O PESO DOS LEPIDOPTEROS SOBRE EBERLIN

Dentro do mundo dos debates entre criacionismo e evolução biológica o que mais se destaca é capacidade que muitas pessoas têm de fazer determinadas afirmações sem previamente pesquisar em periódicos. O Doutor em química Marcos Eberlin, assumidamente proponente do Designer Inteligente e criacionista escreveu um livro virtual e vem sendo contestado e criticado por membros da biologia e da própria química por expressar opiniões pessoais sem respaldo acadêmico. Dentre tantos pontos polêmicos e falaciosos, destaco aqui alguns que claramente carecem de base científica.

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Explosão Cambriana

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Eberlin afirma em seu livro que a explosão cambriana ocorreu em 5 a 10 milhões de anos. Entretanto, o que se encontra em xistos de Burgess e em assentamentos da Rússia é que a “explosão” ocorreu em no máximo 20 milhões de anos e produziu taxas de diversificação muito parecidas com a do fim do Cretáceo e inicio do K/P. C conceito de explosão Cambriana hoje não é mais reconhecido sabendo que a diversidade que aparece no Cambriano é resultado de processos evolutivos que ocorreram em períodos geológicos anteriores ao Cretáceo, por exemplo, período Toniano, Criogenico e Ediacarano. O florescimento desta biota segue exatamente o que o professor Mario de Vivo disse em um debate de criacionismo e evolução biológica com o professor Nahor Neves (Criacionista) mediado por Mario Sergio Cortella. Mario Pinna  afirmou que a Explosão Cambriana deixara de ser vista como um fenômeno misterioso conforme novas descobertas fossem ocorrendo. De fato, hoje, sabe-se que o Cambriano é um marco na história da vida pois neste período houve a incorporação de partes duras nos seres vivos e após  a extinção do fim do período estabeleceu-se os principais planos corpóreos da vida, embora muitos grupos biológicos com simetrias já haviam sido estabelecidos muito anteriormente ao período Cambriano. Parte destas descobertas discorri em A VIDA ANTES DO CAMBRIANO E A ORIGEM DOS ARTRÓPODES – HOUVE UMA EXPLOSÃO CAMBRIANA? na qual as referencias bibliográficas estão disponíveis e talvez interessariam a Eberlin caso ele pesquizasse previamente.

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Borboletas

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Primeiramente, a imagem acima mostra uma borboleta colorida, que pertence ao gênero Ornithoptera (possivelmente uma O. alexandrae, a maior borboleta do mundo) que geralmente ocorre na Índia, China e Egito e que pertence a família dos Papilionidae. O fóssil representado na imagem não corresponde a família dos Papilionidae e sim ao grupo dos Nymphalidae, da tribo Nymphalinae e pertence a espécie Prodryas persephone. Fóssil encontrado no Colorado datando entre 40 e 50 milhões de anos. Sendo assim, a imagem acima trás uma representação completamente errada para um livro que pretende divulgar algum aspecto zoológico.

Biólogos evolucionários e lepidopterologistas obviamente sabem que grupos biológicos não surgem do nada como afirma Eberlin. Basta ler os artigos antes de escrever um livro. A biologia não usa termos como geração espontânea. Eberlin esta mal informado por diversos motivos. 1) Eberlin trabalha na UNICAMP e nesta mesma Universidade trabalham os maiores especialistas em evolução de Lepidópteros do Brasil e do mundo, André Victor Lucci Freitas e o aposentado Keith Brown que juntos a uma bancada internacional participou de um estudo em 2009 sobre a origem e evolução das mariposas e borboletas datado (na época) em 190 milhões de anos sendo os Micropterigio o grupo de lepidopteros mais antigo de toda ordem. Recentemente, um novo estudo que saiu em novembro de 2013 (usando dados moleculares e fósseis de Lepidoptera e Trichoptera (Ordens filogeneticamente próximas) estendeu a origem do grupo para 234 milhões de anos (Niklas Wahlberg1*, Christopher W. Wheat2, Carlos Penã. Timing and Patterns in the Taxonomic Diversification of Lepidoptera (Butterflies and Moths)PLOS ONE. November 2013 | Volume 8 | Issue 11 | e80875)

2) Há fosseis, há evidências, há artigos, há pesquisadores, há tudo apontando claramente para a origem monofilética do grupo dos Lepidotera e Eberlin simplesmente preferiu afirmar que não há qualquer tipo de evidência que nos permite estabelecer inferências ou modelos explicativos sobre a origem de tal grupo biológico. Afirmar não é corroborar e negar a evolução não é refuta-la. Eberlin até o presente momento apenas negou, não há qualquer artigo científico em sua carreira que tenha sido publicado que possa estabelecer um paradigma que possa substituir a evolução biológica. De fato, em sua carreira não há sequer um artigo em que ele defenda o conceito de Designer Inteligente e assinaturas divinas em moléculas. Suas afirmações são informais, anedóticas e fundamentadas em aspectos religiosos e não científicos. Isto se deve a incompetência que o conceito de designer trás ao tentar se apresentar como ciência, diante dos limites metodológicos e epistemológicos dela. Sendo assim, sua defesa ao designer inteligente é meramente especulativa.

Existem fósseis sim, que remontam a origem do grupo do lepidoptera. Um estudo feito para determinar a origem dos lepidópteros utilizou dois fósseis para restringir as idades na análise de verossimilhança, e colocar antecedentes para a análise Bayesiana. A idade mínima do grupo Micropterigidae foi definida para 110 milhões de anos com base em Parasabatinca aftimacrai, uma mariposa micropterigidea adulta preservada em âmbar libanês que tem a afinidade com a Sabatinca ainda viva. Portanto, há fósseis sim. Em segundo lugar, a idade mínima do grupo Nepticulidae (primitivo também) foi colocada em 99 milhões de anos com base em traços de minas foliares nos fósseis que são característicos da Formação Dakota. Foi também utilizada uma abordagem exploratória passo a passo para determinar o efeito da idade em resultados globais. A partir desta metodologia foi possível determinar que a origem do grupo pode ser datada entre 130 e 170 milhões de anos confirmando a inferência de idade da radiação micropterigideo japonês encontrado no estudo anterior. Corroborando o estudo, verificou-se que os adultos dessas três famílias primitivas citadas acima (MicropterigidaeAgathiphagidae e Heterobathmiidae) não têm espirotromba, que são encontradas na maioria membros da ordem. Eles têm mandíbulas para mastigação adaptadas para uma dieta especifica desde o estágio de pupa até adulto. Larvas de Micropterigidae alimentam-se de folhas, fungos e hepáticas que é um comportamento muito parecido com o Trichoptera.

Além de diversos estudos usando analises moleculares, estudos anatômicos/morfológicos estabelecem uma relação filogenética clara entre lepidópteros e trichoptera como sugere u, estudo feito por pesquisadores do Museu de História Natural da Dinamarca publicado na Revista Zootaxa as características autapomorficas do grupo são:

Adult (Roman numerals are details in Fig.1): Prelabium fused with hypopharynx (I). Lower posterior corner of laterocervicale produced towards the prosternum (II). Pronotum with paired setose ‘warts’ (III). Prothoracic episterna with unique suture pattern (IV). Secondary furcal arms of pterothorax fused with posterior margins of corresponding epimera (V). Metathorax with setose, presumably proprioceptive, sclerite in wing base membrane behind/below subalare (VI). Pretarsus above claw with ‘pseudempodium’ (strong seta on socket) (VII). Wings with dense vestiture of setae (forerunners of the lepidopteran scales)(VIII). Fore wing anal veins looping up into double-Y formation (IX). One ventral (tentorial) neck muscle originating on fore coxa (X). Conical furcopleural muscle in mesothorax with broad end on pleural ridge (XI). Paired glands opening on sternum V (XII). Male segment IX with tergum and sternum fused into closed ring (XIII). Anterior margin of female segments VIII and IX with long rod-like apodemes accommodating insertions of protractor and retractor muscles of extensible oviscapt (XIV). Note: recent work shows that the interpretation of the female postabdomen in the lowest Amphiesmenoptera is more problematical than hitherto believed, and the apodemes in question may not all be homologous (Kristensen 2003); a particularly intriguing question is whether a three-apophysis-pair configuration (with both dorsal and ventral apophyses originating on VIII) could prove ancestral in Amphiesmenoptera, since three pairs are present in Agathiphaga as well as in the enigmatic recently described caddisfly Fansipangana (Mey 1996). Ventral diaphragm muscles inserting on the nerve cord (XV). Female sex heterogametic (XVI). Chromosome number unusually high (basic number 30–31), chromosomes holocentric and oogenesis achiasmatic (XVII). Spermatozoa with outer accessory filaments thickened, filled with proteinaceous and glycogen-like material (XVIII).Larva: stemmata each with one crystalline cone cell transformed into primary pigment cell, hence in transverse section the cone is seen to be only tripartite. Prelabium and hypopharynx fused into composite lobe with silk gland orifice on apex.

Além desses artigos, muitos outros estabelecem uma origem monofilética para as borboletas e cada uma das suas famílias. Geralmente analises deste tipo usam estruturas morfológicas com dados de fósseis e estruturas moleculares como: genes mitocondriais, Citocromo oxidase I e II (COI e COII) proteínas do tipo EF-1α, genes como o Wing-less, Ultrabitorax, Distal-less, genes nucleares como o RpS5, MDH, GAPDH, CAD e IDH.

Portanto, há muitos artigos que sustentam sim que o grupo dos lepidópteros tem uma origem evolutiva. Segundo, se escamas iridescentes são um argumento para a origem de um designer, há artigos que demonstram a origem evolutiva de tais escamas e mais; nem todas as borboletas têm escamas iridescentes. Será então que aquelas que não possuem iridescência evidenciam a inexistência do designer?

Eis aqui alguns textos que faltaram na coleção de Eberlin:

EVOLUÇÃO DE LEPIDOPTEROS (PARTE I) – FÓSSEIS, MORFOLOGIA E EVIDÊNCIAS MOLECULARES A FAVOR DA MONOFILIA DO GRUPO

EVOLUÇÃO DE LEPIDOPTEROS (PARTE II) – FÓSSEIS, MORFOLOGIA E EVIDÊNCIAS MOLECULARES RELACIONANDO FAMÍLIAS DE LEPIDOPTERA

EVOLUÇÃO DE LEPIDOPTEROS (PARTE III) – COEVOLUÇÃO COM PLANTAS E A ORIGEM/EVOLUÇÃO DA METAMORFOSE SOB A PERSPECTIVA MOLECULAR E DE REGISTROS FÓSSEIS

UMA ÚNICA ORIGEM PARA AS MANCHAS OCELARES DAS BORBOLETAS DA FAMÍLIA NYMPHALIDAE

ONE BUTTERFLY INSPIRES MULTIPLE TECHNOLOGIES

MITOS CRIACIONISTAS SOBRE A EVOLUÇÃO DAS BORBOLETAS

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Referências

Niels p.Kristensen, Malcolm j. Scoble & Ole Karsholt. Lepidoptera phylogeny and systematics: the state of inventorying moth and butterfly diversity. Zootaxa 1668: 699–747 (2007).

Kristensen, N.P. (Ed.). Lepidoptera, Moths and Butterflies. Volume 1: Evolution, Systematics, and Biogeography. Handbuch der Zoologie. Eine Naturgeschichte der Stämme des Tierreiches / Handbook of Zoology. A Natural History of the phyla of the Animal Kingdom. Band / Volume IV Arthropoda: Insecta Teilband / Part 35: 491 pp. Walter de Gruyter, Berlin, New York.

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