A IMPORTÂNCIA DO BRASIL PARA WALLACE E DARWIN.

Em 1848, Alfred Russel Wallace e Henry Bates partiram pelo mundo a bordo do navio Mischief.  O jovem Wallace chegou ás mesmas conclusões que Darwin e trouxe complicações para a reputação do naturalista na época de suas publicações. Wallace construiu grande parte de seu raciocínio da seleção natural passando em diversos lugares do mundo, inclusive no Brasil, onde coletou insetos e outros espécimes animais na floresta amazônica para vendê-los a colecionadores na Inglaterra, já que essa era a única forma que ele tinha de obter lucro após essa viagem.

Wallace e Bates passaram a maior parte de seu primeiro ano coletando insetos especialmente em Belém do Pará. Eles se separaram e exploraram o interior do estado e ocasionalmente se encontravam para discutir suas descobertas. Em 1849, tiveram o auxilio do jovem explorador e botânico Richard Spruce e o irmão mais novo de Wallace, chamado Herbert. Essa ajuda durou pouco tempo já que Herbert acabou falecendo dois dias depois de febre amarela. Spruce e Bates passaram quase dez anos coletando de tudo no Brasil e na América do Sul.

Wallace cartografou o Rio Negro por quatro anos, além de ter feito coletas, escrever sobre povos e línguas que encontrou e a respeito da flora e faunas locais. O grande problema de Wallace foi á viagem de volta para o Reino Unido. Ele embarcou de volta dia 12 de julho de 1852 e vinte oito dias depois o navio pegou fogo e a coleção inteira de Wallace foi perdida. Salvou apenas parte de diário e alguns esboços. Wallace e sua tripulação passaram dez dias em alto mar em um barco pequeno até serem resgatados pelo navio Jordeson.

Wallace passou grande parte do seu tempo vivendo do pagamento do seguro de sua coleção perdida e vendendo o que sobrou. Durante esse período ele escreveu seis ensaios, alguns deles falando sobre a Amazônia (On the Monkeys of the Amazon e o livro Palm Trees of the Amazon and Their Uses e Travels on the Amazon. Wallace sempre trocou cartaz com Darwin em uma relação amistosa, embora quando mais velhos cada um seguiu uma linha evolucionista distinta que gerou grandes discussões e debates entre si, especialmente no que se refere a seleção natural e sexual, na qual Wallace discordava ser mecanismos evolutivos distintos, e pelo fato de Wallace não concordar que o sistema nervoso central também havia passado por processos evolutivos. Para Wallace a complexidade do sistema nervoso só poderia ser explicada por uma interferência divina. Apesar de tudo isso, Wallace foi uma das pessoas que carregou o caixão de Darwin em 1882.

Darwin chegou ao Brasil dia 8 de Abril de 1832. Logo percebeu como o clima era quente e começou a fazer uma descrição geológica das colinas de granito encontradas no Rio de Janeiro e Bahia, especialmente do corcovado. Darwin faz uma descrição bastante detalhada sobre a postura e os costumes dos brasileiros da cidade de Campos Novos e Mandetiba. Darwin esboçou muita coisa sobre hidrófilos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Estudou muito sobre a diversidade de formigas e também o parasitismo de vespas que hoje pertencem a família Ichneumonidae e Sphecidae. Ele visualizou o ataque de vespas a aranhas do gênero Lycosa. Analisou e visualizou ataques de morcegos Desmodus d’orbignyi aos cavalos do local onde ficou hospedado.

Além disso, descreveu muito sobre os grandes cafezais das cidades, sobre os cavalos e como eram tratados nas fazendas. Ele sempre tentou escrever o nome dos lugares e o tratamento das pessoas da forma original, portanto em seu livro The Voyage of the Beagle, que foi publicado em forma de jornal ele descreve muitas palavras em português e em espanhol. É um livro bastante detalhado escrito pelo próprio Darwin e que trás em seu conteúdo um inglês vitoriano bastante específico, mas riquíssimo em detalhes de um Darwin ainda não sabia o que tudo aquilo significaria para o mundo acadêmico em um futuro próximo.

Geralmente, quando se expressa á passagem de Darwin no Brasil sempre nos restringimos ao repúdio que ele sentiu ao ver escravos negros sendo açoitados. De fato, Darwin relata isso em seu livro. Ele viu uma família de 30 negros escravos quase ser dividida em troca de algum dinheiro para o fazendeiro. Desde aquela época a violência no Brasil já era intensa. Darwin ao viajar por estradas sempre via cruzes simbolizando a morte por assassinato de pessoas. Por essa razão andava com um mateiro, para guia-lo na mata fechada e protegê-lo de eventuais ataques de assaltantes.

Darwin saiu do Brasil satisfeito, especialmente a respeito da biodiversidade local. Ele estudou o clima do local, a evapotranspiração das plantas e do ecossistema carioca, em especial as samambaias e seu tipo de folhagem.  Dia 18 de abril ele passou pela cidade de Sossego (na qual ele escreve Socêgo) rapidamente e foi conhecer Botafogo, onde se encantou com o local. Lá fez experimentos com planárias que viviam em locais de baixa umidade e que se alimentavam de madeira podre. Era planarias que ele jamais havia visto na Europa. Darwin fez o famoso estudo de cortar uma planária ao meio e verificar sua regeneração e reconstrução corporal.

Darwin embrenhou-se nas matas botafoguenses e visualizou tucanos, o gato mourisco domesticado por um dos mateiros, aves como gavinhas e beija-flores. Estudou os vagalumes, fazendo experimentos invasivos e decapitações para detalhar o fenômeno da bioluminescência. Visitou o Corcovado na qual fez estudos geológicos baseados no livro Principles of Geology de Charles Lyell, a maior referência da época

Na Bahia ele estudou a aerodinâmica de besouros e suas asas. Intrigou-se com a diversidade de fungos do Brasil, bem como de borboletas e avaliou o impacto ambiental de espécies invasoras na qual ele já tinha plena consciência do seu valor ecológico.

Darwin também estudou bastante sobre as aranhas de teia orbicular e a formação de estabilimentos, fios extra de seda que são acoplados aos aros da teia orbicular e reforçam-na contra eventuais impactos de presas ou mesmo de fatores abióticos como o vento. Ele estudou muito sobre a aranha Epeira clavipes que na nomenclatura atual é a famosa Nephila clavipes.

Na época de Darwin vários grupos de aranhas que hoje estão separados em diferentes famílias e gêneros eram classificados em um único grupo denominado Epeira.  Atualmente o grupo é considerado um sinônimo do gênero Araneus.

Epeira foi cunhado por Charles Athanase Walckenaer em 1805 pra estudar aranhas da família Araneidae. Ao longo do tempo esse conjunto foi recebendo diversos exemplares que hoje são classificados em diversas famílias como os Araneidae, Mimetidae, Nephilidae, Tetragnathidae, Theridiidae, Theridiosomatidae, Titanoecidae e Uloboridae.

Esse gênero (Epeira) não existe mais e cada uma dessas aranhas hoje formam uma família diferente, fazendo com que a família Araneidae seja somente mais uma dentro da diversidade de famílias descobertas e descritas. Por exemplo, a aranha que Darwin identificou como sendo Epeira clavipes hoje é classificada como Nephila clavipes e não pertence a família dos araneidae, de fato, hoje formam uma família aparte denominada Nephilidae, desde 2008.

Darwin saiu do Brasil dia 05 de Julho de 1832 rumo a Montevideo no Uruguai e levou grande conhecimento que fizeram parte de sua obra a Origem das espécies que também contou com a participação de um dos primeiros habitantes e co-fundadores da cidade de Blumenau, o médico, filosofo e naturalista Fritz Müller que foi um dos poucos defensores e o único colaborador de Darwin no Brasil. Müller e Darwin se corresponderam por 17 anos. Ele forneceu detalhes da biologia de artrópodes em geral.

Em 1861, Fritz Müller recebeu um exemplar do livro A origem das espécies de Charles Darwin, apesar de nunca terem se conhecido pessoalmente. Müller se identificou com as ideias de Darwin e pensou em publicar algumas observações gerais em favor da teoria, mas, em seguida, considerou que a melhor prova seria testá-la no campo, com observações experimentais com seres vivos, em vez de restringir-se a discussões teóricas e filosóficas.

Para testar a seleção natural ele escolheu os crustáceos, por ser um grupo muito diversificado e abundante no litoral de Santa Catarina, além de sua taxonomia já ser bem conhecida na época. Ele postulou que se a teoria de Darwin estivesse correta seria possível demonstrar que os diversos grupos de crustáceos teriam se separado uns dos outros, a partir de um ancestral comum, e foram adquirindo características novas em fases sucessivas de seu desenvolvimento (denominado ontogênese), que seriam fixadas ou eliminadas pela seleção natural.

Müller realizou uma série de observações que culminaram com o descobrimento de muitos fatos novos, principalmente no que se refere ao seu desenvolvimento. O fruto desse longo e minucioso tornou-se um livro recheado de observações. O livro foi publicado em Leipzig, Alemanha, em 1864 e ajudou a propagar e defender a teoria de Darwin que tinha suscitado forte reação contrária naquele país. O nome do livro era Für Darwin que significaPró-Darwin, ou a favor de Darwin.

Nesse livro ele observa diferentes adaptações das espécies de ambiente marinho que migraram para água doce e ambiente terrestre, bem como a assimetria bilateral dos membros, o dimorfísmo sexual, o polimorfismo intra-específico, a morfologia e desenvolvimento das diferentes formas larvais dos crustáceos. Com todas ilustrações feitas a mão. Ele ofereceu subsídios preciosos e decisivos a favor da teoria darwiniana. Müller termina seu livro dizendo:

Durante o período crucial da dúvida, que não foi curto, quando o fiel da balança oscilava diante de mim em perfeita incerteza entre os prós e os contras [à teoria darwiniana], e quando todo e qualquer fato que levasse a uma pronta decisão teria sido bem-vindo, nunca tive o menor problema com qualquer contradição surgida entre as conseqüências trazidas para a classe dos crustáceos pela teoria de Darwin. Pois nunca as encontrei, nem na época, nem depois. Aquelas que havia encontrado dissiparam-se após uma consideração mais profunda, ou converteram-se em sustentáculos da doutrina darwinista

Cabe ressaltar que o uso de caracteres adquiridos compartilhados (denominado sinapomorfias) para mostrar relações evolutivas entre espécies vivas de crustáceos foi uma grande inovação introduzida por Müller. Os diagramas de ramos que ele utilizou, hoje conhecidos como cladogramas, que favorecem o agrupamento de organismos e seus respectivos ancestrais comuns e ainda utilizados em árvores filogenéticas. Muller o primeiro a criar uma filogenia com base em observações concretas e exaustivas de material vivo, diferentemente de Darwin, e depois, Haeckel, que propuseram árvores filogenéticas teóricas.

Fritz Muller

Em seu livro, Müller ainda trata da recapitulação ontogenética da filogenia, que foi fortemente corroborada e divulgada por Haeckel. Ele percebeu e descreveu que as fases larvais e juvenis dos crustáceos abrangem uma grande variedade de formas, e que crustáceos mais basais nas filogenias, como cracas, copépodes e ostracodes emergem do ovo sob a forma de náuplio, a forma larval mais simples. Os caranguejos marinhos e camarões de água doce nascem no estágio de zoea, formas larvais que já apresentam inúmeros apêndices. Já os lagostins de água doce e alguns caranguejos terrícolas suprimem as fases larvais e a metamorfose e emergem do ovo já sob a forma juvenil, pequenos adultos em miniatura.

No litoral de Santa Catarina, Fritz Müller descobriu um camarão marinho pertencente ao gênero Penaeus que nasce sob forma de náuplio e posteriormente passa pelo estágio de zoea. Müller sugeriu, que os caranguejos marinhos e os camarões que emergem sob a forma de zoea deveriam passar pelo estágio mais simples de náuplio durante seu desenvolvimento embrionário, o que de fato se confirmou. Hoje, pode-se dizer que os crustáceos derivados, que saíram do ambiente marinho para áreas continentais passam pelo estagio tornaram suas formas larvais de seus ancestrais em formar embrionárias carregando traços evolutivos antigos recapitulando ontogenéticamente seus passos evolutivos. Tudo isso passou a fazer parte do livro A origem das espécies a partir da sexta edição quando recebeu mais evidencias que suportavam a teoria de Darwin.

Saiba mais em DARWIN ANTES DO DARWINISMO e DARWINISMO DEPOIS DE DARWIN.

 

Scritto da Rossetti

Palavra chave: NetNature, Rossetti, Alfred Russel Wallace, Charles Darwin, Fritz Müller, Seleção natural, Brasil, Rio de Janeiro, Botafogo, Sossego, Bahia, Escravidão.

.

Referências.

* Charles Darwin. The Voyage of the Beagle. 1839.
* Darwin no Brasil. Encanto com a natureza e choque com a escravidão. Scientific american. 2009
*GASPAR, Lúcia. Viajantes em terras brasileiras. Documentos existentes no acervo da Biblioteca Central Blanche Knopf. Fundação Joaquim Nabuco. Recife.
* Margherita Anna Barracco e Cezar Zillig Parceiro de Charles Darwin. Scientific american.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s