CONSTANTES DO UNIVERSO, UMA RESPOSTA NATURAL OPOSTA AO PRINCÍPIO ANTRÓPICO E AO ARGUMENTO DO DESIGN – Parte 4

relogio

Ellis e sua oposição ao multiverso:

O artigo de Ellis “Opposing the multiverse“, trata-se de uma crítica muito bem fundada quanto ao conceito de multiverso. Nesse artigo, Ellis critica que uma hipótese não ganha o status de ciência simplesmente porque explica algo. Tal hipótese deve ser testada.

Como foi visto anteriormente, multiverso não é a hipótese que explica a afinação do universo, portanto invocar o artigo de Ellis como crítica às explicações acerca da afinação do universo que rechaçam a ideia de projeto ou de design é equivocado.

Multiverso é uma proposta que não possui qualquer observação direta até o momento, embora a teoria de Everett e o panorama da teoria das cordas deem uma evidenciação indireta desta entidade.

Evidências indiretas com base apenas em matemática não são o bastante para dizermos que multiversos existem, mas são o caminho para despertar nosso interesse nessas entidades assim como os modelos de Garrett Lisi –  A geometric theory of everything (disp on line) o são, de modo a estudarmos a previsão e busca de partículas.

Em um multiverso não sendo causa, mas a consequência da afinação do universo, podemos criar em modo de simulação universos viáveis, cada qual com suas características. Mas daí a dizer que esse cenário corresponde a uma realidade, isso é falso, pois nada sabemos acerca de universos paralelos exceto dados de uma teoria que é mais fundamentada em matemática que física propriamente.

Quanto a L. A. Barnes em seu artigo “The fine tunning of universe for intelligent life” (disp on line), em sua conclusão o autor afirma que a afinação do universo não se trata de um problema científico, mas de um fenômeno de nosso universo que não pode ser explicado pelo corrente conhecimento atual das leis da física. Ao invés disso estamos de acordo com as leis da física.

Entretanto, as coincidências antrópicas não são prováveis, mas nós pensamos como se as condições iniciais e as leis da física não fossem concordantes, em relação a como as coisas se tornam o que são.

As leis da física são causas materiais e eficientes e não causas finais. Para o autor, ainda que entendamos por completo as leis da física, a afinação se manterá irredutível. Exceto se conseguirmos um dia integrar gravidade quântica, o modelo padrão e as condições iniciais da cosmologia – a “teoria de tudo”.

O autor se mostra cético quanto à presença de um princípio antrópico em relação à complexidade e contingência das soluções das equações físicas, assim como simplicidade e beleza não se tratam de uma necessidade.

Com isso podemos ver que nenhum dos autores faz qualquer menção a princípio antrópico ou mesmo infere que haja “projetos inteligentes” como forma de explicar o universo e sua afinação.

Mesmo os autores Tipler e Barrow em “The cosmological anthropic principle” e “The anthropic principle a primer for philosophers“, demonstram que a ideia de princípio antrópico funda-se no argumento teleológico de um designer divino para o universo.

Ambos os autores se posicionam contrários a ideias teístas como forma de explicar o universo. Para ambos, a aparência de design do universo é apenas fruto de nossas observações fundadas em nossa existência.

Mesmo quanto as ideias de multiverso ou de teoria das cordas, os físicos se mostram céticos quanto a estas hipóteses, embora o poder de explicação da teoria das cordas os fascine, pois ela evita uma coisa terrível que são os infinitos, conforme demonstram os artigos citados acima.

Por esse motivo, Kaku, Greene, Witten, Bousso, Polchinski e tantos outros se mostram otimistas quanto aos cenários que essa possível futura teoria traz quanto a explicar os enigmas do micro e do macrocosmo e finalmente unificar a relatividade geral com a física quântica.

Se isso um dia dará certo? Não sabemos, mas esperamos que dê a fim de que tenhamos uma visão e uma compreensão mais clara acerca do Universo.

O QUE DE FATO REPRESENTA O ARGUMENTO DO DESIGN?

O argumento do design consiste em um falso esquema lógico que se assenta em um argumento da ignorância.

Nada mais é que uma versão ampliada para o argumento de Paley (QUE NÃO PASSA DE UMA EXPERIÊNCIA MENTAL – NÃO QUE HAJA ALGO CONTRA, POIS NO MUNDO CIENTÍFICO USA-SE MUITO DESSE TIPO DE ARTIFÍCIO), que se aplica à física, à química e à biologia. Ou seja, é um argumento “CORINGA” que pode ser invocado em qualquer situação para se justificar um desígnio inteligente.

Tomando a argumentação de Francis Collins (em A linguagem de Deus), o argumento do DI é análogo à estrutura lógica que se segue abaixo à dele:

Versão do argumento do DI:

1. Um relógio de pulso é complexo.

2. Um relógio de pulso teve um planejador inteligente.

3. A vida é complexa.

4. Portanto, a vida também teve um planejador inteligente.

Argumento análogo:

1. A corrente elétrica na minha casa é formada por um fluxo de elétrons.

2. A corrente elétrica vem da empresa de energia elétrica.

3. Relâmpagos são formados por um fluxo de elétrons.

4. Portanto, os relâmpagos vêm da empresa de energia elétrica.

Ou seja, o que vemos para o argumento do design assim como para o argumento do raio é uma conclusão precipitada, que não considera o atual avanço do conhecimento.

Vejamos como a coisa funcionaria para o universo:

1 – Existe complexidade no universo que requer uma explicação.

2 – A complexidade pode ser a consequência de design ou das leis naturais.

3 – Sabemos, por nossa experiência diária, que uma mente inteligente é uma boa explicação para a ocorrência de complexidade. Observamos isso na analogia do relojoeiro.

4 – As leis naturais são capazes de produzir complexidade no universo por meio de diversos processos como nucleossíntese estelar, dissociação de forças e quebra de simetria.

5 – Se as leis naturais foram a causa da complexidade do universo, então não há como inferir que a complexidade é produto de design.

6 – Assim, de acordo com o conhecimento que temos hoje, estes processos ocorreram.

7 – Logo, processos naturais foram os responsáveis pela presença de complexidade no universo e não um designer.

8 – Conclusão: até pode haver um Designer (Deus), mas não há como inferir sua existência com base na complexidade do universo.

Inferir que a causa do universo ser complexo é obra de um designer é um gigantesco salto epistemológico que deixa mais dúvidas que esclarecimentos acerca da questão.

Ainda, o universo não se mostra um projeto inteligente, conforme abordamos anteriormente. É lindo apontar o telescópio para o céu e contemplar a Via Láctea aqui da Terra.

Mas e quando vemos algo como o colapso de Eta-Carinae, imaginando que estivéssemos em sua órbita ou perto dela?

O que dizer se o cometa Shoemaker-Levi batesse na Terra ou na Lua?

Que tal sermos atingidos por um jet vindo de um pulsar ( o que nos calcinaria em microssegundos) ou estarmos ao lado de um magnetar, onde o ferro de seu sangue seria por inteiro arrancado de seu corpo?

Pois é; é tudo isso que o princípio antrópico e o argumento do design jogam debaixo do tapete.

Em resumo a complexidade do universo, da vida e das estruturas se tratam nada mais que uma falsa analogia se comparadas a obras humanas ou de outra inteligência qualquer.

Caso em Marte encontremos aquele aparato do Vingador do futuro (De Schwarzenegger), a pergunta certa a fazer é: QUEM DESENVOLVEU ISSO, E PARA QUÊ?

Mas se virmos Olimpus Mouns a pergunta será: COMO ESSA ESTRUTURA SE DESENVOLVEU AQUI?

Na natureza nada tem finalidade. As coisas são o que são. Qual seria a finalidade dos anéis de Saturno, da existência de planetas em sistemas pulsares, a finalidade das estrelas não sintetizarem cisurânicos como tecnécio e promécio e nem sintetizarem transurânicos, a finalidade de existirem magntares e de existirem asteróides e cometas?

Para que existiria um dragão de Komodo, morcegos vampiros, frugívoros, insentívoros e pescadores. Por que um macaco careca é careca? Por que existiriam gnaisses e granitos (quero ver quem vai ser o leproso que vai falar pra por na pia da cozinha…).

Por que existem parasitas mortais? Por que existem planetóites como Plutão, Éris e Sedna?

Ou seja, são perguntas que não tem um por quê. Isso anula qualquer designer, pois este responderia o por quê.

O que voce deve perguntar é como.

Para que o argumento do designer seja sólido devemos:

Primeiro: demonstre que esse designer existe;

Segundo: demonstre que o tal atua na natureza;

Terceiro: demonstre sua intencionalidade e finalidade;

Quarto: demonstre que seus projetos são inteligentes (já vimos que essa demonstração, veementemente, falha na natureza).

Caso não se passe por uma dessas alternativas, a discussão em torno dessa figura e suas capacidades ou intencionalidade perde o objeto e passa a ser “discutir o sexo dos anjos”, ou seja, é uma discussão inútil. (argumento da ignorância/deus das lacunas). Isso vale ainda que indiretamente se faça inferências dessa personagem, o que está completamente equivocado.

O argumento do designer falha magistralmente em qualquer campo das ciências e mesmo dentro da filosofia, assunto este que não abordarei aqui por conta da limitação de escopo.

Escrito especialmente por Elyson Scafati

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