ESTUDO DESVENDA EVOLUÇÃO DA PLACENTA (Comentado)

Órgão evoluiu na linhagem dos mamíferos após a extinção dos dinossauros, 65 milhões de anos atrás, apesar de o grupo existir há 200 milhões de anos; conclusão contraria estudos anteriores, que apontavam que os animais com placenta seriam mais antigos

A investigação mais detalhada já feita sobre a evolução dos mamíferos indica que a “invenção” da placenta – o órgão intrauterino que funciona como uma interface entre os organismos do feto e da mãe – só ocorreu após a extinção dos dinossauros, cerca de 65 milhões de anos atrás, apesar de os mamíferos já existirem há quase 200 milhões de anos.

Desenho mostra como seria o primeiro placentário

Desenho mostra como seria o primeiro placentário

A pesquisa, publicada na edição de hoje da revista Science, usou uma combinação de fatores genéticos e morfológicos para reconstruir a árvore evolutiva dos mamíferos placentários e produzir um modelo hipotético de como teria sido o ancestral primordial do grupo, hoje representado por mais de 5 mil espécies terrestres, aquáticas e marinhas – incluindo nós mesmos.

As conclusões são baseadas numa análise comparativa de quase 30 genes e mais de 4,5 mil caracteres fenotípicos (morfológicos, fisiológicos, ecológicos e até comportamentais) de 86 espécies atuais e extintas, representando todos os grupos conhecidos de mamíferos placentários. Tudo isso reunido num banco de dados dez vezes maior que qualquer outro já produzido para um estudo dessa natureza, segundo os autores.

“Esse é o grande diferencial do trabalho”, diz o zoólogo Marcelo Weksler, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, um dos dois brasileiros que assinam o artigo, em parceria com autores internacionais.

“É algo de uma magnitude sem precedentes no estudo da morfologia”, diz Fernando Perini, da Universidade Federal de Minas Gerais. Ambos participaram da pesquisa como pós-doutorandos do Museu Americano de História Natural, em Nova York, que foi um dos núcleos de coordenação do estudo.

O produto final é uma árvore evolutiva dos mamíferos placentários, que, segundo os cientistas, começa a brotar cerca de 65 milhões de anos atrás e se ramifica rapidamente nos 5 milhões a 10 milhões de anos seguintes, produzindo milhares de linhagens evolutivas, que, eventualmente, deram origem à enorme variedade de mamíferos placentários que conhecemos hoje, incluindo ratos, baleias, golfinhos, camelos, macacos, gatos e cachorros. A exceção são os mamíferos marsupiais, como os cangurus, e os monotremados, como os ornitorrincos.

Não há um fóssil que seja reconhecido como o ancestral primordial de todos os placentários. Mas o grau de detalhamento do estudo permitiu aos pesquisadores construir uma versão hipotética de como seria este animal (veja ilustração nesta pág.), que teria evoluído de mamíferos mais antigos “pouco depois” (no prazo de algumas centenas de milhares de anos) do cataclismo que aniquilou os dinossauros no fim do período Cretáceo.

Segundo os cientistas, esse “arquétipo ancestral” tinha entre 6 e 245 gramas (do tamanho de um rato), era capaz de escalar árvores, alimentava-se de insetos e dava à luz um filhote por vez, que nascia sem pelos e com os olhos fechados; as fêmeas tinham um útero com dois cornos (pontos de conexão com as trompas); machos tinham testículos abdominais e produziam espermatozoides de cabeça chata; além de várias outras características anatômicas do esqueleto e dos sistemas nervoso e circulatório detalhadas no trabalho.

Nenhuma dessas características associadas a tecidos moles está preservada nos fósseis, mas é possível inferir a história evolutiva delas por meio da maneira como as espécies vivas que as carregam estão distribuídas ao longo da árvore. “É um animal totalmente hipotético, mas que combina todas as características que acreditamos que estavam presentes no ancestral do grupo”, explica Perini. “Se um dia encontrarmos o fóssil desse ancestral, acreditamos que ele será algo muito parecido com isso.”

Contradições. As conclusões do trabalho contrariam estudos anteriores, baseados em análises puramente moleculares (genéticas), segundo os quais a linhagem dos placentários seria bem mais antiga, com até 100 milhões de anos.

Para Weksler, o estudo é uma demonstração de que, apesar dos avanços da genética, a paleontologia e a morfologia continuam sendo indispensáveis para o estudo da evolução da vida na Terra. “Os resultados são muito fortes, muito consistentes”, diz ele. “Espero que seja um estímulo ao uso conjunto das duas ferramentas”, avalia Perini.

Fonte: Estadão.

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Comentários do autor

Não é correto dizer que não há um fóssil que seja reconhecido como o ancestral dos placentários. De fato, o ancestral hipotético acima passa longe da proposta mais ortodoxa de que os placentários surgiram muito antes do previso pela reportagem acima. Foi publicado na revista Nature em 2011 um estudo sobre um fóssil de um placentário datado em 160 milhões de anos que diz que a placenta é surgiu muito antes da catástrofe do Cretáceo.

De fato, estamos falando não de um ancestral hipotético como o criado acima, mas sim de um exemplar fossilizado chamado Juramaia sinensis na qual já discuti sobre a origem da placenta em DESCOBERTO NA CHINA ANTECESSOR MAIS ANTIGO DOS MAMÍFEROS.

O Juramaia sinensis viveu a cerca de 160 milhões de anos e era muito parecido com murganhos. Foi achado na Província de Liaoning, na China pela equipe do paleontólogo Zhe-Xi Luo, do Museu de História Natural Carnegie, em Pittsburgh, nos Estados Unidos. A descoberta revela que a separação entre os mamíferos placentários e marsupiais ocorreu 35 milhões de anos mais cedo do que se pensava antes e obviamente, até mesmo antes do modelo proposto acima.

O Juramaia sinensis é mais antigo ainda que o Eomaia que é um placentário datado em 125 milhões de anos, descrito em 2002 também por Zhe-Xi e John Wible.

As evidencias suportam a ideia de que ele seja realmente um placentário uma vez que a dentição dos eutérios têm três molares e cinco pré-molares. Isso contrasta com os metatérios, caracterizados por quatro molares e três pré-molares. Além disto, os ossos das patas da frente e dos pulsos têm características clássicas dos eutérios. Portanto, o estudo feito acima é descartável uma vez que o ancestral dos placentários foi descoberto e é datado não em 65, mas sim 160 milhões de anos.

Talvez essa contradição seja resultado de metodologias científicas distintas. De acordo com o estudo feito acima para criar um ancestral hipotético, as conclusões foram tiradas a partir de uma análise comparativa de quase 30 genes e mais de 4,5 mil caracteres fenotípicos (morfológicos, fisiológicos, ecológicos e até comportamentais) de 86 espécies atuais e extintas. E possível que os autores não tenham conhecimento a respeito de Juramaia sinensis ou que a ideia de ancestralidade de Juramaia sinensis tenha sido refutada e não divulgada fora do meio acadêmico. Metodologias distintas geram datas distintas para a origem da mesma característica, a placenta. Não é possível conciliar as duas datas, portanto, deve haver um posicionamento oficial, ao menos temporário.

Usar metodologias distintas sem considerar o que se sabe a respeito do assunto pode gerar discrepâncias grandes como esta. As datações nem podem ser comparada porque o grupo brasileiro não datou, ou ao menos citou, a existência do Juramaia sinensis. O fato é que recentemente houve um refinamento no processo de datação e aqui cito dois estudos que mostram isso.

Um deles refere-se a extinção que dizimou os dinossauros. A extinção dos dinossauros sempre foi muito polêmica e sempre houve várias teorias a respeito dessa extinção. As menos comuns dizem que os dinossauros morreram por constipação, ou ainda por um evento de eutrofizacão em massa das águas do planeta. Ao que parece, a versão mais ortodoxa esta correta, a tradicional ideia do meteoro que caiu na península de Yucatán, no México. A datação mais recentemente obtida por pesquisadores da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, são as mais precisas até agora e mostram que o meteorito atingiu a Terra há 66.038.000 anos, pouco antes da extinção. Segundo os cientistas, isso não foi uma coincidência, há correlação sim entre os dois eventos.

O estudo usou uma técnica de datação de alta precisão que mede as quantidades de argônio e potássio em amostras de rochas para descobrir a idade do material. Os pesquisadores analisaram rochas formadas no mesmo período em que a extinção aconteceu e outras formadas após a queda do meteoro. A conclusão foi que os eventos aconteceram em períodos próximos, com uma distância temporal de no máximo 32 mil anos.

A outra datação foi usada no caso dos neanderthais. A datação mais comum indica que os neanderthais foram extintos entre 35 e 27 mil anos, sendo o encontro com os humanos a principal causa. Entretanto, essa afirmação hoje esta sendo contestada pela realização de novos métodos mais precisos de se obter datações. Pesquisadores da Austrália e Europa reexaminaram os ossos usando um método melhor para filtrar a contaminação presente nos fósseis e concluiu que os restos mortais mais recentes são de cerca de 50.000 anos atrás. Portanto, é mais provável que a extinção dos Neandertais tenha ocorrido devido a uma série de fatores, especialmente climáticos.

Essas renovações ou refinamentos no método de datação são fundamentais para a paleontologia, pois permite estabelecer precisão em suas informações. Isso contrasta com a metodologia de datação dos criacionistas que alegam que a datação feita em centros acadêmicos é contaminada e por isso fornece datas tão altas. Assim, se livram de evidencias opostas a sua cosmovisão e fazem datações calibradas, ou baseadas na ideia de uma Terra jovem, sendo que qualquer ser vivo deve ter menos que 6 mil anos. Isso obviamente não é uma datação correta porque parte da ideia de ajustar evidências a uma conclusão pré-concebida.

A datação feita por centros acadêmicos é baseada na media do decaimento radiativo e desconta através de métodos da física as variáveis. Ela dá resultados raramente conflitantes e que na maioria das vezes esta de acordo com outras formas de datação, como o relógio molecular. Esperemos ver qual é o posicionamento que melhore reflete a origem da placenta, entretanto, na melhor das hipóteses, uma coisa é clara; a placenta é datada em milhões de anos, e não em milhares.

Scritto da Rossetti

Palavra chave: NetNature, Rossetti, Placenta, Datação, Juramaia sinensis, Evoluçao

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Referências

* Zhe-Xi Luo. Juramaia sinensis” é o mais antigo fóssil de mamífero com placenta. Ciência Publico 25/08/2011
* Zhe-Xi Luo, Chong-Xi Yuan,        Qing-Jin Meng          & Qiang Ji. A Jurassic eutherian mammal and divergence of marsupials and placentals. Nature 476, 442–445 (25 August 2011)

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