UM MAPA GENÉTICO QUE AJUDA A HISTÓRIA (Comentado)

A reconstrução de 4.000 anos de cruzamentos entre os povos com base em traços genéticos que eles deixaram permite que você veja as consequências de importantes acontecimentos históricos, mas também para encontrar vestígios de eventos para os quais não existem documentos: o “legado” do exército de Alexandre Magno para os habitantes do Hindu Kush e para a Horda de Ouro na Bulgária.

Graças a um sofisticado mapa (quase) mundial, a genética se torna mais uma ferramenta a serviço da história, esclarecendo os efeitos de muitos eventos, incluindo alguns para os quais não há provas documentais. Uma pesquisa realizada por um grupo de cientistas da Universidade College London, University of Oxford (que pertence ao italiano Cristian Capelli), e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária em Leipzig permite-nos acompanhar traços antigos do genoma em diferentes populações.

Fontes de genética para Mozabite, etnia berbere que habita a região de Mzab, no Saara argelino. (Cortesia do cromossomo Pintura Coletivo)

Fontes genéticas para Mozabite, etnia barbara que habita a região de Mzab, no Saara argelino. (Cortesia do cromossomo Pintura Coletivo)

Garrett Hellenthal e colegas – que descreveram a sua abordagem em um artigo publicado na “Science” – têm desenvolvido uma série de algoritmos que, a partir de dados genéticos dos seres humanos contemporâneos, controlam e comparam pequenos fragmentos de DNA característicos de diferentes populações, e em seguida, constrói um mapa que levara à composição genética atual.

O mapa genético descreve que uma mistura genética interativa ocorreu nos últimos 4000 anos entre cada uma das 95 populações da Europa, África, Ásia e América do Sul. Os resultados coincidem, em grande medida, do ponto de vista tanto geográfico quanto temporal, com acontecimentos históricos bem documentados, mas também trouxeram à luz algumas reviravoltas inesperadas.

O genoma da etinia mongol Tu, das províncias de Qinghai e Gansu, por exemplo, mostram sinais claros de uma mistura, que teve lugar entre 1080 e 1330 d.C, com um grupo de origem européia, provavelmente devido a comerciantes que freqüentavam a Rota da Seda. Mas se esses dados aumentam a documentação histórica, isso é apenas uma indicação de que o tráfego entre o Oriente e o Ocidente teve que envolver um número de pessoas do que é suposto, algumas das quais, evidentemente, se instalaram nessas regiões e foi totalmente inesperado um “sinal” genético semelhante. Um traço igualmente antigo foi traçado entre o Han nordeste da China, apesar do fato de que a presença dos europeus na China antes da Idade Média é praticamente desconhecida.

Sinais claros de mistura antiga com os europeus também estão na população do Kalash, uma região situada entre as montanhas do Hindu Kush, no Paquistão, que permaneceram geneticamente isolados de populações circundantes. Embora os pesquisadores não foram capazes de determinar com precisão a datação destes cruzamentos, o intervalo de tempo obtido é compatível com a expedição asiática de Alexandre, o Grande (356-323 a.C), a partir do qual os guerreiros – segundo a tradição local, até agora desprovida de qualquer prova objetiva – descenderam a Kalash.

Em outras regiões do Paquistão são encontrados não somente sinais de mistura com as populações do leste da Ásia, mas também em regiões da África Subsariana, este último talvez relacionado com o tráfico de escravos importados de mercadores árabes.

Alguns exemplos de eventos de mistura de populações. As caixas de mostrar acontecimentos históricos, enquanto as "bolhas" datas dos espetáculos derivados de dados genéticos (incluindo a incerteza estatística). (Cortesia do cromossomo Pintura Coletivo)

Alguns exemplos de eventos de mistura de populações. As caixas mostram acontecimentos históricos, enquanto as “bolhas” mostram derivados de dados genéticos (incluindo a incerteza estatística). (Cortesia do cromossomo Pintura Coletivo)

Mesmo na Europa, a mistura não era indiferente, embora com menos complexo entrelaçamento daqueles detectados nas populações da Ásia Central. Na população búlgara, por exemplo, há fragmentos do genoma característico dos gregos, nórdicos e etnia Orochi, nativo da Mongólia Interior observado. As contribuições da última data provavelmente para a expansão do reino turco-mongóis da Horda Dourada. Os sinais de hibridização com grupos da Ásia e da Europa Oriental também estão presentes no norte da Rússia, e grande parte da Europa Oriental.

Alguns exemplos de eventos de mistura de populações. As cores (ver o código de cor na figura acima) são os grupos doadores, enquanto que o tamanho do círculo indica a magnitude da contribuição. (Cortesia do cromossomo Pintura Coletivo)

Alguns exemplos de eventos de mistura de populações. As cores (ver o código de cor na figura acima) são os grupos doadores, enquanto que o tamanho do círculo indica a magnitude da contribuição. (Cortesia do cromossomo Pintura Coletivo)

Nestas populações a contribuição fora do nosso mais importante – e evidente , uma vez que afeta 27 por cento do genoma – é um pouco remota (que remonta ao século VI aC) e vem dos povos da Ásia Ocidental ( ” Chipre ” ) , no Oriente Médio e noroeste da Europa.

Fonte: Le scienze

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Comentários internos

O uso de marcadores genéticos como ferramenta para rastrear as raízes de povos é o mesmo usado para estabelecer a origem evolutiva de grupos biológicos. E é nesse meio que pretendo tecer meus comentários.

O estudo apresenta dois pontos são de fundamental importância para sua delimitação epistemológica. O primeiro é o limite de tempo utilizado, e o segundo refere-se a um mosaico genético.

Defensores da Terra Jovem poderiam alegar que o estudo aborda troca de genes de populações que emergiram em um tempo recente e de acordo com a teoria criacionista. Mas não, isto porque historicamente se tem evidências de civilizações mais remotas do que meros 4 mil anos. Por exemplo, as primeiras civilizações do crescente fértil datadas entre 10 e 12 mil anos; ou ainda, marcadores genéticos mostram que a família de genes denominada p53 são datados entre 30 e 50 mil anos. A p53 é uma proteína citoplasmática muito usada para estudar determinados tipos de tumor (Belyi etal, 2010). A cidade de Jericó, que é uma cidade bíblia é datada 12 mil anos (Encyclopedia Britannica). O conceito de Eva mitocondrial que usa DNA desta organela data a origem do homem em cerca de 148 mil anos (The man lived between 120,000 and 156,000 years ago, and the woman lived between 99,000 and 148,000 years ago) (Conger, 2013). Portanto, o que é abordado aqui é um fragmento da história da humanidade onde civilizações passadas se encontraram para estabelecer relações comerciais, sociais e evidentemente deixaram evidências disto não somente em documentos históricos, mas na genética de seus sucessores.

A segunda pontuação é que o povo que compõem uma determinada província ou limite patriarcal é fruto de um mosaico genético, e descarta qualquer influência de pureza racial. Isso mostra que a natureza muitas vezes não obedece limites governamentais (limite de nações) mas que elas trocam genes constantemente e trocaram durante toda a historia da humanidade.

Digo muitas vezes porque há casos em que uma delimitação social pode modelar indiretamente grupos biológicos. Na Índia, onde a presença de castas hinduístas é bastante forte fica proibido qualquer relacionamento social entre castas distintas, inclusive de seus animais de estimação, em especial os camelos. Essa estratificação social modelou subespécies de camelos devido ao isolamento reprodutivo (Veja ROMANOS LEVARAM CAMELO PARA O NORTE DA EUROPA).

Mesmo povos que claramente se isolam do resto do mundo por uma delimitação social pode eventualmente trocar genes com os membros externos, é o caso dos judeus ou mesmo de cristãos Amish. Segundo o geneticista Dean Hamer Cerca de 1% dos judeus estabeleceu relacionamento (matrimônios) com pessoas não judias.  Mesmo assim, sabemos que durante a historia os judeus foram dominados por diversos povos, Romanos, Egípcios, Assírios, Babilônios quando houve a separação dos 10 reinos de Israel em 721 a.C. (2005). Um estudo publicado na National Academy of Sciences mostrou que o conjunto genético paternal das comunidades judaicas da Europa, da África do Norte e do Oriente Médio descenderam de uma população ancestral comum médio-oriental, e sugerem que a maioria das comunidades judaicas permaneciam relativamente isoladas de comunidades vizinhas não-judaicas durante e depois da diáspora (Hammer et al, 1999).

A África que é berço da humanidade carrega uma diversidade genotípica enorme. Existe uma variabilidade genética muito maior entre os Africanos do que uma comparação entre um Europeu e um Africano, embora haja diversos genes em comum. Mas o genoma da humanidade é resultado de um mosaico de troca de genes que tende a crescer especialmente no momento sócio/histórico que vivemos hoje com a globalização. De fato, a tendência é que haja uma homogenização genética na humanidade onde povos isolados agora podem trocar genes e disseminar positivamente seus alelos vantajosos para a grande maioria dos povos (Prugnolle, 2005).

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Genética de populações, História, genes, DNA.

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Referências

Belyi VA, Ak P, Markert E, Wang H, Hu W, Puzio-Kuter A, Levine AJ.The origins and evolution of the p53 family of genes. Cold Spring Harb Perspect Biol. 2010 Jun;2(6)

Conger. K. Common genetic ancestors lived during roughly same time period, scientists find. Standfor School of Medicine. AUG. 1, 2013

Franck Prugnolle, Andrea Manica, Marie Charpentier, Jean François Guégan, Vanina Guernier and François Balloux. Pathogen-Driven Selection and Worldwide HLA Class I Diversity. Current Biology, Vol. 15, 1022–1027, June 7, 2005,

Hammer, M F.Redd, A J.WoodE T. Bonner M. R. Jarjanazi. H. Karafet, T.  Santachiara-Benerecetti, D. Oppenheim A. Jobling, M. A. Jenkins‡‡, T. Ostrer, H. Bonné-Tamir, B. Jewish and Middle Eastern non-Jewish populations share a common pool of Y-chromosome biallelic haplotypes. PNAS. Current Issue > vol. 97 no. 12

Hamer D. O gene de Deus- Como a Herança genética pode determinar a fé. Mercuryo. 2005

Jericho“, Encyclopedia Britannica

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