FILOSOFIA DA CIÊNCIA. UMA ABORDAGEM A CONCEPÇÃO DE MICRO E MACROMUTAÇÃO E O CONCEITO DE ESPÉCIE.

Um dos grandes temas que flameja a discussão entre o criacionismo e biologia evolutiva é o que se entende como micro e da macromutação. A grande pedra no sapato da discussão é a interpretação do que é uma macromutação.

As micromutações são pequenas variações que geralmente são facilmente verificáveis nos indivíduos que compõem uma espécie. Essa variação pode conferir adaptabilidade a uma dada população que ocorre em um determinado espaço geográfico, seja proporcionando a digestão de outros compostos que anteriormente não eram possíveis, ou uma pequena mudança em comportamentos estereotipados (talvez até mesmo os plásticos) e até mesmo em estruturas anatômicas.

Uma micromutação tende a impregnar todos os indivíduos da espécie caso tenha um valor adaptativo alto. Isso se chama seleção natural positiva (embora hajam outros mecanismo que promovem a evolução na qual também me diferencia de Dawkins que é ultradarwinista)

A macromutação é uma mudança grande e geneticamente herdável entre pais e prole. Mas o que significa este grande? Qual a ordem de grandeza proposta nesta afirmação? Deve existir uma referência para definir o que se entende como grande na biologia evolutiva.

Esse é o grande problema, a interpretação que se dá a ele e o que causou confusões até entre Dawkins e Stephen jay gould.

De fato o prefixo Macro trás volumosas dimensões, trás a visão de um grande salto as escuras sob uma primeira perspectiva, e isso a evolução não promove. Mas uma macromutação pode existir se olharmos para ela de um outro contexto.

Uma macromutação é diferente de uma proposta saltacionista.

O saltacionismo é uma mudança repentina em determinado organismo de uma geração para a outra, que é grande ou muito grande em comparação com a variação natural. O termo é usado para mudanças não graduais hipotetizadas por algumas teorias evolutivas antigas ou não-ortodoxas que violam conceitos da síntese evolutiva neodarwinista. Antes de Darwin, a maioria dos defensores da evolução eram cegamente saltacionistas, como Saint-Hilaire que defendia que as aves originaram a partir dos dinossauros por saltação e não graduação como evidenciam os mais de 25 grupos de dinossauros e até mesmo Cuvier que apesar de evolucionista acreditava que seu mecanismo era o salto.

A ideia de que não há saltos na natureza já era proposta pelo próprio Darwin em latim Nature non facit saltum (a natureza não da saltos).

A macromutação pode ser resultado de acúmulo de micromutações como já foi evidenciado (veremos aqui) e pode (ou não) extrapolar o nível de uma espécie. Não estou dizendo que sou do tipo saltacionista, mas que acúmulos de pequenas variações podem gerar ecótipos (ou variações geográficas diferentes, chamadas erroneamente de raças) e espécies novas a partir de eventos de especiação por exemplo.

Uma alegação bastante comum entre os criacionistas é que as mutações ocorrem somente em nível micro e nunca utrapassam a barreira da espécie. De fato a micromutação ocorre em vários casos, basta ver os exemplos de bactérias super resistentes a antibióticos. Entretanto porque as pequenas mutações não poderiam extrapolar o nível da espécie?

Se uma espécie guarda acúmulos micros a tal ponto de formar uma nova espécie podemos dizer que esta espécie nova sofreu variações grandes que ultrapassaram a barreira do que definimos como espécie e sob este ponto de vista isso pode ser uma macromutação (e não um salto). Considerando também que entre uma espécie e outra não há o porque ter elos de transição. Os elos de transição ocorrem quando estamos olhando um conjunto de espécies que representam o surgimento de um novo grupo, como os fósseis entre peixe e os tetrapodos modernos.

Pois bem, uma espécie, segundo o ponto de vista científico (que é uma regra e de fato há diversas exceções) é formada por indivíduos geneticamente semelhantes que tem a capacidade de se reproduzir e gerar descendentes igualmente férteis. Obviamente que há exceções para esta regra na qual explicitei no texto (DEFINIÇÕES SOBRE CIÊNCIA E RELIGIÃO. CONCEITOS BÁSICOS PARA UMA DISCUSSÃO INTELECTUALMENTE RICA. – https://netnature.wordpress.com/2011/05/29/definicoes-sobre-a-evolucao-e-religiao-compreendendo-o-mecanismo-gerador-de-especies/) e no (LA PULCE D’ACQUA È L’ANIMALE CON IL PIÙ VASTO PATRIMONIO GENETICO. (com resenha) – https://netnature.wordpress.com/2011/04/13/la-pulce-dacqua-e-lanimale-con-il-piu-vasto-patrimonio-genetico-com-resenha/). Não há nenhum artigo cientifico que mostre que as mutações não extrapolem o limite da espécie, ou seja, não há um artigo até hoje que diz que as mutações recorrentes em uma espécie não podem gerar uma nova espécie. De fato, se as micromutações ocorrem de tal forma a criar variações geográficas em uma dada espécie então porque não permitiria a criação de novas espécies.

Agora vem o grande dilema, em que momento uma espécie surge? Esse limite é bastante subjetivo e pode acompanhar a definição do que é macromutação sob esta perspectiva filosófica que apresento. Para complicar mais o problema eu gostaria de usar um exemplo do Dawkins e de Stephen Jay gould.

É bastante comum as pessoas confundirem macromutação com equilíbrio pontuado. O equilibro pontuado propõe que a maior parte das populações de organismos de reprodução sexuada experimentam pouca mudança ao longo do tempo geológico e, quando mudanças evolutivas no fenótipo ocorrem, elas se dão de forma rara e localizada em eventos rápidos de especiação, como o exemplo dos moluscos. Evidentemente que isso não é um salto e sim uma especiação e que é confundido como macromutação.

O exemplo que Dawkins tende a complicar ainda mais a questão.

Me refiro ao russo Lysenko, o biólogo parceiro de Stalin que realizou um processo de seleção artificial usando a docilidade como foco para trazer modificações em raposas. Após selecionar raposas mais dóceis ele começou a fazer a reprodução com base na docilidade dos animais e após seis gerações de reprodução as raposas haviam mudado tanto que nem os pesquisadores nomearam uma nova categoria de animais domesticados.

Após 10 gerações cerca de 18% dos animais faziam parte desta nova categoria, após a 20 gerações cerca de 35% das raposas já entravam nesta nova leva.

O russo Belyaev com as raposas do experimento

Depois de 35 gerações 78% dos animais já estavam nesta nova categoria onde os animais se comportavam como cães, anatomicamente bastante semelhantes, com uma pelagem malhada em branco e preto. As orelhas caíram semelhante ao ocorrido com o cão Cocker, a ponta da cauda fazia uma curva para cima e o cio da fêmeas ocorria a cada seis meses. Até a vocalização lembrava a dos cães.

Os traços caninos dessas raposas obviamente não estavam no objetivo dos pesquisadores, mas acompanharam o processo de seleção artificial que modificou totalmente o comportamento, a anatomia e a fisiologia do animal para uma categoria nova. Isso é algo que chamamos de peliotropia, ou seja, no momento em que os pesquisadores começaram a cruzar animais dóceis para promover a docilidade nesta variedade os genes que eram responsáveis por tal característica mudaram seus múltiplos efeitos sob a constituição fisiológica e anatômica dos animais de tal forma a permitir a criação de uma nova categoria de animal.

Sob este aspecto, independente se o experimento criou ou não uma nova espécie (embora acredito que sob estes aspectos anatômicos parece que sim) o resultado foi uma mudança enorme em relação a população original de tal forma que neste caso poderíamos dizer que se trata de um caso de macromutação. Outro exemplo é a acondroplasia, ou nanismo, causado por mutação em um ou dois genes que são responsáveis pela estatura de uma pessoa, de certa forma causa uma mudança drástica no corpo. De fato isso acontece em plantas também com o gene que produz a giberelina, o fitohormonio do crescimento das ervilhas por exemplo. De certa forma a evolução humana parece ter trabalhado na escala neoténica e se isso for verdade nossa evolução gerou um evento de grande mudança ao nos contemplar com características tão juvenis.

Raposas docilizadas

É perceptível neste momento qual a dificuldade em dizer a partir de que ponto e até em que momento algo é uma macromutação.

Vale lembrar que aqui tratamos de seres que utilizam o sexo como referência para determinar uma espécie, em casos de reprodução assexuada o conceito de espécie fica mais obscuro e torna a questão mais difícil.

Se partirmos do principio que macromutações são resultados do gradualismo mutacional que ocorrem ao nível da espécie e podem extrapolar esse nível de tal forma a determinar uma nova espécie como no exemplo de Dawkins e Stephen Jay gould podemos dizer que realmente as macromutações ocorrem e de fato são evidenciadas pela ciência de tal forma a concordar que seja possível

Se partirmos do principio que a macromutação é uma espécie de salto então estamos dizendo que uma bactéria deu origem a um elefante em questão de poucas gerações e obviamente isso não é evidenciado pela biologia.

Aqui cabe uma ressalva. Quanto estamos olhando a evolução dos anfíbios, por exemplo (veja: A GRANDE CONQUISTA. – https://netnature.wordpress.com/2011/05/15/a-grande-conquista/) em que um grupo de peixes pulmonados deu origem a um anfíbio estamos tratando não de uma espécie que se reproduzia como peixe e subitamente da origem a um grupo de sapos rãs e pererecas.

Esse momento na historia da vida é suportados por mais de 10 grupos de animais coletados de registros fósseis que mostram que esta transição não foi súbita e sim gradual demorando entre 20 e 32 milhões de anos. Se pensarmos a curto prazo, vemos acúmulo de micromutações gerando uma nova espécie. A longo prazo comparando o peixe de nadadeira lobada e o primeiro anfíbio tetropode atual podemos interpretar como uma macromutação. O que não podemos esquecer é que existe uma grande diferença entre o que se compreende como macromutações sob o aspecto da biologia evolutiva e o saltacionismo.

É bastante difícil ver uma espécie a olho nu se transformar em outra, de fato até em laboratórios é difícil isolar reprodutivamente animais da mesma espécie de tal forma a criar uma nova, embora agrônomos e geneticistas tenham tido algum sucesso recentemente com algumas espécies novas.

Uma espécie dura em média 1 milhão de anos. Ou seja, é preciso em média 1 milhão de anos de pequenas mutações se acumulem no genoma para que haja o isolamento reprodutivo e a geração de uma espécie.

Considerando que sabemos que as espécies evoluem e geram outras espécies somente a 150 anos e a um pouco mais de 100 como esse mecanismo ocorre geneticamente e um pouco mais de 50 anos que o DNA é a molécula responsável por essa herança torna-se difícil ver um animal se tornar outra espécie quando a descoberta deste mecanismo ocorreu recentemente, ainda mais sabendo que conhecemos muito pouco sobre a biodiversidade do planeta.

Acreditasse que atualmente haja mais de 1 bilhão de espécies no mundo todo, conhecemos um pouco mais de 1% das espécies de microorganismo, 360 mil espécies de coleópteros, 120 mil de lepidópteros, 40 mil de aranhas sendo que em regiões topicais este número pode subir e variar entre 90 e 160 mil. Desta forma, mesmo com tão pouco tempo de descobertas já conseguimos ver mudanças significativa no nível da espécie e na criação de novas espécies seja na natureza como evidenciado em alguns raros casos onde se conseguiu (ou melhor, quando se teve a sorte de…) verificar a coisa acontecer e artificialmente com exemplos de animais e plantas modificados geneticamente. Hoje sabemos que nada é estático no mundo, as sociedades evoluem (considerando que do ponto de vista biológica a palavra evolução é sinônimo de evolução e não de melhoria) a música e a línguas evoluem (ESTUDO ATACA SUPOSTA EXISTÊNCIA DE UMA “GRAMÁTICA UNIVERSAL”. (com resenha) – https://netnature.wordpress.com/2011/04/14/estudo-ataca-suposta-existencia-de-uma-gramatica-universal-com-resenha/), as tradições e a cultura evoluem, as religiões evoluem ( PASTOR TERRY JONES QUEMÓ EL CORÁN Y MUSULMANES RESPONDIERON CON MATANZA EN AFGANISTÁN. (com resenha) – https://netnature.wordpress.com/2011/04/04/pastor-terry-jones-quemo-el-coran-y-musulmanes-respondieron-con-matanza-en-afganistan-com-resenha/). Porque a vida não haveria de evoluir também?

Scritto da Rossetti

Palavras chave: Rossetti, Netnature, Micromutação, Macromutação, Evolução

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