PORQUE SOMOS HUMANOS E PARTE NEANDERTHAL?

Recentemente (Não-africanos são parte neandertais, diz estudo) um estudo feito por geneticistas da Universidade de Montreal no Canadá divulgou no jornal especializado “Molecular Biology and Evolution” que foi encontrado DNA neandertal em humanos modernos. Isso implica em uma descoberta que reforça a teoria de cruzamento entre essas duas espécies.

Mas para entender a possibilidade disso ser real é fundamental conhecer a genética dessas espécies e as novas descobertas a respeito da extinção dos neanderthais que parece ter uma relação não tão íntima com o Homo sapiens.

Sob o ponto de vista evolutivo o homem é classificado como um primata com um conjunto de outros grandes símios pertencentes a outras espécies. Em A VISÃO REDUCIONISTA DA EVOLUÇÃO HUMANA evidencie porque os seres humanos não são parentes dos macacos e mostrei o imenso abismo que difere primatas de macacos.

Os homens e os grandes primatas seguem a mesma classificação: Eucariotos do Reino Animal pertencente ao Filo dos Cordados dentro da Classe dos Mamíferos na Ordem dos Primatas na Superfamília Hominoidea com a Família Hominidae e Subfamilia Homininae junto com os gibões, orangotangos, gorilas, chimpanzés, bonobos e uma grande quantidade de outros grandes primatas já extintos (veja PRIMATAS ESQUECIDOS PELO TEMPO), cada qual em seu gênero e espécie.

Sob o ponto de vista da genética das espécies o chimpanzé é o animal vivo mais próximo dos seres humanos, com 99% de semelhanças parentais. O que não significa que somos seus descendentes, mas que compartilhamos um ancestral em comum em algum tempo atrás, assim como compartilhariamos um ancestral mais próximo ainda caso os neanderthais caso não tivessem sido extintos.  Homem tem um parentesco próximo com qualquer animal que exista hoje ou que já existiu. Basta buscar na arvore da vida o local exato onde os ramos se dividem.

O elo de ligação entre o Homo sapiens e o Homo neanderthalensis é o Homo heidelberguensis.

O que quer dizer 99% de semelhança entre homens e chimpanzés? Porque somos homens e não chimpanzés? Um por cento parece pouco para diferenciar duas espécies próximas, mas visualmente bastante distintas?

Das 3 bilhões de letras que formam nosso alfabeto genético somente 15 milhões (ou cerca de1%) tem sofrido bastante influencia nos últimos 6 bilhões de anos. Esse 1% é o que nos faz humano.

Uma analise da região Har-1 que possui 118 pares de base foi feita com a finalidade de comparar homens, chimpanzés, ratos, camundongos e galinhas. Essa região tem apreciável diferença entre esses animais já que é uma região responsável pela conformação estrutural de certas partes do encéfalo. Ao traçar o perfil evolutivo desta região e comparada com outros 12 vertebrados foi mostrado que pouca variação ocorreu até a origem do ser humano. Entre galinhas e chimpanzés, grupos separados por mais de 300 milhões de anos apenas duas das 118 bases diferiam. Enquanto isso quando comparadas com os seres humanos essas diferenças chegaram a casa de 18 pares.

Isso demonstra claramente que essa região era expressa sob uma freqüência e intensidade nas espécies mais antigas e sofreu variações de grande amplitude em sua base genética e que foi refletida em sua esfera estrutural, ou seja, no encéfalo. Isso ocorre porque o Har-1 é ativada nos neurônios do córtex cerebral em desenvolvimento. Se essa região sofre alguma anomalia ela leva a doença congênita lissencefalia, quando o córtex não tem as dobras naturais do cérebro e fica com uma área bastante reduzida.

O Har-1 tem uma função embriológica bastante importante e a evo-devo pode explicitar isso com bastante clareza ao analisar as bases genéticas e estruturas do encéfalo. Seu efeito é pronunciado na embriologia e no desenvolvimento do sistema nervoso central. Além disso, esta região parece ter uma relação com a produção de esperamatozoide, o que chamamos de pleiotropia.

O Har-1 é uma região especial porque ela não codifica uma proteína, mas é um sobreposto de dois genes e confere um tipo muito peculiar de RNA.

São essas pequenas mudanças que geram efeitos drásticos na anatomia da espécie. Sob o ponto de vista das micro e macro evoluções (veja: FILOSOFIA DA CIÊNCIA. UMA ABORDAGEM A CONCEPÇÃO DE MICRO E MACROMUTAÇÃO E O CONCEITO DE ESPÉCIE) uma simples mudança de 2 pares de base diferem genes homólogos entre chimpanzés e galinhas, e entre humanos são 18 bases. Essas mudanças não são saltacionistas, mas sim produtos secundários da variação e posteriormente da ativação desses genes modificados. O gene FOXP2 quando sofrem mutações deletérias podem gerar efeitos macroscópicos nos indivíduos. De fato, o gene FOXP2 dos neanderthais foi seqüenciado e contem trechos sequencias de bases idênticos ao de Homo sapiens. Outros trechos exclusivos a nossa espécies parecem ter surgido e conferido mudanças cognitivas que possibilitaram a comunicabilidade de forma refinada e expressiva na nossa espécie.

O mesmo estudo estudou também a região Har-2 que é um regulador de outros genes durante a embriogênese parece atuar diretamente na estruturação da mão. Também mostraram muitas modificações genéticas refletidas na anatomia da mão e que foram acompanhadas pelo desenvolvimento cultural e tecnológico da humanidade ao longo dos milhões de anos.

O gene AMY-1 também sofreu bastante modificações. É o gene responsável pela produção da enzima amilase da saliva. O genoma dos mamíferos contém diversas cópias deste gene, o que permite maior produção deste produto. Isso pode evidenciar porque a herança poligênica pode ser expressa sem que a informação/característica dilua ao longo das gerações.

O gene LCT responsável pela digestão da lactose também sofreu bastante modificações e tem evoluído de forma independente dentro da população humana até hoje, principalmente na Asiática e Africana.

Esse rastreamento permitiu identificar mais de 15 regiões genomicas que eram normais em nossos ancestrais mamíferos e se modificaram claramente dentro de nossa linhagem evolutiva. Inclusive associada a doenças atuais, como o Alzheimer, câncer, o gene PtERV1 ligado ao vírus da relíquia e a proteína TRIM5 uma proteína preventiva deste vírus.

É sabido que apenas 1,5% do genoma humano codifica proteínas, os outros 98,5% contem sequências infuncionais ou regulatórias. Isso mostra que com poucas mudanças genéticas pode ser responsáveis por criar novas espécies e ter efeitos mais expressivos. Tanto que existem espécies próximas com graus de parentesco ainda bastante expressivos que permita a formação de indivíduos que se estabeleçam como um anel de conexão entre as duas espécies.

Isso é evidenciado em outros genes que foram já rastreados como o ASPM, MCPH1, CENPJ (veja aqui).

Sob essa óptica é fundamental olharmos para o parentesco que nós Homo sapiens temos com os chimpanzés e os neanderthais.

Se o que nos diferencia de um chimpanzé é apenas 1% de modificações genéticas é de se esperar que o que nos difere de um neanderthal seja menos ainda. Isso porque o que nos diferencia de chimpanzés são 7 ou 8 milhões de anos e nesse tempo houve uma quantidade de espécies e hominídeos que fizeram parte da evolução humana enquanto o que nos separa dos neaderthais é apenas o nosso último ancestral comum, o Homo heidelberguensis, cerca de 200 mil anos, o tempo de existência da espécie humana.

Correndo o risco de ser leviano embora já tenha falado bastante sobre o Homo heidelberguensis em NOSSOS ÚLTIMOS ANCESTRAIS parece ser possível sim que humanos e neanderthais tenham se cruzado na Europa.

Isso porque quando comparado ao Homo sapiens, o Homo heidelbergensis teria uma ossos mais largos e robustos além de mandíbulas mais desenvolvidas. Os padrões de crescimento e desenvolvimento seriam semelhantes ao do homem atual, o que daria ao Homo heidelbergensis uma espectativa de vida semelhante a de nossa espécie. Isto implicaria a existência de uma dependência de um período de infância com grandes oportunidades de uma maior aprendizagem.

Existem, de fato provas de que o Homo heidelbergensis teria uma cultura mais desenvolvida do que as espécies de hominídeos anteriores. Ao observar o desenvolvimento de hominídeos, percebe-se um aumento de volume no crânio, que teria ocorrido provavelmente acompanhado do aumento das complexidades do cérebro. Por outro lado, o aumento total do tamanho dos indivíduos, e o alargamento dos lobos parietais e frontal, indicam que terá havido uma reorganização da anatomia funcional do cérebro do hominídeo, processos fundamentais para a formação do que somos hoje. O aumento dessas dimensões por si só indica alterações comportamentais que levaram a uma maior facilidade de obtenção de recursos nutricionais e ligados ao aprendizado e diversas funções cognitivas que moldaram o homem atual.

Considerando que o homem de heidelbergue era o ancestral que deu origem aos neanderthais e aos Homo sapiens é perfeitamente possível que o cruzamento entre espécies ocorra, ainda mais evidenciado com trechos de genes.

Em uma entrevista a Scientific American o arqueólogo João Zilhão defende que neanderthais e seres humanos tinham as mesmas aptidões cognitivas.

Os neanderthias ocuparam a Europa por mais de 200 mil anos e tinham sociedades bastante complexas e alto grau de sociabilidade, comunicação e até expressões simbólicas e tecnológicas. Com o uso de rituais fúnebres, confecção de colares com resina e ferramentas sofisticadas até mesmo parecidas com a dos humanos arcaicos se é que não houve troca de tecnologias entre as duas espécies.

Apesar de suas características anatômicas visualmente distintas sua capacidade cognitiva era igual ou até mesmo superior a nossa. De fato alguns pesquisadores, (contrariando as evidencias moleculares) sugerem que neanderthais e Homo sapiens na verdade são a mesma espécies, porém com ecotipos diferentes (variações geograficas conhecidas vulgarmente por raça). Sendo o neanderthal uma variedade de Homo sapiens que foi assimilada pela nova população que dominou a Europa.

É possível que essas espécies tenham trocado genes uma vez que compartilham trechos genéticos idênticos e rastreáveis, ou ainda por que a semelhança é tão grande que alguns sugerem ser uma única espécies e o que sabemos sobre a anatomia desses hominídeos, que eles possuem o mesmo ancestral em comum e semelhanças cognitivas bastante expressivas.

Como ocorre em alguns animais é possível que essa relação entre duas espécies diferentes possa gerar descendentes dependendo do grau de distanciamento genético, ou até mesmo se uma espécies-anel (veja aqui:  FÊMEA IRLANDESA DEU ORIGEM A URSO POLAR DA ATUALIDADE, DIZ ESTUDO) não fazia essa comunicação genética entre essas duas populações.

Essas novidades ainda não são consolidadas pela ciência embora já haja evidencias que demonstrem genes de ambas as espécies em alguns indivíduos.

Desde a descoberta do primeiro fóssil de neanderthal em 1856, essa pode ser uma das maiores descobertas da evolução humana. Talvez tão surpreendente quanto a extinção desses hominídeos.

Segundo a proposta mais tradicional o Homo sapiens fez o seu primeiro contato com neanderthais há pouco mais de 40 mil anos e levo a extinção desses hominídios 15 mil anos depois.

É sabido também que os neanderthais sobreviveram em era glaciais entre 65 e 25 mil anos atrás uma era do gelo castigou a Europa e tôo o mundo e isso pode ter sido um fator agravante na população dessa espécie. O problema desta proposta é que o neanderthal já havia passado por outras eras glaciais muitos milhares de anos antes e não justifica porque eles pereceriam justamente nesta ultima.

O que pode estar relacionado a extinção dos neanderthais não foi a era do gelo em si mas o seu efeito sobre a paisagem na qual ele se encontrava. A instabilidade climática leva a oscilações abruptas na ecologia e nos domínios de natureza, substituição de renas por rinocerontes na Europa, plantas começam a desaparecer. Essas mudanças rápidas exigem uma novo estilo de vida em um espaço de tempo muito curto. Um estudo de locomoção feito na Universidade de Wisconsin-Madison mostrou que a locomoção do neanderthal exigia 32% mais energia do que o homem moderno. Em uma situação fractária e instável e com uma demanda de 100 a 350 calorias diárias o neanderthal se torna insustentável.

É possível que diante de uma variedade de ecotipos numa população de neanderthal alguns indivíduos possam sobreviver embora esse gargalo genético possa comprometer a variabilidade da espécie e torna-lá frágil e fractaria em combates com novas espécies dominantes como o Homo sapiens.

Scritto da Rossetti

Palavras chave: Netnature, Rossetti, Neanderthal, Homo sapiens, Evolução, Homo Heidelberguensis, FOXP2.

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 Para saber mais

Análise parcial de genoma confirma cruzamento enter homem moderno e Neandertal 

O homem de Neandertal pensava como nós?

Encontros amorosos entre sapiens e neanderthal 

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