ASPECTOS RELIGIOSOS E NEUROBIOLÓGICOS DA CONSCIÊNCIA.

Durante milhares de anos o homem foi criando civilizações, idiomas, culturas, estruturas econômicas e religiões que começaram como simples forças da natureza, depois se tornaram quimeras e posteriormente com o desenvolvimento de grandes cidades criamos deuses antropomorfizados.

De alguma forma o homem buscou sentido para sua vida baseado em algo sobrenatural (que aqui não vem ao caso). Do ponto de vista biológico o sentido da vida poderia se respaldar no ato de se multiplicar e dar origem a sua “dinastia”,  ou sob o ponto de vista pessoal, tendo a vida o sentido que nós quisermos dar a ela. Entretanto, as pessoas ao longo de tempo buscaram explicações que fogem da lógica universal. O interessante é notar que em todas as religiões existe um plano acima da morte, embora no budismo os próprios deuses possam morrer. Assim como em todas as religiões afirmam que sua doutrina tem o único deus capaz de oferecer a vida eterna.

Durante muitos anos muitos deuses foram inventados e extintos. Os deuses egípcios são um exemplo disso. Hoje, Osíris, Ptah, Ísis, Tiamat, Apsu e Amon-Rá não passam de fantásticas histórias do Egito antigo. Os deuses gregos e romanos também não conseguiram manter sua superioridade com o passar do tempo.

Amon-Rá

Entretanto, deus, o criador do Universo, venerado por Judeus e Cristãos ainda persiste com o tempo desde o surgimento do monoteísmo, embora tenha sofrido intensos e grandes abalos nos motivos e razões que sustentam a sua existência. Ao que parece é mais fácil deuses desaparecer quando ocorre guerra e povos dominando outros povos do que racionalmente as pessoas descartarem eles como descartam um absorvente usado.

Quando os romanos invadiram Israel no século1 a.C não se importavam com o monoteísmo adotado pelos judeu sem Jerusalém. Como passar do tempo os romanos começaram a se interessar pelo judaísmo. Mas os ensinamentos e as doutrinas adotadas pelos judeus soavam como absurdas ao romanos uma vez que para seguir esta nova doutrina era necessário que a adoção de posturas como a mudança na alimentação e a circuncisão.

Neste momento, o cristianismo não passava de uma doutrina judaica comum ente eles. Foi então, que ocorreu uma atitude definitiva que determina a diferença ente judeus e quem realmente iria seguir outro caminho.

Será que aquelas pessoas convertidas no cristianismo e que ainda não tinham adotado os costumes judaicos -como a circuncisão- deveriam ser salvos? Desta forma surgiram as duas vertentes.

Então, Paulo de Tarso começou a espalhar a idéia de manter o cristianismo como um doutrina judaica. Paulo fez com que a idéia de Jesus passa-se a ser o salvador dos povos e não de messias do povo hebreu. Que deus era um bom samaritano e não era um sádico como o Deus judeu que queria provas da devoção dos humanos, como sacrificar o próprio filho.

Em 313 Constantino decretou que os cristãos não deveriam ser mais caçados como animais e decretou o cristianismo como uma religião oficial, inclusive de seu império. Então, Deus que tinha a popularidade de ser mal por sempre estar ameaçando a humanidade – como o dilúvio- passou a ser um Deus de amor, deixando pra trás a idéia de temer a Deus para a idéia de “ Deus da compaixão”.

Como fruto de uma religião abraamica o Islamismo surge bem mais tarde. Os ensinamentos de Allah para Muhammad através do anjo Jibril (Gabriel) foram convertidos e compilados no alcorão que detalhava minuciosamente os passos que o homem deveria seguir. Após um século da morte de Maomé seus seguidores levaram sua religião para toda a África, Afeganistão e Paquistão.

Segundo o alcorão Allah é o único deus, o salvador, Sura 2:62.

 Os fiéis, os judeus, os cristãos, e os sabeus, enfim todos os que crêem em Deus, no Dia do Juízo Final, e praticam o bem, receberão a sua recompensa do seu Senhor e não serão presas do temor, nem se atribuirão”

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O cristianismo como vertente do judaísmo adquiriu características próprias embora passagens em comuns como a existência humana e a de todo Universo a um único Deus, o Jafet.

Esposa de Deus, conhecida como Ashera. fazia parte do panteão de Jafet

Yameh, Jafet, Javé ou simplesmente o Deus das religiões abraâmicas.

Nunca, nenhum deus viveu na cabeça do homem por tantos anos como vive os deuses da vertente abraâmica, o que não significa que seja um deus verdadeiro considerando as inconsistências nos registros arqueológicos que comprometem o grau de santidade de Jesus cristo por exemplo.

O importante é saber reconhecer que cada povo, cultura e sociedade tem uma representação de Deus feita de sua vida. A minha interpretação de Deus é diferente de qualquer religião, sendo que acredito que nenhuma religião que surgiu, que há ou que surgirá no mundo poderá representar com fidelidade a existência de Deus, uma vez que sua existência ou certeza de existência se baseia na fé e não em evidências.

O conceito de Deus está arraigado dentro das diversas culturas no mundo, cabendo a nós respeitá-la (debate-la e impacta-la) como uma expressão cultural diferenciada.

Entretanto, cabe a nós reconhecer que nem todas visam o bem comum (mesmo que seja na base da Jihad). É comum vermos representantes religiosos pregarem sobre o respeito, sobre a caridade, sobre fazer o bem ao próximo. Mas muitas vezes a prática gera conseqüências brutais. A religião atualmente é utilizada como desculpa para guerras em um mundo capitalista. Claro que isto não ocorre em todas as religiões, o pensamento radical não deve passar em nossas mentes. Infelizmente Richard Dawkins não enxerga isto.

A vantagem que a religião pode trazer -mesmo que muitos acreditem que seja mínima- é que muitas vezes as religiões ou a própria crença em Deus, nos impõem limites em nossos atos. É inegável que a espiritualidade nos da liberdade pensando na responsabilidade que teremos de arcar diante do acerto de contas com Deus.

Diante deste consenso o homem moldou a sua consciência, embora conceituar consciência seja algo complicado.

Dean Hamer é um geneticista da universidade de Harvard que trabalhando com a neurobiologia escreveu um livro relacionando a consciência com a auto-transcendência. Curiosamente veremos que muito dos experimentos deste livro estão baseados em práticas religiosas e espirituais (obviamente que não apresentou evidências da existência de Deus devido o foco do trabalho ser outro). Uma vez que muitas doutrinas como o budismo de Dalai Lama e a neurociência estão se complementando no estudo da consciência e transcendência.

Estudando este livro pude encontrar trabalhos muito interessantes descritos pela minha própria professora de fisiologia da faculdade e outros debates entre Christof Koch e Susan Greenfield, especialistas em consciência

O interessante é que no livro de Hamer ele diferenciou sabiamente a espiritualidade das religiões baseando seu livro em como construímos a espiritualidade e não um debate sobre a existência ou não de Deus. Torna-se então, fundamental diferenciar a consciência, espiritualidade, religião e Deus.

O que é consciência?

Segundo Dean Hamer, em seu livro O gene de Deus, é necessário definir alguns conceitos ao debater consciência. A consciência é um fator cultural e que tem um papel essencial na origem do homem seja do ponto de vista evolutivo ou religioso. A consciência em termos mais simplórios é a percepção que nós mesmos e daquilo que esta ao nosso redor, a capacidade de julgar nossos próprios atos. Assim como ela é seletiva, contínua e pessoal.

A consciência pode ser dividida de duas formas, a consciência primária permite a percepção daquilo que esta diante de nós. Ela se desenvolveu evolutivamente no cerebelo, gânglios da bases –  que é responsável pela percepção do tempo – e o hipocampo, pois essas áreas mantém intimas conexões. A consciência secundária é o que permite o reconhecimento do mundo que nos rodeia, dos nossos sentimentos, atos e compreender o passado presente e futuro.

Gerald Edelman acredita que a consciência seja dada pela comunicação entre dois complexos neurais, o sistema tálamo-cortical com o límbico-tronco cerebral. Ao realizar experimentos em budistas tibetanos o fluxo sanguíneo na região do córtex e tálamo aumentaram significativamente durante a meditação, em outras áreas ocorreu o oposto. O córtex pré-frontal aumentava significativamente o fluxo e estava relacionada com a diminuição nas áreas do lobo parietal superior esquerdo. Os lobos parietais permitem a percepção de si mesmo. Assim, o cérebro destes budistas não consegue diferenciar o que era real do que era imaginário. A consciência secundária era diminuída enquanto a primária permanecia normal. Sob aspectos neurobiológicos a meditação e o estado de comunhão pode ser explicado pela mera mudança de atividade cerebral.

Anatomia básica do encéfalo

Esta sobreposição do que é real e imaginário conferia a capacidade deles imaginarem coisas dentro de um contexto que eles achavam que era real. Assim, é comum ainda hoje em diversas religiões as pessoas mascarem ou utilizarem de alguma forma substâncias psicoativas que tem mesmo efeito. Assim como vimos no xamanismo na sociedade dos Cro-magnons ou o Ayahuasca chá do Santo daime

Christof Koch e Susan Greenfield buscam com afinco achar uma área específica que expressa a consciência em nós humanos. Koch afirma que a consciência não é propriedade de um grande numero de neurônio, mas de pequenos grupos de células que produzem experiências conscientes distintas. Koch aposta no claustrum, uma área localizada no córtex cerebral e tem resquícios importantes para nos dizer. É uma pequena estrutura formada por poucas células que pode estar localizada em um local essencial uma vez que recebe e envia conexões para o córtex, principal local de desenvolvimento evolutivo nos mamíferos.

Susan Greenfield

Christof Koch

Susan afirma o oposto de Koch. Ela afirma que a consciência é fruto de um cérebro grande que se interconecta o suficiente para gerar extensas redes neurais indicando graus de consciência. Assim, não há um centro específico responsável pela consciência.

Evolutivamente, as áreas mais frequentemente utilizadas durante as atividades conscientes aumentou significativamente durante o desenvolvimento filogenético do sistema nervoso do homem. Obviamente como vimos, Koch e Susan buscam insistentemente por algo que na realidade não é encontrado em apenas um local, mas sim algo que surgiu através da integração de diversas áreas do cérebro.

Isto porque, o seu processamento faz parte de algo que chamamos de aspectos cognitivos, como o julgamento, criatividade e etc. São todos frutos da integração dessas diversas áreas que permitiu a percepção de nós mesmos e de seus semelhantes. Assim, esta união de processamentos paralelos permitiu-nos criar esta sensação unificada que nos da o caráter de conscientes.

Estudos neurofisiológicos mostram que pacientes que perderam determinados neurônios em determinadas áreas do hipocampo – área ligada a memória- negam ser capazes de realizar uma determinada tarefam pois não se recordam de ter aprendido. Se uma pessoa sofrer uma lesão no córtex parietal direito e for designada a desenhar algo em um papel, só consegue desenhar a metade direita (considerando que o hemisfério cerebral esquerdo esta intacto e é responsável pelo controle motor do lado direito). Se uma pessoa lesada em determinada área do córtex visual, torna-se incapaz de ver algo que esteja ou no seu lado esquerdo ou direito, mesmo que sua retina seja perfeita.

Um paciente com alestesia é capaz de desenhar algo que omite um determinado lado, porém coloca seus detalhes no lado oposto, acreditando que o desenho esta perfeito.

Entretanto, se separarmos os dois hemisférios cerebrais vamos ver que nem sempre as ações direcionadas dependem de um caráter consciente. Se pedirmos para ele pegar algo que esteja na mão de outra pessoa o alestésico pega, mas não consegue perceber que esta pegando. A movimentação de seu membro superior faz o movimento de pegar o objeto normalmente, porém ele diz que não consegue pegar e não tem consciência do ato.

Certas vezes tomamos determinadas decisões diante das situações  mais adversas e as pessoas nos perguntam se tomamos aquela decisão tomando como princípio a razão ou a emoção. Curiosamente, a tomadas de decisão envolve tanto aspectos emocionais como racionais. A razão e a emoção estão totalmente ligadas. Qualquer decisão racional que se tome diante de uma situação é coordenada por ações emocionais.

A espiritualidade é algo independente da religião, embora eu não tenha uma religião acredito que possa ter um grau de espiritualidade. A espiritualidade é algo pessoal que quando é expressa em uma comunidade onde as pessoas tem as mesmas idéias da origem a igreja. Onde sua manifestação torna-se comunitária.

No estudo de Hamer, os pesquisadores definiram uma escala baseado da auto-transcendência, identificação transpessoal e misticismo que poderia definir o grau de espiritualidade das pessoas. Um estudo muito interessante que foi realizado utilizando irmão gêmeos idênticos e não-idênticos. A auto-transcendência consiste na capacidade das pessoas enxergarem a natureza do universo, qual nosso papel nele e se vendo como parte de um todo. Ela é dividida em três conceitos.

A identificação transpessoal, que corresponde é um sentimento de conexão com o universo e tudo que nele há, seja humano ou não, material ou imaterial criando ligação emocionais com tudo.

O misticismo é caracterizado naquelas pessoas que basicamente acreditam em milagres.

 Embora ultimamente a idéia de milagres esteja diminuindo justamente por causa da ciência. Durante suas caminhadas Jesus cristo realizou muitos milagres, curando cegos e etc. Hoje a ciência cura cegos com uma tranqüilidade fascinantes. Entretanto, as pessoas ainda carregam o estigma em outras doenças como a esquizofrenia. Quantas vezes já vi pessoas falando que muitas vezes as pessoas esquizofrênicas que tem alucinações não só visuais mais auditivas estavam na realidade com problemas espirituais ao invés de psicoterapêuticos.

Da mesma forma que a palavra epilepsia significa possuído no grego, pois acredita-se que as pessoas epilépticas na realidade tinham possessões demoníacas. Algumas destas visões estereotipadas sobre possessão demoníaca ainda perambulam pelo mundo atualmente.

O auto-esquecimento também faz parte do autotranscendentalismo e ocorre quando uma pessoa presta tanta atenção em algo que perde a noção do tempo.

Algumas pessoas acreditam que o surgimento da religião esta relacionado com o surgimento da consciência. Eu, particularmente discordo, os homens neanderthais já tinham suas doutrinas, crenças muito antes do surgimento do homem propriamente dito e não tinha um grau de consciência como o nosso. É fundamental reconhecer que a religião impõe limites nas ações do homem, mas que não foi responsável pela modulação da consciência. Entretanto, o fanatismo ou radicalismo pregado por algumas religiões atuais também compromete a vida. Muitas vezes, a religião não é o fator que gera um guerra, mas é utilizada como desculpa. Hitler pregava o cristianismo, houveram manifestações de alemães que agradeciam a Deus por ter enviado Hitler a  Alemanha pra salva-los dos Judeus e da crise econômica do país. Posteriormente, decepcionado com o cristianismo, Hitler criticou sua antiga crença. Não sabemos se Adolf Hitler realmente era cristão ou apenas utilizou-a como desculpa para massacrar 6 milhões de judeus. Assim como Hitler supostamente teve inspirações ocultistas e até mesmos em sociedades secretas e depois mandava matar quem pertencesse a elas.

Assim, entramos em outra questão. Qual é o conceito de bem? O que é fazer o bem para uma cultura pode não ser para outra. Não sabemos até que ponto estamos ajudando ou atrapalhando uma pessoa. O tempo, assim como o conceito de bem é algo que muda de cultura para cultura e de tempos em tempos como as manifestações literárias, como o Antropocentrismo e Teocentrismo. Richard Dawkins em The God delusion (Deus, um delírio) mostra que as concepções vão mudando com o passar do tempo, como o racismo, preconceito e o machismo hoje estão reduzidos em comparação a 100 anos atrás, determinado aquilo que chamamos de Zeitgeist.

Sabemos que a consciência não é fruto de uma raiz religiosa ou de uma entidade sobrenatural e sim de uma raiz  neurofisiologica e filogenética. Assim como um sentimento, embora imaterial ele faz parte da matéria, retire o sistema límbico de uma pessoa e voce retirará seus sentimentos, retire seu lobo frontal e retirará sua consciência. Nossos estados são regidos pelo sistema nervoso central, basta beber álcool e seu estado de consciência (e aspectos associados ao equilíbrio como o cerebelo) será alterado. Se a consciência pode ser alterada pela simples ingestão de álcool ou drogas, porque deveria eu acreditar que ela é uma criação sobrenatural?

Scritto da Rossetti

Palavras chave: Rossetti, Netnature, Consciência, Neurobiologia, Religião.

Referências:

Scientific american.

Alexandre de campos, Andréa m. g. dos santos e Gilberto f. Xavier – A consciência como fruto da evolução e do funcionamento do sistema nervoso – Departamento de fisiologia – Instituto de biociências – USP psicol. usp v.8 n.2  são paulo  1997 (http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65641997000200010)

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