FILOSOFIA – SOBRE ISIS, MALAFAIA E O MULTICULTURALISMO DE SLAVOJ ŽIŽEK.

Geralmente não escrevo textos criticando especificamente grupos religiosos fundamentalistas, tão pouco sobre política. Essa é uma tendência que sigo aqui, jamais propagandear política em um blog de divulgação de ciência. Embora não discuta fundamentalismo religioso, discuto com fundamentalistas religiosos em redes sociais. Minha crítica geralmente se concentra no posicionamento fundamentalista de certos grupos que tentam se impor como sistemas científicos.

Entretanto, esta semana um conjunto de fatores vem se destacando na mídia, o extremismo religioso do grupo terrorista Estado Islâmico (ISIS) e o pronunciamento do pastor Silas Malafaia sobre o assunto, as posições sobre o movimento LGBT dos candidatos a presidência do Brasil e um texto sobre multiculturalismo e estado laico do filósofo Slavoj Žižek. Não citarei qualquer posicionamento político a favor ou contra um partido ou candidato. Apenas a postura de Silas.

Sugere-se então que o vídeo abaixo do pastor Silas Malafaia seja visto

 

No vídeo acima, é apresentado uma crítica ao governo federal por se manifestar contra a “islamofobia”, e Silas Malafaia destaca dados estatísticos demonstrando altos números de mortes de cristãos, cobrando de nosso governo um posicionamento, ou ao menos um pronunciamento contra a “Cristafobia”. A primeira crítica a fazer é que esses dois termos (Islamofobia e Cristofobia) não parecem adequados. Pelo simples fato de que ambas religiões são vistas de forma bastante generalizada como fundamentalistas.

Fundamentalista é a pessoa que tem um posicionamento ultra-conservador e literal de uma religião. Os mais comuns hoje são provenientes das religiões abraamicas. O fundamentalismo pode surgir também de linhas ideológicas. Infelizmente confunde-se o termo “ideólogo” com “fundamentalista”.
O ideólogo é aquele que parte de uma ideia, ou de um ideal que norteia a sua vida. Se a pessoa vai fazer disto um objetivo de vida de tal forma a impor ele sobre outra a vida de outras pessoas, temos um exemplo de fundamentalismo.

Segundo, o cristão é perseguido, mas também é perseguidor. Se você for cristão, é possível ser perseguido por muçulmanos se visitar um país ultra-conservador no Oriente Médio, tal qual, se você for muçulmano, pode ser perseguido caso visite países ultra-conservadores cristãos, especialmente nas Américas.

De fato, depois que o cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano, começou a Idade Média. Isso não foi coincidência. Embora não vivamos mais na Idade das Trevas, ainda temos exemplos de fundamentalistas do cristianismo, seja nos EUA ou mesmo no Brasil.

Mas afinal, o que há de errado com esses grupos? Logo veremos.

O fundamentalismo é o problema, e não a fé cristã, islã, judaica ou de qualquer outra religião. Muitas vezes, não é possível dialogar com o fundamentalista, seja ele muçulmano, ou mesmo, os seguidores do Malafaia.

Fundamentalistas são “linha dura”, criam “Jihads” em nome de Deus em uma teologia deturpada. Da mesma forma com as pessoas confundem a palavra ideologia e fundamentalismo, também não entendem a definição de Jihad.

Não existe uma tradução portuguesa desta palavra, e levianamente as pessoas a definem como “guerra santa”. A Jihad trata primeiro de uma auto-análise para a busca do grau máximo de fé e comunhão com Deus. Só após essa reflexão e esses objetivos alcançados é que ela pode conduzir as pessoas a esses mesmos objetivos.

Mas ao contrário do que afirma Malafaia, o ISIS não é um grupo terrorista que assassina cristãos na Síria e no Iraque. Eles assassinam qualquer pessoa que seja Ocidental: cristãos, europeus, americanos, ateus e até muçulmanos de outras ramificações. Sendo assim, a fala de Malafaia também é ambígua. Em seu vídeo, mostra muitas mortes, inclusive de pessoas que não eram cristãs. (Veja Em nova mensagem, Estado Islâmico pede que ateus sejam mortos)

De fato, o apelo feito ao governo federal, acompanhado do discurso da “cristofobia” e “islamofobia” (ressaltando as chacinas fundamentalistas do ISIS) configuram um ataque político eleitoral para as eleições aqui do Brasil. Isso ficou bem evidente no vídeo, que claramente, pelo discurso, é tendencioso.

Mas o que mais chama a atenção no vídeo é o protesto que ele faz. Para um pastor que é referência para milhares de brasileiros e que representa os ensinamentos de Deus, ele pede por intervenção militar. Isso significa guerra e morte.

Tomar a decisão de invadir um país para matar terroristas é uma atitude que se espera de políticos e membros da ONU e não de um pastor que deveria representar o amor ao próximo, pregado pelo filho de Deus.

Essa guerra contra o ISIS vai acontecer, isso é evidente. Mas um pastor pedindo isso, solicitando o enfrentamento e morte do próximo (por pior que ele seja) não é papel de um líder religioso. Isso tem consequências perigosas, tanto para quem acusa um grupo de ser fundamentalista, quanto para o acusador.

O problema é que Malafaia confunde dialogar com muçulmano e dialogar com terrorista. A islamofobia existe porque grupos terroristas como o ISIS geram esses estereótipos. As pessoas tendem a generalizar todos os muçulmanos de todas as ramificações a partir do radicalismo de um grupo de pessoas assassinas que vivem isoladas em algum deserto do Oriente Médio e que representam muito pouco da cultura do Islamismo.

Esse preconceito existe exatamente por esse tipo de mentalidade, de quem mata sem dó e de quem generaliza. É ai o Malafaia presta um desserviço.

O caso é sim de terrorismo, e isso exige uma intervenção, mas que envolva nações, decisões políticas e não posturas religiosas igualmente impositivas. As pessoas confundem autoridade com autoritarismo. Posso ser autoridade em um assunto, mas não posso, e nem tenho o direito de impor isso sobre o próximo.

É ambíguo um pastor pedindo intervenção militar e guerra, exatamente porque guerra é sinônimo de morte. É ambiguo também criticar um país islamico teocrático propondo um Brasil cristão teocrático apoiando candidaturas de pastores.

O livro sagrado do cristianismo é claro, não faça aliança com o ímpio, o que é da carne é da carne e o que é do espírito é do espírito. O cristão que desceu as águas, que foi batizado, não tem porque temer essa vida mundana, não tem que participar do jogo de poder da política porque sente que a verdadeira mudança vem só com a vinda de Cristo. Sendo assim, essa postura de Malafaia é sim ambígua sob todas as perspectivas possíveis. É a mesma postura do golpe militar da década de 60 que instaurou uma ditadura de direita para nos salvar de uma ditadura comunista.

Este tipo de conflito surge porque as pessoas não lutam por um bem comum, por algo que seja bom para a diversidade cultural de uma sociedade. É o que o filósofo esloveno Slavoj Žižek destaca em um pequeno texto denominado Žižek e o Estado laico

Slavoj Žižek

Slavoj Žižek

Não entrarei em detalhes sobre a análise crítica dele sobre Marx e a esquerda, ou sobre a psicanálise e a antropologia lacaniana na perspectiva da filosofia da ciência. Retratarei a postura de Žižek a favor de um estado laico.

Essa postura não retrata um conflito entre culturas, mas entre diferentes visões de como culturas das mais diversas deveriam co-existir e sem essas práticas, elas de fato, não conseguem co-existir. Essa luta contra o fundamentalismo é uma luta universal, não importa o fundamentalismo, ele faz parte de uma luta só.

Recentemente observei a postura de alguns cristãos criticando (e sofrendo por antecipação) uma pequena e recém surgida comunidade islã no Nordeste do Brasil. Alguns com medo, e repudiando a presença de tais pessoas. O repudio foi justificado alegando que “eles transgridem as regras e não se firmam em Cristo”. O que é axiomático, uma vez que são muçulmanos, e não cristãos.

As pessoas abrem mão de buscar um consenso, um princípio (ou princípios) que garantam a integridade de ambas religiões, e ficam guerreando e acusando entre si.

Entende-se que haja princípios individuais, compartilhados entre grupos (por exemplo, religioso) e princípios que valem para toda a sociedade. Mas muitos grupos não abrem mão de medir forças com o uso da guerra em nome de Deus, em vez de evitar ou ao menos mediar o conflito pelo diálogo. Quando isso não ocorre, o obvio ocorre, guerra.

A culpa é da falta de tolerância e respeito entre os grupos. Quando o confronto ocorre a tendência é que do lado de cá os cristãos comemorem sadicamente as mortes em nome de Deus, e do lado de lá, eles terão mais motivos para matar os de cá em ataques terroristas, em nome do Deus deles. Essa é uma tendência que se perpetua, pois perpetua á raiva, o ódio, essa “Guerra Santa” passa a ser compartilhada por ambos.

O discurso para justificar é sempre o mesmo, é a externalização da culpa; o argumento senil e infantil de “Foi eles que começaram” e se esquecem que o poder de terminar é individual e não coletivo. O maior problema é justamente o interno, a intolerância que existe no individuo que as representa uma religião e a incapacidade de reconhecer que a religião alheia sofre com grupos fundamentalistas e não é em sua totalidade fundamentalista.

É este julgamento prematuro que as pessoas fazem sobre grupos religiosos, baseando-se em minorias que inflam esses conflitos com ódio e conduz ao confronto.

Aparentemente, o único modo de resolver essa questão com o ISIS é realmente a intervenção, talvez até militar, caso contrário, só acabará quando ambos os lados se exterminarem, ou quando abrirem espaço para discutir, o que parece bem improvável.

O certo é ter intervenção após estes conflitos, para que as pessoas não vejam todos os muçulmanos da mesma forma com que vêem um grupo de assassinos com um Corão na mão.

Essa postura deve ser igual ao cristianismo. É preciso perpetuar o respeito, a tolerância e concessão de ambos os lados. Jamais fazer como o pastor Terry Jones que em 2012 queimou um Alcorão e uma representação de Maomé para protestar contra a prisão de um cristão no oriente Médio. Isso gerou ameaças e manifestações de ódio e necessidade de vingança quanto este até imaturo.

A intervenção deve ser sob todos os aspectos, e deve ter como princípio central educar, abrir os olhos para a digressão entre o crente seguidor de uma religião e um fanático assassino. Ainda que na prática essa digressão seja dura e muitas vezes utópica.

Como as pessoas confundem ideologia com fundamentalismo, autoridade com autoritarismo e vingança com justiça. Um povo que não sabe diferenciar isso se torna uma massa de manobra, uma arma na mão de um autoristarista com ideias perigosas. Seja um líder muçulmano jihadista, ou um pastor ativista anti-gay.

Nenhum daqueles assassino do ISIS esta lá porque foi forçado. Eles compartilham a mesma ideia, a de impor sua concepção religiosa à força sobre os outros. Não é preciso de armas para fazer isso.

Silas Malafaia toma uma postura semelhante, e apesar de não atacar fisicamente as pessoas, toma delas a capacidade de auto-crítica e consciência.

Até o momento, ambas religiões tem problemas o suficiente para serem chamadas de hipócritas graças a setores fundamentalistas ou extremistas, de ambos os lados.

A bíblia não apoia o que ocorreu na Idade Média. As pessoas que viveram nesse momento histórico usaram a bíblia para justificar mortes em nome de Deus. Ao que parece, o islamismo sofre a mesma coisa. Tende-se a generalizar, e pouco se fala do fundamentalismo cristão dos EUA, do literalismo absoluto da bíblia e de enfiar o cristianismo dentro da política do país.

A fala de Malafaia cria um caminho ambíguo e perigoso a ser percorrido porque quando voce é cristão e acusa um islã, voce esta incentivando uma visão generalista e errada de uma religião que mal se conhece e presta um desserviço pois é desonesto; ao mesmo tempo, faz propaganda de que a sua religião é também intolerante pois voce julga e condena os outros como se tivesse competência para isso. Cria-se uma visão reducionista em relação a religião alheia e pendura um cartaz no pescoço dizendo “sou intolerante”. A postura critica deve ser bem fundamentada, pois pode criar um contragolpe fatal.

O caso mais comum que trato de posicionamento fundamentalista no cristianismo (e que Malafaia compartilha) é a crença na literalidade de Gêneses, comum no cristianismo e por vezes incentivada a ser vista como cientificamente provada. Este é um posicionamento religioso e não divino. Quem interpreta desta forma o faz segundo uma posição pessoal.

Se a pessoa opta por seguir uma religião, o mínimo que se exige é que ela saiba interpretar o que acredita. Isso implica em dizer que pouco importa se Jesus andou sobre a água, se Adão e Eva realmente existiram, se Maomé conversou com o Jibril, ou se Jonas foi engolido por uma baleia. O que importa é a lição de moral que ela apresenta; o principio que ele esta traz, e como se torna uma norma, uma diretriz, um ideal para voce viver bem, para se relacionar de forma tolerante com a diversidade de ideias, para amar o próximo como a ti mesmo.

Depende de cada um tomar esse princípio como norteador (um ideal) ou como razão para impor-se sobre a liberdade de escolha das pessoas (fundamentalismo).

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Islamismo, Cristianismo, ISIS, Estado Islâmico,  Multiculturalismo, Slavoj Žižek, Fundamentalismo, Eleições, Malafaia

3 thoughts on “FILOSOFIA – SOBRE ISIS, MALAFAIA E O MULTICULTURALISMO DE SLAVOJ ŽIŽEK.

  1. Achei muito interessante a sua análise acerca dos assuntos abordados. Eu até mesmo tinha compartilhado esse vídeo, em função de ser cristão (embora não pertença a mesma denominação do pastor Silas Malafaia) e tinha achado uma crítica válida ao PT e reeleição da Dilma Rousseff, contudo foi esclarecedor o seu texto em relação a alguns pontos, em outros acredito que haja controvérsias.
    Primeiro, você citou algo interessante, e se me permite irei reproduzir aqui:

    “…O discurso para justificar é sempre o mesmo, é a externalização da culpa; o argumento senil e infantil de “Foi eles que começaram” e se esquecem que o poder de terminar é individual e não coletivo.”

    Concordo, mas isso esbarra em outro trecho do texto que diz que o cristão também persegue, e citou o exemplo da Idade Média. Ora, não há justificativa para realizar uma armada contra pessoas que sejam duma ou outra religião, ou mesmo sem religião. Então se cristãos são mortos HOJE por serem cristãos num determinado local, há sim uma intolerância religiosa, mais precisamente uma cristofobia, mas creio que as pessoas também discriminam o islamismo devido ao mau exemplo dos radicais. Isso deve ser tratado com uma orientação e distinção de um e outro (Islamismo e radicais islâmicos) pela educação, mas não há esse verdadeiro genocídio por isso, então acho precipitado colocar tudo isso no mesmo nível.
    Tal reflexão que fiz acima me faz pensar que foi equivocado da sua parte colocar todo o cristianismo como ultra-conservador. Não vou entrar nos méritos da minha própria concepção sobre a doutrina progressista estar certa ou errada perante às Sagradas Escrituras, contudo há várias vertentes cristãs que são progressistas, embora essas sejam menores que “as igrejas gigantes”, como Católica, e do protestantismo cito a Adventista do Sétimo Dia, as neo-pentecostais, assembleias, batista, congregação, etc.

    Bom, no mais gostaria de endossar o que disse sobre a contraditória posição de Malafaia ao pedir intervenção militar contra os radicais.
    Abraço.

  2. Na realidade se está confundindo religião com igreja, que já não se confunde ciência com empresa. Nem religião nem ciência perseguem ou sequer fazem qualquer coisa, as pessoas sim, através das instituições que chamamos de igrejas, governos, empresas, instituições disso ou daquilo etc. Igreja Católica é uma igreja cristã, como centenas ou até milhares de outras. A Shell é uma empesa como milhões de outras que aplicam a ciência.
    Malafia é CEO de sua igreja, como o Papa da Católica, nada mais.
    Quando se misturam as coisas, se misruram alhos com bugalhos.
    arioba

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