GUERRA NÃO É HERANÇA EVOLUTIVA DOS HUMANOS. (Comentado)

Pesquisadores concluem que a prática do confronto não é inata nem inevitável

A cena do “macaco assassino” no filme de Stanley Kubrick, 2001; Uma Odisséia no Espaço (1968), não tem base em fatos.

A cena do “macaco assassino” no filme de Stanley Kubrick, 2001; Uma Odisséia no Espaço (1968), não tem base em fatos.

Por John Horgan

Uma das mais insidiosas ideias modernas sustenta que a guerra é inata, uma adaptação criada em nossos ancestrais pela seleção natural. Essa hipótese – vamos chamá-la de “Teoria da Guerra com Raízes Profundas” – já foi promovida por intelectuais respeitáveis como Steven Pinker, Edward Wilson, Jared Diamond, Richard Wrangham, Francis Fukuyama e David Brooks.

A Teoria das Raízes Profundas aborda não apenas a agressão humana violenta em geral, mas uma manifestação específica dela, envolvendo ataques de um grupo contra o outro.

Os adeptos da teoria frequentemente argumentam que – por mais belicosos que sejamos atualmente – nós éramos ainda mais belicosos antes do advento da civilização.

 Pinker alega em seu bestseller, Better Angels of Our Nature (Os anjos bons de nossa Natureza, em tradução livre), que “ataques e disputas crônicas caracterizam a vida em um estado natural” . Em The Social Conquest of the Earth (A Conquista Social da Terra), Wilson chama a guerra de “maldição hereditária da humanidade”.

A Teoria das Raízes Profundas se tornou extraordinariamente popular, especialmente considerando as evidências para ela são extraordinariamente fracas.

Um estudo publicado em 18 de julho na Science, “Lethal Aggresion in Mobile Forager Bandas and Implications for the Origins of War”, fornece contra-evidências para a Teoria das Raízes Profundas.

Os autores do estudo, os antropólogos Douglas Fry e Patrik Soderberg da Universidade Abo Akademi, na Finlândia, declaram que seus descobertas “contradizem afirmações recentes de que coletores nômades se engajavam regularmente em guerras de coalisão contra outros grupos”.

Fry e Soderberg se concentram em bandos de coletores com grande mobilidade, também chamados de caçadores-coletores nômades, porque se acredita que seu comportamento forneça uma janela para a evolução humana.

Nossos ancestrais viveram como coletores nômades desde a emergência do gênero Homo há cerca de dois milhões de anos até aproximadamente 10 mil anos atrás, quando humanos começaram a plantar, domesticar animais e se estabelecer em sociedades hierárquicas mais complexas.

Fry e Soderberg examinaram dados de violência mortal em 21 sociedades coletoras observadas por etnógrafos.

As sociedades incluem os Aranda e Tiwi, da Austrália, os Kaska, Kitlinermiut, e Montagnais da América do Norte; os Botocudo da América do Sul, os Kung, Haza e Mbuti da África; e os Vedda e Andamanese do Sul do Ásia.

Fry e Soderberg regisram um total de 148 “eventos de agressão letal” nessas sociedades.

Os pesquisadores distinguem entre a violência envolvendo pessoas que pertencem ao mesmo grupo, frequentemente aparentados, e a violência entre pessoas em grupos diferentes. Eles também distinguem entre a violência envolvendo apenas um perpetrador e vítima e a violência envolvendo pelo menos dois assassinos e duas vítimas.
Essas distinções são cruciais, porque a guerra, por definição, é uma atividade em grupo.
Os defensores da teoria “raízes profundas” frequentemente consideram todas as formas de violência mortal, não apenas a violência em grupo, como evidência para sua teoria. (Eles frequentemente também contabilizam a violência em sociedades que praticam a horticultura, como os Ianomami da Amazônia, mesmo que a horticultura seja uma invenção humana relativamente recente.)

Das 21 sociedades examinadas por Fry e Soderberg, em três não encontraram registro de morte de nenhum tipo, e em 10 não havia mortes provocadas por mais de um perpetrador.
Em apenas seis sociedades os etnógrafos registram mortes que envolveram dois ou mais perpetradores e duas ou mais vítimas. Uma única sociedade, no entanto, os Tiwi da Austrália, foi responsável por quase todas essas mortes em grupo.

Alguns outros pontos de interesse: 96% dos assassinos eram do sexo masculino.

Isso não é surpresa. Mas alguns leitores podem se surprender com o fato de que apenas duas de 148 mortes se originaram de luta por “recursos”, como áreas de caça, fontes de água ou árvores de frutos.

Nove episódios de agressão letal envolveram maridos matando esposas; três envolveram a “execução” de um indivíduo por outros membros de seu grupo; sete envolveram a execução de “estranhos”, como colonizadores ou missionários.
A maioria das mortes veio do que Fry e Soderberg categorizam como “disputas pessoais diversas”, envolvendo ciúmes, roubos, insultos e assim por diante. A causa mais específica de violência mortal – envolvendo perpetradores únicos ou múltiplos – foi a vingança de um ataque anterior.

Esses dados corroboram a teoria da guerra proposta por Margaret Mead em 1940.

Observando que algumas das sociedades coletoras simples, como os aborígenes australianos, podem ser belicosas, Mead rejeitou a ideia de que a guerra era uma consequência da civilização. Mas ela também descartou a noção de que a guerra fosse inata – uma “necessidade biológica”, como ela chamava – simplesmente ao apontar (como fazem Fry e Soderberg) que algumas sociedades não se engajam em violência entre grupos.

Mead (novamente como Fry e Soderberg) não encontrou evidências para o que poderia ser chamado de teoria malthusiana da guerra, que sustenta que a guerra é a consequência inevitável da competição por recursos.

Em vez disso, Mead propôs que a guerra é uma “invenção” cultural – no linguajar moderno, um meme, que pode surgir em qualquer sociedade, da mais simples até a mais complexa.
Uma vez que surge, a guerra frequentemente se auto-perpetua, com ataques de um grupo provocando retaliações e ataques preventivos de outros.

O meme da guerra também transforma sociedades, fazendo com que se tornem militarizadas e tornem a guerra mais provável.

Os Tiwi parecem ser uma sociedade que abraçou a guerra como modo de vida. Assim como os Estados Unidos da América.

A Teoria das Raízes profundas é insidiosa porque leva muitas pessoas a sucumbir a noção fatalista de que a guerra é inevitável. Errado. A guerra não é nem inata, e nem inevitável.

Fonte: Scientific American Brasil

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Comentários do autor

Eu diria que se analisarmos este texto sob uma perspectiva filosofica temos novamente o velho dilema entre Hobbes ou Rousseau. No século XVIII Jean jacque Rousseau escreveu o Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens em uma época em que ecoava a necessidade de uma reforma social, muitas delas incentivadas por Voltaire. Nessa epoca acendeu-se o debate entre Rousseau e Hobbes.  Para Hobbes, o estado egoista e selvagem do homem é o que o faz mau e viver em sociedade sob o domínio de um regramento social é que torna o homem civilizado. Para Rousseau o que torna  homem mau é a sociedade civil, deixando claro que o estado natural do homem é a inocência e felicidade, independente do homem nascer livre.

O que eles debatem acima é a velha ideia de que se o homem nasceu biologicamente determinado para ser mau ou bom. Por um lado temos a selvageria condicionada pela natureza humana, ou seja, evolutivamente condicionada a guerra (como destacado no texto acima) ou a sociedade civil o condiciona a maldade.

Talvez uma abordagem comparativa com Frans de waal seja interessante em relação a violência. Afinal, nós mamiferos, especialmente primatas somos muito mais do que nos é determinado geneticamente. Carl Sagan em Dragões do Éden destaca muito a diferença dessas ois tipos de informações que temos, a genética e nossa capacidade sem igual de absorver uma quantidade de informação extracorpórea e armazenar no sistema nervoso central recontextualizando quando necessário.

De Waal em seu livro Eu, primata destaca que como chimpanzés, os seres humanos são territoriais e tendemos a tratar a vida do intruso com desprezo. Entretanto, isto não justifica que o homem seja biologicamente ou socialmente condicionado a violência. De fato, só explicita que determinados comportamentos podem ser compartilhados. O que sabemos é que guerras são iniciadas por motivos econimico/políticos, ideológicos ou religiosos. Não raro os três se combinam, como as justificativas dos americanos em invadir o afeganistãoem busca do terrorista Osama Bin Laden. A justificativa para atentados contra a vida dada pelos seguidores de Bin Laden (e também pelos americanos) era ideológica, político/economica e religiosa. De fato, e contrariando Descartes, em seu livro O Discurso do Método, se os mandamentos bíblicos realmente funcionassem não precisariamos criar leis.

Bem, o fato é que as regras ditadas pela sociedade, as leis, funcionam como um agente neutralizador de atitudes hostis, sejam elas condicionadas pela sociedade ou pela simples natureza biologica. Aqui é preciso fazer uma ressalva, uma diferença clara entre explicar determinados fenômenos e justificar determinados atos. É sabido que chimpanzés muitas vezes armam ataques em grupo, com estratégias claramente bem elaboradas, não só para capturar um presa como um monocarvoeiro e complementar sua dieta, mas inclusive para defender seus território. Chimpanzés são claramente xenofóbicos. Isso quer dizer que biologicamente explica-se que os chimpanzés são xenofóbicos e não justifica tais atos. O mesmo devemos pensar a respeito da natureza humana. Cogitando a possibilidade do humano ser guerreiro, ou mau biologicamente, não é uma justifica plausível para que nós continuemos a maldade. Isso seria uma descontextualização da nossa própria natureza, que é a capacidade de julgar nossos atos, especialmente o de se por no lugar do próximo. Isso quer dizer que a ciência que explica o comportamento agressivo do homem diante de determinadas condições esta explicando um fenômeno e não justificando atos de barbárie.

De Waal faz um comparativo interessante entre humanos e chimpanzés, uma vez que em situações de conflito e guerra tendemos, assim como os chimpanzés, a tratar o inimigo como se fosse de outra espécie. De fato, isso foi usado no nazismo,em Ruanda na guerra étnica entre os Hutus e Tutsis, Sérvios, Croatas com muçulmanos da Bósnia e até técnicas psicológicas do exército americano em desumanizar o inimigo na guerra contra o terrorismo, especialmente contra Sadam Husseim. De Wall parece justificar que a guerra é uma condição biológica, mas na verdade não o faz. De fato, ele mostra que tal comportamento surge como uma opção, onde o impulso é dado quando surge conflito entre interesses de grupos étnicos distintos de chimpanzés. Talvez algo parecido ocorra conosco como espécie que compartilha um ancestralidade comum. Sendo assim, existe a possibilidade de que o impulso a violência seja condicionado por motivos sociais ou ainda, que aspectos individuais determinam tais comportamentos. Nem a genética ou o condicionamento social podem definir o caráter ou a personalidade de uma pessoa, sendo assim, tendência a violência pode constituir algo ligado a identidade de uma pessoa. De waal ainda ressalta que o termo guerra é algo bastante recente, afinal os primeiros conflitos que o ser humano passou a ter foi com membros do próprio grupo, depois conflitos intergrupais e posteriormente a guerra com armamento especifico e conflito de interesses entre nações. Outra questão é, não podemos determinar que nossa espécie é naturalmente violenta quando vemos que bonobos, que também são evolutivamente próximos a nós, apresentam comportamentos pacifistas. De fato, bonobos resolvem conflitos sociais sem a necessidade do uso da violência (e sim com sexo), o que mostra que tais comportamentos não precisam ser necessariamente ditados por um regramento biológico ou social, mas parece ser algo multifatorial, ou muito provavelmente, cada sociedade alcança um equilibro entre a harmonia dos grupos ou a competitividade. Isso quer dizer que poderíamos considerar que o homem em sua natureza profunda é tanto bom quanto mau, e cabe a sociedade condicionar qual status comportamental deve ser adotada. Chimpanzés, bonobos e primatas em geral conseguem se reconciliar, mediar conflitos expressando compaixão mesmo depois de grandes situações de conflito. Na nossa espécie este comportamento é mais difícil de ocorrer ou de ser mensurado pois envolve aspectos da educação e da cultural de cada indivíduo. Mas ao que parece, biologicamente somos tanto bons quando maus, dependendo do contexto em que nos situamos nossas atitudes são expressas.

Uma reportagem recente mostra um pouco mais sobre este assunto. Veja Pesquisa sugere que primeiros grupos humanos não se dedicavam a guerras

Scritto da Rossetti

Palavra chave: NetNature, Rossetti, Hobbes, Rousseau, De Waal, Bondade, Maldade, Biologia, Comportamento.

2 thoughts on “GUERRA NÃO É HERANÇA EVOLUTIVA DOS HUMANOS. (Comentado)

  1. Caro Rossetti, concordo em parte com você e até também com o texto, mas a questão é de premissas de ponto de partida.
    A guerra “humana” é um fenômeno de liderança de sociedades, que no início eram apenas tribos, depois impérios e hoje, nações. Não se tem notícias de que no “homo sapiens” até o “homem agrícola” que é o mesmo “homem adâmico” por volta de 10 mil anos atrás, HOUVESSE GUERRAS, havia a “luta pela Vida”.que na realidade não é “luta”, mas apenas “trabalho” para se viver; O projeto de Vida (projeto fortuito ou ocasional é outro equívoco de Darwin) se estabelece na lei de que para um ser-vivo viver, depende da morte de outro ou outros seres-vivos, MAS ISSO NÃO É GUERRA, nem sequer é “matar”, o tal mandamento da Bíblia.
    Do ponto de vista prático, entendo que. a guerra surgiu quando se estabeleceram “sociedades humanas”, governadas por “caciques e pajés”, que aliás ainda é a fórmula de governo vigente até hoje. Os pajés que antes eram “religiosos”, hoje são os tais “economeses”. mudaram-se os “deuses”,, mas os caciques continuam os mesmos, divinizados pelos seus respectivos pajés; As guerras são feitas pela ganância de poder da pajelança de governos na “espécie humana chamada homem agrícola ou adâmico”, e tem finalidade única e exclusiva de aumento de poder do cacique, levando a reboque sua corte de rêmoras de pajés.
    Então, não há “guerra” na natureza, há o “trabalho para se viver” que inclui a morte, NÃO A MATANÇA, que são coisas diferentes. A evolução da inteligência humana, que a diferencia das demais espécies que nos parece ter uma inteligência “estática ou estagnada, outro equívoco porque o animal domesticado também consegue “evoluir com sua inteligência”, é que de fato deu origem às guerras, como presunção de que fala o texto. FALA-SE DA GUERRA HUMANA, e não do “projeto de Vida na Terra” que leva à morte como “projeto”, mais nada.
    A guerra é, portanto, um viés de evolução intelectual do homem, pelo equívoco de governo de “caciques e pajés”, vigente até hoje, tanto quanto as guerras milenares da época de Adão e Eva.
    arioba.

  2. Olá,
    O livro DAF: A Essência Perdida, de autoria de I. di Renzo, no site da Amazon ponto com, narra a origem e a provável “causa” da violência e agressividade entre os humanos, nunca antes observada, imaginada ou pesquisada. Vale conferir!

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