COMPETIÇÃO POR ALIMENTOS (comentado)

Ascensão de humanos há 2 milhões de anos condenou grandes carnívoros.

O impacto do Homo sapiens sobre o meio ambiente nos últimos séculos foi tão profundo que alguns cientistas chamam esse capítulo da história da Terra de Antropoceno. Mas a destruição ecológica feita pelos humanos pode ter começado muito, muito antes disso. Uma nova teoria sugere que mudanças nos hábitos e na dieta de nossos antepassados, há cerca de 2 milhões de anos, dizimou várias espécies de grandes carnívoros na Ásia Oriental, o que pode ter causado um efeito cascata de destruição.

Os leões são um dos apenas seis carnívoros que restam na África Oriental atualmente.

Atualmente, a África Oriental tem seis carnívoros (membros da ordem Carnívora) que pesam mais de 21,5kg e, portanto, são considerados grandes: leão, leopardo, guepardo, hiena-pintada, hiena-listrada e cão-selvagem-africano – todos com uma dieta composta de mais de 70% de carne. Mas, há muito tempo, pelo menos 18 espécies de grandes carnívoros com dietas muito mais diversificadas ocupavam a planície da África Oriental. Entre esses animais estavam ursos e civetas onívoros, tigres-dente-de-sabre que se especializaram em presas grandes e lontras do tamanho de ursos, que eram mais terrestres que as modernas. Observando o registro fóssil de 78 espécies carnívoras da África Oriental, com 3,5 milhões de anos, Lars Werdelin, do Museu Sueco de História Natural, em Estocolmo, descobriu que a diversidade de espécies grandes começou a cair há cerca de 2 milhões de anos. Em abril, em um simpósio sobre evolução humana e mudança climática no Observatório Terrestre Lamont-Doherty da Columbia University, Werdelin fez um esboço de sua explicação para o declínio.

Se a mudança climática fosse a responsável por isso, deduziu Werdelin, os carnívoros menores, geralmente mais sensíveis a mudanças, também teriam sido atingidos. O exame do registro fóssil desses pequenos animais, no entanto, não mostrou qualquer semelhança com o padrão de perdas relacionadas ao clima que os carnívoros modernos apresentam. Com base nessas duas linhas de evidência o pesquisador argumenta que a aparente redução de grandes carnívoros, começando há cerca de 2 milhões de anos, é “uma diferença dramática sem relação com o clima”.

Se a queda não foi resultado direto da mudança climática, então os responsáveis provavelmente são os primeiros hominíneos (membros do grupo que inclui os humanos e seus parentes extintos), propõe Werdelin. O momento coincide com a transição dos primeiros membros do gênero Homo com o uso de ferramentas de pedra e a utilizar uma dieta onívora que incluía significativamente mais carne do que a de seus predecessores. Mas é improvável que esses hominíneos tenham matado os grandes carnívoros diretamente. Em vez disso, segundo Werdelin, eles os afastavam de suas presas enquanto se alimentavam delas.

Os detalhes do declínio dos grandes carnívoros que aparecem no registro fóssil apoiam a teoria de Werdelin: os grupos extintos eram especificamente aqueles que estavam em competição direta com os hominíneos, ou que representavam ameaças a eles: onívoros com dietas similares e “hipercarnívoros” com poucas opções de presas. Os hominíneos teriam sido grandes competidores em relação aos grandes carnívoros não apenas por estarem armados com ferramentas de pedra, mas porque tinham acesso a uma variedade maior de alimentos de baixa energia dos quais podiam se alimentar em tempos difíceis, ao contrário dos grandes carnívoros.

No cenário mais simples, o desaparecimento de um predador permite que as populações de presas cresçam, o que impacta na população de plantas que essas espécies comem. Os biólogos chamam essa cadeia de eventos de cascata trófica. A reintrodução de lobos no Parque Nacional Yellowstone na metade da década de 90, quase um século após terem sido exterminados daquele local, fornece um exemplo marcante da importância dos maiores predadores: a população de alces não apenas foi reduzida a um tamanho mais controlável, como choupos e álamos começaram a se recuperar, assim como os salgueiros, que trouxeram de volta os castores, que com seus diques criam lagos. Como os ecossistemas da África Oriental foram afetados pela perda de grandes carnívoros há 2 milhões de anos, porém, ainda não foi determinado.

A apresentação de Werdelin impressionou outros cientistas no simpósio. O padrão de extinção dos carnívoros que ele descreve “é muito forte e não parece ser produzido simplesmente pelo tamanho das amostras, mas por mudanças reais de diversidade”, comenta René Bobe, da George Washington University, especialista em ecologia de mamíferos da África Oriental daquela época. No entanto, ele adverte que as causas da redução são menos certas, observando que “há apenas uma correlação muito vasta entre ela e a emergência do gênero Homo”. Responsabilizar um evento específico é difícil porque o momento não ajuda. “Se o Homo e as primeiras ferramentas de pedra têm cerca de 2,5 ou 2,6 [milhões de anos], então a redução no número de carnívoros aconteceu cerca de meio milhão de anos depois”, explica Bobe. “Se o Homo erectus/ergaster (originado há cerca de 1,9 milhões de anos) for o responsável, então a redução no número de carnívoros começou muito cedo. O Homo pode realmente ter desempenhado seu papel, mas as causas precisam estar bem documentadas”. 

Outras informações podem surgir a partir de mais dados fósseis. Para esse estudo, Werdelin usou espaços de tempo de 500 mil anos. “Esperamos capturar mais detalhes conforme conseguirmos uma resolução melhor”, explica. Enquanto isso, sua teoria faz várias previsões sobre a relativa abundância e escassez de algumas classes específicas de mamíferos que os paleontólogos talvez encontrem no registro fóssil – caso Werdelin tenha razão sobre o declínio dos grandes carnívoros. 

Assim, mesmo que os humanos tenham sido responsáveis pela destruição desses animais, ainda podemos culpar a mudança climática: as alterações entre 3 e 2 milhões de anos atrás abasteceram a disseminação de campinas na África, forçando nossos primeiros ancestrais a descer das árvores para a savana aberta, um dos motivos de eles terem sido obrigados a enfrentar os grandes carnívoros.

Fonte: Scientific American Brasil 

.

Resenha do autor

Esse estudo nos permite por três linhas de pensamento em questão.

A primeira é justamente pensar na validade do experimento que afirma que os ancestrais dos homens indiretamente afetaram a população de grandes carnívoros a 2 milhões de anos quando estabeleceram uma dieta onívora mais acentuada.

Isso não quer dizer que realmente tenha acontecido, mas que é uma hipótese e como tantas outras, pode explicar a extinção desses carnívoros. De fato, como dito acima, ele aguarda descobertas de fósseis deste período de tempo para aprimorar seus modelos.

Discutir e questionar a base desses modelos é fundamental para que a construção de conhecimento não fique restrita a concepção cientificista.

A segunda questão é que ainda é cedo e improvável afirmar que estamos entrando em uma nova era do tempo geológico que se insiste em chamar de Antropoceno (veja mais aqui).

Os aquecimentistas (vertente ambientalista que defende a veracidade do aquecimento global) e “cientistas” chapa branca estudantes do clima buscam apressar a adoção desse conceito unicamente por motivos pessoais, quando o cenário catastrofista do aquecimento global recebe cada vez mais críticas de céticos e climatologistas.

A terceira questão é justamente a validade deste experimento que a principio é brilhante, mas que é pouco provável pelo fato de que a espécie humana esta se tornando o “bode expiatório” de todos os problemas climáticos.

Atribuir a extinção desses grandes felinos a espécie humana não parece ser a resposta mais coerente para esse dilema por diversos motivos.

Primeiramente porque extinguir grande parte dessas 18 espécies de felino necessitaria de uma população ancestral humana (Homo ergaster/erectus) relativamente densa na África.

O Homo sapiens que sobreviveu por sua aptidão só atingiu o seu primeiro bilhão de habitantes em 1802. Em uma situação em que os hominídeos viviam na áfrica a 2 milhões de anos a população mundial dessa espécie poderia ser inferior a um milhão de indivíduos. Algumas estimativas apontaram para talvez 10 mil habitantes.Parece improvável que essa população tenha sido um peso competitivo na questão alimentar para tantas espécies extintas de felinos.

Outra questão é que muitas dessas extinções podem ser associadas a outros motivos.

Apesar de ser ainda um mistério, a extinção dos neaderthais parece ter sido provocada não unicamente pelas disputas com o Homo sapiens, mas o seu declínio já ocorria devido a mudanças climáticas severas, como já apontado em matérias da própria revista Scientific american.

Além disso, é sabido hoje que muitas das extinções podem ter iniciado antes e se consolidado com a contribuição do homem.

O lobo tilacino da Tazmânia realmente foi extinto pelo homem, mas sua diversidade genética já havia sido extremamente afetada por um gargalo genético evolutivo que essa espécie passou a 10 mil anos atrás quando a ilha de Tazmânia e a Austrália perderam sua conexão por terra e o fluxo gênico limitou-se.

A extinção da megafauna aqui no Brasil parece não ter contado com a participação humana, afinal, jamais foram encontrados quaisquer vestígios arqueológicos dos ossos desses animais sendo usado como ferramentas. É de se esperar que se o ser humano algum dia usou esta megafauna para se alimentar então certamente usariam seus ossos como ferramentas. Jamais foi encontrado um osso de qualquer animal da megafauna que tenha sido usado como ferramenta.

Animais como o alce-irlandês (Megaloceros) que faziam parte da megafauna ao redor do mundo não extinguiram-se por razões antrópicas mas sim climatológicas.

O Alce-Irlandês que não era um alce, mas sim um veado, e não ocorria somente na Irlanda provavelmente entrou em extinção na última era do gelo e talvez os fatores da seleção sexual tenham sido um agravante.

O alce-irlandês teve a maior galhada já encontrada na Natureza, de uma ponta a outra seus galhos tinham cerca de 3 metros e 65 centímetros de distancia.

Outros casos ainda permanecem obscuros. O leão-das-cavernas (Panthera leo spelaea) que parece ter sido caçado por seres humanos embora sua extinção esteja mais ligada as mudanças climáticas do fim do Pleistoceno.

A hiena-das-cavernas (Crocuta crocuta spealaea) extinguiu-se exatamente por razões climáticas e o homem não teve relação alguma.

As hienas-das-cavernas  ocasionalmente roubavam humanos dos assentamentos. Elas atacavam, arrastavam os membros mais jovens e os devoravam. Algo parecido com as modernas hienas pintadas na África, porém, com filhotes de leões.

De fato, os mais antigos restos humanos encontrados no Alaska evidenciam um ataque dessas hienas. Ao que os dados indicam, esses ataques eram constantes e talvez tenham impedido que grupos humanos tivessem cruzado o estreito de Bering antes.

É preciso ter cuidado ao afirmar que o homem tem sido o principal causador das principais mudanças climáticas.

Isso porque as mudanças climáticas no nível global não são corroboradas pelos climatologistas. As únicas mudanças climáticas que são realmente comprovadas cientificamente são regionais, ou seja, restritas a microclimas como ambientes densamente urbanizados que sofre com a falta de áreas verdes internas e/ou nas proximidades.

O Homem não parece ser a razão da extinção desses animais, alias, nem mesmo o estudo realizado acima corrobora tal premissa já que próprio autor afirma “há apenas uma correlação muito vasta entre ela e a emergência do gênero Homo”.

.

Scritto da Rossetti

Palavra chave: NetNature, Rossetti, Extinção, Megafauna, Leões, Hienas, Alce-Irlândes.
Anúncios

One thought on “COMPETIÇÃO POR ALIMENTOS (comentado)

  1. Existem registros do homem provocando alterações ambientais e climáticas na história, mas unicamente regionais. Os romanos já criavam aquedutos com medo dos problemas que a falta de saneamento podia trazer. Da vinci projetou uma cidade inteira afim de evitar tais problemas. Os gregos acreditavam que se retirassemos todas as árvores o planeta colapsaria.
    Pompéia também causou grandes alterações ambientais após sua queimada, mas todos tiveram efeitos unicamente locais e insignificantes do ponto de vista planetário, até o século XIX.
    As alterações drásticas começaram a partir da revolução industrial e mesmo assim, ainda é possível ver evidências de alterações climatológicas e ambientais unicamente na região onde elas acontecem.
    É bom por esses textos em reflexão, alias, me estranha muito uma reportagem como essa sair na Scientific american. O impacto da humanidade nesse período citado acima seria insignificante…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s