RATCLIFF, LENSKY E NETNATURE NA BOCA SUJA DA PSEUDOCIÊNCIA

A imagem abaixo traça um conjunto de afirmações descontextualizadas. É uma afirmação dada por um defensor do criacionismo/DI. Aqui vamos analisa-las segundo os artigos originais e o que foi afirmado no NetNature.

Alegações Pseudocientíficas

Alegações Pseudocientíficas

O primeiro ponto a ser tratado é referente á resistência de antibióticos por bactérias em um artigo de Richard Lensky.

Bom, Lensky é conhecido pelos biólogos evolucionários por seu feito acadêmico insuperável, dispensando apresentações (Veja Parabéns pelos 25 anos do experimento de evolução em longo prazo de Richard Lenski).

Em seu artigo “The cost of antibiotic resistance from the perspective of bacterium” (O custo da resistência a antibióticos pela perspectiva da bactéria) ele trata a questão de eliminar bactérias resistentes a antibiótico pelo custo da resistência (Veja aqui o artigo original).
O que isso significa? Significa que ele investigou se bactérias resistentes a antibióticos, sofrem com o custo durante esse processos de resistência (uma diminuição da capacidade) quando o antibiótico esta ausente.

Se de fato há um custo grande para se tornar resistente, então seria possível criar uma estratégia de controle da propagação dessas bactérias através da suspensão do antibiótico até que os genótipos resistentes baixem sua frequência na população. Estudos sugerem que sim, genótipos resistentes são menos aptos do que seus homólogos sensíveis na ausência de antibióticos e indicam um custo de resistência.

Porém, Lensky faz uma ressalva importante.

Este estudo foi feito inserindo-se um gene de resistência a antibiótico (uma mutação cromossômica) em uma bactéria que não tem uma história evolutiva de associações com esse gene de resistência. Portanto, o custo da resistência pode ser reduzido ou mesmo eliminado pela seleção natural, permitindo que a bactéria se adapte ao gene de resistência.

Isso quer dizer que a seleção atua como filtro de fenótipos. Se o genótipo é alterado para a resistência ou se a resistência pode ser eliminada, a seleção natural faz isto. Sendo assim, as bactérias podem superar o custo de resistência por adaptações (evolução clara e simples) que neutralizam os efeitos colaterais prejudiciais de genes de resistência.

Lensky destaca que várias experiências (in vitro e in vivo) mostram que o custo de resistência a antibióticos pode ser substancialmente reduzido, e eliminado, por mudanças evolucionárias em bactérias durante períodos de tempo bastante curtos. Como consequência, torna-se cada vez mais difícil eliminar genótipos resistentes simplesmente por suspensão do uso de antibióticos.

Lensky ainda destaca que a redução de custos evolutivos é uma manifestação simples e geral da tendência para os organismos se submeterem a adaptação genética por seleção natural. Assim os organismos podem adaptar-se e superar os aspectos negativos de seu ambiente externo.

Trecho original

“In summary, evolutionary cost-reduction is a simple and general manifestation of the tendency for organisms to undergo genetic adaptation by natural selection. Just as organisms may adapt to overcome adverse aspects of their external environment”

Ele ainda cita que “os custos de resistência a antibióticos podem evoluir, e tendem a ser reduzidos ao longo do tempo por seleção natural. Infelizmente, esta tendência significa que ele vai se tornar cada vez mais difícil ao longo do tempo para controlar a propagação de cepas resistentes

Trecho original

“On the other hand, the costs of antibiotic resistance can evolve, and they tend to be reduced over time by natural selection. Unfortunately, this trend implies that it will become more and more difficult over time to control the spread of resistant strains”

E embora a base fisiológica deste efeito ainda não seja totalmente compreendida, este estudo demonstra claramente que o custo da resistência aos antibióticos codificada pelo plasmídeo pode ser reduzidos ou mesmo eliminados por seleção natural. Quando o pACYC184 foi introduzido na bactéria, perdeu-se na ausência de antibióticos, tal como segregantes livres de plasmídeo competitivamente excluíram as células portadoras de plasmídeos.

Trecho original

“Although the physiological basis of this effect is not yet fully understood, this study shows clearly that the cost of plasmid-encoded antibiotic resistance can be reduced or even eliminated by natural selection. When pACYC184 was introduced into the naive bacterium, it was lost in the absence of antibiotic as spontaneous plasmid-free segregants competitively excluded the plasmid-bearing cells.”

Lensky ainda cita outros dados em que exemplos de evolução são claramente constatáveis.

Em um dos exemplos ele cita como mutantes de Salmonella typhimurium resistente a estreptomicina, rifampicina, ou ácido nalidíxico foram avirulentos em ratos, indicando que este agente patogênico sofre um profundo custo da resistência aos antibióticos. As bactérias evoluíram mutações compensatórias que reduziram o custo da resistência e restauraram a sua virulência, mesmo enquanto eles mantiveram a sua resistência aos antibióticos. Sendo assim, o artigo que foi citado, e não descrito pelo autor da falácia (que não leu o artigo de Lensky) esta fora de contexto e esta de pleno acordo com a Teoria da evolução. Reforcando-a categoricamente.

Em outro exemplo, o autor da falácia usa o NetNature e o artigo de RatCliff e Travisano para sustentar sua alegação pseudocientífica. Desta vez  é o assunto é a origem da multicelularidade. O texto do NetNature é o “CIENTISTAS RESOLVEM PEÇA IMPORTANTE NA ORIGEM DA COMPLEXIDADE BIOLÓGICA” na qual destaca um artigo publicado na revista “Nature Communications”, onde pesquisadores descreveram como produziram uma tensão multicelular selecionando e cultivando repetidamente algas que se instalaram rapidamente no fundo dos tubos de ensaio. Após 73 gerações eles descobriram que as algas em um dos tubos tinham formado um tecido multicelular. O artigo é assinado por RatCliff e Travisano “Experimental evolution of an alternating uni- and multicellular life cycle in Chlamydomonas reinhardtii” (Evolução experimental de uma alternação uni-multicelular no ciclo de vida de Chlamydomonas reinhardtii).

Eles descobriram que se dispormos células móveis individuais nesses tubos em novos tubos elas passam a crescer em novos clusters multicelulares. Eles desenvolveram um modelo matemático que explica a vantagem reprodutiva (note que eu vou destacar a palavra reprodução em itálico para deixar mais claro o foco do artigo) desta estratégia unicelular sobre alternativas hipotéticas em que o grupo iria produzir propágulos maiores. O modelo previu que a reprodução de células individuais seria mais bem sucedida no longo prazo. Mesmo que células individuais sejam menos propensas a sobreviver do que propágulos maiores, ou seja, essa desvantagem é mais do que compensada pelo seu número.

ratcliff

(a) Uma C. reinhardtii multicelular à esquerda se acomoda mais rápido do que uma população unicelular na qual. Ela forma um sedimento após 20 min de repouso. (b) As células são mantidas no lugar por uma matriz extracelular transparente, indicado pelas setas. (c) propágulos moveis liberados de agrupamentos multicelulares (microscopia de contraste de fase); (d) a forma ancestral unicelular em crescimento. Note-se que c e d são fenotipicamente idênticas. (e) formação de cluster de uma única célula. As células formam aglomerados depois da reprodução mitótica(note, mitose e não meiose), e não á agregação de células não relacionadas. Todas as barras pretas das imagens tem 25 mm.

O autor não esta dizendo que organismos unicelulares são mais vantajosos, ou que a complexidade é anti-evolutiva. Ele esta dizendo que a reprodução desses organismos multicelulares é dada por frações unicelulares. Ele esta dizendo que apesar de liberarem uma infinidade de células isso é mais vantajoso a longo prazo. Razão pela qual a reprodução de seres multicelulares mais complexos é feita ainda por células (gametas, espermatozoide e óvulo) e não por propágulos. Se observarmos a imagem do texto postado no NetNature (um espermatozoide fecundando um óvulo) isto fica bem claro, ainda que uma ressalva deva ser feita; o trabalho de RatCliff é baseado em uma reprodução assexuada de algas.

Obviamente que RatCliff e Trevisano não estão falando sobre a origem da reprodução sexuada, isso fica claro desde o início. O título do artigo é auto-explicativo.

Ele simplesmente destaca como os organismos multicelulares simples poderiam se reproduzir com propágulos unicelulares, e como isso seria vantajoso evolutivamente. De fato, a reprodução de seres multicelulares simples a partir de propágulos unicelulares seria mais vantajosa já que o custo de produção seria menor e a benefício seria maior diante da quantidade de células liberadas e evolutivamente programadas a se dividirem e permanecerem unidas.

No artigo original de RatCliff e Trevisano eles usaram Chlamydomonas para seu experimento. Eles sujeitaram a alga a condições que favoreciam a multicelularidade, resultando na evolução de um ciclo de vida multicelular com reprodução através de propágulos unicelulares móveis. E enquanto um gargalo genético de uma única célula durante a ontogenia é amplamente considerada como uma adaptação para limitar conflito entre células, sua aparência precoce nessa transição sugere que ele não evoluiu para esta finalidade. Em vez disso, parece que propágulos unicelulares são adaptáveis, mesmo na ausência de conflito intercelular, maximizando a fecundidade. Estes resultados demonstram que o gargalo unicelular, uma característica essencial para a evolução de complexidade multicelular, pode surgir rapidamente através de co-opção de a forma unicelular ancestral. Então o autor da falácia descontextualizou a afirmação. O trabalho de RatCliff NÃO diz que quanto maior a complexidade menor a aptidão. Ele NÃO diz que seres complexos são antagônicos a evolução. Ele afirma que a melhor estratégia reprodutiva dos primeiros seres multicelulares era através de propágulos unicelulares.

Sugerimos aos que querem discutir o assunto que leiam os artigos e não somente os abstracts, ou que não tirem conclusões que não estão nos artigos. Tal alegação é considerada desonestidade intelectual. Para os que se interessam no assunto da origem da multicelularidade sugiro dois textos bastante interessantes de um amigo meu; Evolução da multicelularidade em laboratório I e Evolução da multicelularidade em laboratório II

Victor Rossetti

Palavras Chave: NetNature, Rossetti, Pseudociência, Criacionismo, Richard Lensky, William Ratcliff, Michael Travisano, Multcelularidade, Resistência, Antibiótico

4 thoughts on “RATCLIFF, LENSKY E NETNATURE NA BOCA SUJA DA PSEUDOCIÊNCIA

  1. Eles desenvolveram um modelo matemático que explica a vantagem reprodutiva desta estratégia unicelular sobre alternativas hipotéticas em que o grupo iria produzir propágulos maiores. O modelo previu que a reprodução de células individuais seria mais bem sucedida no longo prazo. Mesmo que células individuais sejam menos propensas a sobreviver do que propágulos maiores, ou seja, essa desvantagem é mais do que compensada pelo seu número.
    https://netnature.wordpress.com/2013/11/28/cientistas-resolvem-peca-importante-na-origem-da-complexidade-biologica/

    • Leia o texto acima que nele ha os detalhes deste estudo. li o artigo, as vantagens referem-se a reprodução. Uma reprodução que ocorre por mecanismos unicelulares é mais vantajosa que por propágulos. Não tem anda a ver com a ideia de que multicelulares são mais complexos mas houve um favorecimento a unicelulares. A complexidade de multicelulares foi selecionada, estão aqui vivemos, mas nossa reprodução ainda continua sendo por meio unicelular (gametas) porque é mais vantajoso este tipo de reprodução, por motivos energeticos, quantitativos e qualitativos.
      Esta é a proposta do artigo, qualquer coisa além disto e falso argumento. Seus argumentos postados no face não condizem com o do artigo original!!

      Obrigado pela sua participação!!!

  2. Trecho original

    “On the other hand, the costs of antibiotic resistance can evolve, and they tend to be reduced over time by natural selection. Unfortunately, this trend implies that it will become more and more difficult over time to control the spread of resistant strains”

    Não é real:
    O fato do Acinetobacter sp ser um germe resistente e um colonizante da pele, os
    estudos têm demonstrado que esta colonização pode permanecer por muitos meses mesmo após o tratamento da infecção. Culturas de materiais clínicos e swabs de pele podem aparecer como negativos após o tratamento, porém os pacientes com severas doenças de base, com dispositivos invasivos e em uso de antimicrobianos dificilmente se descolonizam mantendo-se portadores assintomáticos em risco de desenvolver nova infecção pelo mesmo germe e de transmitir para outros indivíduos. Assim, as medidas de bloqueio devem permanecer durante toda a internação hospitalar. Em caso de reinternação em período superior a 6 a 12 meses, e o paciente permanecendo sem fatores de risco para colonização e sem internação em instituição de saúde, pode-se realizar culturas de vigilância para verificar status de colonizado. Se negativo, considerar paciente descolonizado e suspender as medidas.

    http://www.saude.rs.gov.br/upload/20120521095513manual_de_controle_da_disseminacao_do_acinectobacter.pdf

    Atualmente questiona-se muito sobre as medidas que devem
    ser seguidas após a alta do paciente e poucas referências específicas
    do assunto são encontradas, visto que a colonização pode persistir
    por semanas ou meses.
    Acredita-se que os indivíduos sadios em contato com paciente
    colonizado com GMR, sem dispositivos invasivos e em ambiente
    extra-hospitalar, tenham sistema imunológico capaz de combater
    esse microrganismo.

    jic.abih.net.br/index.php/jic/article/download/58/pdf

    Na realidade as bactérias multirresistentes são absorvidos pelo entorno. Essa é a realidade e Lensky não tem experiência clínica…

    • “os pacientes com severas doenças de base, com dispositivos invasivos e em uso de antimicrobianos dificilmente se descolonizam mantendo-se portadores assintomáticos em risco de desenvolver nova infecção pelo mesmo germe e de transmitir para outros indivíduos.”

      Ora, esta de acordo com Lensky a respeito da resistência “Unfortunately, this trend implies that it will become more and
      more difficult over time to control the spread of resistant strains”. Ou seja, esta tendência significa que ele vai se tornar mais e mais difícil ao longo do tempo para controlar a propagação de estirpes resistentes.

      Isso quer dizer que o resultado é a resistência, mas com redução de custo para o microrganismo…lensky afirma que “os custos de resistência a antibióticos pode evoluir, e eles tendem a ser reduzidos ao longo do tempo pela seleção natural”.

      Obrigado por concordar com Lensky!!!

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