DESCARTANDO A COMPLEXIDADE IRREDUTÍVEL DO DESIGNER INTELIGENTE.

Discutir criacionismo e evolução é chato. Isso porque o assunto é essencialmente a diferença entre ciência e evolução. Se não é possível aceitar a diferença entre ciência e religião não há como ter um debate rico intelectualmente (veja: DEFINIÇÕES SOBRE CIÊNCIA E RELIGIÃO. CONCEITOS BÁSICOS PARA UMA DISCUSSÃO INTELECTUALMENTE RICA)

Michael Behe teve sua proposta da complexidade irredutível descartada em 2005 em Kitzmiller v. Dover Area School District. A corte entendeu que a alegação da complexidade irredutível de Michael Behe foi refutada em trabalhos de pesquisa revisados. Ele foi rejeitado pela comunidade científica em geral já que nunca foi encontrado um exemplar na natureza que combinasse com a complexidade irredutível.

A complexidade irredutível segundo o livro A Caixa preta de Darwin de Behe alega que alguns sistemas bioquímicos são irredutivelmente complexos. Isso significa que a remoção de uma das partes destrói a funcionalidade de todo o sistema. Portanto, a complexidade irredutível elimina a possibilidade de um sistema ter evoluído, portanto só pode ter sido obra de um designer inteligente.

Existem muitos criacionistas que cientificamente não encontram uma forma de provar a existência da complexidade irredutível e acabam buscando constantemente e obsessivamente provar que a evolução é uma proposta que não nos serve. Ora, a evolução não é inútil como a complexidade irredutível e muito menos infundada. Ela esta presente em nosso cotidiano.

Obviamente que a complexidade irredutível é abraçada pelos criacionistas, o criacionismo mascarado, ou seja, da tentativa de fazer do cristianismo uma ciência. Portanto, a negação do darwinismo é feita primeiramente não porque cientificamente é infundada. Há mais de 150 anos de publicações de artigos científicos evidenciando sistematicamente a evolução. A negação é com base primeiramente no dogma religioso da criação, que está ferido a mais de 150 anos (considerando que Aristarco já dizia que a Terra girava em torno do Sol e não era o centro do universo conforme pregava o cristianismo) . O que de certa forma é uma grande besteira, uma vez que a criação de Genesis é claramente um texto simbólico, metafórico e que erroneamente é interpretado como literal. Assim, prega-se o absurdo da criação do universo e desses sistemas bioquímicos complexos em míseros 6 dias.

Vejamos o caso do criacionista William Dembsky autor de The Design Inference. A negação do darwinismo é feita nao com base cientifica mas com base religiosa, porque fere a formação religiosa dele.  Antes de ser um cientista Dembsky tem uma formação religiosa forte que reflete até em sua vida academica. Ele foi professor de Teologia e Ciência no Southern Baptist Theological Seminary em Louisville, Kentucky, o primeiro diretor do novo Centro para Teologia e Ciência da escola e Ph.D. em filosofia e mestrado em divindade pelo Seminário Teológico de Princeton e assumidamente cristão ortodoxo praticante. Me parece obvio que um teólogo cristão negue o naturalismo darwiniano não por razões cientificas mas antes de tudo, dogmáticas.

Esse descarte da complexidade irredutível em 2005 foi feito porque não foram apresentadas provas concretas que evidenciem a principal proposta criacionista. A evolução tem em seu favor evidências, contribuindo com a proposta de Darwin.

Behe falha em alguns pontos de sua argumentação quando diz que um sistema irredutivelmente complexo não pode ter surgido pela evolução.

Partes isoladas da maquinaria molecular do flagelo das bactérias funcionam isoladamente tendo outras funções, ou funções debilitadas.

A irredutibilidade de um sistema pode ser alterada quando uma de suas partes for removida, o que demonstra que um sistema não pode ter evoluído pela adição de partes prontas, mas talvez pela deleção de trechos, adição de múltiplas partes, por exemplo, a duplicação de grande parte ou da totalidade de um sistema ou ainda a exaptação deles (mudanças de funções).

Esses mecanismos já são evidenciados em literatura cientifica e respaldados por mutações genéticas, incluindo a deleção e duplicação genética que são relativamente comuns.

Usemos um outro exemplo. Partimos da idéia de que o flagelo é complexo o suficiente para ser criado ou não pela evolução. Isso porque o flagelo bacteriano é um tubo oco com composto pela proteína flagelina de forma helicoidal, com uma dobra à saída da membrana celular  que faz com que a hélice fique virada para o exterior da célula.

O flagelo bacteriano é ativado por um motor rotativo composto de proteínas, localizado no ponto da membrana interna onde o flagelo tem a sua origem, e é movido por um fluxo de prótons causado por um gradiente de concentrações originado no metabolismo da célula que transporta esses elementos através da membrana e promove movimentações capazes de operar em até 17.000 rpm.

Bem, se pensarmos nos componentes moleculares que formam este flagelo veremos que ele não parece ser tão complexo quando comparado com uma perna.

Uma perna é formada por um conjunto de ossos, como as células osteoblastos, e deposição de cálcio. Na perna há um conjunto de fios que medem e informam ao cérebro a força necessária para se movimentar.

Ainda há um conjunto de mais de 12 músculos (na região anterior há o Tibial Anterior, Extensor Comum Longo dos Dedos, Extensor Próprio do Hálux Longo, Fibular Anterior Terceiro. Na região Lateral o Fibular Longo, Fibular Curto. Na região Posterior, o Gastrocnêmio Medial, Gastrocnêmio. Na região lateralo Solear ou Sóleo, Plantar Delgado, Camada Profunda, Poplíteo, Flexor Comum Longo dos Dedos, Flexor Longo do Hálux, Tibial Posterior) que suportam nosso deslocamento. Para a movimentação desses músculos é preciso uma central coordenadora que se chama encéfalo, que faz o controle da movimentação desta perna e seu equilibro.

Na perna a musculatura se contrai e relaxa graças aos comandos do cérebro pela necessidade de se movimentar.

Para se movimentar, o encéfalo informa a placa motora dos músculos da perna através de neurônios do sistema nervoso central e periférico.

Para ocorrer a movimentação o cérebro envia o comando de movimento pelas vias aferentes até a placa motora que estimula o contato sensorial liberando acetilcolina que se liga a receptores nicotínicos dos músculos abrindo canais de cátions gerando potenciais de ação na fibra muscular.

Esse potencial de ação, se propaga até os túbulos T, abre canais de Ca++ na membrana entrando no Reticulo Sarcoplasmático. A entrada de Ca++ no citosol libera o sítio ativo da actina que se liga as cabeças de miosina deslizando os filamentos em movimento de catraca ocorrendo assim a contração muscular. A complexidade da perna é maior que a de um flagelo porque não é um complexo unicamente molecular, mas anatômico, cerebral e molecular.

Se o flagelo bacteriano serve como exemplo de complexidade irredutível, a perna humana também deveria servir, assim como o faro apurado de um cão graças a seu peculiar sistema olfativo, o metabolismo das Sinecoccoccus, a bioquímica mitocondrial, e tudo que tiver alguma ligação química.

Se considerarmos que cada caso é uma evidencia de que há um designer inteligente que criou todos esses milhões de sistemas complexos em 6 dias então estamos reduzindo todas essas peculiaridades ao nível banal.

Dizer que um sistema bioquímico complexo é evidencia de designer inteligente é substituir um mistério por outro. Sob essa alegação poderia dizer que meu sapato é preto não porque foi confeccionado assim, mas porque o designer assim o quis. Assim, qualquer resposta que procuramos, por mais necessária ou medíocre que seja encontra respaldo no reducionismo do designer inteligente.

Outra falha no raciocínio de Behe é que se a evolução esta errada então o criacionismo é automaticamente válido.

Não é assim que se faz ciência. Descartar evolução ainda precisa provar que o criacionismo tem explicações melhores. Mesmo se hoje descobríssemos evidencias do designer inteligente como ciência ele não passaria de um paradigma. Um paradigma só substitui outro quando explica mais e melhor o que o anterior explicava. Mas para tal, precisa ser provado, evidenciado no universo da ciência.

Mas o criacionismo não é aceito como ciência, não há departamentos científicos financiados pelo governo que faça pesquisas sobre a existência ou não do designer inteligente. De fato, até nos EUA, país essencialmente cristão o único museu criacionista criado foi feito com dinheiro particular, de uma entidade criacionista. Isso demonstra que mesmo que a evolução seja descartada, a ciência ainda vai embasar-se em outra proposta cientifica para explicar a evolução da vida.

A evolução da vida não é uma proposta de Darwin. Ele apenas descreveu um mecanismo que promove essa transformação. Charles Lyell era evolucionista embora não concordasse com a proposta de Darwin e sim por outros meios. Lamarck era essencialmente evolucionista, mesmo que sua proposta explicativa seja absurda aos olhos atuais O filosofo Anaximandro tinha propostas naturalistas bastante parecida com a de Darwin. Quem não garante que na antiga biblioteca de Alexandria não havia propostas como a de Darwin? Ela foi destruído pelo cristianismo primitivo evidenciado no filme Alexandria (veja: ALEXANDRIA. CRÍTICA DO FILME).

Outra falha de Behe é que alguns sistemas escolhidos por ele não são essencialmente complexos irredutivelmente. Muitos deles podem manter sua função, apesar de não tão bem, sem várias de suas partes, a ratoeira por exemplo. Até mesmo um flagelo bacteriano pode continuar sendo usado como propulsor mesmo sem algumas partes de suas proteínas. Isso ocorre em algumas proteínas do flagelo de eucariotos (também chamado cilium).

O sistema imunológico que Behe cita também apresenta falhas. Doenças auto-imunes podem exemplificar isso muito bem. Sistema imunológico funcionando perfeitamente bem inclusive contra o próprio corpo. Veja o exemplo da esclerose múltipla, do vitiligo, problemas em articulações e etc. O Olho já não pode ser visto como um exemplo de complexidade irredutível uma vez que a sua evolução já vem sendo bastante evidenciada (veja: A FASCINANTE EVOLUÇÃO DO OLHO) e cotidianamente vemos artigos científicos suportanto essas propostas (veja: LOS OJOS COMPLEJOS SE REMONTAN A MÁS DE 500 MILLONES DE AÑOS e também LULA-GIGANTE DETÉM O TÍTULO DE MAIOR OLHO DO MUNDO).

Existe uma tendência muito forte no cristianismo evangélico de se negar a evolução e justificar-se usando a ciência. Os cientistas cristãos fazem do darwinismo um alvo (mesmo que utópico) a ser derrubado pelo simples fato de que a proposta é naturalista e não mística. Os cientistas que realmente podem apresentar argumentos validos e coerentes opostos ao darwinismo são aqueles que não são cristãos e nem darwinistas. Sem o oportunismo místico existe um debate coerente sob as bases da evolução.

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TEDEÍSMO

O tedeísmo é a grande chave do debate criacionismo e biologia evolutiva. Isso porque o tedeísmo é justamente a tentativa de fazer da religião uma ciência. Interpretar a proposta da complexidade irredutível como evidencia de uma mente superior sobrenatural.

O que não é possível, a ciência trabalha com metodologias cientificas e verdades temporárias chamadas paradigmas. A religião trabalha com verdades dogmáticas, absolutas. Assim, no criacionismo a ciência perde seu valor e a religião perde foco para o cientificismo especulativo.

No caso de Behe é ainda mais interessante porque logo no inicio de seu livro A caixa preta de Darwin ele justamente mostra essa perda de foco bastante comum nessa mistura inconsequente.

Behe propõe a idéia do criacionismo como ciência embora claramente não veja o designer inteligente como um paradigma e sim uma verdade absoluta e perde o foco da sua posição religiosa uma vez que alega “Acho a idéia de ascendência comum (que todos os organismos tiveram um mesmo ancestral) muito convincente e não tenho razão particular para pô-la em duvida” embora concorde claramente com a evolução Behe expressa seu ceticismo em relação a idade da Terra “…a Terra foi formada há apenas dez mil anos, uma interpretação Bíblica ainda muito popular.”

Caixa preta de Darwin pagina 15

Aqui, retorno ao inicio deste texto ao afirmar que a grande discussão que envolve a criação e a biologia evolutiva esta na incapacidade que as pessoas tem de separar ciência de religião, dogmatismo e paradigmas, misticismo e empirismo. O tedeismo criacionista é infundado porque não segue uma linha de raciocínio especifica, não opta entre a ciência ou a religião e portanto não tem um sistema de construção de conhecimento, é ambíguo, cessa por si mesmo, uma vez que fornece indícios auto-destrutivos. Como um cão que corre atrás do próprio rabo.

Scritto da Rossetti

Palavras chave: Netnature, Rossetti, Complexidade irredutível, flagelo bacteriano, sistema imunológico, evolução do olho, criacionismo.

7 thoughts on “DESCARTANDO A COMPLEXIDADE IRREDUTÍVEL DO DESIGNER INTELIGENTE.

  1. haha…já que tudo eh cientifico confesso que não achei nada cientifico nesse artigo que descartasse o design inteligente… Já ouviu falar na pergunta: o que veio primeiro, o DNA ou a proteina?? isso pra mim é um belo de um processo de complexidade irredutivel ja que sem proteina não teriamos DNA e sem DNA não teriamos proteina….legal neh…

    • Já ouviu falar em biopoese e artigos científicos sobre o assunto? Já ouviu falar em mensuração, empirismo, experimentação e falseamento? É por isso que DI não é ciência.
      Se é complexidade irredutível porque não foi aceito em 2005? Se existe complexidade irredutível porque nem essa questão do DNA/Proteína comprova o tal DI como uma ciência legítima?

      Então quando não sabemos quem veio primeiro, enfiamos Deis no meio e a questão esta resolvida em um God-of-the-gaps?
      Isso é ciência?

      • Entao vc acha que elementos químicos ao acaso se combinaram e formaram o DNA? A probabilidade disso é ZERO! Mesmo em laboratório, com equipamento Hi-tech e cientistas capacitados isso foi dificil, e criar proteina nao é criar vida, esta milhoes de anos luz longe disso.
        Uma simples bacteria armazena mais de mil enciclopedias em informação, como uma coisa não-inteligente da origem a uma coisa inteligente?
        Nao é enfiar Deus no meio quando não sabemos, é procurar sabe dos fatos! Abra a mente !!

      • Se voce presume que o DNA surge do nada pronto sem estagios evolutivos distintos realmente é zero. Sugiro que leia artigos da biopoiese pois voce esta apresentando um discurso de quem nao conhece a proposta da ciência.

  2. sério, entrei procurando detalhes científicos provando que o flagelo pode ter vindo do acaso, e encontrei comparando eles com uma perna.

    sério isso?? perna tem mancais?? hélices?? eixo?? motor??

    resumindo: é uma máquina literalmente

    corrige a matéria aí, porque a corte de 2005 não julgou com provas, argumentos e etc… alegaram que foi rejeitado pela comunidade em geral(mesmo com argumentos do tipo dessa matéria), não mostraram argumentos comprobatórios na corte que desmantelasse a Complexidade Irredutível. Nem de longe fizeram isso.

    ou seja, Complexidade Irredutível é completamente fora dos padrões do Evolucionismo, isso é fato, basta ver as explicações sobre o Flagelo… seria melhor falarem que não tem a menor ideia de como surgiu.

  3. Obrigado ao pessoal da página pelas belíssimas explicações. Saio mais convencido da existência de Deus e de seu imenso poder. Obrigado mesmo e que Deus continue abençoando vocês!

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