COMPLEXIDADE ESPECIFICADA – UMA MASCARA PARA UM DEUS-DE-LACUNA. Parte II

Seguindo nossa abordagem a respeito da complexidade especificada, vemos então que grande parte dessas alegações se respaldam em modelos matemáticos pouco confiáveis e com corrupção conceitual, como é o caso da definição de Orgel a respeito do que vem a ser complexidade especificada e como ela não se relaciona originalmente com desígnio inteligente.

Outra concepção bastante comum e que ficou superficial na primeira parte deste texto é a noção de complexidade especificada ligada a composição do universo, em especial o ajuste fino, e a representação teleológica que Dembski dá a ele. Desta forma, grande parte das alegações de Dembski e da grande maioria dos defensores de projeto inteligente, como William Lane Craig apelam não mais para as evidencias experimentais, mas resguardam sua argumentação em discursos filosóficos, argumentos circulares e por vezes sofismas.

Ajuste fino e alegações teleológicas

O argumento de desígnio defendido por Dembski e mascarado pela matemática se apresenta como uma prova de existência de Deus a partir de um olhar sobre o mundo.

Esse discurso de Dembski não é exclusivo. A história da humanidade, e em especial da filosofia é recheada de alegações teleológicas. O historiado Clarence Glacken acreditava que a natureza é uma das mais importantes provas científicas que demonstram a existência de um criador intencional devido especialmente a harmonia na qual toda a vida estava adaptada. Ele definiu três argumentos fornecidos como supostas provas da atuação de entidades divinas na natureza nos filósofos clássicos; a fisiologia e a anatomia dos seres vivos; a ordem cósmica; e a adequação da Terra à sustentação da vida (Glacken, 1990).

Voltaire, crítico da religião, ainda que superficialmente sustentou a alegação que posteriormente vem a ser defendida por William Paley. Voltaire diz que “Se um relógio prova a existência de um relojoeiro, mas o universo não prova a existência de um grande Arquiteto, então eu dou consentimento para ser chamado de idiota.”

William Paley no livro Teologia Natural, publicado em 1802 expõe o argumento mais ou menos nestes termos:

Supõe que ao atravessares um bosque vês uma pedra e te interrogas acerca da sua origem. Poderias explicá-la facilmente recorrendo a meras causas geológicas e meteorológicas, como os movimentos da crosta terrestre, o vento, o calor, a chuva. Mas, se em vez de uma pedra encontrasses um relógio, não poderias fazer o mesmo. A razão está em que o relógio é um objeto complexo, constituído por rodas dentadas, engrenagens, molas, etc. (o relógio de Paley era do começo do século XIX), que operam em conjunto para dar as horas, de tal modo que a mínima alteração na organização das suas partes afetaria os resultados obtidos. Seria absurdo supor que um objeto com este nível de complexidade e ajustamento pudesse ter origem nas meras forças da natureza. Por conseguinte, o relógio tem de ter por origem um ser inteligente: o relojoeiro.

Paley estende depois este raciocínio ao universo e aos objetos naturais nele existentes. Chama a atenção para os indícios de desígnio nos organismos e nos órgãos naturais e, em particular no olho humano. Estas entidades naturais revelam um nível de organização, de ajustamento e de complexidade ainda maior que o do relógio, pelo que, tal como o relógio, devem a sua existência a um ser inteligente, Deus, que os criou. Essas alegações foram as mesmas usadas por Michael Behe em seu livro “A caixa preta de Darwin” na qual foi rejeitada como complexidade irredutível por não representarem exemplos concretos.

William Paley (Peterborough, 14 de julho de 1743 - Bishopwearmouth, 25 de maio de 1805)

William Paley (1743 – 1805)

Uma alegação bastante comum que se resguarda nessa frase reflete a complexidade especificada referente ao ajuste fino do universo. Ninguém pode negar o universo ou estruturas biológicas parecem ter sido desenhados, mas, essas alegações de funcionalidade projetada especificamente se resguardam não em resultados científicos, mas alegações teleológicas e por vezes no que chamamos de God of the Gaps (Deus-de-lacunas). No caso de estruturas biológicas, entendemos agora que elas parecem ter sido desenhas especificamente para uma função, mas porque a unidade biológica que a carrega é fruto de processos de seleção em que só o apto, somente a descendência com modificação sobrevive. Que é exatamente a lógica do Demônio de Maxwell identificada no trabalho de Adami citado no texto anterior. Temos então a aparência de design, mas como vimos anteriormente, complexidade não é sinônimo de projeção intencional.

De fato, filosoficamente, distingui-se duas versões do argumento do desígnio. Quando o argumento tem por base a ordem do mundo, como a regularidade do sistema solar, trata-se de uma versão nomológica (do grego nomos, que significa norma ou lei); e quando o argumento tem como base a adequação de algo aos fins, como a adequação de um órgão dos seres vivos à função que desempenha, diz-se que se trata da versão teleológica, da palavra grega telos, que significa fim ou propósito. O argumento do desígnio pode, portanto, conforme os casos, ser uma tentativa de provar a existência de Deus a partir da ordem do mundo (versão nomológica do argumento) ou a partir da existência de um propósito ou fim (versão teleológica do argumento) (Filosofia e Educação). Mas essas alegações hoje são bastante debatidas, sejam elas nomológicas ou teleológicas. Por exemplo, sabemos hoje que a mecânica do sistema solar é bastante complexa e conta com diversos elementos aleatórios devido a grande quantidade de variáveis que tornam o sistema todo caótico, como alterações nas orbitas; a atração gravitacional de outras estrelas e planetas atuando sob a órbita da Terra; sobre a energia inercial que esses corpos vão adquirindo e tendo sua orbita forçada para diversos lados; sob a mudança do centro gravitacional do sistema solar; sobre a variação no plano da galáxia que estamos inseridos; sobre como essas alterações de orbitas promovem alterações no eixo do planeta e eventualmente até sua expulsão do sistema. Sendo assim, a mecânica do sistema solar não é perfeita, tão pouco simétrica ou milimetricamente desenhada para tal função. Ela é resultado da ação e ajuste mecânico das forças da física que regem a matéria e seu lugar no espaço no tempo.

Platão afirmava que tudo era resultado do trabalho de um artesão divino, ilimitado em seu conhecimento. Para ele, o cosmo foi produzido intencionalmente para ser o melhor e mais belo por ação da providência divina. A beleza então é o resultado da organização, da simetria entre os elementos que compõem tudo, o cosmo (Glacken, 1990). No caso do universo o ajuste fino é explicado de maneiras distintas.

A maioria das pessoas tem um “inato” repúdio à noção de acaso porque contradiz a nossa forma de explicar as coisas normalmente. Isso porque quando um cientista explica um acontecimento imediato, ele opera no pressuposto de que este é um universo regular, onde tudo ocorre como resultado ordenado entre causa e efeito. Essa concepção incomoda as pessoas porque exclui explicações teleológicas, ou sobrenaturais. Isso faz sentido, pois causa é uma propriedade de fenômenos e não de seres, razão pela qual Craig é bastante criticado. O universo é um fenômeno que emerge de uma causa, sendo causa propriedade de fenômenos não há necessidade de entidades sobrenaturais. Pensando nessa relação de causa e efeito surgem contra-argumentos dos mais diversos, como por exemplo o do ajuste fino que veremos em breve.

Antes de entrar na discussão sobre ajuste fino vale analisar um pouco mais sobre essa relação teleológica entre causa e origem do universo. São Tomás de Aquino afirmava que a causa da existência do Universo é Deus. Ele acreditava que Deus é causa de si próprio, sendo uma causa que não tem uma causa. E David Hume, um filosofo escocês do século XVIII questionou se Deus realmente cumpre este requisito. Para Hume não. Ele sugere que o universo também pode ser causa de si próprio e, portanto, é completamente injustificado procurar fora do universo uma causa para o universo:

Mas se paramos e não avançamos mais, por que razão ir tão longe? Por que não parar no mundo material? Como podemos dar-nos por satisfeitos sem prosseguir in infinitum? E, no fim de contas, que satisfação existe nessa progressão infinita? (…) Se o mundo material se apoia num mundo ideal similar, este mundo ideal deve apoiar-se nalgum outro, e assim por diante, infinitamente. Seria melhor, portanto, nunca olhar para além do mundo material atual. Ao supor que contém em si mesmo o princípio da sua ordem, afirmamos que é de fato Deus e quanto mais cedo chegarmos a esse Ser divino tanto melhor. Quando ides um passo além do sistema mundano, apenas excitais uma disposição inquisitiva que será sempre impossível satisfazer.

David Hume, Diálogos sobre a Religião Natural.

Afirma-se também que o universo foi criado e ajustado finamente para compor suas leis da física de tal forma a sustentar a vida, em especial a humana. Como destaca o físico Victor J. Stenger (200?) é fatal para os proponentes do designer inteligente a suposição totalmente injustificada de que apenas um tipo de vida é possível, a forma particular de vida baseada em carbono que temos aqui na Terra. Complexidade suficiente e longa vida podem ser os únicos ingredientes necessários para um universo que tem alguma forma de vida. Aqueles que argumentam que a vida é altamente improvável necessitam de abrir suas mentes para a possibilidade de que a vida pode ser provável com muitas configurações diferentes de leis e constantes da física. Além disso, nada no raciocínio antrópico indica qualquer especial preferência para a vida humana, ou a vida inteligente ou sensível de qualquer tipo – apenas um apreço desordenado para o carbono. Sendo assim, os criacionistas diante do principio antrópico (a ideia de que o universo foi criado para que a vida, em especial a humana, pudesse ocorrer) recorrem ao Deus-das-lacunas, argumentando que a natureza é muito desagradável para a vida ter se desenvolvido de forma totalmente natural, e assim, portanto, a entrada sobrenatural deve ter ocorrido. Por outro lado, o ajuste fino (muitas vezes alegado pelos mesmos proponentes) que as constantes e leis da natureza possuem são extremamente agradáveis para a vida, e assim, portanto, eles devem ter sido sobrenaturalmente criados. Eles não podem ter as duas coisas. Isso quer dizer que ou o universo não tem ajuste fino e a alegação de projeto inteligente se respalda na falácia da poça de água; ou o universo tem um ajuste fino, mas não realizado por um projetista, mas por um conjunto probabilístico diante do conceito de Multiverso, onde uma grande variação de constantes da física leva a universos que são de vida longa o suficiente para a vida a evoluir, embora a vida humana não precise existir em tais universos.

Petto (2008) ainda destaca em seu livro Scientists Confront Creationism: Intelligent Design and Beyond que Victor Stenger refuta com matemática lúcida o conceito de complexidade especificada de Dembski assumido no Discovery Institute e ressalta que ele se respalda em pseudomatematica.

Como destaca Hume, se o argumento do desígnio inteligente funcionasse não poderia suportar uma robusta fé em Deus. Tudo o que se pode esperar é a conclusão de que a configuração do universo é o resultado de algum agente (ou agentes) moralmente ambíguo, possivelmente não inteligente, cujos métodos possuam alguma semelhança com a criação humana. Para o argumento teleológico funcionar, seria necessário que só nos pudéssemos perceber ordem quando ela resultar do desígnio inteligente. Mas nós vemos ordem e funcionalidade em tudo, resultante obviamente de nossa própria criação. Projetamos a nossa concepção de criação com funcionalidade para toda a estrutura do universo que é fruto de processos presumivelmente sem consciência. Por exemplo, pensamos que um objeto não existiria se não possuísse um aspecto específico funcional que é apenas interessante para nós. Uma projeção antropocêntrica de objetivos na natureza (Hume, 1757).

A mesma alegação é encontrada quando proponentes do designer inteligente e criacionistas citam analogamente o código binário de computadores com o código genético. Código binários são realmente criados por nós, mas não implica que todo código ou sistema de interpretação de sinais seja criado especialmente para aquela função. Essa é uma projeção de nosso código artificial para a natureza. O código genético é resultado de reações químicas que se estabeleceram através da interação molecular. Comparar carros a células, ou maquinas a seres humanos é projetar criações nossas cuja essência precedeu a existência em toda a natureza sendo que é possível que haja explicações naturais plausíveis. Além de se respaldar em alegações teleológicas recorre a uma concepção de Deus de lacunas.

Para Hume, a argumentação de que a existência de ordem, arranjo e funcionamento apropriado no mundo não são em si provas do desígnio divino. Um animal cujo corpo não funciona adequadamente morre e assim também seria com o universo. A ordem pode ser simplesmente inerente à matéria, podendo-se dizer que tal constituição permite-lhe funcionar como funciona, sem referência ao desígnio. O mundo pode até ser compatível com a ideia de uma divindade poderosa, mas ele não pode nos permitir uma inferência sobre sua existência. Para Spinoza é a de que as causas finais são criações da mente humana baseada na analogia das atividades humanas. Se nossas atividades são criadas com a finalidade de buscar determinados objetivos então certamente o universo teria sido criado sob essa mesma concepção segunda a visão deísta (Glacken, 1990).

A grande maioria dos filósofos antigos se resguardavam em pressuposições nomológicas ou teleológicas que só foram batidas com maior afinco com Hume. Por exemplo, Balbo, um dos maiores representantes do estoicismo argumenta que assim como as criações humanas, podemos presumir que o cosmos também possui um criador, sendo assim, a Terra, com toda a sua perfeição é somente uma parte da grande harmonia cósmica. Para o filosofo Leibniz nem a visão de natureza de Descartes nem a de Newton descrevem uma explicação correta para a ordem do mundo. Ele era um defensor das causas finais e abordou a questão do caos e da desarmonia na natureza sustentando que elas não passam de uma primeira impressão.

Entretanto, da mesma forma com que muitos filósofos se posicionaram a favor do desígnio divino, muitos se opuseram com críticas muito semelhantes a dos críticos atuais. Para o filosofo Lucrécio rebater o argumento do desígnio divino é possível quando se observa as imperfeições do cosmos e da Terra. Uma concepção muito comum entre biólogos que destacam diversas falhas de projeto do Designer inteligente. Teofrasto, aluno de Aristóteles também não aceitava a visão teleológica e por vezes afirmou não ser tão fácil assim determinar uma finalidade na natureza, pois muitas coisas ocorrem não com uma finalidade, mas por coincidência ou necessidade. Ele citou vários exemplos de fenômenos celestes e terrestres que seguem esse argumento. De fato ele até alertou contra o pressuposto acrítico de que a natureza em todas as coisas deve desejar sempre o melhor. Essa finalidade de desejar sempre o melhor é incompatível com o nosso conhecimento, pois sabemos que não devemos esperar que a natureza trabalhe a nosso favor. Se a natureza e seus recursos climatológicos realmente atuassem a nosso favor certamente não estaríamos tendo problemas ambientais sérios, e redução drástica dos recursos naturais colapsando nossa sociedade. Barão d’Holbach também acreditava que a ordem natural das coisas é uma criação humana derivada das observações dos movimentos periódicos, regulares e necessários no universo, e aquilo que o homem denomina confusão na verdade não passa de coisas que não se encaixam em seu ideal de ordem natural. Um dos maiores nomes do combate a doutrina das causas finais depois de Hume é Kant. Em seu livro “Crítica da faculdade do Juízo” ele aponta as inadequações das analogias que comparam a natureza a uma máquina ajustada ou obra artesanal, pois a razão da existência de ambas reside fora delas, e elas não conseguem por si só se reproduzir, substituir partes, corrigir deficiências ou reparar-se (Glacken, 1990).

Para Hume, quanto maior for a semelhança entre os objetos que a analogia compara, mais forte é a analogia. Quando a semelhança entre os objetos é total a força do argumento é máxima e nesses casos é possível a partir daquilo que sabemos acerca de uns objetos concluir algo acerca dos outros com toda a certeza. Quando isso não acontece, a analogia é fraca e tão mais fraca quanto maiores as diferenças entre os objetos comparados.

Observamos milhares e milhares de vezes que uma pedra cai, que o fogo queima, que a terra tem solidez; e quando uma nova instância desta natureza ocorre, tiramos sem hesitar a inferência habitual. A exata semelhança dos casos dá-nos a certeza absoluta de um acontecimento semelhante e nunca desejamos nem procuramos uma evidência mais forte. Mas, sempre que vos afasteis, por pouco que seja, da similaridade dos casos, diminuís proporcionalmente a evidência e podeis por fim reduzi-la a uma analogia muito fraca, que está manifestamente sujeita ao erro e à incerteza.

David Hume, Diálogos sobre a Religião Natural.

O que Hume faz é a mostrar as condições que um argumento por analogia tem de cumprir para ser bom: 1) as semelhanças entre os objetos comparados têm de ser fortes; 2) quanto menos diferenças relevantes entre os objetos existirem melhor; 3) as semelhanças têm de ser relevantes para aquilo que se quer concluir com o argumento. Hume então afirma, o argumento do desígnio não cumpre estas condições. O universo é muito diferente de qualquer objeto produzido pelo homem, pelo que a analogia é, assim, extremamente fraca e, embora existam semelhanças, as diferenças são tão gritantes que é impossível ter a certeza da verdade da conclusão.

A dissimilitude é tão impressionante que o máximo a que podeis aspirar neste ponto é a uma suposição, uma conjectura, uma presunção a respeito duma causa similar.

David Hume, Diálogos sobre a Religião Natural.

Outras considerações a respeito de Dembski.

Existe um propósito claro dentro das alegações de Dembski, justificar o injustificável, a ideia de que tudo é aparentemente especificado, resultado de um projetista universal. As razões pelo qual Dembski faz isso é resguardar sua cosmovisão baseada no cristianismo ortodoxo.

Dembski é palestrante proponente do Designer inteligente e muito requisitado por grupos religiosos, em especial, criacionistas. Apesar de alegar que o designer inteligente pode ser qualquer entidade que não seja Deus (Hall, 2002) sempre esta relacionado a grupos religiosos e discursando a respeito de Deus como sinônimo de Designer inteligente. De fato, ele se posiciona bem no meio do fogo cruzado, pois apesar de ser um defensor do desígnio inteligente e ser requisitado por grupos religiosos, é também criticado por criacionistas defensores da Terra Jovem (Sarfati, 2005) por não defender tal conceito. Além de ser bastante criticado pela comunidade científica, que alega que ele faz uso de argumentos pseudomatematicos (Inlay, 2005).

Em várias ocasiões foi explícito em rotular o designer como o Deus cristão e ligando o designer inteligente com um avivamento cristão, citando inclusive que “as sondagens conceituais do [design inteligente] pode, no final, só ser localizada em Cristo” (Dembski, 1999) Em seu site pessoal, Dembski alega que o Design inteligente permite que o materialismo seja substituído pelo cristianismo (Dembski, 2005).

William Dembski 2009. Os alunos estavam na borda de seus assentos recentemente como líder em design inteligente defensor William Dembski falou na RG Lee Chapel at The Baptist College of Florida (BCF) em Graceville, Florida. Conhecido por sua pesquisa abrangente e excelentes habilidades de debate, Dembski trabalha como diretor do Centro de Engajamento Cultural e Pesquisa Professor de Filosofia em Southwestern Baptist Theological Seminary em Fort. Worth, Texas.

William Dembski 2009. Os alunos estavam na borda de seus assentos assistindo a palestra de Dembski falando sobre design inteligente na RG Lee Chapel at The Baptist College of Florida (BCF) em Graceville. Dembski trabalha como diretor do Centro de Engajamento Cultural e Pesquisa Professor de Filosofia em Southwestern Baptist Theological Seminary em Fort. Worth, no Texas.

A validade dos argumentos baseados neste conceito são amplamente contestadas. Uma crítica feita por Elsberry e Shallit (2003) é ele empregou os termos “complexidade”, “informação” e “improbabilidade” como sinônimos. Estes números medem propriedades de coisas de tipos diferentes: A complexidade mede o quão difícil é descrever um objeto tal como definimos no primeiro texto; a informação mede o quão próximo de uniforme uma distribuição de probabilidade aleatória está; e a improbabilidade mede o quão improvável é um evento dado uma distribuição de probabilidade.

Em seu livro “No Free Lunch” ele alega que os algoritmos usados por estudos de evolução não demonstram ganho de informação biológica, e conclui que deve haver um projetista para obter tal aumento de complexidade. Entretanto, a biologia mostra que quando a informação é replicada, algumas copias podem ser modificadas diferentemente enquanto outras continuam iguais, permitindo que a informação aumente. Isso foi visualizado em modelos matemáticos também de Adami citados na primeira parte deste texto. Estes mapeamentos de aumento e redução não são modelados por Dembski. Se a origem e perda de informação não for considerada nos cálculos de Dembski, toda sua lógica perde os sentido pois não reflete a realidade (Siemon-Netto, 2000). E como destaca o professor de matemática e biólogo Martin Nowak (2005), não é possível calcular a probabilidade de um olho ter surgido quando não se tem a informação para fazer o cálculo.

Dembski ainda é criticado por não abordar o trabalho de pesquisadores que usam simulações de computador para investigar o campo da vida artificial. De acordo com Jeffrey Shallit: o campo da vida artificial evidentemente constitui um desafio significativo às alegações de Dembski sobre a incapacidade de algoritmos evolucionários gerarem complexidade. De fato, os pesquisadores da vida artificial regularmente descobrem que suas simulações produziram os tipos de novidades e complexidade aumentada que Dembski alega que serem impossíveis (Dembski, 2000)

Os críticos de Dembski ainda notaram que o conceito de complexidade especificada foi originalmente definido por Leslie Orgel, que deixou claro que a evolução darwiniana é capaz de criar essa complexidade biológica pelo ganho de informações obtido em variações no DNA. Isto valida a ideia de que a entropia da informação genética esta sujeita ao Demônio de Maxwell.

Ao que parece seu argumento é circular, ou mesmo tautológico, onde a complexidade de informação não pode ocorrer naturalmente porque Dembski a definiu assim; e é tautológica porque elenca estruturas bilógicas (moleculares, como no flagelo bacteriano) a outras funções que a tornam específicas, e aumentam a sua complexidade sendo assim complexidade especificada soa como “a complexidade de estruturas complexas”.

Assim sendo, a crítica deve exigir experimentos que comprovem a improbabilidade de que uma determinada estrutura biológica tenha surgido por processos naturais. Ou ainda, que as leis da física ou da química sejam suspensas e que seja detectável experimentalmente a “pipetagem” externa (ou sobrenatural) ao natural sendo que ela deva ser metodologicamente detectável e falseavel. Por essa razão criacionismo e designer inteligente são considerados pseudo-ciência.

Para que sua proposta seja aceita, seria necessário mostrar que alguma característica biológica tenha probabilidade extremamente baixa de ocorrer por quaisquer meios naturais que sejam. Isso não é possível acontecer porque tais cálculos dependem de uma avaliação minuciosa de numerosas probabilidades contribuintes, cuja determinação frequentemente é necessariamente subjetiva. Portanto, não conferiria certeza absoluta (Schneider, 2002)

Dembski alega que o aumento de complexidade biológica nos organismos é análogo a “geração espontânea” evolutiva, o que é falso. Em 1982, B. G. Hall publicou pesquisa demonstrando que após remover um gene que permite a digestão de açúcar em certas bactérias, essas bactérias, quando cultivadas em um meio rico em açúcar, rapidamente desenvolvem novas enzimas digestoras de açúcar para substituir as que foram removidas (Brumley, 2000). Outro exemplo amplamente citado é a descoberta de bactérias que digerem nylon, que produzem enzimas úteis apenas para digerir materiais sintéticos que não existiam antes da invenção do nylon em 1935. (Veja aqui) Como critico da evolução por seleção natural as alegações de Dembski falham quando notamos que meios de seleção são frequentemente usados para projetar certos sistemas eletrônicos, aeronáuticos e automotivos que são considerados problemas complexos demais para “projetistas inteligentes” humanos (Sandefur, 2005). Isto contradiz o argumento de que um projetista inteligente é necessário para a maioria dos sistemas complexos. Tais técnicas podem levar a projetos que são difíceis de entender e avaliar já que nenhum humano entende que compromissos foram feitos no processo evolucionário, algo que imita o nosso pouco entendimento dos sistemas biológicos.

Adepto do Código do Pentateuco

Dembski também manifestou interesse no código da Bíblia. Entretanto, o tal código já foi considerado também estatisticamente insustentável por outros autores. A refutação veio (1999) ao notar que os dados foram ajustados para os testes. Não só identificaram uma fonte desconhecida de flexibilidade (principalmente o fato de que o conjunto disponível de denominações para os famosos códigos de Rabbis foram mais do que duas vezes maior que o conjunto realmente utilizado), e provou-se que essa flexibilidade é suficiente para permitir que resultados semelhantes fossem obtidos em qualquer livro, inclusive em textos seculares. A refutação de Brendam McKay, Dror Bar-Natan, Maia Bar-Hille e Gil Kalai corrobora esta afirmação observando que, quando os muitos parâmetros arbitrários do experimento de Doron Witztum, Eliyahu Rips, and Yoav Rosenberg (WRR) são variados, o resultado geralmente é enfraquecido, e também demonstram traços estatísticos e expectativas ingênuas em ensaios de WRR.

Michael Drosnin e outros admiradores do “Código da Bíblia”, afirmam que a decodificação do livro leva à descoberta de profecias e verdades profundas de natureza secular, nem todas relacionadas aos judeus. Drosnin alega que a Bíblia é o único texto em que frases codificadas como essas são encontradas num padrão estatisticamente significativo, e que as chances de que isso seja um fenômeno aleatório são poucas. Ao longo de diversos debates a credibilidade de Drosnin foi caindo e a ideia de códigos bíblicos ficou fragilizada quando a mesma metodologia empregada na Torah foi usada no livro Moby Dick e mostrou que sequencias de letras equidistantes existiam e suportavam supostos códigos. O matemático David Thomas fez uma análise de sequencia de letras equidistantes de Genesis e encontrou as palavras “code” [código] e “bogus” [falso, fictício] juntas 60 vezes. O que demonstra que os dados apresentados por WWR sugerem apenas acrobacias numéricas.

O que se nota é que em todos os locais onde Dembski esta presente há diversas dissonâncias em suas alegações na qual torna insustentável a suas propostas, e que no mais, vem se apresentando como exemplos de pseudomatematica.

Victor Rossetti

Palavras Chave: NetNature, Rossetti, Dembski, Teleologia, Nomologia, Platão, Spinoza, David Hume, Kant, Criticas a Dembski, Victor Stenger, Ajuste Fino, Códigos Bíblicos, PseudoMatematica.

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Referências

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B. McKay, D. Bar-Natan, M. Bar-Hillel, and G. Kalai (1999). Solving the Bible Code Puzzle. Statistical Science, 14

Sarfati, Jonathan (February 7, 2005). “ID theorist blunders on Bible (response to Dembski)“. Creation.com. Creation Ministries International. Retrieved 2014-01-10.

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Dembski, William (February 1, 2005). “Intelligent Design’s Contribution to the Debate Over Evolution: A Reply to Henry Morris“. DesignInference.com. Pella, IA: William Dembski. Retrieved 2014-01-10.

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