ESTUDO AUSTRALIANO DESCOBRE ORIGEM DE LOBO QUE INTRIGOU ATÉ CHARLES DARWIN. (Comentado)

Análise do DNA do lobo das Malvinas permitiu descobrir como o animal fez a travessia de 480 quilômetros entre o continente e as isoladas Ilhas Malvinas

Pintura mostra o lobo das Malvinas, único mamífero nativo das Ilhas Malvinas, extinto por caçadores em 1876 (Michael Rothman, Ace Coinage Inc)

Pintura mostra o lobo das Malvinas, único mamífero nativo das Ilhas Malvinas, extinto por caçadores em 1876 (Michael Rothman, Ace Coinage Inc)

Pesquisadores da Universidade de Adelaide, na Austrália, resolveram um mistério que há 320 anos deixava estudiosos perplexos: como o lobo das Ilhas Malvinas (Dusicyon australis) teria chegado a essas isoladas ilhas, a cerca de 480 quilômetros de distância da Argentina, e se tornado o único mamífero terrestre a habitar a região. O estudo que descreve essa conclusão foi publicado nesta terça-feira, no periódico Nature Communications.

Sem título

Teorias anteriores sugeriram que o animal poderia ter flutuado sobre vegetação ou blocos de gelo, atravessado por alguma ponte que atualmente estaria submersa ou mesmo ter sido transportado por humanos do continente até o arquipélago.

A questão foi levantada em 1690, por exploradores britânicos, e já intrigou até Charles Darwin, quando encontrou o animal pela primeira vez durante uma viagem na embarcação Beagle, em 1834. A caça provocou a extinção do lobo das Malvinas em 1876.

Para a realização desse estudo, os pesquisadores extraíram amostras do crânio de um espécime do lobo das Malvinas coletado por Darwin e outro exposto no Museu Otago, na Nova Zelândia.

Parente extinto — Estudos anteriores mostravam que o lobo das Malvinas teria divergido geneticamente do lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) há cerca de sete milhões de anos e estimavam que o lobo das Malvinas teria colonizado o arquipélago há cerca de 330.000 anos.

De acordo com Jeremy Austin, integrante do grupo de pesquisadores, os estudos anteriores não incluíam um parente extinto do lobo das Malvinas, o Dusicyon avus, que habitava a América do Sul. “Nós extraímos o DNA de seis exemplares de Dusicyon avus coletadas no Chile e na Argentina e o comparamos com um grande grupo de espécies extintas ou não da mesma família”, disse Austin.

 Dusicyon avus era o parente mais próximo do lobo das Malvinas e eles se distanciaram há apenas 16.000 anos.

Porém ainda restava saber como o animal teria realizado a travessia. “O momento de descoberta foi quando encontramos evidências de planaltos submarinos na costa da Argentina”, afirmou Alan Cooper, integrante do estudo.

Os pesquisadores concluíram que durante o último máximo glacial (ocorrido entre 25.000 e 18.000 anos atrás) o nível do mar desceu drasticamente na região, permitindo que um estreito ligasse o arquipélago ao continente. O lobo teria atravessado esse estreito quando o mar estava congelado.

A ausência de outros mamíferos na região pode ser explicada pelo fato de que animais menores, como ratos, não são capazes de atravessar o gelo.

Fonte: Revista Veja

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Comentários do autor

Era de se esperar que a distribuição da biodiversidade do mundo tivesse uma explicação natural. Eventos como este não são novidades. De fato, tanto a colonização de uma ilha a partir de pontes de gelo quanto a partir de ilhas flutuantes de vegetação são conhecidas ela ciência. É possível até que em determinado locais o nível do mar tenha abaixado tanto que um planalto do próprio assoalho do oceano se sobressaísse do nível do mar.

Pode parece estranho pensar desta forma, mas a Terra sujeita a tantos milhões e bilhões de anos de existência pode ter passado por situações geológicas (ainda) inimagináveis pela ciência. Por exemplo, um estudo feito no Brasil mostrou que duas espécies de anêmonas são relacionadas evolutivamente e que seu processo de especiação ocorreu devido a uma projeção do mar que passava por dentro do Brasil (Veja PESQUISA COM ANÊMONAS REFORÇA TEORIA DE QUE BRASIL TEVE ‘MAR INTERNO’). Análises geológicas mostram que no estado da Bahia, cerca de 150 a 200 quilômetros continente a dentro há fósseis de conchas, que corroboram a ideia de que o nível do mar já esteve muito mais alto e até mesmo baixo mais que o nível atual do mar.

Pode parece estranho pensar que uma ponte de gelo ou mesmo de terra seja formada, mas aconteceu exatamente isto no estreito de Bering. Ele permitiu a espécie humana colonizar as Américas, favoreceu não somente a passada de um povo, mas parece que ao longo de milhares de anos diversas levas de mongoloides, povos clovistas e pré-clovistas colonizaram as Américas. Os índios mesmos fazem parte de uma leva de paleoíndios que quando colonizaram as Américas possivelmente brigaram e extinguiram os povos sambaquis mais velhos que existiam aqui.

As Ilhas Diomedes situam-se exatamente no meio do estreito de Bering. Durante as últimas glaciações, com a queda do nível dos oceanos a área do estreito transformou-se numa ponte natural entre a Ásia e as Américas por onde esses povos teriam chegado à América. Tanto o estreito de Bering quanto o mar de Chukchi a norte e o mar de Bering a sul são mares de baixas profundidades e durante as glaciações a água do mar concentra-se nas calotas polares e nas geleiras, fazendo baixar o nível do mar e expondo os fundos marinhos de pequenas profundidades. Outras pontes terrestres se formaram e desapareceram nos períodos interglaciais. Por exemplo, há 14 mil anos a Austrália esteve unida à Nova Guiné e à Tasmânia e as Ilhas Britânicas estiveram ligadas à Europa.

Antes da descoberta do esqueleto de Luzia em lagoa santa (Minas gerais), os pesquisadores afirmavam que seres humanos de traços mongolóides haviam chegado ao continente americano atravessando a ponde do Estreito de Bering, entre o Alasca e Sibéria.

Segundo essa hipótese, essa migração teria ocorrido há cerca de 12 mil anos, durante a última glaciação, quando a temperatura do planeta esteve extremamente baixa. Sabemos hoje que há registros mais antigos datados em cerca de 15, 18 e talvez até 30 mil anos.

Temos a falsa impressão de que o assoalho de oceanos é algo plano como é a água vista no nível do mar. Essa impressão é falsa. De fato, as maiores alturas que existem em nosso planeta estão de baixo do oceano. Embora o monte Everest seja o maior pico do mundo em determinados locais do Atlântico ou Pacifico existem cadeias de montanhas submersas muito maiores que o monte Everest. A fossa das Marianas é o local mais profundo do oceano e tem cadeias de montanhas de milhares de metros de altura e quilômetros de tamanho. Em uma analogia simples, a altura do assoalho do oceano até o nível do mar de um continente é tão alto quando a distancia do nível do mar em relação a um avião a 27 mil pés de altura. A proporção é idêntica e mostra que cadeias de montanhas ou planaltos do oceano podem formas pontes geladas ou mesmo terrestres ligando regiões do globo permitindo a colonização e recolonização de animais favorecendo processos de especiação. Talvez o melhor exemplo que corrobore essa premissa e que favorece a hipótese do autor da reportagem acima seja que grupos diferentes de animais passaram pelo mesmo processo. Madagascar é fruto de diversas colonizações, inclusive humana.

Outra evidencia é que há 20 milhões de anos atrás viveu o ancestral dos felinos atuais chamado Pseudaelurus. Há 10 milhões de anos deu origem a linhagem das panteras e a 9,4 milhões de anos um segundo grupo se diferenciou e deu origem aos gatos da baía. Estes gatos são características de determinadas regiões da Ásia. Aos 8 milhões de anos outra diferenciação deu origem ao caracal que hoje vivem na África e compreende três espécies diferentes. Neste momento o nível dos oceanos estava baixo, reduzindo seu volume em 60 metros, isso permitiu que a África fosse ligada a península arábica. Assim, os felinos puderam migrar para outros locais e conquistar novos horizontes. Além disto, permitiu que os felinos também conquistassem o Alasca através do estreito de Bering. Assim na América surge a linhagem das jaguatiricas e do lince, separados a aproximadamente 7,2 milhões de anos quando o nível dos mares voltou a subir.

A evolução dos felinos é bem conhecida pelos cientistas e a distribuição espacial desses animais é explicada por sucessivas ondas de migração que ocorreram com a baixa dos níveis do mar (veja mais em AS CONSISTENTES EVIDÊNCIAS DA EVOLUÇÃO DOS FELINOS E A DOMESTICAÇÃO DOS GATOS).

Saiba mais em ESTUDO REVELA QUE GRUPO DE INDONÉSIOS POVOOU MADAGASCAR HÁ 1,2 MIL ANOSLA FAUNA DE MADAGASCAR LLEGÓ A BORDO DE TRONCOS O ISLAS VEGETALES e A ORIGEM E A CARACTERIZAÇÃO BIOGEOGRAFICA DE MADAGASCAR

Scritto da Rossetti

Palavra chave: NetNature, Rossetti, Gelo, Ponte Glaciação, Especiação, Lobo Malvinas.

One thought on “ESTUDO AUSTRALIANO DESCOBRE ORIGEM DE LOBO QUE INTRIGOU ATÉ CHARLES DARWIN. (Comentado)

  1. Completamente de acordo com você, e acrescento que ninguém estaria discutindo se fosse encontrado “por acaso” um relógio suiço nas Malvinas, a origem do tal relógio, mas apenas como ele teria aprecido por lá, ainda mais se ainda estiver funcionando! Claro que tanto pode ser “pelo acaso de algum fenômeno terrestre, como também e mais provável, pelas mãos de algum distraído que o perdesse por lá. Não se discute a “origem”, mas a forma como acontecem as coisas, mas infelizmente entre os biólogos, se dá mais atenção à origens irracionais do que à explicação racional.
    arioba.

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