A EVOLUÇÃO DOS CROCODILOMORPHA – E PORQUE É IMPORTANTE LER ARTIGOS

Negar uma teoria é diferente de refuta-la, bem como, afirmar algo é bem diferente de confirmar sua ocorrência. Assim se faz ciência, a partir de comprovações científicas, em periódicos que demonstram a ocorrência de fenômenos a partir da mensuração, observação e falseamento, e que apresentem elegância com o que já se tem produzido. E como diria Carl Sagan “Alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias”.

Nas redes sociais há um falso conceito evolucionista sendo espalhado no que se refere ao clado dos crocodilianos (Crocodylomorpha). A ideia disseminada é de que aves e mamíferos vem evoluindo nos últimos 200 milhões de anos e crocodilianos permanecem estacionados em suas respectivas espécies e aspectos anatômicos/morfológicos. Esta alegação não tem qualquer respaldo científico.

O conceito que me refiro esta expresso na imagem a baixo:

Junior falácia

Uma teoria pode ser desbancada de seu posicionamento paradigmático quando ela é substituída por um novo conceito que explique mais e melhor o que a teoria anterior não explicava. De acordo com Thomas Kuhn (apud Mendonça, 2002) existem etapas a se seguir para se estabelecer um paradigma. Na fase pré-paradigmática as escolas científicas disputam e discutem entre si questões fundamentais referentes a um determinado tema. Aprofundam-se em resolver um determinado quebra-cabeça e assim ampliam seus conhecimentos a respeito de um fato.

Assim, os cientistas percebem que sua pesquisa cresceu de forma cumulativa e podem propor novas teorias candidatas a ocupar o cargo de teorias antigas. Então esse novo paradigma deve ser aceito por uma comunidade de praticantes. Khun definiu paradigmas como ”…realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante um tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes

Na biologia, a evolução sob os moldes da pesquisava neo-darwiniana hoje é o paradigma vigente, é o pilar dessa ciência e parafraseando o geneticista Theodore Dobzhansky em 1960, “nada na biologia faz sentido exceto à luz da evolução” (Browne, 2004). O grupo dos crocodilos, assim como qualquer outro grupo biológico é resultado de processos evolutivos. E obviamente, os crocodilos presentes hoje na Terra não são os crocodilos primitivos de 200 milhões de anos atrás. Assim como as samambaiaçus atuais são descendentes das samambaiaçus que serviam de alimento aos dinossauros herbívoros de 100 milhões de anos atrás (Tutken, 2011); bem como as aranhas da família Liphistidae que preservam a segmentação primitiva em seus abdomes são espécies recentes (Japyassu et al. 2007) com caracteres de seus ancestrais. O que acontece é que animais modernos podem preservar características primitivas (Rosa et al. 1999).

Os crocodilos, obviamente seguem esta mesma tendência. Seu sistema respiratório, por exemplo, surgiu antes mesmo de sua origem, e estava presente 20 milhões de anos dos arcossauros surgirem. Um estudo publicado em dezembro de 2013 afirma que Archossaura é um grupo de répteis de 250 milhões de anos que deu origem aos crocodilomorpha, dinossauros/aves e Pterossauros (Benton & James, 1988). Uma evidência disto é que o sistema respiratório desses grupos segue o mesmo padrão fisiológico de funcionamento embora sejam filogeneticamente animais mais recentes (Farmer et al. 2013).

A) Protosuchia, B) Mesosuchia, C) Eusuchia A seta indica a posição das coanas e como elas migrarão ao longo dos milhões de anos de evolução. Retirado de: Crocodilos do Triássico ao Cretáceo – predadores ágeis em terra firme ou caçadores subaquáticos traiçoeiros? (Prof. Leonardo De Palma Marconato (Doutor em Paleontologia pela UFRGS)

A) Protosuchia, B) Mesosuchia, C) Eusuchia
A seta indica a posição das coanas e como elas migrarão ao longo dos milhões de anos de evolução.
Retirado de: Crocodilos do Triássico ao Cretáceo – predadores ágeis em terra firme ou caçadores subaquáticos traiçoeiros? (Prof. Leonardo De Palma Marconato (Doutor em Paleontologia pela UFRGS)

O grupo Crocodylia inclui os clados Alligatoroidea, Crocodyloidea e Gavialoidea, que correspondem a todas as espécies atuais de crocodilos, jacarés e uma única espécie de gavialis. Os membros basais de Crocodylia podem ter sido de origem laurásico, chegando a dominar as associações crocodylomorpha na Europa e na América do Norte durante o Cretáceo Superior. Durante o Cenozóico, os crocodilianos colonizaram outros continentes, especialmente em áreas tropicais, substituindo a grande maioria da fauna de crocodylomorpha do Mesozoico. Os registros fósseis de crocodilianos continentais do Cretáceo inferior estão na Ásia, América do Sul e África e são fundamentalmente compostos de mesoeucrocodilianos, ou seja, tem o crânio do tipo mesosuchia e não eusuchia como os atuais. No Cretáceo superior da América do Norte e Europa essa conformação é bastante diferente. Os membros basais de Crocodylia foram descrito em ambos os continentes, incluindo formas basais como Borealosuchus, Alligatoroids tal como Brachychampsa, Stangerochampsa, Leidyosuchus, Deinosuchus e Musturzabalsuchus e Crocodyloids como Prodiplocynodon (Buscalioni et al. 2003 & Martin, 2010).

Esta ocorrência conjunta de crocodilianos na América do Norte e na Europa sugere que o ancestral comum para o clado evoluiu em um destes dois continentes (Buscalioni et al. 2003). Nos últimos anos, o registro de crocodilianos do fim do Cretáceo tem aumentado consideravelmente no sul da Europa, incluindo ocorrências em Portugal, Espanha, Itália e França (Buffetaut, 1980).

O primeiro animal que descende dos Arcossauros, e esta diretamente ligado a linha dos crocodilomorpha é o Crurotarsi. Eles apareceram durante no Triássico inferior a mais ou menos 250 milhões de anos e preencheram os nichos terrestres carnívoros. Seu apogeu foi final do Triássico, período no qual ganhou um posicionamento anatômico ereto semelhante aos Rauisuchias, Phytossauros e Aetossauros (Sereno & Arcucci, 1990).

Quando analisadas, as espécies extintas do grupo basal, a linhagem dos crocodilianos (clado dos Crurotarsi) mostraram um grupo muito diversificado e adaptativo de répteis. Não só eles são um antigo grupo de animais, como são tão antigos quanto os dinossauros. O que é natural, pois os mesossauros são do membro mesosuchios e surgiram a 290 milhões de anos.

Os Crurotarsi evoluíram para uma grande variedade de formas. De fato, estima-se que a diversidade atual de crocodilianos é somente de 10 a 12% do que sobrou da diversidade total deste grupo. As primeiras formas, os Sphenosuchians, evoluiram durante o Triássico, e eram formas terrestres altamente gráceis. Durante o Jurássico e Cretáceo, as formas marinhas emergiram dando origem a família Metriorhynchidae, (gênero Metriorhynchus) cujos membros anteriores eram em forma de pá e a cauda semelhante á de peixes modernos. Dakosaurus andiniensis, uma espécie intimamente relacionada com Metriorhynchus, tinha um crânio adaptado para comer grandes répteis marinhos. Várias espécies terrestres durante o Cretáceo desenvolveram a herbivoria, isso pode ser constatado em isótopos do dente e o fato de existir dentes morfologicamente adaptados a maceração de folhas, como Simosuchus clarki e Chimaerasuchus paradoxal. Uma série de linhagens, durante o Terciário e Pleistoceno se diversificou em animais totalmente predadores, inclusive terrestres (Larsson & Sues, 2007).

Em 2011 (Caballero et al) desenvolveram uma filogenia relacionando as principais linhagens de Eusuchia, datados em 132 milhões de anos. O Eusuchia (“verdadeiros crocodilos”) são um clado de crocodilomorfos que aparecem pela primeira vez no início do Cretáceo com a espécie Hylaeochampsa (Benton, 2000).

O Grupo Crocodylia surge a 95 milhões de anos, seguindo de Alligatoroidea (83,5 milhões de anos); Gavialoidea (78 milhões de anos) e Crocodyloidea a 70 milhões de anos.
Grifado em vermelho os membros ainda vivos que pertencem ao grupo Eusuchia. Retirado de New Crocodylian from the Maastrichtian of Spain (2011).

Grifado em vermelho os membros ainda vivos que pertencem ao grupo Eusuchia. Retirado de New Crocodylian from the Maastrichtian of Spain (2011).

Discussão e Conclusão
Considerando a primeira imagem propondo a imutabilidade dos crocodilianos e comparando com análises filogenéticas realizada pelo estudo de Caballero et al, veremos que os grupos de crocodilos, aligatores e gavialideos são grupos basais de crocodilianos modernos com características primitivas em comum com as encontradas em registros fósseis, como em taxa de Arenysuchus, Acynodon adriaticus e Acynodon iberoccitanus que foram usados como grupo comparativo em seu estudo.
A alegação de que crocodilos não se modificaram ao longo de milhões de anos é grosseiramente errônea. Os principais grupos de crocodilianos vivos hoje são; Alligatoroydea) que compreendem os gêneros Alligator, Caiman (na qual esta presente o jacaré do papo amarelo presente no Brasil), Melanosuchus e na filogenia acima mostra suas respectivas origens datadas em  3 ou 4 milhões de anos. Gavialoydea) cujo único membro vivo é Gavialis gangeticus datado em 2 milhões de anos; e os Crocodyloidea) cujos membros vivos são dos gêneros Crocodylus, Osteolaemus e Tomistoma datados em suas origens entre 4,5 e 2 milhões de anos.
Sendo assim, os grupos hoje sobreviventes são remanescentes de grupos mais antigos, cuja a origem é datada a mais de 200 milhões de anos. Embora sejam animais recentes filogeneticamente falando, suas características anatômicas e genéticas são antigas. Seu nicho ecológico é distinto e compreendem uma pequena parcela da diversidade ancestral do grupo. Desta forma, o grupo crocodilomorpha de maneira alguma é um clado que permanece estático ao longo do tempo geológico de acordo com as evidências apresentadas nos artigos aqui citados.
Em conclusão, é fundamental que qualquer afirmação que seja dada a respeito de grupos biológicos seja respaldada em artigos científicos sérios, publicados em revista científicas que exigem que a metodologia científica utilizada seja bem esclarecida e específica. Para se argumentar contra ou a favor de qualquer artigo científico, ou não, é de praxi, antes de tudo, ler, fazer anotações, considerações e reconhecer a validade de tais informações apresentadas nesses artigos, pois é através dele que novos paradigmas podem ser estabelecidos. É fundamental a compreensão total, de todos os aspectos biológicos, zoológicos, evolutivos e fisiológicos de um grupo animal para que se possa elaborar uma linha de pesquisa ou um texto coerente em relação á biologia animal.

Leitura complementar em:  Crocodylomorpha – Crocodiles and their relatives (da University of California Museum of Paleontology)

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Referências
André Adoutte, Guillaume Balavoine, Nicolas Lartillot, Renaud de Rosa. Animal evolution: the end of the intermediate taxa? Trends in Genetics Volume 15, Issue 3, 1 March 1999, Pages 104–108

Benton, Michael J; James M Clark. Archosaur phylogeny and the relationships of the Crocodylia. 1988.

Benton, Michael J.; Sibbick, John (2000). Vertebrate Palaeontology. Blackwell Publishing. p. 233.

Browne J. A Origem das espécies de Darwin. Jorge Zahar. 2004

Buffetaut E (1980) Crocodilians from the continental Upper Cretaceous of Europe: new finds and interpretations. Mesozoic Vertebrate Life 1: 5–14.

Buscalioni AD, Pe´rez-Moreno BP, Sanz JL (2003) Pattern of biotic replacement in modern crocodiles: The Upper Cretaceous fossil record. Coloquios de Paleontologı´a 1(Vol. Ext.): 77–93.

Emma R. Schachner, Robert L. Cieri, James P. Butler & C. G. Farmer. Unidirectional pulmonary airflow patterns in the savannah monitor lizard. Nature, 2013

Larsson, H. C. E., and Sues, H.-D. (2007). Cranial osteology and phylogenetic relationships of Hamadasuchus rebouli (Crocodyliformes: Mesoeucrocodylia) from the Cretaceous of Morocco. Zoological Journal of the Linnean Society 149: 533-567.

Martin JE, Delfino M (2010) Recent advances in the comprehension of the biogeography of Cretaceous European eusuchians. Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology 293: 406–418.

Mendonça, A. L O.A & Videira, A. A. P. Revolução de Kuhn, Ciência hoje, vol 32, n 189 Dezembro de 2002.

Sereno, P.C. and Arcucci, A.B. (1990). “The monophyly of crurotarsal archosaurs and the origin of bird and crocodile ankle joints.” Neues Jahrbuch für Geologie und Paläontologie Abhandlungen, 180: 21-52.

Tutken T. Biology of the Sauropod Dinosaurs: Understanding the Life of Giants. Editado por Nicole Klein. Cap. 4 pag 57. 2011 

13 thoughts on “A EVOLUÇÃO DOS CROCODILOMORPHA – E PORQUE É IMPORTANTE LER ARTIGOS

    • Claro que pode, mas faça uma brincadeira inteligente. E todos sabemos que sua intenção inicial não foi zoar, agora que vc levou um esporro de um monte de evolucionistas ai pela rede (que eu sei pq eu vi) vc vem com essas historinha triste de que era zoeira.

      Quer fazer piadinhas usando a evolução, faça de modo inteligente!!! Saiba primeiro o que ela é, leia…..Voce pode fazer melhor que isto que fez acima!!!

      • Olha só, novamente sabendo minhas intenções reais, parabéns, tome cuidado para não acabar se aplicando uma “autossurra”😉

        Imagens são pra rir, não tente conseguir suas “vitórias” em cima de mim, pode acabar “tragicamente”. Agora vai lá caçar borboleta no mato rapaz que é o que você sabe fazer melhor huehuehue

        Falácias do professor não movem moinho

        http://blog.brblast.com/post.php?p=47

        Avise para os que me denunciaram que como dessa vez não vai ter efeito
        algum pois são sem fundamentação alguma.

        Abraço
        Júnior D Eskelsen

      • Pois é…ai que esta…voce acha que isto é uma disputa. Eu não….eu estou somente limpando a sua sujeira….os falsos conceitos que voce dissemina. Bom, sabemos que não há artigos científicos que corroborem o DI, então não há disputa algum entre duas teorias. Há uma teoria vigente na ciência e ela pode ser substituída por outra, é isto. Não há disputa com DI porque isto não é ciência. E suas palavras apenas revelam seu ego ferido e seu desespero na falta de argumentos, seus ad hominem são ataques pessoais a uma pessoa que apresenta evidencias que vão contra o que voce acredita. Este é o conceito de recalque igual Olavo. Sua crença é natimorta, já se fundamentou morta desde Of Panda´s and people.
        Eu não preciso de vitórias, isso pouco me importa. Já sou um vitorioso de ter o conhecimento que tenho, uma formação e vida descente trabalhando e vivenciando isso que voce despreza, o ser professor e a sada a campo para caçar borboletas. as borboletas que voce tanto odeia, são elas que me fornecem conhecimento técnico para dizer que o que voce fala, esta errado. Se voce acha que mandar eu ir caçar borboleta é um insulto, pra mim não é. É um bom exercício a produção de conhecimento técnico, ambiental e social.
        Caçar borboletas e outros bichos me faz ser um bom biólogo, enquanto voce é uma pessoa sem preparo escrevendo delírios no facebook.
        O que vc tem para acrescentar na biologia? Absolutamente nada, não tem vivencia, estudo teórico, técnico, não tem contato com o modus operandi da biologia, do meio acadêmico. É um analfabeto científico. Não farei seu jogo sujo Jr.
        Se voce não tem argumentos, e parte para ad hominem, sinto que nossa conversa acaba aqui.Este é o limite entre o homem que tem conhecimento conversando com o ignorante.

        A partir de agora, suas mensagens estarão bloqueadas para este site e comunidades relacionadas, até que seja capaz de argumentar como gente, com decência. Eu sou biólogo, estou a campo, vivo e vejo coisas que vc não ve pq fica sentado na frente do pc, eis a diferença entre eu e voce. Voce é um fundamentalista, eu não. Aceito a finitude da ciência, da biologia…voce não aceita os limites de sua crença ideológica. Espero somente que melhore, que consiga ficar em paz consigo mesmo e que não faça nenhuma besteira

        Quanto ao Wow signal, os artigos do meu texto estão lá. Se não concorda com eles, apresente artigos que os contradizem, (e não suas opiniões pessoais) a academia e não a mim!!!
        Abraço e boas férias!!!

    • Duvido que fosse uma “zoeira”, acho que foi só um fora de quem não entende do assunto, porque até para se fazer uma “zoeira” ou uma piadinha ser engraçada é preciso entender do assunto…

      • Exatamente!!!
        Na pagina “Criacionismo científico” do “Tolinho” ele já estava sendo criticado.

        Alias, o tolinho finalmente assumiu que a bíblia não é um livro científico.Até printei a pagina dele. A primeira pisada de bola que ele disser eu vou mostrar o print e refrescar a memoria do dele!!!

      • Não me parece que é opinião dela. Todas as vezes que vi voce debater com ela, vc sempre recorreu a ad hominem e ela sempre apresentou artigos que resguardassem suas afirmações. Todos na comunidade constataram isto.
        Se tem alguem aqui que somente expessa especulações, é voce!!!

  1. Impressionante como esse Júnior Eskelsen argumenta com tanta infantilidade.Alguém que defenda um ponto de vista, tem que ter no mínimo o bom caráter. A palavra “posso provar” que ele costuma usar em seus “debates” mostra o quanto oco ele é, ainda mas para alguém que defende o DI.Vai na “Fé” com esse seu Criacionismo rapaz.

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