A VISÃO REDUCIONISTA DA EVOLUÇÃO HUMANA. FALANDO SOBRE A FALA.

Quando falamos em evolução humana, sempre temos aquela visão reducionista de que o homem veio do macaco.

A finalidade deste texto é tratar o assunto de forma aprofundada e não leviana.

O primeiro erro é um ponto, pois é decisivo para saber se uma pessoa realmente conhece a proposta que a evolução humana trás ou se é um ignorante oportunista. Qualquer discussão séria a respeito do tema, com embasamento teórico (mesmo que ainda seja religioso) nunca afirma que o homem veio do macaco. Tratar a evolução humana como o homem vindo do macaco é uma visão leviana de alguém que não conhece o assunto e tem motivos, e ferimentos pessoais para suportar sua descrença, geralmente não tem embasamento teórico para discutir tal tema com classe e personalidade. Em suma, é a pessoa que não conhece o assunto e quer de qualquer forma possível passar a imagem errada, o oportunista ignorante. A visão reducionista dada pelo leigo ou ignorante é tão anti-cientista que é em sua essência como afirmar que “um casal de macacos pregos deu a luz a um ser humano de olhos azuis”. Sob esta perspectiva, um macaco talvez poderia argumentar ciência melhor do que um leigo em biologia evolutiva.

Porque é tão importante separar macacos de primatas?

Porque a biologia evolutiva nunca disse que o homem veio do macaco. A biologia evolutiva diz que o homem, segundo o sistema de classificação biológico se enquadra no grupo dos primatas antropóides, pois apresenta evidências consistentes sob o ponto de vista genético, fisiológico, anatômico, comportamental, neurofisiológico, morfológico corroborando relações históricas existentes entre os animais e o homem (obviamente que o homem também é um animal).

Existe uma diferença enorme entre macacos e primatas.

Os primatas antropóides compreendem os gorilas, chimpanzés, gibões, bonobos e orangotangos, ou seja, primatas de grande porte. Apresentam uma postura bípede, porém não em “tempo integral”, sem a presença de cauda e tem um focinho ortognata, ou seja, a face alinhada quase planamente. O macaco compreende o grupo dos animais com cauda (exceto o babuíno) com rosto prognato, formando um focinho avantajado e são de pequeno porte como o macaco aranha, macaco prego, mico leão dourado, saguis e etc

Existem diferenças enormes entre macacos e primatas e isso conta demais ao considerarmos a evolução humana. Dentre tantas características que distinguem o humano dos outros chimpanzés está o bipedismo integral, a consciência como resultado evolutivo com um encéfalo desenvolvido e a capacidade plástica da comunicação, a fala. Aqui neste texto não sou discorrer sobre a consciência, pois teria de postar um texto meu escrito sobre a evolução do sistema nervoso. Não falarei diretamente da postura bípede embora haja motivos o suficiente para evocá-la, mas vou me focar única e exclusivamente na fala, sob seus aspectos de sua fisiologia e genética comparada.

É muito importante reconhecer que em primatas o volume encefálico aumentou de3 a4 vezes em apenas 6 milhões de anos.  Este aumento se deu mais às custas de aumento de conexões. Conexões estas que interligaram estruturas próximas entre si e até relativamente distantes entre si dentro do encéfalo. Na evolução da espécie humana as mudanças oronasofaríngeas necessárias para a emissão de sons em particular foram também possibilitadas e desencadeadas pela adoção da postura ereta.

Desta forma ao longo da história do homem ele pode adquirir a linguagem falada. As vias neurais para a linguagem são várias, comumente dizemos que é a área de Wernick e Broca. Áreas cerebrais ligadas a aspectos cognitivos fundamentais para a sobrevivência.

A área de Broca oferece toda a circuitaria neural para a formação das palavras, nesse local os planos e padrões motores para a execução de palavras individuais ou de sentenças é bastante elaborado. Está área se localiza no córtex frontal, mas se projeta para á área de Wernick, responsável pela modulação de aspectos intelectuais importantes principalmente na compreensão da linguagem escrita, dando sentidos a sequência de palavras. Essa área trabalha associada a estímulos auditivos, físicos e visuais. Outras áreas são igualmente importante, pois dão suporte as funções principais de Broca e Wernick.

Do ponto de vista da genética, o gene FOXP2 está associado á fala, problemas neste gene causam déficits na fala, autismo e até dislexia. Além disso, pode ser encontrado expresso em regiões corticais e subcorticais.

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Mutações desses genes podem causar anormalidades da fala. O interessante é notar que humanos, pássaros, peixes, répteis e roedores apresentam variações desse mesmo gene principalmente no córtex, tálamo, cerebelo e outras áreas associadas. Em determinadas estações do ano esse gene é mais expresso nos pássaros Mandarin permitindo que ele aprenda a vocalizar e possa usá-la no seu comportamento sexual. O mais importante é notar que as variações do gene FOXP2 estão presentes nos mais diferentes animais e estão ligadas a vocalização.

Na realidade, a capacidade de falar se da por uma série de coordenações de movimentos envolvendo a respiração, estruturas de ressonância da boca e cavidades nasais, atividade neural e expressão gênica.

No homem, a laringe que é responsável pela fonação age como um vibrador e chamamos essas cordas vibrantes de cordas vocais. Elas estão dispostas de forma paralela por diversos músculos no centro da glote. Quando estamos apenas respirando essas cordas ficam abertas permitindo a passagem do ar normalmente. Quando falamos, a passagem do ar é direcionada para passar entre essas cordas e a freqüência da vibração é determinada pelo grau de estiramento dessas cordas, que é realizado pelos músculos. Além disto, a fonação também está ligada a aproximação que essas cordas se apresentam entre si.

Os órgãos responsáveis pela articulação e a ressonância são a boca, nariz, faringe e a cavidade torácica. A qualidade da voz é dada pelo nariz, por isso quando estamos resfriados nossa voz fica meio “fanha”. Assim, o homem necessitou de mudanças em sua postura, que permitiu mudanças nasorofarìngeas onde ele pode fazer o controle da respiração e da fala com coerência e o desenvolvimento de estruturas cerebrais e movimentação sincronizada na passagem do ar para controlar-lo com eficácia permitindo a vocalização e a sua sofisticação posteriormente.

Entretanto um mistério ainda cerca a origem da linguagem sofisticada do homem. Evolutivamente quando uma espécie se separa de outra, ela carrega informações de seu ancestral que podem se manter integras ou podem sofrer pequenas modificações. Podemos ver mudanças em pequenas etapas do comportamento de construção de teias em algumas aranhas. São comportamentos que aparecem nas espécies descendentes e que muitas vezes se modificaram de uma estrutura comportamental ancestral. No caso do homem que tem o chimpanzé como seu ancestral comum mais próximo não vemos isso. Os chimpanzés não tem uma estrutura de fala sofisticada ancestral como a do homem (embora tenha outros aspectos cognitivos especial superiores a capacidade humana que o tornam um exemplo clássico na questão evolutiva).

A linguagem parece ser uma novidade dentro dos primatas antropóides da linhagem humana e que foi super desenvolvida dentro da linhagem Homo sapiens. Estruturas complexas como estas podem surgir embora sejam raras. Vimos exemplos deste tipo em girafas e das ocapias em textos anteriormente publicados (O PAPEL DOS GENES NA BIODIVERSIDADE – https://netnature.wordpress.com/2011/03/31/o-papel-dos-genes-na-biodiversidade/).

O órgão reprodutor dos chimpanzés também entra neste exemplo. Depois da separação da linhagem do homem e dos chimpanzés, os ancestrais deste último desenvolveram uma estrutura reprodutora com características peculiares de cor rosada que mudam de tamanho durante a época de reprodução. Obviamente que não esta presente no ser humano porque questão temporal na evolução.

            Do ponto de vista lingüístico, hoje a sociologia a antropologia e a arqueologia sabem que quanto mais antiga uma região, menor a diversidade lingüística. A África, berço dos hominídeos da linhagem humana (a 7 milhões de anos) e também berço humanidade (190 mil anos) tem uma diversidade lingüística muito inferior quando comparada com as Américas, continente conquistado a aproximadamente 20 ou 30 mil anos.

Scritto da Rossetti

Palavras chave: Rossetti, Netnature. Evolução Humana, Antropóides, Evolução da linguagem

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Referência: Simon e. fisher* and Gary f. marcus – The eloquent ape: genes, brains and
the evolution of language – nature reviews | genetics volume 7 | january 2006 | 9

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