MARK ARMITAGE E O OBSCURANTISMO SOBRE A PRESERVAÇÃO DE OSTEÓCITOS.

Triceratops horridus

Triceratops horridus

Em um texto anterior tecemos algumas críticas ao posicionamento do criacionista Mark Armitage na qual foi demitido da Universidade de Estadual da Califórnia com a justificativa de que o autor do artigo estava pregando o criacionismo. De fato, Armitage é assumidamente criacionista, inclusive,  com um mestrado financiado pelo Institute for Creation Research.

Nele, destacamos que tal atitude tomada pela Universidade foi pautada no fato de Armitage publicar um artigo sobre tecidos moles em um Tricerátopo seguindo o procedimento científico correto, porém, dentro da Universidade sua conduta não era científica, ou seja, ele pregava o criacionismo. Seu artigo sobre o Triceratopo de Montana segue a conduta acadêmica embora tenha sido publicado em uma revista de pouco impacto acadêmico. Aparentemente, não há problema algum, exceto o fato dele ter uma conduta criacionista. Entretanto, uma pesquisa um pouco mais refinada no artigo de Armitage revela algo surpreendente, na qual abordaremos aqui.

No primeiro texto, foi destacado que tecidos moles podem sim ser preservados em registro fóssil e que na Universidade não houve caso de descriminação religiosa. Foi apenas uma punição a um professor cuja conduta não condizia com o que se entende por ciência. Um caso de falta de ética profissional. De fato, dentro da biologia temos alguns casos semelhantes a este. Pesquisadores (e pesquisadoras) que trabalham com sistemática e evolução, mas o posicionamento pessoal (portanto, anedótico) é criacionista. Felizmente, esses casos de falta de postura e ética são poucos, embora no Brasil haja alguns.

Sendo assim, anteriormente foram citadas descobertas de tecidos moles, porém, pouco discutiu-se sobre o caso dos tecidos moles especificamente no caso Armitage.  Este será nosso objetivo neste texto.

O trabalho de Armitage consistiu em descrever tecidos ósseos fibrilares encontrados na região supraorbital de um dos cornos de um Triceratops horridus da formação Hell Creek, em Montana, nos EUA. O tecido mole estava presente no osso pré e pós-descalcificado. Foram retiradas amostras da matriz óssea lamelar onde foram encontrados osteócitos. Os osteócitos são células  derivadas dos osteoblastos, elas se diferenciaram e preenchem essa estrutura lamelar compreendendo diversas funções histológicas, como por exemplo, remodelação do esqueleto ou mesmo crescimento ósseo. Armitage notou que alguns osteócitos apresentavam extensões filipodiais e, segundo ele, não havia nenhuma evidência de permineralização ou cristalização. Mas o que isso significa?

Isso quer dizer que o material ósseo conserva proteínas ativas e DNA. Ou seja, ele não foi degradado e nem passou por processo de fossilização. Teoricamente, o material continua ileso, integro, desde a morte do animal.

Osteócitos retirados do trabalho de Armitage

Osteócitos retirados do trabalho de Armitage

Este é um dos poucos e raros casos em que material biológico é preservado. E como todo bom criacionista faz, Armitage caiu no obscurantismo, omitindo detalhes de sua descoberta que eram explicados por artigos que ele mesmo citou.

Mas a ciência tem um mecanismo muito interessante, o de auto-correção, e omissões como esta, ou mentiras duram pouco

Armitage em seu artigo diz que não há explicação de como tal preservação se deu. Entretanto, ao observar as referências utilizadas por ele para criar um corpo teórico de seu trabalho encontramos artigos que explicam satisfatoriamente como tal preservação se dá.

Um dos artigos foi publicado por Cadena e Schweitzer (2012) e descreve variações em osteócitos em uma das três camadas ósseas que compreende a concha de uma tartaruga do Cenozóico e Mesozóico, comparando-as como a de quatro espécies de tartarugas existentes, criando assim uma base morfológica.

O estudo identificou tipos morfológicos diferentes de osteócitos (achatados) no córtex interno e lamelas de osso esponjoso; e osteócitos estrelados presente nas lamelas e interstícios do córtex externo. O estudo não apenas demonstrou que a morfologia dos osteócitos em cada uma das três camadas de osso é conservada através da ontogenia, como mostrou que suas morfologias são filogeneticamente independentes e destaca que a preservação de microestruturas com osteócitos na morfologia dos ossos de tartarugas fósseis do Mesozóico é comum, e ocorre em diversos ambientes diagenéticos, incluindo marinho, água doce, e depósitos terrestres. Esses dados têm potencial para iluminar aspectos da biologia e evolução de tartarugas que anteriormente eram inacessíveis, em especial, determinar o tamanho do genoma de espécies extintas, diferenças em taxas metabólicas em diferentes ossos de um único indivíduo, e a preservação de moléculas antigas dos osteócitos.

O artigo de Armitage cita Cadena e Schweitzer e destaca que os anticorpos para o colágeno aviário exibiu uma afinidade com o colágeno de fósseis de T. rex fósseis que foi degradado pela enzima colagenase. Veja:

In  addition,  antibodies  for  avian  collagen  I  exhibited  na affinity  for  collagen  isolated  from  T.  rex  fossils,  and  this  collagen 608 M.H.  Armitage,  K.L.  Anderson  /  Acta  Histochemica  115 (2013) 603–  608 was  degraded  by  collagenase  (Schweitzer  et  al.,  2007a).  Antibodies with  an  affinity  for  both  avian  and  reptile  proteins  also  had  affinity  for  B.  canadensis  (Schweitzer  et  al.,  2009).  Bern  et  al.  (2009) further  analyzed  the  specimens  used  by  Asara  et  al.  (2007)  and confirmed  the  presence  of  an  avian-like  collagen  with  no  indication  of  microbial  collagen-like  proteins.

Note que Armitage cita dois trabalhos de Schweitzer, valida a teoria da evolução  e o relacionamento filogenético entre aves e dinossauros, e ainda destaca que o trabalho de um pesquisador denominado Asara et al. (2007) que confirmou a presença de colágeno de aves sem qualquer indicação de atividade microbiana, ou seja, sem decomposição.

Outro artigo utilizado por Armitage em seu trabalho é o de Schweitzer, Zhenga, Cleland e Bern (2013) onde os autores citam que normalmente, quando um animal morre, as células são completamente degradadas. Eles destacam que para que haja a preservação na matriz do osso mineralizado, muitos fatores convergem para alterar a dinâmica da morte celular e a degradação, em última análise, é interrompida.

Os autores usaram evidências da espectrometria de massa imunológica para analisar a preservação de proteínas que compõem os osteócitos existentes, especialmente as proteínas actina, tubulina, Phex, histona H4, recuperadas de dois dinossauros não-aviários. Os dados desse grupo foram os primeiros a demonstrar a preservação dessas proteínas e apresentar várias evidências sobre o DNA de dinossauros. Eles destacam que:

For example, necrotic or apoptotic cells are rapidly destroyed by phagocytosis or by microbial attack post-mortem[77], but osteocytes are inaccessible to other live cells[78], which may, in part, explain their preservation in these ancient tissues [41]. Second, osteocytes are inherently resistant to degradation because location within the bone matrix inhibits cell division, therefore cells may be required to last the lifetime of the organism[16]. Osteocyte expression of apoptotic repressor proteins [21] may also contribute to their persistence…… osteocytes have limited access to oxygen within the bone matrix, and may thus be protected from oxidative damage[70]…… The microcrystalline surfaces of apatite may act like clay grains, adsorbing degradative enzymes and inactivating them[79,80], and in addition to limiting access of microbes to osteocytes, the rigid bone matrix may also inhibit denaturation and molecular swelling that precedes autolysis [81,82].

Este trecho acima destaca que em uma situação normal de morte, as células necróticas ou apoptóticas são rapidamente destruídas por fagocitose ou por ataque microbiano post mortem. Mas no caso da preservação, os osteócitos são inacessíveis a outras células vivas, o que pode, em parte, explicar a sua preservação nestes tecidos antigos. Outro fator que auxilia a preservação é que osteócitos são inerentemente resistentes à degradação por localizarem dentro da matriz de osso que inibe a divisão celular, as células, por conseguinte, podem ser as ultimas a morrer. A expressão de proteínas repressoras apoptóticas de osteócitos podem também contribuir para a sua persistência. Osteócitos tem acesso limitado a oxigênio dentro da matriz do osso, e podem, assim, ser protegidos contra danos oxidativos. Superfícies microcristalinas de apatita podem atuar como grãos de argila, adsorvendo e inativando enzimas degradativas, e limitam o acesso de microrganismos ao osteócitos. Além disto, a matriz óssea rígida pode também inibir a desnaturação molecular que precede autólise.

Isso Armitage omitiu em seu artigo, pois são detalhes que estabelecem relacionamento filogenético em diversos grupos biológicos, citados nos diferentes artigos, e que correspondem a um paradigma cientifico que é o exato oposto da pré-concepção religiosa/ideológica pessoal de Armitage.

Vemos, portanto, uma nítida conduta dúbia desse criacionista, o que demonstra, claramente, desonestidade científica. Primeiro Armitage cita trabalhos sobre evolução sem criticá-los; segundo, Armitage usa da nomenclatura evolutiva e de suas conclusões para respaldar seus dados, mesmo que não concorde com a teoria evolutiva, em um claro interesse de simplesmente publicar para depois fazer alarde; e terceiro, esconde dados que explicam o mecanismo de fossilização.

A isto dá-se o nome de obscuranstismo, esconder detalhes que validam uma proposta que é o oposto daquela que o autor tem pré-concebida. O artigo de Armitage demonstra que a presença de tecidos moles é um fenômeno já descrito pela ciência. Os artigos citados por ele trazem uma descrição de relacionamento filogenético a partir de tipos celulares e moléculas e explicam como tal processo de preservação da integridade molecular ocorre.

Adicionalmente, podemos concluir que não há qualquer perseguição a essa ideia, uma vez que os pesquisadores que descobriram o mesmo, antes de Armitage, não foram demitidos de suas respectivas Universidades. Isso porque são verdadeiros cientistas, que ensinam em sala de aula exatamente o que escrevem. São fiéis aos seus pensamentos, éticos em suas profissões e com os seus leitores.

Se alguém ainda duvida que tecidos moles podem resistir ao processo de decomposição, vejam o exemplo que as mumificações nos oferecem. Condições ambientais comuns que favorecem a mumificação são, por exemplo: Salinidade, aridez, alcalinidade ou acidez, frio, etc.

Victor Rossetti e Paulo Corgosinho

Palavras Chave: NetNature, Rossetti, Mark Armitage, Osteocitos, Pseudociencia, Obscurantismo, Criacionismo, Datação, Geologia, Triceratopo.

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Referências

Mark Hollis Armitage, Kevin Lee Anderson. Soft sheets of fibrillar bone from a fossil of the supraorbital horn of the dinosaur Triceratops horridus. Acta Histochemica. Volume 115, Issue 6, July 2013, Pages 603–608

Edwin A. Cadena, Mary H. Schweitzer. Variation in osteocytes morphology vs bone type in turtle shell and their exceptional preservation from the Jurassic to the present. Bone. Volume 51, Issue 3, September 2012, Pages 614–620

Mary Higby Schweitzer, Wenxia Zheng, Timothy P. Cleland, Marshall Bern. Molecular analyses of dinosaur osteocytes support the presence of endogenous molecules. Bone Volume 52, Issue 1, January 2013, Pages 414–423

One thought on “MARK ARMITAGE E O OBSCURANTISMO SOBRE A PRESERVAÇÃO DE OSTEÓCITOS.

  1. Muito bom, temos que deixar de validar a ignorância como diz Lawrence Krauss, e temos que valorizar a ética científica e o bom e “velho” método científico, ou experimental. Só assim a ciência evolui e, consequentemente, nós evoluímos junto à ela.

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