seu pulmão rudimentar e das paredes de sua garganta que possuem uma densa rede de vasos sangüíneos. Este pequeno peixe também consegue oxigênio na pequena reserva de água à vontade nos sacos de suas brânquias. Portanto, capaz de ficar à vontade fora da água, quando a maré baixa.

O saltador-do-lodo habita as águas lodosas de lagunas e manguezais tropicais na Ásia e África. Como as rãs, vivem em grupos e pouco se sabe sobre sua forma de reprodução. Ele movimenta-se com auxílio de barbatanas peitorais grandes e largas. Possui falsos pés cobertos de escamas, que se movem com o auxílio de suportes pedunculares formados por músculos. Ele pode escalar raízes expostas nos mangues e, com a ajuda da cauda, pular de raiz em raiz. Seus olhos grandes localizam-se no alto de sua cabeça e se assemelha bastante a um girino de grandes proporções. Caça moscas e mosquitos e pesca pequenos caranguejos e vermes do lodo.

Eis evidências evolutivas empíricas, observáveis e capazes de serem analisadas e que suportam as relações históricas existentes entre peixes pulmonados de nadadeiras robustas e anfíbios.

Note que do ponto de vista biológico existe 6 grandes eventos que devem ser considerados. O primeiro foi a origem da vida e os outros 5 referem-se a questão do surgimento dos grandes grupos biológicos, peixes, anfíbios, repteis e aves e os mamíferos. É fundamental lembrarmos que para que esses 6 grandes eventos ocorrerem foram necessário mais de 3,5 bilhões de anos, portanto, são eventos raros, mas que são bem evidenciados na paleontologia.

Aqui neste texto busquei elucidar um pouco mais sobre a evolução dos últimos quatros grupos de animais todos pertencentes ao grupo dos tetrapodos.

Logo após a surgimento dos anfíbios a evolução pela seleção natural (e outros mecanismos evolutivos) manteve o padrão anatômico clássico, onde eventualmente algumas espécies de anfíbios, repteis aves e mamíferos perderam seus membros superiores nas quais são também evidenciados evolutivamente, portanto, materialmente e cientificamente é possível que a evolução seja um fato consolidado pela ciência devido a consistência dada pelos registros fósseis.

Aqui neste texto evidencio através de características genéticas fornecidas por mecanismos moleculares (DNA, genes Hox) sob o comportamento (principalmente a alimentação), a anatomia (considerando a questão dos ossículos do ouvido, modificação craniana, dos membros e a evolução da bexiga natotória), pela fisiologia (brânquias e pulmões), pela embriologia (mecanismo ontogeneticos repetindo o filogenético) e a presença intensa do registro fóssil (Eusthenopteron, Panderichthys, Ventastega, Acantosthega, Ichtyostega, Elpistostege, Tulerpeton, Sinostegan Metaxygnathus dentre tantos outros que podem ser vistos na filogenia do nascimento das patas). Se isso não é evidência para cogitarmos a possibilidade de existência da evolução, então o que seria?

Scritto da Rossetti

Palavras chave: Rossetti, Netnature, Anfíbios, Celacanto, Evolução.

Referência:

Scientific american – edição especial N 36- O legado; Fósseis de gigantes. 2010. Pág 26 – 33.

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