O QUE É UMA TEORIA CIENTÍFICA?

 “Toda a nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil – e, no entanto, é a coisa mais preciosa que temos” — Albert Einstein

Uma das “acusações” lançadas aos cientistas é que a evolução é só uma teoria, não uma lei ou um fato, e que portanto, não merece confiança. Em parte, tal acusação é verdadeira: a teoria da evolução não é uma lei, é “só uma teoria”. Mas a teoria da gravitação também “é só uma teoria”, e você não vê ninguém se amarrando ao chão por causa disso.

“Teoria” no sentido coloquial (“Tenho uma teoria de que meu irmão está comendo meu chocolate”) é muito diferente de uma teoria científica. Não existe tal coisa como “só uma teoria” científica. A do chocolate é uma “teoria” muito diferente da teoria da relatividade, por exemplo. A teoria da relatividade é uma teoria científica, que se relaciona com fatos e hipóteses, e é constantemente substituída ou aperfeiçoada ao longo de muito tempo e esforço. Quando os cientistas usam o termo “teoria” você tem que lembrar que este termo é parte do jargão da profissão deles e quando você usa no seu dia-a-dia está se referindo a uma hipótese.

O que é uma teoria?

“A ciência não passa do bom senso exercitado e organizado” — Aldous Huxley

A Academia Nacional de Ciências dos EUA define uma teoria como sendo “uma explicação plausível ou cientificamente aceitável, bem fundamentada, que explica algum aspecto do mundo natural. Um sistema organizado de conhecimento aceito que se aplica a uma variedade de circunstâncias para explicar um conjunto específico de fenômenos e predizer as características de fenômenos ainda não observados”.

O dicionário Michaelis On-line define teoria como sendo uma “hipótese já posta à prova, no mundo real, confirmada e, assim, aceita por cientistas orientados e experimentados no assunto; está, porém, sempre sujeita a modificação de acordo com novas descobertas”.

Uma teoria geralmente começa a partir da observação da natureza. Um fenômeno é observado, e a partir desta observação, um cientista ou equipe de cientistas chega a uma teoria, um modelo para explicar o fenômeno. Junto com a teoria também nascem hipóteses que, se provadas falsas, podem invalidar a teoria em parte ou totalmente.

Formulada a teoria e as hipóteses, o próximo passo é testá-las, fazendo previsões teóricas e observando as mesmas em laboratório ou na natureza.

Teste de hipóteses

Que tipo de hipótese a ciência pode investigar? Qual o limite do que é conhecimento científico e do que não é? Uma das definições é que uma teoria ou hipótese, para ser considerada científica, tem que ser testável. Se não puder ser testada de forma alguma, então está fora do âmbito da ciência.

Algumas teorias, como a Teoria das Cordas, não podem ser testadas com a tecnologia que temos, mas isto não implica que não sejam científicas. Uma hipótese ou teoria não é considerada científica se não pode ser testada de forma alguma, com tecnologia alguma.

Um exemplo de teste de hipóteses foi o teste que a menina Emily Rosa fez. Ela montou um experimento simples, visando determinar se um praticante de “toque terapêutico” realmente conseguia perceber o “campo energético” de uma pessoa. O praticante estendia as duas mãos através de um anteparo, e tinha que determinar sobre qual mão Emily estava posicionando a mão dela. Se os participantes sentissem o campo de energia, acertariam 100% das vezes. Se não pudessem sentir nada e tentassem adivinhar, acertariam algo em torno de 50%, ou seja, em metade das vezes.

O índice de acertos encontrado por Emily foi de 44%, um resultado que pode ser explicado pelo acaso. É importante frisar que Emily não provou que não existe o tal “campo energético”, apenas provou que era falsa a afirmação dos praticantes de que eles eram capazes de perceber um tal campo. O trabalho foi aceito para publicação em um periódico científico e Emily Rosa está no Guiness como a pessoa mais jovem a ter um trabalho científico publicado.

Fazendo previsões

Outra característica das teorias científicas é que elas permitem previsões verificáveis. A previsão de que existe uma radiação cósmica fóssil faz parte da teoria do Big Bang, e quando encontrada a radiação, a teoria ganhou mais credibilidade.

Da mesma forma, a teoria da evolução foi usada para determinar em que terreno poderia ser encontrado um fóssil da transição entre peixes e anfíbios, previsão que se confirmou com a descoberta do Tiktaalik roseae em terreno da época Devoniano (cerca de 375 milhões de anos atrás).

Outra previsão teórica confirmada foi a da existência do neutrino, prevista em 1930 pelo físico Wolfgang Pauli, e confirmada em laboratório em 1956, por Reines e Cowan.

Descartando teorias, acrescentando teorias

“A ignorância afirma ou nega veementemente. A ciência duvida” — Voltaire

Um dos aspectos mais importantes das teorias é que elas são todas provisórias. A ciência está sempre reavaliando suas teorias, testando-as em cenários diferentes, e buscando novas evidências na natureza. O resultado é que eventualmente os cientistas encontram alguma evidência que sugere que uma teoria está errada.

Se for encontrada uma evidência legítima que contraria alguma teoria, o trabalho seguinte é avaliar o impacto da nova descoberta: se ela invalida toda a teoria ou apenas parte dela. Em alguns casos, quando parte da teoria é invalidada, o que acontece é que a teoria é modificada para acomodar as novas evidências.

Louis Pasteur, ao trabalhar em 1851 com vidro e substâncias nutritivas, demonstrou que organismos complexos não se originavam diretamente de matéria orgânica inerte, refutando a teoria da geração espontânea de Aristóteles, que já durava dois mil anos.

Em alguns casos, a nova evidência não pode ser acomodada na teoria, então a invalida por inteiro. Ou pode acontecer das evidências existentes estarem de acordo com duas teorias concorrentes. Neste caso, os cientistas tem que conviver com duas ou mais teorias concorrentes, até que alguma evidência sirva para falsear uma delas, ou uma nova teoria seja construída, acomodando os aspectos válidos das duas teorias concorrentes.

Mas as novas evidências nunca são aceitas imediatamente. Este é um fato conhecido: a ciência é resistente, e só muda quando as evidências a favor da nova teoria são muito fortes. Um exemplo desta resistência foi experimentado pela teoria endossimbiótica, proposta pela bióloga Lynn Margulis na década de 1960.

Segundo esta teoria, mitocôndrias e cloroplastos teriam se originado a partir de procariotas de vida livre que teriam sido englobados por organismos eucariotas, através de endocitose, e estabelecido uma relação de simbiose com os mesmos. Mesmo com o acúmulo de evidências a seu favor, a teoria só foi aceita um bom tempo depois, e hoje está incorporada à teoria da evolução.

Conclusão

“O aspecto mais triste da vida de hoje é que a ciência ganha em conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria” — Isaac Asimov

Uma teoria científica representa o conhecimento científico tido como mais correto, e se compõe de hipóteses testáveis, e hipóteses que foram testadas, além de fatos que as evidenciam. As teorias não são transformadas nunca em leis ou verdades definitivas. Elas podem ser abandonadas ou aperfeiçoadas pelas evidências descobertas pela investigação científica. Além disso, as teorias são usadas para fazer previsões que mais tarde são testadas ou investigadas em laboratório ou na natureza, e que também servem para refutar as teorias ou aumentar a confiança que temos nelas. [Feira de Ciências]

Fonte: Hypescience

3 thoughts on “O QUE É UMA TEORIA CIENTÍFICA?

  1. Caro Rossetti, presumo que o artigo seja de sua autoria, merece alguns comentários cuja intenção é apenas de complementar.

    a) SOBRE A FRASE DE EINSTEIN
    Não só a ciência perante a realidade é primitiva e infantil, como também a religião e as artes, e o termo é de expressão. NEM UMA NEM OUTRA SÃO COISA ALGUMA, EXCETO MEROS ACERVOS DE CONHECIMENTOS. Ser primitivo ou infantil significa um “comportamento”, que no caso, é DO HOMEM OU DA HUMANIDADE, portanto, começa-se por misturar alhos com bugalhos, como tenho reiteradas vezes comentado aqui mesmo. SOMENTE O HOMEM NA QUESTÃO DA CIÊNCIA, RELIGIÃO E ARTES TEM COMPORTAMENTO ASSIM OU ASSADO, essas entidades são “mentais”, inventadas pelo homem a partir do surgimento das religiões que transformaram a escrita em necessidade humana, e a partir delas, se originaram os “acervos registrados”, que hoje denominamos artes (foi a primeira), religião (a segunda) e a ciência (a terceira), e é evidente que estão na seu estágio “infantil” de desenvolvimento, sequer entendem, descrevem e definem a própria Vida que é a própria razão de ser do próprio homem. EINSTEIN MAIS VEZ TEM RAZÃO, da mesma forma quando critica a burrice de separar religião e ciência, um mero dogmatismo de fanátismos.
    .
    b) QUESTÃO DA TEORIA
    Tanto quanto uma doutrina, são apenas “presunção de alguma verdade” que Einstein chamou de “realidade”, que também já disse aqui mesmo que não nos está disponível, EXCETO NOSSA PERCEPÇÃO OU OBSERVAÇÃO COM OS RECURSOS QUE SE DISPÕEM NUMA DETERMINADA CIRCUNSTÂNCIA, ÉPOCA E LOCAL. Quando transformamos isso em “dogmas de fé”, nos tornamos idiotas fanáticos de verdades que não nos estão disponíveis, exceto como objeto de nossa capacidade de observar. Tanto a teoria que se relaciona com a ciência, como a doutrina que se costuma relacionar com a religião, SÃO MERAS REVELEAÇÕES AO HOMEM, FEITAS POR OUTROOS HOMENS OU ATRAVÉS DELES (nossa burrice não considera esta hipótese, através de inúmeras evidências), e dependem unica e excluisamente de seu próprio estágio de evolução mental, moral e ética, QUE LOGICAMENTE SIGNIFICA EVOLUÇÃO ESPIRITUAL. Isso não consta de “nenhuma ciência”, porque não é seu paradigma, mas ESTÁ REVELADO EM QUALQUER RELIGIÃO. Uma teoria se postula se relacionar com as questões materiais e seus fenômenos, que temos como observar, estudar, interpretar e até concluir sempre com os recursos que dispomos, e é “praia” da ciência. enquanto outros fenômenos, entre os quais, os próprios típicos da mente e que entendemos como “místicos ou sobrenaturais”, SE MANTÉM NA CONDIÇÃO DE ENIGMAS PARA A CIÊNCIA E MISTÉRIOS PARA A RELIGIÃO, mostrando de fato a “infantilidade” dos conhecimentos humanos. O fato é que o Universo todo se rege por leis, A IGNORÂNCIA SURGE DO NÃO CONHECIMENTO DA LEI EQUIVALENTE. A relgiião aponta para a lei, a ciência deve “constatar” essa lei, e as artes empuram ambas para a evolução. SÃO MUTUAMENTE COMPLEMENTARES, SINÉRGICAS E IGUALMENTE ÚTEIS À EVOLUÇÃO HUMANA, o fanatismo incompreensível das pessas as isolam cada uma nos seu próprio nicho, transformando palpites em teorias ou doutrinas!
    O fato de termos recursos para constatar ou observar “alguns fenômenos materiais” pelos cientistas que postulam teorias (ciência não observa, não constata nada muito menos faz teorias, apenas registra), se tornam “hipóteses” quando se concluem sobre eles, E ESTÃO EM CONSTANTE MUTAÇÃO, MUDANÇAS, EVOLUÇÃO ETC. ETC. Portanto, em geral, são meras “mentiras de observação”, e temos montanhas delas na própria história. Confundir ciência com “cientistas, instituições, empresas etc.” é o mesmo que confundir religião com “religiosos, igrejas etc.”, que é de fato o que texto está fazendo, como ponto de partida.

    c) Quanto a Voltaire, também está correto. Na realidade ele define o “dogma de fé”, que afirma algo que sequer se tem como constatar e muito menos provar. O Big Bang tanto quanto a “seleção natural” são meros palpites baseados em observações, que transformados em dogmas de fé, MOSTRAM QUE A IGNORÂNCIA AINDA É A FONTE DE DECISÕES HUMANAS. E se “denominam” pelos dogmáticos, COMO TEORIAS CIENTÍFICAS, meros arranjos linguais de ignorâncias. Como comportamento humano, nada diferente de se imaginar um Deus Infinito, cuja origem está apenas na pergunta “inteligente” do homem quando pensa: COMO É, COMO FOI, QUANDO, ETC. ETC.

    d) Quanto a Azimob, está também correto, mas demanda uma interpretação melhor. O fato constatável é que a CIÊNCIA NO ÂMBITO DO ESTUDO DA MATÉRIA, APESAR DE MUITO MAIS NOVA COMO ENTIDADE MENTAL DO HOMEM, ESTÁ MUITO MAIS ADIANTADA DO QUE AS ARTES, QUE COMEÇARAM COM O PRÓPRIO HOMO-SAPIENS, E A RELIGIÃO QUE COMEÇOU COM OS REGISTROS ESCRITOS, e não é muito diferente da própria evolução mental do homem, através de suas nações. É quase certo que so primeiros “homens” tenham surgido na África, que paradoxalmente, tem suas nações muito mais atrasadas, parece que na espécie humana, o fato de ser “mais antigo”, não significa “mais sábio”, e nisso concorrem tanto a ciência, como a religião e as artes, porem, de forma e velocidades diferentes. ACREDITO (EU) QUE ISSO ESTÁ RELACIONADO COM A QUESTÃO DOGMÁTICA E AUTORITÁRIA DO SISTEMA DE PAJELANÇA DE PODER, que impõe dogmas de fé, que bloqueia a evoluão da própria mente. É tão mais evidente nas religiões, ou melhor, igrejas, do que na ciência e suas empresas e cientistas, e nas artes, com os artistas.
    A questão do “mais correto” como da ciência, é pura crença em “rituais”, tanto quanto nas igrejas. A ciência reducionista e tipicamente materialsta, postulou alguns rituais chamados “científicos” e simplesmente apostam suas crenças mais nesses rituais do que nas próprias realidades observadas, EXATAMENTE COMO FAZEM AS IGREJAS DESDE QUE SURGIRAM AS RELIGIÕES. Um exemplo típico está nos “textos científicos”, que se não atenderem a algumas ‘leis ritualísticas’ sequer são aceitos ou considerados como textos do que quer que seja, PELOS CIENTISTAS QUE COMANDAM “IGREJAS” DA PUBLICAÇÃO. São apenas “ritualismo” que no fundo, não representam absolutamente nada, sobre a própria ciência, relgiião ou artes. NÃO HÁ RITUALISMOS SEM DOGMAS DE FÉ.
    O DOGMA DE FÉ É TRANSFORMAR UM MERO PALPITE, UMA MERA REGRA PRÁTICA, UMA MERA IDÉIA OU PENSAMENTO EM VERDADE QUE NÃO EXISTE DISPONÍVEL PARA NOSSO NÍVEL DE EVOLULÇÃO MENTAL OU ESPIRITUAL.

    Todo filósofo de fato é um profeta, a diferença é que nos primórdios das religiões, apenas “alguns iluminados profetas” expressavam seus pensamentos de alguma forma, e de forma ‘escrita’ a´partir das religiões, hoje qualquer um, como estou fazendo aqui agora, CONSEGUE EXPRESSAR SEUS PENSAMENTOS COMO QUALQUER PROFETA DA ANTIGUIDADE. Até um desenho animado é no fundo, REVELAÇÃO DE ALGUM PENSAMENTO, E, PORTANTO, PROFECIA. O que estamos fazendo agora, é diferenciando profecia real de profecia imaginada, que chamamos de realidades científicas, realidades religiosas e realidades artísticas, NA MELHOR DAS HIPÓTESES MERAS PRESUNÇÕES CERTAMENTE TEMPORÁRIAS DESSAS REALIDADES, CUJA EXISTÊNCIA SE CREDITA À CRENÇA DE CADA UM DE NÓS, QUE É UM “MISTÉRIO” DA MENTE. Mesmo que alguém revele sua crença, NUNCA SABEREMOS COMO DE FATO O INDIVÍDUO ACREDITA.

    arioba;

  2. Olá, Prof. Rossetti,
    Excelente texto!
    Creio seja irretocável sob o ponto de vista a que se propõe esclarecer.
    Afora esse aspecto, ainda sobre a questão da teoria científica, lanço um olhar diferenciado, mas com o condão de apontar uma dinâmica (ou devir – se preferir) que se aproveita da observação histórica.
    Para tanto, apoio meu comentário em Thomas Kuhn em ” A estrutura das revoluções científicas”. Segundo Khun, Físico e Teórico da Ciência, uma viga-mestra da Filosofia da Ciência, aponta o carácter revolucionário do progresso científico, em que uma revolução implica no abando de uma estrutura teórica em proveito de uma outra, cuja fundamentação é incompatível.
    Podemos dizer que Khun precede a metodologia de Lakatos e o falsificacionismo de Popper, e a eles se opondo, adquire o status de relativista. O progresso da ciência segue etapas em que uma atividade científica se torna organizada quando converge para um único paradigma; esse paradigma são o conjunto de teorias e leis cuja aplicação se restringe a determinada comunidade científica.
    Entretanto, quando da tentativa de explicar aspectos da realidade a partir de um contexto experimental se esbarra em condições falsificacionistas, resulta uma crise quando a celeuma se torna incontrolável e esta só é resolvida quando surge um novo paradigma que substitua o anterior até que esse mesmo seja objeto de nova crise…

    • Só pra destacar, o texto não é de minha autoria. É de autoria dos editores do site Hypescience. Mas compartilho da mesma idéia, publiquei-o exatamente pela especificação do que é e como se faz ciência.

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