UMA ANÁLISE CIENTÍFICA E CONCEITUAL DO LIVRO CRIACIONISTA “QUANDO TUDO É UMA CRIAÇÃO”. Parte III

Seguindo a perspectiva da analise do livro, abordamos criticamente o conceito de realidade proposto pelo autor e a proposta teológica da criação do universo segundo Gênesis “amaciada” com especulações do que seria a ciência da criação.

Aqui no Capítulo 3 que trata do nascimento de Deus. Seguindo o que foi proposto no capitulo anterior fica evidente que estamos tratando de uma questão puramente teológica e não científica. O autor propõe que “...no 1ª universo onde mora os anjos não há as mesmas propriedades físicas que há em nosso universo atual (2° universo)…”

Uma proposta que segue o previsto, um conceito puramente teológico desprovido de mensuração científica já que recorre ao sobrenatural, incalcançável aos olhos da ciência. Sobre essa interpretação o autor segue em “Deus está em um estagio ainda mais simples que o estagio da imatéria, ele é apenas a consciência inicial. e dentro do estagio inicial onde está Deus há a inexistência de todos os fatores Físicos.

Deus em um estágio que não imaterial, submaterial ou material, descartado dos fatores físicos, portanto inalcançável a ciência. Até o vento que não vemos é alcançável aos fatores físicos. Sob essa perspectiva e abordando o conceito de sagrado, ou santo o autor refere-se a origem e existência de Deus segundo “…foi exatamente do nada que passou a existir Deus, e Deus que é o 1° e também o ultimo, mas Deus nunca Será a inexistência… só Deus poderia nascer do nada…”

Aqui fica claro que o suporte da origem e existência de Deus é dado pela fé. Até o Big Bang que foi resultado de um evento quântico é respaldado por evidências físicas. Até os universos multiparalelos inacessíveis ao homem são teoricamente evidenciados pelas leis da física. O que o autor propõe a geração espontânea de Deus a partir do nada. Conceito criado por Anaximandro 400 anos antes no nascimento do próprio Cristo.

Sob outros aspectos ao analisar “Se alguém perguntar a você quem criou a Deus, Explique sem medo, Deus é tão simples que nasceu do nada.” Essa simplicidade poderia ser então a causa da explicação da complexidade do universo? Sob o ponto de vista físico o próprio Hawking mostra que simples regras como a do Jogo da Vida podem gerar resultados complexos. Aqui então não se encerra o assunto, pois se a simplicidade de Deus gera a complexidade do Universo também já foi demonstrado que fisicamente isso ocorre. Não estou propondo a explicação científica como um Deus criador, mas estou dizendo que sob pontos de vista distintos cada sistema tem e deve ter argumentos que sustentem tal proposta. Cabe a cada um deles não misturar.

Até mesmo em biologia isso ocorre, a seleção natural é uma explicação puramente simples e lógica, é um mecanismo que ao longo de milhões de anos pode explicar tanto a complexidade quanto a simplicidade de um organismo uma vez que não tem como objetivo a complexidade e sim apenas manter vivo os aptos. E já se sabe que aptidão não é sinônimo de complexidade, assim como evolução não é sinônimo de melhoria e sim de transformação. O autor sob certos aspectos corrobora a proposta de Darwin embora reconheça que o tempo hábil para tal processo é infinitamente reduzido.

Sob o aspecto teológico cristão “…só existimos pois Deus existe, e sem Deus não podemos existir. na verdade”. Talvez o contrário ocorra, sendo Deus uma criação humana a sua imagem e semelhança. Se não houvesse o homem não haveria quem venerar a Deus. O conceito de Deus é estritamente humano.

Uma reportagem que saiu este ano pode mudar a afirmação de que “…na verdade nenhuma matéria pode surgir do nada, nem sequer suas subdivisões ou até mesmo a própria anti matéria…”Isso já foi discutido em alguns textos e reduzo esta explicação a uma única matéria (Ver: PARTÍCULAS PODEM SER CRIADAS A PARTIR DO VÁCUO) Entretanto em “…a imatéria não poderia ser o começo. como a teoria do big bang termina dentro do 3° estagio da existência (matéria)…” e seguindo o raciocínio religioso do autor o Big Bang não se encaixaria nunca nessa concepção, pois a subdivisões do imaterial como sendo a base para o universo divino não se encaixam ao universo material. Isso se ocorrer mesmo, pois o próprio autor afirma “… que é necessário mais estudos para poder provar na pratica a existência da imatéria e da sub-matéria uma vez que a principio o mesmo não passa de uma teoria baseada na percepção de fatores diversos de uma ciência mais ampla dentro dos fatos.” E o que é mais incoerente é tentar encaixar a proposta do Big bang dentro do mito cristão da criação. Vale lembrar que o Big Bang não é a origem do universo, e sim o inicio de sua evolução. A origem do universo é um evento quântico que vem sendo mais conhecido e respaldado pela física clássica e de partículas embora ainda não em sua plenitude.

No Capítulo 4 o autor refere-se a criação do segundo universo, ou seja o nosso universo e não mais o divino. “ Uma pessoa uma vez me disse que a criação é um mistério que só pela fé deve ser aceito sem contestação… é muito comum em muitos grupos religiosos Cristãos, e é universal e indiscutível… espero que Deus lhe mostre que o permanecer na ignorância é pior do que crer na mentira da ciência que tenta dia a pois dia dizer que Deus não existe.

O foco da ciência não é mostrar que Deus não existe, somente demonstrar que sob o ponto de vista cientifico ele não é observável. Essa alegação soa até como uma teoria de conspiração, como já li em alguns sites criacionistas.

Sinceramente, sob a minha posição pessoal não faz sentido algum provar a inexistência de Deus, o que faz mais sentido é mostrar que o criacionismo jamais será uma ciência.

De fato a criação é realmente um mistério sim. Assim como o filosofo Paulo Ghiraldelli tem demonstrado que em certos pontos a religião vem “emburrecendo” as pessoas, não permitindo que elas vejam o contexto simbólico e metafórico por trás de livros como Gênesis ou Apocalipse. A bíblia é um texto moral e não literal. Ela dita as regras segundo um grupo de divindades, e o que eles exigem da humanidade para que ganhemos o reino dos céus. Assim como o cristianismo exige um ritual tradicional o islamismo também o faz, como orar 5 vezes ao dia em direção a Meca.

O fanatismo e a literalidade de algumas pessoas impede-as que consigam fazer uma simples interpretação de texto. Seria interessante ver por exemplo uma pessoa como essa interpretar A metamorfose de Kafka na forma literal.

Seria o homem capaz de se tornar uma barata gigantesca ou o texto refere-se a uma metáfora de transformação sócio/histórico e cultural? Para um criacionista que aplica sua literalidade em todos os campos certamente o homem se transformaria em baratas gigantes, ou viveria dentro da barriga de um grande peixe, abriria um mar ao meio.

Obviamente que isso não acontece com Kafka pelo simples fato de que Kafka não é um mártir revolucionário político como foi Jesus Cristo. Se no conto mitológico do grande peixe a bíblia citasse que Jonas encontrou Gepeto, o pai de pinocchio, dentro do animal certamente Luigi Comencini seria um profeta ou um mártir cristão.

Assim, quando o autor cita “… vou apresentar a teoria mais comum sobre a formação da terra sobre o ponto de vista Bíblico e a criação da terra e do universo através da ciência.” refere-se literalmente a um reducionismo extremo, em que a complexidade dos sistemas biogeoquímicos da Terra são reduzidos a uma origem pela vontade divina, novamente incompatível com o que se estabelece no conceito e na proposta de se fazer ciência.

Sob certos aspectos o autor parece propor que a junção da ciência com a religião seja feita com a finalidade de resgatar o momento histórico escolástico onde a ciência era limitada pela religião.

Uma interpretação clássica é vista no livro “os ateus usam um processo de criação aleatório muito parecido com o processo de criação bíblico, e adianto a vocês que a única diferença é que em um processo ateu de criação se usa o tempo e a aleatoriedade para substituir a Deus. Entre outras palavras , aleatoriedade mais tempo são iguais ao poder de Deus.”

Existe essa interpretação de que todo cientista é ateu. Em uma entrevista dada a revista veja o co-autor do livro O grande Projeto junto de Hawking, o famoso Leonard Mlodinow na interpretação sobre a física quântica por trás do conceito de multiverso. Apesar disto Mlodinow não é ateu embora sua interpretação de Deus tenha uma característica Einsteiniana. Ele descreve muito sobre a aleatoriedade.

Não é preciso ser ateu para ser cientista, o que se precisa é saber separar a ciência da religião, a busca de conhecimento e a busca do reino dos céus.

A aleatoriedade não se apresenta jamais como um mecanismo semelhante a Deus pelo simples fato de que sob o ponto de vista teológico Deus é uma entidade sobrenatural cuja onisciência, onipotência, onipresença e também sua bondade é perfeita portanto se sobressai aos olhos humanos.

A aleatoriedade é o contraposto dessa proposta,  é utilizada representa a quebra de ordem ou sequencia e até mesmo no propósito de algo, a quebra da causa e detrimento ao favorecimento da imprevisibilidade. O resultado não descreve um padrão e sim uma questão probabilística e que não recorre ao sobrenatural. Novamente retomamos aqui o exemplo de todos os multiversos possíveis sob a concepção da teoria-M.

Quando vemos afirmações do tipo “Pode parecer um abuso o que vou falar agora, mas a verdade é que os ateus, usando o nome da ciência, fizeram um plagio da criação do livro de Genesis, e com esse plagio, tentam dizer que Deus não existe, e que as coisas que estão na bíblia sejam uma mentira…” claramente vemos que o argumento se segue pela emoção e não pelo raciocínio. Isso porque as coisas que estão escritas na bíblia não são mentiras. O que esta ali escrito é simplesmente metafórico e não explicitado.

A questão é, qual a interpretação correta por trás dessas passagens? Uma lição de moral certamente, uma vez que estabelece um conjunto de regras de bom convívio, entre as pessoas segundo a visão de um deus em particular, o Deus cristão.

Outra questão é a falácia de acreditar que a ciência plagiando a religião. Em nenhum momento a ciência diz que o universo tem 6 mil anos, que tudo foi criado pela simples vontade divina. Isso é uma interpretação cristã. A proposta científica diz que o universo tem aproximadamente 13,7 bilhões de anos e que sua origem foi um evento quântico que desencadeou um processo de expansão e evolução do universo denominado Big Bang.

Existe uma digressão clara entre os dois pontos de vista, um estritamente divino, portanto teológico e outro puramente materialista, cientifico e metodológico.

Plagiar é tentar fazer do sistema teológico cristão uma ciência metodológica, onde se encaixa perfeitamente a concepção de criacionismo.

Sob essa concepção o espiritismo (que também é considerado uma pseudo-ciência em pé de igualdade ao criacionismo) trás uma história mais original.

Embora os espíritas digam que sua doutrina é uma ciência e não uma religião ela surgiu um contexto sócio/cultural na qual a ciência teve seu maior prestigio, o período moderno, principalmente no século XIX quando Allan Kardek motivado pelo contexto científico do momento tentou adotar partes e conceitos científicos para fundar uma nova doutrina.

O que o criacionismo vem tentando fazer é mascarar seu componente religioso e atuar como ciência para que suas verdades literais sejam aceitas e difundidas, uma vez que as religiões não disciplinas acadêmicas, escolares (Veja: CONSELHO DO RIO REJEITA AULA DE RELIGIÃO). Isso fica claro nos debates americanos de criacionismo e ciência. Nem mesmo o pais mais cristã, fundamentalista e criacionista aceita o criacionismo como ciência.

Referindo-se a Gêneses o autor cita que“… as estruturas físicas nesse estado não são idênticas as estruturas físicas atuais, é como se pensássemos em água sem seu estado liquido, ou em terra sem seu estado solido… estava tudo esperando ser moldado”. falhas simples ocorrem como; Qual estado da matéria seria então? Se a matéria não existe em sólido liquido ou gasoso seria qual? Como evidenciar essas afirmações a não ser pela fé, a crença sem evidencias materiais e físicas.

Ao comparar inconsequentemente o Big Bang com a criação cristã o autor citaEsse 1° dia da ciência foi feito mais rápido que o 1° dia da bíblia. Pois na bíblia o processo levou um dia inteiro

Note que o primeiro dia proposto pelo autor refere-se ao surgimento do universo a 13,7 bilhões de anos, e que o conceito de dia é uma referencia puramente humana. O dia para nós dura 24 horas e em momento algum a física quântica ou a cosmologia diz que o universo foi criado em um dia, mesmo porque o conceito de dia não cabe ao contexto do Big Bang.

Dias na Terra se definiram a 5 bilhões de anos e com tempos diferentes. É possível que no passado os dias na Terra tivessem um tempo bastante distinto, justamente porque as relações astronômicas entre o planeta e o Sol ainda estavam se estabilizando.

Esse é o preceito fundamental para o conceito de dia e não tem relação alguma para com a criação. Perceba que a uma inversão de valores.

Em Gêneses tudo foi criado em 6 dias, e o sétimo para descanso, em cosmologia a origem do universo se deu a 13,7 bilhões de anos. Comparando a dinâmica da criação do universo e das formas de vida com 6 dias e 13,7 bilhões de anos poderíamos dizer que segundo o livro sagrado tudo surge de geração espontânea. Obviamente que sob o ponto de vista dos filósofos como Demócrito, Anaximandro e até mesmo Aristóteles o idéia da geração espontânea pressupunha a existência de algum princípio ativo dentro de certas porções da matéria inanimada. Aqui vemos uma geração espontânea embasada na concepção de Deus e que é claramente evidenciada unicamente pela vontade dele “E esse seu poder é quem cria conforme a sua vontade.”

Assim o autor ainda preconiza similaridades absurdas entre essas idéias. “1°-Matéria sem forma em ambas as teorias apresentadas”. A matéria surge de forma bastante distinta nas propostas. Segundo a religião pela vontade de Deus, segundo a ciência pelos eventos quânticos e a próprio fórmula básica de Einstein. No “2°Luz inicial sem existência de estrelas em ambas teorias” Luz divina ou luz de explosão? A luz divina ocorre quando Deus a separa das trevas e leva consigo uma anacrônia quando comparada com outras interpretações em Gêneses imperceptivelmente ao próprio autor.

No primeiro dia da criação em Gêneses 1. 4 e 5 “Disse Deus: Haja luz; e houve luz.. E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas”. Posteriormente no quarto dia da criação segundo Gêneses 1, 14 “Deus diz: Haja luminares na expansão dos céus, para haver separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para tempos determinados e para dias e anos.” Incoerência na cronologia dos eventos bíblicos. Obviamente que para sanar o problema da cronologia o autor faz uma ressalva dizendo que “…a terra era ainda iluminada por uma luz não provinda do sol, a qual foi criada ao 1° dia”, e também máscara a anacronia de Gêneses em “O quarto processo na ordem científica, seria na verdade o segundo passo. Contudo deve se lembra que para a ciência as estrelas nasceram 1° que os planetas.”

Na terceira comparação “O espaço vazio sem existência de nada em ambas teorias.”

Obviamente que isso ocorreria, ou algo existe ou não existe. Se o universo não fosse criado seja lá por qual evento, tanto em religião quanto em ciência caracteriza-se a inexistência de tudo, ou seja, o nada. Embora do ponto de vista quântico o nada tem um papel importante na criação da matéria sendo evidenciado como ciência e não como criação divina.

Assim como por suposição o autor cita o evento do dilúvio como precursor da atmosfera terrestre “É bem possível que antes do dilúvio a atmosfera terrestre fosse um pouco diferente, pois antes dilúvio pode ter havido uma quantidade de vapor de água muito maior que a atual…”. Sob a concepção do autor que erroneamente entende o criacionismo como ciência propõe que a origem da atmosfera é explicada simplesmente por um único versículo da Bíblia. Gêneses 2 versículo 6Um vapor, porém, subia da terra e regava toda a face da terra.”

Existem diversas teorias sob a origem da atmosfera e um dos melhores autores para explicar e justificar razoavelmente bem esse evento é o ecólogo James lovelock. Não é que a ciência não saiba, a ciência simplesmente não dá facilmente respostas absolutas. Isso reflete justamente a forma com que a ciência trabalha. Verdades absolutas são religiosas, o risco de afirmá-las é alto, como por exemplo o que aconteceu com o modelo do geocentrismo, ou até mesmo como o visto acima a respeito da diferenciação do dia e da noite e a anacronia desses eventos. Existem revistas especializadas em ciência que descreve detalhadamente o processo de formação da atmosfera terrestre (veja: Scientific american Edição especial As formas mutantes da terra por Claude J. Allègre e Stephen H. Schneider).

O autor ainda preconiza igualdade na proposta da origem da atmosfera “O tempo do processo, mas contudo em uma ordem idêntica”. Não há uma ordem idêntica porque o tempo trabalhou com medidas diferentes. No criacionismo utiliza-se a escala arqueológica de no máximo 10 mil anos de idade salvo alguns criacionistas que realmente reconhecer o tempo geológico como superior a 10 mil anos. Em ciência trabalha-se no tempo geológico pelo simples fato de que as evidências dadas pelo decaimento radiativo funcionam como um relógio relativamente preciso.

Em uma segunda comparação supõem se que “A terra captou água,do espaço, e não possuía água nativa como na bíblia apresenta. Só que essa observação da capitação de água do espaço é difícil de se provar, pois se havia tanta água no espaço, por que só a terra absorveu tanta água, e por que no espaço a maioria dos planetas maiores, e com isso com mais gravidade que a nossa não tenhem sua superfície inundada de água ou gelo assim como na terra.

O autor apóia-se aqui na proposta cientifica de que a Terra não tinha água e recebeu-a do espaço, é uma teoria relativamente válida. Há um engano neste ponto, a Terra não é o único planeta do sistema solar que possui água. Isso de certa forma não ajuda em nada, pois a água pode ter chegado nesses planetas de nosso sistema solar através do espaço ou simplesmente a formação do sistema solar permitiu que a água fosse compartilhada durante o processo de formação dos planetas. Recentemente um grupo de astrônomos descobriu que entre Netuno e Saturno existiu um planeta formado unicamente por gelo e que foi expulso de nosso sistema solar por algum motivo. Novas descobertas prometem elucidar melhor a formação de nosso sistema solar.

Em referência ao dilúvio o autor cita “…existe uma especulação de que quando houve o dilúvio bíblico, as águas tenham dividido um único bloco continental em vários blocos formando os continentes atuais…”. Há uma consideração bastante importante a ser feita. O dilúvio não é uma exclusividade cristã, de fato os Sumérios cerca de 1000 anos antes da bíblia ser escrita já falam sobre a mitologia de um dilúvio. Então Utnapishtim, um protegido do deus Enki foi prevenido de um desastre de grandes proporções e instruído a construir uma arca e nela embarcar sua família e um casal de cada um e todos os animais. Possivelmente essa passagem tenha sido cooptada dos sumérios e adaptada a um personagem cristão, Noé. Isso é notado até mesmo pelo autor embora não expondo o mito do dilúvio como criação suméria. O próprio autor admite que Abrahão vivia em uma cidade que anteriormente havia sido criada por sumérios “Pois Abrahão o patriarca apresentado na bíblia viveu em uma cidade Sumérica…”

Ainda sim o autor considera o dilúvio é visto como um evento tectônico pelos criacionistas “Esse movimento tectônico seria o maior terremoto já registrado em toda a face da crosta terrestre, e teria ele destruído a todos os seres vivos da terra.” O evento do dilúvio nem sequer foi um terremoto e sim uma manifestação divina, claramente vista na teologia cristã.

E ainda “existe uma especulação de que quando houve o dilúvio bíblico, as águas tenham dividido um único bloco continental em vários blocos formando os continentes atuais. O que vem corroborando que o criacionismo trabalha unicamente com processos puramente especulativos. Outro fato a ser mencionado é o caso do reverendo Thomas Brunet e Immanuel Velikovsky, que buscaram uma explicação natural para o dilúvio. Ele não acreditava que Deus tinha criado a água extra do dilúvio como milagre e não aceitava que o dilúvio poderia ser uma inundação local. Assim acreditava que de alguma forma a água saiu por rachaduras do solo formando nuvens e caindo em forma de chuva durante 40 dias e noite. Assim ele acreditava que a pressão da atmosfera e o deslocamento natural do eixo da terra provocado por tal índice pluviométrico fez as rachaduras fechar e quando a água terminou de cair ela voltou novamente para o interior do planeta cessando o evento bíblico. Claramente um absurdo nos dias de hoje.

Quando o autor trata da Pangéia ele afirma “A Pangéia, o único grande continente, foi se formando desde a origem do nosso planeta. Com o passar das eras geológicas, a Pangéia foi se subdividindo. Há 500 milhões de anos começou um movimento que levou à formação dos continentes atuais.”

Mais uma concepção errada, deve se fazer uma ressalva, que o processo de separação dos continentes é um evento que ocorre a milhares de milhões de anos e a separação dos continentes foi bem mais tardia, pois muitos animais vagaram pela Terra de continente a continente.

Os dinossauros que surgiram a poucos mais de 225 milhões de anos e foram extintos a pouco mais de 64 milhões de anos conquistaram todos os continentes inclusive a Antártida vagando de continente a continente, pois ainda eram relativamente próximos. O mesmo processo ocorreu com os mamíferos, razão pela qual a Austrália, Madagascar tem uma diversidade com grande grau de endemismo. O mesmo ocorre com Sumatra, Bornéu, Galápagos. O isolamento completo de todos os continentes ocorreu no final do Cretácio. Pois no jurássico ainda havia grande parte das terras conectadas. Esse mesmo processo ocorreu com outros animais, os felinos colonizaram quase todo o globo através desses processos migratórios (Ver: AS CONSISTENTES EVIDÊNCIAS DA EVOLUÇÃO DOS FELINOS E A DOMESTICAÇÃO DOS GATOS).

O autor ainda busca novamente igualdades entre a criação dos continentes “Uma separação da terra com a água, formando um só continente. As escrituras sagradas não mencionam a presença de um único continente.” A bíblia não menciona também a presença de um único continente. Além do mais a noção de mundo que os povos tinham a 2000 mil anos atrás era bastante distinta a de hoje. Naquela época não se havia noção sobre a existência das Américas, a restrição de mundo era restrita a geografia local.

Além disso “é bem provável que após o dilúvio tenha acontecido a separação da placas tectônicas, e com isso dividido um único continente em vários continentes.”. Confusão entre dilúvio como sendo um evento global e a pangéia, deriva dos continentes em apenas 6 mil anos.

Aqui o autor destaca as desigualdades das duas propostasO tempo do processo, que nesse caso o da bíblia seria muito mais rápido, pelo fato de que na bíblia teria tudo ocorrido por causa de uma catástrofe ambiental.”Da mesma forma que destaca o tempo do processo neste caso deveria destacar nas comparações anteriores, o que de certa forma tornaria a proposta cientifica e teológicas bastante distinta e não conferiria a acusação de plágio.

O autor ainda preconiza igualdade na proposta da origem da atmosfera “o planeta terra foi o primeiro planeta a ser construído e a única coisa que provavelmente havia em todo espaço era o nosso planeta criado e até então, não havia nada alem do nosso planeta até o quarto dia da criação…”.

A presunção que carrega uma concepção do cristianismo primitivo e medieval de que a Terra é o centro do universo. A idéia da Terra ser o centro do universo não tinha uma interpretação unicamente geográfica mas o que ressaltava a importância da Terra como o foco, o centro das atenções no universo era a presença do homem, a principal criação de Deus, feito sua imagem e semelhança. Esse modelo geocêntrico enraizando o homem foi uma concepção cristã bastante comum na historia da humanidade e persiste até hoje embora não em forma de ciência, mas de importância em relação a vida.

Por essa razão o historiador Lynn White Jr criticou a escolha de São Francisco como santo padroeiro da ecologia em 1980. Ele dizia que o cristianismo era a forma mais antropocêntrica de religião que o ser humano já virá.

Assim, ao afirmar “Lembre se que Deus é poder de criação, e não depende ele de nenhum fator externo ou seqüencial para criar nada, ele poderia fazer se quiser o homem no 1° da criação e o por em um espaço sideral cercado de oxigênio

Obviamente que pode, ele poderia fazer tudo unicamente porque ele é especial sob a concepção de que tudo que é lógico e crônico não faz sentido e não tem utilidade em um ambiente sobrenatural em que o anacronismo e a lógica não faz sentido, assim como o país das maravilhas de Alice.

Quanto a origem da vida o autor a vê pela simplicidade de alguns versículos “O quinto passo foi a formação da vida marítima, e ao surgimento da aves do céu, no 5° dia da bíblia só isso foi feito, podendo dizer se literalmente que os mares foram habitados antes da terra…A ciência diz que a vida teve inicio na água, e que só muitos milênios depois essa vida se estendeu a terra e ao ares, até porque foi em meio as águas que haveria surgido a 1° forma de vida celular, também as aves vieram 1° que os mamíferos.”

A origem da vida é um evento complexo e pouco compreendido embora muitos avanços tenha sido feitos sob o ponto de vista bioquímico desde o promissor estudo feito por Stanley Muller. Somente este ano muitos artigos sobre a origem da vida foram publicados em revistas acadêmicas e até mesmo expostos pela mídia. O evento origem da vida é distinto ao proposto pela ciência.

Sob o ponto de vista da criação não é especificado como os animais e formas de vida foram criados, apenas o homem que foi moldado em um naco de barro e ganhou a vida após o sobro divino. Essa versão teológica da geração espontânea é vista não somente no mito da criação cristã, mas também em outras mitologias. Em religiões africanas como a umbanda e candomblé a estória da criação do homem é extremamente semelhante exceto pela substituição do barro por madeira na região do rosto. Na mitologia chinesa afirma-se que tudo surgiu da morte do ser primordial P´an-ku. Suas partes do corpo deram origem as montanhas, seus olhos deram origem ao Sol e a Lua, sua carne a Terra e seus cabelos as árvores e plantas e o homem são advindos de suas pulgas.

Outro problema vem deA bíblia diz que tudo se completa no sexto dia, e até o homem é feito nesse dia, o 6° passo foi a concretização de todo o trabalho da criação, estamos falando em um trabalho perfeito e completo. Onde os seres por Deus criado eram formosos e fortes, o homem era a sua mais alta criação… A ciência segue a ordem de existência dos repteis até a existência dos mamíferos, ao qual o homem pertence a ultima classe. Apesar da ciência usar a mesma ordem, ela deixa claro que as espécimes sofreram varias mudanças até que chegassem a sua forma atual.

O conceito de que o homem é o resultado final de um processo evolutivo. O autor estabelece como semelhança entre criação e evolução a ordem dos fatos. Obviamente que do ponto de vista religioso é clara a visão reducionista e a tentativa de estabelecer a evolução como um mecanismo divino de produção de espécies ao longo dos milhões de anos e um universo criado por Deus. Caso raro entre os criacionistas, cuja interpretação se assemelha com a católica.

Mas é evidente que os animais não são sustentados por esse essencialismo supracitado acima. Os leões que vemos hoje por exemplo, não são copias perfeitas de uma matriz criada pelo divino, o que mostra que o argumento do essencialismo cai por terra uma vez que a história e os fenômenos estão em complexa evolução. Quando digo evolução estabeleço novamente o sinônimo de mudança (sem a busca da complexidade), a música eventualmente esta em modificação, assim como os idiomas, a sociedade, as religiões e porque não as espécies?

Outra interpretação que vale ser feita é a de que o homem se encaixa biologicamente como mamífero. Se o homem é considerado pelo autor como um mamífero parte-se do princípio que o que estabelece essa ligação entre eles é a relação evolutiva e não divina.

O autor ainda argumenta ainda que “ Na bíblia a cronologia de tempo do universo remota do ano de 3986 AC ou quase 6.000 anos de vida total. O que nos da uma exatidão de extrema incompatibilidade com a ciência tradicional, pois pela ciência tradicional o universo tem aproximadamente 13,7 bilhões de anos atualmente.baseando-se em uma lei do astrônomo americano Edwin Hubble que em 1929, a mais de 80 anos atrás percebeu que as galáxias estavam se afastando umas das outras e descobriu que, quanto maior à distância, mais alta a velocidade de distanciamento. Isso significa que o Universo está se expandindo, e, portanto, ele deve ter tido um começo. o seu trabalho possibilitou que o modelo de Universo estático… Isso nos faz desacreditar que a terra tenha somente 6.000 anos, pois se cientificamente usarmos o calculo de distancia entre as estrelas baseando-se na velocidade da luz, nunca teremos o calculo atual da bíblia… A real luz dessas estrelas emitida ainda não chegou a terra, pois nos vemos ainda apenas a luz de preenchimento criada por Deus para que luz feita fosse vista por Deus e também diante dos homens na criação ao mesmo tempo em que foi criada”

É evidente que nunca bateriam os resultados, se o autor concorda que o universo esta em expansão por algum motivo (até o momento) deve ser pelo Big Bang que é cientificamente suportado. Dizer que os resultados não batem por motivos teológicos não prova que a criação esta certa, só demonstra uma tentativa desesperada de recorrência ao argumento da autoridade.

Segundo o que o astrônomo Carl Sagan afirmou em seu livro O mundo assombrado pelos demônios o argumento da autoridade tem pouco peso. Ou seja, só porque uma pessoa esta afirmando algo, não torna aquilo um fato. A predição quantitativa é um modo excelente de separar as idéias úteis das dispares. Um exemplo é o que aconteceu com os filósofos que elaboravam teorias com base na razão e na ausência do empirismo. Então era possível dizer que objetos com maior matéria teriam maior vontade de chegar ao solo do que objetos mais leves. Essa afirmação de Aristóteles foi rejeitada com Galileu. Esse é o caso da seguinte afirmação “o livro de Genesis não foi criado por observação humana, mais sim por inspiração divina”.

Scritto da Rossetti

Palavras chave: Netnature, Rossetti, Roberto Neves, Criacionismo, Ciência, Universo, Evolução, Dilúvio, Filosofia.

2 thoughts on “UMA ANÁLISE CIENTÍFICA E CONCEITUAL DO LIVRO CRIACIONISTA “QUANDO TUDO É UMA CRIAÇÃO”. Parte III

  1. Muito boas suas colocações, mas ainda não entendo como você tem paciência pra ler essas bobagens rs. Eu NUNCA leria um livro que defende o criacionismo como ciência hehe.
    Bjs.

    • Já li alguns, e são sempre os mesmos bordões e jargões teológicos só que apresentados tendenciosamente para parecer ciência. O povo é ignorante, não enxerga de forma alguma o simbolismo por trás da Bíblia, eles a veem como uma historia contada literalmente e denotativamente, não conseguem enxergar as metáforas. O povo emburreceu, esta imbecilizado pela região. Logo logo não conseguem mais interpretar textos nas aulas de portugues e literatura na escola, é uma histeria de autisto social, todos loucos por uma verdade que não existe, por uma finalidade em tudo, uma esquizofrenia coletiva.
      De fato, tem de ter uma paciência, afinal os loucos tem suas realidades!!!!

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