O ENTERRO PREMATURO DE DARWIN – Por Stephen Jay Gould

Abadia de Westminster

Abadia de Westminster. Onde Darwin e Isaac Newton estão enterrados lado a lado

Por Stephen Jay Gould

Numa das muitas versões cinematográficas de A Christmas Carol (Um Cântico de Natal), Ebenezer Scrooge encontra, no topo da escada um distinto cavalheiro que está subindo para visitar um amigo doente, seu parceiro Jacob Marley.”O senhor é médico?, pergunta Scrooge. “Não, responde o homem,, “sou o agente funerário; há muita competição no nosso negócio”. O implacável mundo dos intelectuais deve ter um segundo lugar apertado, e poucas notícias atraem mais atenção do que a proclamação de que certas ideias populares estão morrendo. A teoria de Darwin sobre seleção natural sempre foi uma forte candidata ao enterro. Tom Bethell organizou o mais recente velório num artigo chamado “Darwin’s mistake” (O Erro de Darwin), publicado em 1976 (Harper’s): “A teoria de Darwin, acredito eu, está a beira de um colapso… A seleção natural abandonada, mesmo por seus partidários mais fervorosos, alguns anos atrás”. Isso é novidade para mim, ainda que, mesmo usando distintivo darwinista, não esteja entre os mais ardentes defensores da seleção natural. Faz-me lembrar a famosa resposta de Mark Twains a um obituário prematuro: “As noticias de minha morte são muito exageradas”.

Os argumentos de Bethell tem uma nota curiosa para a maioria dos cientistas praticantes. Estamos sempre prontos a ver uma teoria cair sob o impacto de novos dados, mas ninguém espera o colapso de uma vasta e influente teoria por causa de um erro lógico em sua formulação. Praticamente todo cientista empírico tem um quê de filisteu. A tendência dos cientistas é ignorar a filosofia acadêmica como sendo uma busca vazia. É claro que toda pessoa inteligente pode pensar corretamente por intuição. Ainda assim, Bethell, ao selar o caixão da seleção natural, não dá um dado sequer, apenas um erro de raciocínio de Darwin: “Darwin cometeu um erro suficientemente sério para abalar sua teoria. E esse erro só recentemente foi reconhecido como tal… A certa altura de sua argumentação, Darwin se enganou”.

Embora vá tentar refutar Bethell, também deploro a falta de vontade dos cientistas de explorar com seriedade a estrutura lógica de seus argumentos. Muito daquilo que passa como sendo teoria evolucionista é realmente tão vazio quanto Bethell pretende. Muitas teorias importantes se mantém de pé por uma séria de metáforas e analogias dúbias. Bethell identificou, com correção, as teorias sem valor que circundam as ideias evolucionistas. Diferimos, porém, num ponto fundamental. Para Bethell, a teoria de Darwin está podre até a raiz; para mim existe nela uma pérola de valor inestimável.

Stephen Jay Gould (Nova Iorque, 10 de Setembro de 1941 — Nova Iorque, 20 de Maio de 2002) foi um paleontólogo e biólogo evolucionista dos Estados Unidos. Foi também um autor importante no que diz respeito à história da ciência. É reconhecido como o mais lido e conhecido divulgador científico da sua geração.

Stephen Jay Gould (Nova Iorque, 10 de Setembro de 1941 — Nova Iorque, 20 de Maio de 2002) foi um paleontólogo e biólogo evolucionista dos Estados Unidos. Foi também um autor importante no que diz respeito à história da ciência. É reconhecido como o mais lido e conhecido divulgador científico da sua geração.

A seleção natural é o conceito central da teoria darwinista – os mais aptos sobrevivem e disseminam seus traços favorecidos pelas populações. A seleção natural se define pela frase de Spencer “sobrevivência dos mais aptos”. Mas , qual é o significado exato desse famoso jargão? Quem são os mais aptos? Qual a definição de aptidão? Frequentemente ouvimos dizer que a aptidão não envolve senão “sucesso reprodutível diferencial” – a produção de um número superior de filhos que sobreviva aos das outras espécies competidoras da mesma população. Ora! grita Bethell, como fizeram muitos outros antes dele. Essa formulação define aptidão apenas em termos de sobrevivência. A frase crucial da seleção natural significa tão-somente “a sobrevivência daqueles que sobrevivem” – uma tautologia vazia. (Uma tautologia é uma frase como, por exemplo, “meu pai é um homem” – cujo predicado [homem] não contém nenhuma outra informação que já não esteja implícita no sujeito [meu pai]). As tautologias são ótimas como definições, mas não como afirmações científicas comprováveis – não há nada a ser comprovado numa afirmação verdadeira por definição.

Mas como pode Darwin ter cometido um erro tão monumental? Mesmo seus críticos mais acerbos jamais o acusaram de estupidez. Obviamente, Darwin deve ter tentado definir aptidão de maneira diferente – achar um critério para a ideia de aptidão independente de mera sobrevivência. Na verdade, Darwin propôs um critério independente , mas Bethell argumenta, de modo correto, que ele se baseou numa analogia para estabelecê-lo, uma estratégia perigosa e escorregadia. Seria de se pensar que o primeiro capítulo de um livro tão revolucionário que o The Origin of Species abordasse questões cósmicas e considerações gerais. Isso não acontece. Darwin discorre pombos. Dedica a maior parte de suas quarenta páginas á “seleção artificial” de certos traços preferidos pelos criadores. Aqui opera um critério independente. O criador de pombos sabe o que quer. Os mais aptos não são definidos pela sobrevivência. Na verdade, deixa-se que sobrevivam porque possuem características desejadas.

O princípio da seleção natural depende da qualidade da analogia feita com a seleção artificial. Como o criador de pombos, precisamos identificar os mais aptos de antemão, não apenas por sua sobrevivência subsequente. Entretanto a natureza não é um criador de animais; Não há um objetivo preordenado que regule a história da vida. Na natureza, quaisquer características possuídas pelos sobreviventes devem ser consideradas como “mais evoluídas”; na seleção artificial, os traços “superiores” são definidos antes mesmo que a procriação comece. Os teóricos evolucionistas posteriores, argumenta Bethell, reconheceram o fracasso da analogia de Darwin e redefiniram aptidão simplesmente como sobrevivência. Só que eles não perceberam que ao fazê-lo haviam solapado a estrutura lógica do postulado central de Darwin, A natureza não fornece nenhum critério independente para aptidão. Portanto, a seleção natural, é tautológica.

Bethell passa, então, para dois importantes corolários de seu argumento principal. Primeiro, se aptidão significa sobrevivência, como pode a seleção natural ser uma força “criativa”, como queria Darwin? A seleção natural só nos diz que “um dado tipo de animal se tornou mais numeroso”, não explica como “um tipo de animal transformou-se, gradualmente, em outro”. Em segundo lugar, como podiam Darwin e outros eminentes vitorianos, ter certeza que a natureza, irracional, podia ser comparada a uma seleção consciente de criadores? Bethell argumenta que o clima cultural de um capitalismo industrial triunfante acabou por definir qualquer mudança como inerentemente progressiva. A merda sobrevivência, só poderia mudar para melhor: “Está parecendo, que a descoberta de Darwin não é nada mais que a propensão vitoriana de acreditar no progresso”.

Acredito que Darwin estava certo e que Bethell, e seus colegas estão enganados: o critério do mais apto, independente da sobrevivência, pode ser aplicado a natureza e tem sido usado consistentemente pelos partidários da teoria evolucionista. Mas, antes, é preciso admitir que as críticas de Bethell procedem no que diz respeito a grande parte da literatura técnica sobre teoria evolucionista, principalmente aos tratamentos matemáticos abstratos que consideram a evolução apenas uma alteração numérica e não uma mudança qualitativa. Esses estudos avaliam os mais aptos apenas em termos de sobrevivência diferencial. Que mais se pode fazer com modelos abstratos que determinam os sucessos relativos dos genes hipotéticos A e B em populações que existem apenas num disco de memória de computador? A natureza, porém, não é limitada pelos cálculos dos geneticistas teóricos. Nela, a “superioridade” de A será expressa em termos de sobrevivência diferencial, mas não definida por ela – ou pelo menos, e melhor que não o seja, caso Bethell et al. Triunfem e Darwin se renda.

Minha defesa de Darwin não é nem surpreendente, nem nova, nem profunda. Afirmo simplesmente que Darwin teve motivos para fazer uma analogia entre seleção natural e criação de animais. Na seleção artificial, a vontade do criador representa uma “mudança de meio ambiente” para a população. Nesse novo meio ambiente, certos traços são superiores a priori (eles sobrevivem e difundem-se pela escolha do criador, mais isso é resultado de sua aptidão, mas não uma definição dela). Na natureza, a evolução darwiniana também é uma resposta a meios ambientes cambiantes. Agora a questão-chave é: certos traços morfológicos, fisiológicos e comportamentais são superiores a priori, são designs para a vida no novo ambiente. Tais traços conferem aptidão por um critério de bom design de engenharia, e não pelo fato empírico da sobrevivência e procriação. O esfriamento da temperatura procedeu o fato de o mamute desenvolver sua pelagem felpuda.

Porque essa questão agita tanto os evolucionistas? Darwin estava certo: um design superior num meio ambiente mudado é um critério independente de aptidão. E daí? Será que algum dia alguém chegou a propor que os mal projetados triunfariam? Na verdade, muita gente o fez. No tempo de Darwin, muitas teorias evolucionistas rivais afirmavam que os mais aptos (mais bem projetados) pereceriam. Um conceito muito popular – a teoria dos ciclos da vida racial – era defendido por um ocupante anterior ao cargo que ocupo agora, o grande paleontologista norte-americano Alpheus Hyatt. Hyatt dizia que as linhagens evolutivas, como os indivíduos, têm ciclos de maturidade, velhice, e morte (extinção). O declínio e a extinção estão programados na história das espécies. Quando a maturidade cede lugar à velhice, os indivíduos mais bem projetados morrem, e os senis e debilitados tomam conta. Outra noção antidarwiniana – a teoria da ortogênese – sustentava que certas características, uma vez implantadas, não podiam ser evitadas, mesmo que levassem fatalmente à extinção provocada por design deficiente. Muitos evolucionistas do século 19 (talvez a maioria) diziam que os alces irlandeses extinguiram-se porque não puderam evitar o aumento de seus chifres; assim, morreram enganchados nas árvores ou atolados na lama. Da mesma forma, o desaparecimento do tigre dente de sabre foi atribuído a um crescimento tão desmedido de seus dentes caninos que os pobres felinos não podiam mais abrir suas mandíbulas o suficiente para usá-las.

Portanto, não é verdade, como diz Bethell, que quaisquer características possuídas pelos sobreviventes precisam, necessariamente, ser qualificadas como mais aptas. “Sobrevivência dos mais aptos” não é uma tautologia. Também não é a única leitura imaginável ou razoável dos registros evolucionistas. É testável. Teve adversários que sucumbiram ao peso das provas em contrário e da mudança de atitudes em relação à natureza da vida. Tem rivais que se saíram bem, pelo menos ao limitar seu grau de abrangência.

Se eu estiver certo, como pode Bethell dizer “Darwin, acredito eu, está sendo posto de lado, mas, talvez em respeito ao venerado cavalheiro, confortavelmente instalado na abadia de Westminster, ao lado de Sir Isaac Newton, o processo se desenvolve com a máxima discrição e delicadeza e o mínimo de publicidade”. Receio ter de dizer que Bethell não foi justo na sua afirmação quanto à opinião predominante. Ele cita os enfadonhos C. H. Waddington e H. J. Muller como se fossem porta-vozes do consenso. Não menciona uma vez sequer os mais importantes selecionistas da geração atual – E. O. Wilson ou D. Janzen, por exemplo. E cita os arquitetos do neodarwinismo – Dobzhansky, Simpson, Mayr e J.Huxley – apenas para ridicularizar-lhes as metáforas sobre a “criatividade” da seleção natural. (Com isso não estou dizendo que o darwinismo cultuado por ainda ser popular: mas também acredito que um consenso sem atividade crítica é sinal certo de problemas iminentes. Estou apenas contando que, para o bem ou o mal, o darwinismo está vivo e passa bem, apesar do obituário de Bethell).

Mas porque a seleção natural foi comparada a um compositor, por Dobzhansky, um poeta, por Simpson, a um escultor, por Mayr, e, de todas as criaturas, a Shakespeare, por Julian Huxley? Não tentarei defender a escolha de metáforas, mas manterei minha intenção, ou seja, ilustrar a essência do darwinismo – a criatividade da seleção natural. A seleção natural é enfocada por todas as teorias antidarwinistas. Desempenha um papel negativo, de verdugo dos não-aptos (enquanto os mais aptos surgem por mecanismos não-darwinianos, tais como a herança de caracteres adquiridos ou a indução direta de variações favoráveis no meio ambiente). A essência do darwinismo reside na afirmação de que a seleção natural cria os mais aptos. A variação é ubíqua e casual. Fornece apenas a matéria-prima. A seleção natural dirige o curso da mudança evolutiva. Preserva as variantes favoráveis e forma gradualmente os mais aptos. Na verdade, já que os artistas modelam suas criações com a matéria-prima das notas, palavras e pedras, as metáforas não me parecem tão inadequadas assim. Como Bethell não aceita um critério de aptidão independente da simples sobrevivência, seria difícil que concedesse um papel criativo à seleção natural.

Segundo Bethell, o conceito de Darwin sobre a seleção natural como força criativa não é senão uma ilusão, encorajada pelo clima sociopolítico de sua época. No auge do otimismo vitoriano da Grã-Bretanha imperial, a mudança precisa ser inerentemente progressista; por que não equacionar a sobrevivência na natureza com uma aptidão crescente, no sentido não-tautológico de um design aperfeiçoado?

Sou firme partidário do argumento que diz que a “verdade” pregada por um cientista frequentemente acaba não sendo nada além de um preconceito inspirado pelas crenças sociopolíticas dominantes em sua época. Já escrevi vários ensaios sobre o assunto porque acho que ajudam a desmistificar a prática da ciência, mostrando que é semelhante a todas as atividades humanas criativas. Entretanto, a verdade do argumento não significa sua aplicação a casos específicos. Ara mim, Bethell está mal informado quando o aplica a Darwin.

Charles Darwin fez duas coisas bem distintas: convenceu o mundo científico de que a evolução ocorrerá, e propôs a teoria da seleção natural como mecanismo. Estou disposto a admitir que o equacionamento que se fazia então entre evolução e o progresso tornou a primeira proposição de Darwin mais aceitável para seus contemporâneos. Entretanto, ele falhou em sua segunda proposta. A teoria da seleção natural não triunfou até por volta de 1940. Sua falta de popularidade na época vitoriana, acho eu, deve-se principalmente a negação da existência de um progresso em geral inerente ao funcionamento da evolução. A seleção natural é uma teoria de adaptação local a meios cambiantes. Não propõe princípios aperfeiçoantes, não garante melhoria geral, em suma, não fornece motivos para sua aprovação geral num clima político que favoreceria a ideia do progresso como inato à natureza.

O critério independente de aptidão de Darwin é, na verdade, um “design aperfeiçoado”, mas não aperfeiçoado no sentido cósmico, de ser favorecido pelo então império britânico. Para Darwin, aperfeiçoado significava apenas “melhor projetado para um meio ambiente imediato e local”. O meio ambiente local muda constantemente: fica mais frio, mais quente, mais seco, com vegetação mais densa ou mais rala. Evolução através da seleção natural nada mais é que o rastreamento desses meios ambientes cambiantes, pela preservação diferencial de organismos melhor projetados para neles viverem; o pelo do mamute não é progressivo em sentido cósmico. A seleção natural pode produzir certas tendências que nos levam a pensar em progresso num sentido mais geral – o aumento do tamanho do cérebro caracteriza a evolução de grupo após grupo de mamíferos. Cérebros grandes, porém, têm sua utilidade em meios ambientes locais; não caracterizam tendências intrínsecas a estados mais elevados. Aliás, Darwin adorava mostrar que a adaptação local frequentemente produzia degenerescência do design – simplificações anatômicas em parasitas, por exemplo.

Se a seleção natural não é uma doutrina de progresso, sua popularidade não reflete, como quer Bethell, a política da época. Se a teoria da seleção natural contém um critério independente de aptidão, então, não é tautológica. Sustento, quem sabe ingenuamente, que sua popularidade, ainda vigente, deve ter algo a ver com o sucesso com que conseguiu transmitir as informações, imperfeitas admito, que temos hoje sobre evolução. Suspeito que ainda ouviremos falar em Charles Darwin por muito tempo.

Referência

Gould, S. J. Darwin e os Grandes Enigma da Vida – O enterro Prematuro de Darwin. Editora Martins Fontes – 1999. Capítulo 4 página 31.

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