ANIMAIS SOCIAIS (comentado)

Desenvolvo hoje ideias apresentadas numa coluna sobre a evolução darwiniana que escrevi para a edição impressa da Folha do último domingo. Seria por certo um exagero afirmar que a biologia está em crise, mas acho que já dá para afirmar que ela passa por um momento muito interessante, no qual cientistas rediscutem um ponto importante da evolução, com interessantes implicações para a arte, a religião e a filosofia.

O busílis é o conceito de seleção de grupo, segundo o qual determinados genes podem fixar-se ou espalhar-se numa população devido aos benefícios que fornecem à comunidade (e não aos indivíduos). A ideia foi originalmente proposta por ninguém menos do que Charles Darwin (1809-1882), ainda que ele próprio tivesse apresentado algumas reservas. Mas foi nos anos 70 do século 20 que a seleção de grupo se viu praticamente banida da ortodoxia biológica.

Embora sempre admitindo que ela era em teoria possível (“Darwin dixit”), importantes autores como George Williams, John Maynard Smith e Richard Dawkins praticamente a destruíram. O argumento é o de que ela não é lá muito estável, porque sempre valeria a pena para indivíduos egoístas pegar uma carona na coesão grupal sem dar sua justa contribuição. Esses espertalhões teriam maior sucesso reprodutivo (o cara bonzinho acaba morrendo ou ficando sem mulheres) e, assim, espalhariam seus genes pouco colaborativos em meio à população. Seria, portanto, muito difícil fixar num “pool” genético características que favorecem o grupo em detrimento de indivíduos. O fenômeno ocorreria apenas em raras ocasiões muito específicas.

Estava inaugurada a era do gene egoísta. Mesmo comportamentos aparentemente abnegados, como favores a terceiros e, no limite, o autossacrifício, quando analisados com o devido cuidado, se mostrariam motivados pelo bom e velho interesse próprio. Os mecanismos seriam o altruísmo recíproco e a seleção por parentesco, também conhecida como teoria da aptidão inclusiva (inclusive fitness theory).

No primeiro caso, o que temos é uma espécie de investimento no mercado de futuros, um “hedge” social. Eu ajudo hoje meu vizinho porque posso precisar de uma mãozinha dele amanhã. A ideia foi apresentada por Robert Trivers nos anos 70 e ganhou forte apoio da teoria dos jogos da matemática.

Já no segundo, a motivação é perpetuar os genes da família. Atribui-se a J.B.S. Haldane o chiste segundo o qual ele não daria sua vida para salvar o irmão que se afogava no rio, mas o faria por dois irmãos ou oito primos. A noção básica aqui, consagrada por Dawkins, é a de que a principal unidade em que a seleção ocorre é o gene, não o indivíduo. Como irmãos partilham 50% do DNA, e primos, 12,5%, sacrificar-se por dois irmãos ou oito primos é, do ponto de vista dos genes, zerar o jogo. Para os genes, o indivíduo nada mais é que um veículo, uma máquina de sobrevivência através da qual eles se espalham em populações.

Foi o britânico William Hamilton quem deu uma formulação matemática à seleção por parentesco: rB > C, onde r é a fração de genes compartilhados entre o agente e o paciente da ação altruísta; B é o benefício reprodutivo que a ação gera para o paciente; e C, seu custo reprodutivo para o agente. Sempre que rB for maior do que C, vale a pena ser “altruísta”.

Evidentemente, ninguém faz essas contas antes de pular no rio. Aliás, nossos ascendentes pré-históricos nem sabiam operar com frações e porcentagens. O bonito da teoria da evolução é que ela faz todos os cálculos por nós e os inscreve na natureza na forma de instintos, preferências e impulsos que todos os seres vivos apresentam.

Bem, voltando às unidades de seleção, o gene e o indivíduo reinaram sem muita contestação mais ou menos até o final dos anos 90, quando explicações divergentes começaram a surgir. Dois autores que influíram bastante no debate foram David Sloan Wilson e Elliott Sobre e acabaram promovendo o conceito de seleção multinível, segundo o qual tanto os genes, como o indivíduo e o grupo são alvos desse processo.

A mudança de maré, contudo, não parou aí. Pouco a pouco e pelas mais disparatadas razões, pesquisadores de diferentes áreas estão abraçando a seleção de grupo. Apenas neste mês, foram publicados dois livros importantes, “The Righteous Mind”, de Jonathan Haidt, e “The Social Conquest of Earth”, de Edward O. Wilson, que afirmam com todas as letras que a seleção de grupo foi um dos mais importantes fatores a moldar a evolução humana (e a dos animais sociais também).

O caso de Wilson é especialmente simbólico porque, nos anos 70, ele foi um dos principais advogados da seleção por parentesco, que utilizou para fundar a sociobiologia, que tanto escandalizou o pessoal das humanidades. Hoje Wilson diz que tanto a biologia como a matemática por trás da adaptação inclusiva estavam erradas. Ele sustenta que a seleção de grupo não só é perfeitamente possível como explica muito mais do que a por parentesco.

A controvérsia, é claro, está apenas começando. Quando a desconversão de Wilson foi inicialmente apresentada num artigo de 2010 para a “Nature”, que ele escreveu com os biólogos matemáticos Martin Nowak e Corina Tarnita, provocou reações indignadas. Um grupo de 137 cientistas mandou uma carta para a publicação na qual dizem que o “paper” está completamente errado. É um debate que envolve matemática avançada e pode ficar extremamente técnico. Seria, portanto, precipitado tomar partido desde já. Bem à moda tucana, o mais prudente é esperar para ver para que lado a água vai correr.

É oportuno, porém, lançar algumas luzes sobre o que está em jogo. Comecemos pela arte e pela religião. Para os ortodoxos, isto é, os que hesitam em aceitar a seleção de grupo, elas são mais misteriosas do que para a nova heterodoxia. É que os primeiros relutam em aceitá-las como adaptações humanas (isso constituiria um flanco para a seleção de grupo), preferindo descrevê-las como subprodutos acidentais, um efeito colateral resultante da forma como nossos cérebros estão montados.

Steven Pinker, por exemplo, um legítimo representante do grupo ortodoxo, classifica a arte como “cheesecake mental”, algo sem valor adaptativo em si, mas que explora, como as comidas gordurosas e doces, os mecanismos biológicos que nos dão prazer.

Dawkins, é claro, faz o mesmo com a religião. Ela seria o efeito colateral de uma propensão exagerada a crer, que teria valor adaptativo ao fazer com que crianças obedeçam a seus pais sem considerar se o que eles dizem faz ou não sentido. Essa confiança incondicional pouparia os jovens de atirar-se em rios infestados de crocodilos e outras ameaças com as quais não é prudente aprender por experiência própria.

Com a seleção de grupo, porém, a coisa fica mais direta. Arte e religião, ao promover a coesão da tribo, que está sempre em competição com outros bandos, teriam um valor adaptativo. Membros de grupos que dançam e cantam juntos e cultuam o mesmo deus se sairiam melhor ao enfrentar um povo onde cada um só pensa no próprio umbigo e odeia o vizinho.

Outro ponto interessante é o da ficção. Foi ele que fez com que os psicólogos evolutivos John Tooby e Leda Cosmides abandonassem a ortodoxia para aderir à seleção de grupo. A ficção, isto é, histórias inventadas são universais, isto é, estão presentes em todos os grupamentos humanos conhecidos, e, exceto por fundamentalistas religiosos, ninguém as toma por realidade. Já desde a mais tenra idade aprendemos a diferenciá-las. Para os dois pesquisadores, esse mecanismo de decupagem é um sinal de adaptação.

Confundir fatos com ficções é, evidentemente, perigoso, como o provam os homens-bombas que imaginam ir para um paraíso repleto de virgens (Alcorão 44:54 e 55:70) e “mancebos eternamente jovens” (Idem 56:17). Se desenvolvemos um sistema para operar a distinção e aparentemente estamos todos dotados com a capacidade de extrair prazer de narrativas inventadas, isso implica que a experiência ficcional é benéfica em si mesma. Ponto para a adaptação.

A coisa se torna ainda mais interessante quando chegamos à moral. Como mostram Haidt e Wilson, a seleção de grupo torna mais inteligíveis comportamentos que eram difíceis, embora não impossíveis, de explicar pelos mecanismos ortodoxos. Em uma palavra, ela nos libera para ser genuinamente generosos.

Nossos impulsos mais egoístas teriam sido moldados pela seleção no nível do indivíduo, enquanto os gestos de altruísmo, isto é, a virtude, seriam o resultado da seleção de grupo. Juntos eles nos condenam a viver o eterno conflito entre os melhores e os piores anjos de nossa natureza.

O debate é dos mais interessantes. Vai ser divertido ver aonde ele nos leva.

Fonte: Folha

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Resenha do autor

O darwinismo social é a tentativa de se aplicar as ideias de Darwin como mecanismo que explica porque as sociedades humanas são como são.

A ideia de Darwin deveria explicar a diversidade de espécies de seres vivos através da evolução pela seleção natural. Entretanto, no século 20 algumas pessoas passaram a interpretar que as sociedades humanas também poderiam seguir nesses moldes.

De acordo com esse pensamento, existiriam características biológicas e sociais que determinariam que uma pessoa, ou grupo como sendo superior a outros. Assim, as pessoas que se enquadrassem nesses critérios seriam as mais aptas.

Geralmente, alguns padrões determinados como indícios de superioridade em um ser humano seriam o maior poder aquisitivo, habilidade nas ciências humanas e exatas em detrimento das outras ciências como a arte por exemplo, e a raça da qual ela faz parte.

Sabemos hoje que tanto arianos, judeus, gays, negros, asiáticos ou mulheres são biologicamente iguais.

A seleção de grupo mostra que determinadas características podem se fixar e espalhar positivamente oferecendo benefícios aos grupos.

Essa proposta foi criada com a finalidade de explicar certos comportamentos observados em algumas sociedades humanas e animais que parecem beneficiar o grupo mesmo que gere resultados negativos aos indivíduos.

O ceticismo em relação a seleção de grupo ocorre porque há dúvidas de que a seleção de grupo possa ser forte o bastante a fazer com que indivíduos sacrifiquem seus próprios interesses a fim de perpetuar seu grupo. É muito difícil imaginar a seleção de grupo predominar a seleção individual e estabelecer um comportamento individual desvantajoso. É evidente que em certos casos isso pode acontecer, sob circunstâncias muito especificas como já demonstrado com aves e artrópodes em situações experimentais de laboratório.

É possível que nossos impulsos mais egoístas tenham sido moldados pela seleção no nível do indivíduo enquanto os gestos de altruísmo tenham sido resultado da seleção de grupo.

As evidências da biologia e psicologia evolutiva, bem como da antropologia usando a teoria dos jogos mostra a capacidade para a cooperação é o cerne do nosso sucesso evolutivo. Mas não parece que seja a regra abrir mão da individualidade em prol de toda sociedade.

Ao longo da história humana, a única maneira de conseguir comida em uma base regular era para ser cooperativo. Não se vê muitas pessoas dispostas a morrer pela sociedade que vive.

Em certas ocasiões de fato, o altruísmo é evidente, embora possa ser um altruísmo forçado.

Mas um caçador pode contar com a habilidade ou a sorte de comer alimentos trazidos por outros membros mais bem-sucedidos da sociedade que pertence. Isso teve implicações muito mais interessantes do que supor a seleção de grupo.

Caça, cozinhar e comer juntos foi necessário, pois moldou o temperamento, tolerância e habilidades de cooperação da humanidade. Assim houve tolerância e o estabelecimento de pequenas sociedades nômades.

Uma disputa entre duas sociedades que buscam o mesmo alimento em uma determinada área geográfica representa unicamente a competição pelos recursos alimentares com costumes distintos e não implica que sejam grupos que buscam o extermínio total do próximo. A mesma coisa vale para os costumes religiosos. Se houvesse a morte total de todos que seguem os ideias da tradição cristã em todo o mundo perderíamos mais de 2 bilhões de pessoas e certamente importantes genes que no futuro poderiam ter um valor adaptativo grande.

A seleção de grupo, ou o extermínio do grupo alheio do ponto de vista evolutivo é um tiro no pé.

O economista suíço Ernst Fehr realizou milhares de experimentos pessoas usando jogos de dilema social. Para testar a sua vontade de partilhar o dinheiro com outras pessoas. Em geral, apenas 20 ou no máximo 30% das pessoas jogam esses jogos egoisticamente enquanto que entre 50% a peça 60% jogam de forma cooperatória.

O nosso sucesso evolutivo depende da nossa capacidade para solução de problemas complexos, de como caçar mamute gigante em conjunto. Isso exige altruísmo entre todas as partes e tem ficado cada vez mais evidente no estudo evolutivo.

A cooperação foi um dos principais arquitetos dos 4 bilhões de anos de evolução. A cooperação construiu as primeiras células bacterianas, a vida multicelular e por consequência a maior diversidade de especializações, novos nichos e divisões do trabalho. Todo esse altruísmo trás vantagens sociais, mas individuais também.

O que não fez sentido na seleção de grupo, é acreditar que a arte e religião por exemplo possam promover um efeito evolutivo na coesão da tribo que está sempre em competição com outros bandos.

Mesmo que membros de grupos que dançam e cantam juntos e cultuam o mesmo deus possam se sair melhor ao enfrentar um povo onde cada um só pensa no próprio eles contam com a limitação genética.

Apesar de socialmente terem vantagens entre si, um grupo de cristão amish por exemplo, poderia não ter a disponibilidade genética para enfrentar um afunilamento genético da espécie humana.

Sem contar que sob aspectos religiosos o que determina a preferência não são unicamente as leis criadas pela sociedade em questão.

Isso ficou evidente no nazismo, pois mesmo sob um sistema militar ditatorial o corte de relações econômicas entre o alemão e o judeu não transformou o ódio nazista uma regra moral.

As regras de moralidade simplesmente são estabelecidas e não podem ser implantadas por um regime econômico ou político. A grande maioria do cristão certamente não mataria o vizinho da casa ao lado mesmo que na Bíblia ou seu deus pedisse isso pessoalmente.

Isso mostra que o nosso senso de moralidade individual entra em conflito com o que é moralmente exigido nas religiões. As regras morais só “pegam” em uma sociedade se forem aceitas de forma natural, aceitas por espontaneidade.

A moral independe do posicionamento político ou religioso e certamente, apesar de pertencerem a mesma sociedade é improvável que as pessoas se matem ou prestem a disposição de sacrifícios em nome da sociedade porque o senso de individualidade é mais forte que o social.

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Scritto da Rossetti

Palavra chave: NetNature, Rossetti, Altruísmo, Egoísmo, Seleção de grupo, Darwinismo Social.

3 thoughts on “ANIMAIS SOCIAIS (comentado)

  1. Eu já pensei em entrar em contato com algum criacionista para ele escrever uma pagina no word defendendo o criacionismo. Pensei até no Cícero. Na realidade, pensei em voce também.
    A idéia era juntar três trechos. Um de um criacionista defendendo o criacionismo e atacando a evolução. Uma texto meu ou de algum outro evolucionista se defendendo e atacando o criacionista e uma pessoa que ataque os dois, como voce!!!.
    Por que seria legal o público ver três pontos de vista diferentes que talvez fosse interessante para quem acessa o site e para que todos tenham acesso as diferentes concepções!!!
    Tentarei entrar em contato com o Cícero para propor essa idéia. Se voce topar, pode participar também. Colocarei a aprte de voces na integra, sem mudar uma vírgula!!!

    • Exatamente por isso. Voce expõem as suas argumentações, o Cicero as dele e eu ou outro biólogo sobre o darwinismo, e eu posto no site. Para que todos tenham contato todas essas linhas de pensamento, o evolucionismo o criacionismo e a visão visão cética e critica em relação a ambos!!!
      Acho que nunca vi alguém fazer isso na Internet!!!

      Todos escrevem uma pagina ou uma pagina e meia no word pra ficar sintético, cada um escolhe uma imagem que represente seu texto e eu posto. Um espaço igualitário para as três propostas!!!

      • Ok, vou entrar em contato com o Cícero e te informo mais sobre a posição dele!!!! Ai estabelecemos uma data em que todos possam enviar seus textos. Eu pensei em fazer da seguinte maneira. Todos escrevemos cerca de uma pagina no word defendendo seu posicionamento. Ai depois eu mando o texto de cada um de nos para voce e o cicero. Ai na segunda pagina do Word nós defendemos e criticamos o ponto de vista dos outros.
        Por exemplo, vc defende que o criacionismo e o evolucionismo são duas doutrinas, quando eu receber o texto do cicero eu mando ele para voce junto com o meu texto e voce defende e critica os nossos textos na segunda pagina do word. E eu e o cicero fazemos o mesmo, um em relação ao outro. para que todos tenham a oportunidade de questionar as ideias alheias.
        Assim, quem acessar o site terá todos os pontos de vista defendidos e criticados!!!
        Eu não mudarei uma virgula do que voces escreverem e antes de postar o texto ainda faço um anuncio bem banaca nos sites de divulgação!!!

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