O HOMEM QUASE FOI EXTINTO (comentado)

Quando sobram poucos indivíduos de uma espécie, ela é listada como ameaçada de extinção. É o caso do tigre-asiático e do mico-leão-dourado. Agora, um grupo de cientistas descobriu que nós também passamos perto da extinção.

Essa descoberta é um subproduto do sequenciamento completo do genoma humano. Mas como é possível decifrar nossa história analisando a sequência de nosso genoma?

Imagine um saco contendo 100 bolas, 25 vermelhas, 25 amarelas, 25 azuis e 25 verdes. Imagine agora que cada uma dessas bolas se divida a cada 24 horas, dando origem a duas bolas da mesma cor que a bola mãe.

Ao longo do tempo, a população de bolas no saco vai aumentar, mas a proporção entre as bolas vai se manter. Se um número pequeno de bolas “morrerem” (forem tiradas do saco), a proporção entre as cores pode mudar um pouco, mas deve se manter aproximadamente a mesma.

Imagine que, em dado momento, exista uma mortandade em massa dessas bolas e que só sobrem duas bolas dentro do saco. Essas duas podem ser da mesma cor ou de cores diferentes – de qualquer maneira, duas das quatro cores deixarão de existir. Imagine agora que depois desse evento catastrófico as bolas continuem a se reproduzir.

Anos depois, examinemos o saco. Vamos encontrar somente duas cores, descendentes dos poucos indivíduos que sobreviveram à catástrofe. Esse efeito é o que os geneticistas chamam de “efeito fundador”, ou seja, uma redução drástica na diversidade genética (o número de cores existentes) de uma população resultante de um afunilamento brutal do número de indivíduos da população em algum momento do passado. Quando o “efeito fundador” é detectado, podemos deduzir que a espécie, por um período, teve pouco indivíduos e portanto correu o risco de ser extinta.

Na verdade, a genética humana é mais complicada, pois não existe somente uma característica (cor), mas milhões delas. Além disso, como a reprodução é sexual, as características se misturam a cada geração. E, o que é importante para esse tipo de análise, surgem novas variantes de cada característica ao longo do tempo (é como se de vez em quando uma bola vermelha tivesse um filho mutante cor-de-rosa, dando origem a uma subpopulação de bolas rosas). O importante é que, analisando o genoma completo de diversos indivíduos e assumindo a duração de cada geração e a taxa de mutação (com que frequência surge uma nova variável, como a bola rosa), esse novo método permite estimar o tamanho da população em cada momento do nosso passado.

Funil. Foi isto que os geneticistas fizeram, utilizando os genoma humanos já sequenciados, que incluem pessoas da Ásia, da Europa e da África. Assumindo que o intervalo de tempo entre as gerações é de 25 anos e que a frequência do surgimento de uma nova variedade genética é de 2,8 x 10 – 8 por geração por base de DNA, foi possível construir um gráfico do número de indivíduos que contribuíram para a diversidade atual de nossa espécie.

O resultado mostra que, há 5 milhões de anos (quando nossos ancestrais ainda eram macacos), a população era grande, mas foi reduzida rapidamente para 100 mil indivíduos por volta da época do surgimento do Homo sapiens, há aproximadamente 300 mil anos. Depois, cresceu novamente. O grande funil ocorreu faz 20 mil anos, quando a população efetiva foi reduzida rapidamente e somente mil pessoas (as duas bolas que sobraram no saco) ficaram vivas. Foram somente essas mil que deram origem a todos os 7 bilhões que somos hoje. Se essas mil pessoas também tivessem morrido, hoje o Homo sapiens não existiria.

Esse resultado vai ser refinado, à medida que um número maior de genomas forem sequenciados. Mas caso essa descoberta se confirme, ela significa que, em um momento relativamente recente, alguns milhares de anos antes de surgirem as primeiras cidades e a agricultura, nossa espécie correu um risco real de ter desaparecido. Se isso tivesse ocorrido, nosso destino teria sido o mesmo de 99% das espécies que já habitaram o planeta – e estaríamos fazendo companhia aos dinossauros. A questão é: que espécie estaria administrando o museu em que nossos esqueletos fósseis estariam expostos?

BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: INFERENCE OF HUMAN POPULATION HISTORY FROM INDIVIDUAL WHOLE-GENOME SEQUENCES. NATURE, VOL. 475, PÁG. 493, 2011

 

Fonte: Estadão 

 

Resenha do autor

Essa é uma nova pesquisa bastante interessante, afinal o resultado indica que passamos por dois gargalos. Este ocorrido a 20 mil anos atrás e um logo no inicio da espécie humana.

Nossos antepassados surgiram e na África a pouco mais de 195 mil anos atrás. Naquela época o clima ameno e a comida abundante fazia o custo de sobrevivência ser fácil. Mas pouco depois disso a vida começou a mudar, por volta de 195 mil anos atrás as condições se deterioraram e o planeta entrou em uma longa era glacial conhecida como Estágio Isotópico Marinho que se estendeu até cerca de 125 mil anos atrás. Uma era fria e árida com desertos muito mais extensos que os atuais.

ALTO E SECOPara encontrar sítios arqueológicos que datam do estágio glacial 6 foi necessário procurar abrigos que estivessem bastante próximos do mar para permitir o acesso relativamente fácil aos mariscos; embora elevados o suficiente para que seus restos antigos não tivessem sido levados pelas águas quando o nível do mar subiu há 123 mil anos. A PP13B e outras cavernas esculpidas na falésia de um promontório denominado Pinnacle Point atendem a essas exigências e produziram uma grande quantidade de vestígios que datam desse momento crítico da pré-história humana.

Na época em que o planeta estava sob esse regime de gelo o número de pessoas caiu drasticamente de mais de 10 mil indivíduos reprodutores para apenas algumas centenas. As estimativas de quando ocorreu exatamente este gargalo populacional e sobre o reduzido tamanho dessa população variam entre os diversos estudos genéticos, embora todos tenham indicado que os seres humanos vivos hoje são descendentes de uma pequena população que habitou uma região da África durante essa fase de resfriamento global.

Os indivíduos que viveram a era do gelo se alimentavam então de proteína de alta densidade calórica ricas em nutrientes encontradas em mariscos, e carboidratos com poucas fibras bastante energético encontrados em geófitos.

A costa sul da África teria fornecido uma dieta ideal para os primeiros homens modernos
durante o estágio glacial 6.

As mulheres poderiam obter esses dois recursos por conta própria, livrando-se da dependência de homens para o fornecimento de alimentos de alta qualidade.

Os sítios paleontológicos e arqueológicos dessa idade raramente preservam vestígios orgânicos embora sítios mais jovens da área contenham amplas evidências desse tipo de consumo.

Foi encontrado evidências claras dos mariscos como alimentação. Estudos conduzidos por Antonieta Jerardino, da Universidade de Barcelona, mostrou conchas encontradas no sítio e que mostram que essas pessoas coletavam mexilhões e caracóis marinhos da beira-mar. De vez em quando, também consumiam mamíferos marinhos, como focas e baleias que eventualmente encalhavam.

Antes, os exemplos mais antigos conhecidos de seres humanos que usavam os recursos marinhos sistematicamente datavam de menos de 120 mil anos atrás. As novas análises de datação realizadas por Miryam Bar-Matthews, da Geological Survey de Israel, e por Zenobia Jacobs, da University of Wollongong, na Austrália, revelaram que os homens deste sitio viviam do mar muito antes que se esperava. Esse estudo, como a citado na reportagem acima também foi publicado na revista Nature em 2007. A alimentação marinha na área remonta a impressionantes 164 mil anos. Há 110 mil anos, o cardápio se expandiu, incluindo outras espécies, como lapas e mariscos.

Esse novo gargalo de 20 mil anos parece ter sido bastante severo também embora ainda não se tenha dados de sua origem.

 

Referências.

Marean W. C;Scientific american.Quando o Mar Salvou a Humanidade. ED: Setembro 2010.

 

Scritto da Rossetti

Palavras chave: Rossetti, Netnature, gargalo, evolução humana, Homo sapiens.

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