UMA BANANA PARA OS CRIACIONISTAS.

Quem diria que um dia a banana se tornaria um grande pepino para os criacionistas. Vou explicar o que isso quer dizer. A banana é um desafio triplo ao pensamento criacionista porque explica a diferença entre genes e proteínas, extrapola limites temporais e oferece claras evidencias do substrato onde a evolução trabalha. Essa semana completou-se o sequenciamento do genoma da banana, e com ele uma nova perspectiva evolutiva.

Uma alegação bastante comum dos criacionistas a respeito do estabelecimento de parentesco com base na semelhança molecular é que a banana tem 50% das mesmas proteínas que o homem, e portanto isso é um contrassenso evolutivo para a espécie humana, afinal não somos descendentes de bananas.

De fato seria um contrassenso se não houvesse uma grande falha conceitual nesse argumento. O fato de ter proteínas semelhantes não implica que tenham sequencias genômicas semelhantes. Isso ocorre porque o código genético é amplo em relação aos códons e seus aminoácidos correspondentes. Isso quer dizer que apesar das proteínas serem semelhantes ou conterem os mesmos aminoácidos, os códons respectivos podem ser distintos. Por exemplo, uma proteína que é composta por dois aminoácido (Leucina e Prolina) pode formada pelo códon CUU+CCU, ou ainda CUC+CCC, ou CUU+CCC, ou CUC+CCU. De fato, uma proteína simples como essa poderia ser formada por 16 combinações distintas. Isso quer dizer que apesar da proteína ser a mesma. a informação contida nos genes através dos códons pode ser bastante distinta. Isso fica mais evidente se a proteína for formada por dezenas de aminoácidos. Apesar de ser a mesma proteína os códons mudam.

A outra implicação que embanana o pensamento criacionista é de cunho temporal. É sabido por registros históricos e agora genéticos que a banana foi domesticada no sudeste da Ásia há quase 8 mil anos. Uma datação que extrapola o limite de tempo estabelecido pelo criacionismo.

Como as pessoas migraram e cruzam suas plantas com outras ao longo das viagens a banana tornou-se gradualmente sem sementes, facilmente comestível e totalmente estéril. Em vez de se multiplicar através da reprodução sexual que mistura o pool genético, as bananas são cultivadas por propagação vegetativa que envolve simplesmente seccionar uma planta que crescer por conta própria.

Quando os cientistas sequenciaram o genoma descobriram que a banana havia duplicado o seu genoma inteiro três vezes, fazendo uma cópia extra de cada gene. Isso ocorreu primeiramente a aproximadamente 100 milhões de anos atrás e novamente a cerca de 60 milhões de anos.

O sequenciamento da banana demorou para ser realizado justamente por este motivo. Em comparação com muitas outras culturas, o genoma de banana é extremamente complexo. Apesar de todas as bananas serem clones umas das outras, a forma dos genes originais que vieram a partir das plantas mães continuam a ser diferentes um do outro. Isso permite estabelecer o que mudou no genoma dessa fruta desde então. É comum, especialmente em plantas, ocorrer copias inteiras do genoma e essas serem preservadas na constituição cariotípica da espécie. Algumas plantas apresentam conjuntos triplóides, que pode ter um valor adaptativo alto, especialmente nas reservas nutricionais das sementes, ou seja, no endosperma.

Algumas pteridófitas apresentam o maior número de cromossomos encontrado na natureza, cerca de 1260. Eventualmente, em alguns casos específicos e já documentados pela genética de populações, pode ocorrer alterações no padrão de atuação do ciclo endomitótico. Isso quer dizer que durante o processo de divisão celular não ocorre todas as fases de um ciclo. Ocorre a copia do cromossômico, mas a célula em si não se divide. Assim ela fica com o número de cromossomos dobrado. Em alguns casos isso pode trazer vantagens evolutivas como o aumento da síntese de determinadas proteínas. Esse fenômeno já foi identificado em alguns protozoários, angiospermas e vertebrados. Nos humanos esse fenômeno ocorre no fígado e nos músculos, auxiliando a contração muscular. Nosso fígado e músculos pode conter cerca de 92 a 184 cromossomos. São variações de ploidia que ocorrem naturalmente em determinadas células. A presença de cópias desses cromossomos ajuda na produção de proteínas tanto para a movimentação e manutenção do músculo quanto nos aspectos bioquímicos e fisiológicos do nosso fígado. Existe também a anomalia dos núcleos politênicos, ou, cromossomos gigantes.

Dípteros apresentam núcleos politênicos dando origem a cromossomos politênicos. Ao passarem pelo ciclo endomitótico os cromossomos se mantém unido pelas cromátides gerando uma progressão de 2 -4- 8 16 … até formarem um cromossomo politênico gigante.

Esses são alguns daqueles erros graves no genoma que não comprometem o indivíduo e acabam conferindo-lhes vantagens adaptativas em relação a outros indivíduos. São evidencias claras de como eventualmente quantidade de informação genética pode ser criada, ou dobrada. Isso permite que a espécie siga um caminho evolutivo distinto a de seus ancestrais. Por algum motivo essa duplicação dos genes ocorreu nas bananas, especialmente nas células germinativas. Essa característica se tornou presente na banana como espécie e foi preservada quando o homem a domesticou 8 milênios. Assim, a banana se torna uma prova viva de mecanismos evolutivos e se torna uma pedra no sapato das alegações místicas criacionistas.

 .

Scritto da Rossetti

Palavra chave: NetNature, Rossetti, Banana, Genética, Genoma, Evolução, Criacionismo.

8 thoughts on “UMA BANANA PARA OS CRIACIONISTAS.

  1. Olá, Prof. Rossetti,
    Não pude resistir a um comentário sobre o texto. Bem, se for só uma banana, tudo bem.
    Ocorreu-me que talvez o criacionismo tenha sofrido uma redução quando observado no seio dogmático exclusivo de algumas instituições religiosas. Desse modo, a ontologia da fé supera a lógica e claramente se estabelece uma diferença de natureza entre cosmogonia e cosmologia.
    A par desse assunto, muito embora de maneira pouco abordada, mas de caráter fundamental, acredito, não seja o criacionismo o antagonista ideal à Teoria da Evolução, mas antes, o próprio evolucionismo.
    Explico: Quando tentamos compreender a complexidade da teoria biológica da transformação das espécies vivas umas nas outras e tentamos compará-la com o Criacionismo, na verdade buscamos nos afastar de outra concepção -e a isso se deve em parte ao salto paradigmático que ocorreu no âmbito da Física e que ainda não se deu (ao menos ao meu ver) na Biologia.
    O grande oponente à Teoria Evolucionista ainda é o Evolucionismo, o qual trata do desenvolvimento progressivo do universo como um todo.
    Essa doutrina metafísica atina a toda a realidade, sendo que transpassa, enquanto estágios progressivos no qual se insere o movimento, o tempo e o espaço, em que, do indistinto ao distinto, é apoiada por diversas tendências, materialistas e espiritualistas, mas que vêem no contexto progressivo, desde o desenvolvimento biológico e até mesmo o da própria ciência, da sociedade, do psiquismo e do espírito. O desenvolvimento global da realidade atinge a consideração de que a evolução da substância viva no planeta pertence a um único organismo, de proporções planetárias.
    Para além desse alcance, a evolução atingiria, para o evolucionismo, uma Superconsciência Universal, do qual é formada pela unidade do pensamento.
    Essa idéia de unidade, seu modo progressivo e integrado da realidade não possui correspondência no conhecimento científico, e constitui o verdadeiro desafio à Teoria Evolucionista.

    • Concordo que a biologia ainda precisa sofrer aquela revolução que aconteceu na física, da clássica para a quântica, e de fato a forma com que a ciência trabalha é progressiva, mas evolutivamente, a teoria em si não trata da questão do desenvolvimento progressivo da vida, ou da busca da complexidade.
      Eventualmente se usa a ideia de que a vida e sua transformação ao longo do tempo parece ser resultado do amadurecimento, do desenvolvimento do universo, pelo menos como análogo quando comparado a uma vida. Não sei se compreendi bem o que voce disse!!!
      Eu vejo hoje o criacionismo muito mais como uma bandeira politica republicana do que uma ideia original em relação a criação.

    • Caro Mario Luiz, a questão da evolução não é a mesma da questão do “evolucionismo”, que de fato se tornou uma “religião dogmática”, como qualquer outra. É PRECISO ACREDITAR.
      Se olharmos a teoria da evolução pela ótica de uma mera “tabela” como é a Árvore da Vida, é evidente que as espécies mostram uma “evolução” através de um critério, que Darwin e os biólogos ainda usam como a própria observação, QUE ATÉ CONFUNDE ALHOS COM BUGALHOS. Quando o critério for o DNA, como é o átomo para a Tabela Periódica, A TEORIA FICA CIENTIFICAMENTE MUITO MELHOR.
      Outra coisa é “como” as próprias espécies fazem para se transformarem em “espécies”, e pela “doutrina”, que não tem nada a ver com a “teoria”, seria pela “seleção natural”, pela qual, todos os seres vivos seriam gerados a partir de um único indivíduo, QUE É IMPOSSÍVEL DE ACONTECER. Sequer uma única espécie consegue “viver sozinha”, quanto mais um único indivíduo. Mas para os “dogmáticos”, a seleção funciona, evidentemente como crença, QUALQUER MILAGRE EXISTE, é só acreidtar nele.
      Contudo, bastaria colocar a inteligência no pedaço, da qual o pensamento é apenas sua expressão, E TUDO FICA MAIS CLARO. Até o homem faz artefatos que pode se tornar “seres-vivos” como quaisquer outros, incluisve com sua própria inteligência quando no seu comando!.
      Guru como Dawkin disse que o artefato “não vale”, porque não é feito de “carne e osso”, que por sua vez é feito dos mesmos átomos de qualquer lata, madeira ou plásico! PODE TAMANHO FANATISMO?

      arioba.

  2. Olá Ariovaldo,
    Obrigado por interagir.
    Em que pese seus argumentos, os quais são voltados à refutação da Teoria Evolucionista – a partir de Darwin – digo isso porque ela mesma já sofrera alterações – onde a ciência é a viga-mesta a qual, pela metodologia e os avanços tecnólogicos, nos conduzem a um patamar de entendimento, cujo enfoque nos escapa enquanto conjunto de procedimentos, os quais pressupõe estreita relação, não somente no âmbito das ciências interdisciplinares (Química e Física, por ex.) , mas sobretudo no vasto arcabouço teórico-experimental próprio da Biologia. Nesse diapasão, o grau de complexidade inerente à interpretação da realidade a partir daquele gênero de conhecimento só se torna acessível mediante o confronto entre sua natureza epistemológica e outro referencial, onde subjaz o cerne do discurso.
    Não é possível obtermos uma leitura coerente do discurso se adotarmos um dimensionamento que extrapole os limites que circunscrevem o modo interpretativo do real exclusivo da natureza functora da ciência, a qual trabalha com variáveis e não com variantes.
    O ponto nodal da questão é a possibilidade do surgimento de uma nova lógica que traga consigo consistência às proposições discursivas, as quais intentem a fusão de gêneros de conhecimento distintos.
    Portanto, somente uma visão que supere o sensível e o inteligivel, que transcendam as visões monistas e dualistas é que poderemos enfim adentrar numa nova era…

    • Caro Luíz, também agradeço e atribuo.
      Ainda que não tenha entendido direito suas observações mormente a respeito do tema, eu de fato não “refuto a teoria evolucionsta” como mera tabela com a Árvore da Vida, refuto a “filosofia equivocada” da Seleção Natural, igual à do geocentrismo emitida por Aristóteltes, que como Darwin, APENAS DERAM SEUS PALPITES EM CIMA DAS OBSERVAÇÕES QUE FIZERAM. Não foram eles que “criaram doutrinas” tanto geocêntrica como evolucionista, foram os que os tornaram “deuses” dogmáticos, como a Igrega Católica na Idade Média com o geocentrismo, e os evolucionistas com o “evoucionismo”.
      Se puder esclarece mais fácil seus comentário, ficaria agradecido.

      Abs.
      arioba.

  3. Pingback: evolutionacademy.bio.br | Comparações genéticas entre humanos e primatas

    • Vídeos do youtube não refutam teorias científicas. Artigos refutam.
      Lycurgo já é chavão, proponente do D.I, ou de pseudociencia.
      E apelar para fosseis de transição, que nem é um conceito usado pela ciência, para tentar justificar uma negação a evolução nem confere uma critica de fato.
      O que importa são os artigos!!!

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