DARWIN GOZA SAÚDE, ENÉZIO GOZA DESCONTEXTUALIZAÇÃO.

Stephen Jay Goul

Stephen Jay Goul

Em uma nota recente, Enézio de Almeida, defensor do designer inteligente faz menção a dois pesquisadores que supostamente negam a síntese neo-darwiniana. Enézio ainda discute darwinismo como se discutia antes da síntese, e obviamente muitas ideias de Darwin estavam erradas e foram revistas. Com o advento da genética e biologia molecular ficaram mais abertas ás evidências que justificam a evolução biológica no meio acadêmico. Sua alegação sobre a síntese neo-darwiniana é meramente negacionista, pois as evidências moleculares e genéticas não apontam para tal ideia. De fato, negar não é refutar, e afirmar não é corroborar. É preciso muito mais do que sentar na frente do blog para refutar Darwin do trono acadêmico.

Pelo contrário, a primeira síntese ocorreu com a (re-)descoberta das idéias de Mendel. Na década de 80 uma segunda síntese darwiniana ocorreu, quando diversos aspectos desenvolvimentais passaram a fazer parte biologia evolutiva, e deu origem ao que chamamos hoje de evo-devo, ou evolução do desenvolvimento. Atualmente já se sabe como as células se modificam em novos tecidos e quais mecanismos moleculares e genéticos estão envolvidos nessa diferenciação celular. O geneticista Sean B. Carroll descreve com elegância, sutileza e riqueza de detalhes muitos desses aspectos em seu livro “Infinitas formas de grande beleza”.

No texto de Enézio, ele cita uma reportagem do jornal The New York Times onde há uma citação que explicita exatamente essa síntese da década de 80. Veja” The last major challenge to the modern synthesis came in the 1970s and 1980s as my paleontological colleagues, including the late Stephen Jay Gould, argued for a hierarchical view of evolution, with selection occurring at many levels, including between species.”

Agora, uma nova síntese pode acontecer, com o acoplamento de novos conceitos e descobertas que tendem a enriquecer a teoria da evolução. Esta nova proposta não tem qualquer tipo de relação com criacionismo ou designer inteligente. Pelo contrário, vem sendo rejeitada inclusive em universidade protestantes dos EUA (pais com maior numero de cristãos, inclusive fundamentalistas).

Ocorrerá, apenas a inserção de que novos mecanismos responsáveis pela alteração da estrutura molecular do DNA, e consequentemente de expressão gênica, a epigenética. As ideias de Lamarck podem entrar também e justificar como mecanismos moleculares podem ter de alguma forma, uma certa dirigibilidade favorecendo sobre a expressão de certos genes. (Veja aqui)

A Síntese Neo-Darwiniana não esta com problemas, as idéias de Darwin gozam de plena saúde no meio acadêmico e a nova síntese vem com o intuito de aprimorar, atualizar a descoberta de novos mecanismos biológicos evolutivos. De fato, nos três conceitos de vida utilizados hoje no meio acadêmico para definir o que é vida tem como prioridade ela ser susceptível as leias darwinianas.

Enézio cita que o Dr Douglas H. Erwin diz que a síntese neo-darwiniana esta morta ou defasada e ainda alega que Stephen jay gould disse “a Síntese Evolutiva Moderna é uma teoria científica morta que posa como ortodoxia somente nos livros didáticos de Biologia” e aqui analisaremos essas duas ideias de forma rápida e com clareza de detalhes a respeito da procedência dessas informações e como estas podem ser desconstruídas e diluídas com um simples olhar epistêmico e na historia da biologia.

Douglas H. Erwin em momento algum discorda com as ideias de Darwin, ao contrario, propõem uma atualização das ideias com base nas novas descobertas no próprio meio acadêmico. Veja aqui sua citação, inclusive selecionada pelo próprio Enézio:

“Nós últimos anos cada elemento deste paradigma tem sido atacado. Preocupações sobre as fontes de inovação evolucionária e descobertas sobre como evolui o DNA tem levado alguns cientistas a propor que as mutações, e não a seleção, é que conduzem o grosso da evolução, ou pelo menos os principais episódios da inovação, como a origem dos principais grupos de animais, inclusive os vertebrados.”

 E posteriormente diz:

“As transições entre as espécies documentadas pelo registro fóssil pareciam ser abruptas, talvez abruptas demais para serem explicadas pela Síntese Moderna. Se fosse realmente verdade, isso poderia tornar irrelevante muito da seleção natural ocorrendo dentro das espécies, porque assim como as mutações são produzidas aleatoriamente no que diz respeito às necessidades de uma espécie, com a seleção moldando isso em novas adaptações, novas espécies podem evoluir aleatoriamente com a seleção de espécies moldando-as em tendências evolutivas. Este desafio foi saudado com menos do que louvor  pelos biólogos evolucionistas estudando mudanças dentro de uma espécie. A confusão resultante ainda está por desaparecer. Mas, o trabalho mais recente corta bem próximo do fundamento da Síntese Moderna, e é mais potencialmente revolucionário, porque aborda a questão fundamental de como realmente novas coisas acontecem na história da vida. O que provocou a origem dos animais, ou a invasão terrestre.”

Este último trecho explicita claramente o caráter revolucionário que a biologia evolutiva vai contemplar nos próximos anos, certamente na próxima década.  Portanto, não há nada de errado com a evolução, ao contrário, ela receberá mais suporta científico.

A segunda parte é referente á confiabilidade a respeito da alegação de Stephen Jay Gould dizer que a Síntese Neo-darwiniana esta morta, considerando que foi dita na década de 80, momento na qual acabará de ocorrer uma nova abordagem sintética com a inserção de conceitos sobre a biologia do desenvolvimento.

A informação apresentada por enézio é falaciosa por diversos motivos; 1) Na década de 80 a síntese recebeu suporte da biologia do desenvolvimento. Alias, Stephen Jay Gould participou dessa síntese ofertando a ciência com o seu brilhante livro Ontogeny and Phylogeny em 1977. Tanto é verdade que o The New York Times cita isto:

The last major challenge to the modern synthesis came in the 1970s and 1980s as my paleontological colleagues, including the late Stephen Jay Gould, argued for a hierarchical view of evolution, with selection occurring at many levels, including between species.

Seguindo,2) Enézio não cita a fonte de onde supostamente Stephen Jay Gould afirma a morte da síntese neo-darwiniana. E mesmo que citasse, ele poderia estar se referindo a síntese do começo do século. Portanto, faltou clareza a referência. E por finalizar, 3) a evidência cabal dessa falácia Enezista é que no ano de 1981 Stephen Jay Gould lança o artigo  Evolution as Fact ant Theory (cuja referência é Gould, S.J. (1981). Evolution as Fact ant Theory. Discover) E deixa claro que:

No vernáculo americano, “teoria” freqüentemente significa “fato imperfeito” – parte de uma hierarquia de confiança em ordem descendente a partir de fato até teoria, hipótese e suposição. Por isso o poder do argumento criacionista: evolução é “somente” uma teoria, e o intenso debate agora assola muitos aspectos da teoria. Se a evolução é menos que um fato, e os cientistas não podem sequer decidir sobre a teoria, que confiança nós podemos ter neles? De fato, o ex-presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan ecoou este argumento ante um grupo evangélico em Dallas quando disse (o que eu sinceramente espero que seja retórica de campanha): “Bem, é uma teoria. É somente uma teoria científica e tem sido desafiada recentemente no mundo da ciência – isto é, desacreditada na comunidade científica como sendo infalível, como já foi uma vez”.

Bem, evolução é uma teoria. É também um fato. E fatos e teorias são coisas diferentes, não degraus em uma hierarquia de aumento de certeza. Fatos são dados do mundo. Teorias são estruturas de idéias que explicam e interpretam fatos. Fatos não vão embora quando cientistas debatem teorias rivais para explicá-los. A teoria da gravitação de Newton foi substituída pela teoria de Einstein neste século, mas as maçãs não se mantêm suspensas no ar em conseqüência disso. E os humanos evoluíram a partir de ancestrais semelhantes a macacos de acordo com o mecanismo proposto por Darwin ou por outro ainda a ser descoberto.

Acima de tudo, “fato” não significa “certeza absoluta”; não há nada como os animais em um mundo excitante e complexo. A prova final de lógica e matemática flui dedutivamente de premissas determinadas e atingem a exatidão somente porque não são sobre o mundo empírico. Os evolucionistas não clamam por uma verdade perpétua, pensamento que criacionistas freqüentemente têm (e então nos atacam falsamente por um estilo de argumento que lhes favorece). Em ciência, “fato” pode significar somente “confirmado em um grau em que poderia ser incorreto impedir uma aprovação provisória”. Eu suponho que maçãs possam começar a levitar amanhã, mas a possibilidade não merece um tempo igual nas aulas de física.

Os evolucionistas tem sido muito claros sobre esta distinção entre fato e teoria desde o início, embora apenas porque nós sempre reconhecemos como estamos distantes de compreender completamente os mecanismos (teoria) pelos quais a evolução (fato) ocorre. Darwin continuamente enfatizou a diferença entre suas duas grandes e separadas obras: o estabelecimento do fato evolução, e a proposta da teoria – seleção natural – para explicar o mecanismo de evolução

(Gould, 1981)

Conclusão

Enézio descontextualizou Stephen Jay Gould, não usou referências bibliográficas e para quem se auto-denomina especialista em historia da ciência, deixou muito a desejar com alegações descontextualizadas com a finalidade de promover a quebra das ideias de Darwin suportada num falso pilar pseudo-epistêmico na tentativa de promover um conceito pseudo-científico denominado designer inteligente.

Scritto da Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Falácias, Enézio, Pseudo-ciência, Designer inteligente, Stephen Jay Gould , Evolução, Ciência.

4 thoughts on “DARWIN GOZA SAÚDE, ENÉZIO GOZA DESCONTEXTUALIZAÇÃO.

  1. O Enézio ainda insiste nisso? Bom, como sabemos ele é um pregador religioso. Fez curso superior nos Estados Unidos em uma faculdade privada de cunho missionário. Seu papel é divulgar sua religião. Nunca conseguiu qualquer argumento que demonstrasse estar errada a teoria evolutiva. De seus argumentos se percebe que leitura não lhe faria mal.

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