O JOGO SUJO CRIACIONISTA – O QUE DISSE HENRY GEE, EDITOR SÊNIOR DA REVISTA “NATURE”, E O QUE ELE NÃO DISSE SOBRE A EVOLUÇÃO.

Tudo começou quando me pediram para analisar uma frase que foi atribuída ao editor da Revista Nature, Henry Gee. Frase postada em um site anti-ciência de cunho religioso. Meu alarme cético ligou rapidamente. Confesso que ao ver a frase pensei ser apenas mais uma “teoria de conspiração evolucionista” para esconder a verdade bíblica, clichê usado por criacionistas. Até me antecipei em críticas, acreditando que a frase não pertencia a Gee.

Henry Gee, paleontólogo e editor sênior da revista Nature

Henry Gee, paleontólogo e editor sênior da revista Nature

Com a ajuda de dois grandes amigos da ciência, Fabio Machado, mestre em paleontologia pela USP, e a física Lígia Amorese, vimos que de fato a frase tinha procedência em relação ao autor.

O que não tinha procedência era o contexto na qual ela foi colocada por proponentes criacionistas, e as falácias propostas em tantos outros sites a respeito de comentários feitos por Henry Gee.

Notei que tais situações valiam uma retrucada ao nível, e portanto, “here we go again”.

A frase em questão é do livro In Search of Deep Time—Beyond the Fossil Record to a New History of Life, de Henry Gee (1999, p. 23).

“To take a line of fossils and claim that they represent a lineage is not a scientific hypothesis that can be tested, but an assertion that carries the same validity as a bedtime story – amusing, perhaps even instructive, but not scientific”.

 

“Fazer uma fila de fósseis e afirmar que eles representam uma linhagem não é uma hipótese científica que possa ser testada, mas, sim, uma afirmação que tem a mesma validade de uma história para fazer uma criança dormir agradável, talvez até mesmo instrutiva, mas não científica”.

Mas de longe ela nega a evolução ou rejeita os fósseis. Para entender o que Gee quis dizer aqui, precisamos entender dois conceitos básicos de evolução; a anagênese e a cladogênese.

A anagênese é a evolução “progressiva” de espécies que abrange uma mudança na frequência genética de uma população, em oposição a um evento de ramificação da vida em forma de árvore, que é chamado de cladogênese (cladística).

Quando um número suficiente de mutações se fixa em dada população de forma que ocorram mudanças significativas em relação à população ancestral, uma nova espécie pode ser designada. Portanto, a população vai se modificando gradativamente, em função de consecutivas mudanças nas condições ambientais, o que resulta em uma população tão diferente da original que pode ser considerada uma nova espécie.

A frase de Gee é uma crítica ao modelo anagênico de evolução, e não um atestado de rejeição absoluta da Teoria da evolução. Note que ele trata especificamente à anagênese quando cita “To take a line of fossils and claim that they represent a lineage is not a scientific hypothesis”.

O modelo mais utilizado na evolução é o cladístico. A polêmica sobre o assunto começou quando no final da década de 70 (começo de 80), no Museu de História Natural, em Londres quando o paleontólogo Lambert Beverley Halstead montou uma série de ataques ao uso da cladística como modelo evolutivo. Ele acabou equiparando o modelo a uma espécies de defesa a saltos evolutivos em vez de mudança gradual e vinculou isso com uma acusação que o museu queria introduzir um “elemento marxista no sistema educacional britânico”.

Esta controvérsia desencadeou uma enorme quantidade de correspondências a imprensa e para a Revista Nature. O público em geral ficou com a impressão de que os cientistas do Museu de História Natural duvidavam da veracidade da evolução.

Henry Gee, que é paleontólogo e editor sênior da revista Nature, foi testemunha desse tumulto porque estava trabalhando no museu como estudante na década de 1970, e chegou a conhecer os principais protagonistas do drama. Até hoje, ele continua convencido de que a ciência da cladística é uma ferramenta intelectual vital para a nossa compreensão da evolução e do que ele chamou de “tempo profundo”, título de seu livro (Campbell, 2001).

Ele cunhou este termo na intenção de distingui-lo do tempo histórico comum, na qual vê como sendo qualitativa e quantitativamente diferente. Em livro, o principal argumento é que a abordagem a árvore genealógica para a paleontologia, em que os fósseis são dispostos em uma sequência de desenvolvimento que se propõe a contar uma história sobre como a evolução ocorreu, não é científico.

Fósseis são o que são e como são de tal forma que eles não vêm com uma marca de pedigree, e é impossível dizer absolutamente quem são os ancestrais de quem. Mesmo que saibamos que fóssil A é mais velho do que fósseis B, porque vem de uma camada estratigráfica mais profunda, isso não nega a possibilidade de que a espécie B foi ancestral da espécie A (Campbell, 2001).

Em alternativa, poderia não ter ascendência alguma neles; os dois organismos podem simplesmente ter sido “primos” evolutivos, já que de fato, todos os organismos no planeta são, em última instância, relacionados entre si. E isso é constatado empiricamente ao obter espécies e variedades novas em laboratório usando seleção artificial ou notar o claro relacionamento entre duas espécies ao observarmos as evidências genéticas, comportamentais, cariotípicas e assim por diante. Mas para Gee, os pedidos de desenvolvimento sequências fósseis não são testáveis e dependem em última instância, da autoridade da pessoa que faz a alegação. Para Gee, isto não é científico. Essa é a sua visão, e não significa que a evolução não contemple o método científico. Sua crítica se faz sobre a anagênese.

Em outro ponto sobre a paleontologia, Gee afirma que as suposições injustificadas são muitas vezes feitas sobre o comportamento com base em modelos modernos, e estes podem ser inválidos. Por exemplo, a preguiça gigantes (Megatherium, dentre outros gêneros), que viveu na América do Sul, tinha garras que se parecem com armas, mas pequenos dentes fracos.

Algumas preguiças eram maiores que elefantes. Por analogia com as preguiças modernas, as preguiças gigantes são geralmente consideradas como vegetarianas, mas também tem sido sugerido que eles podem ter sido carnívoras, com suas presas provavelmente sendo do tamanho próximo a de alguns gliptodontes. O quadro proposto é que a preguiça derrubava o tatu sobre suas costas e abria-o com golpes de suas garras afiadas. O que Gee destaca é que nós simplesmente não sabemos como esses animais extintos ganhavam a vida e é impossível decidir a questão vendo os seus fósseis (Campbell, 2001). Comportamentos não se fossilizam, e algumas evidências que sugerem certos tipos de comportamentos são inferências humanas. Vemos pegadas fosseis de Tyranossauros na periferia de bandos e pegadas de filhotes no centro (McCrea et al, 2014). Inferimos um comportamento social, mas é só uma inferência com base em uma evidência.

A abordagem cladística para o estudo dos fósseis (e de fato para muitos outros assuntos, tais como as relações históricas entre línguas) é, para Gee, a melhor forma científica de se analisar os fósseis. Para ele, esta sim é uma abordagem científica.

Para a cladística, o que importa é o grau de semelhança, sem pressupostos sobre ascendência ser implícita. A ideia é compilar listas de características e olhar para os dados utilizando um procedimento rigoroso; os dados são então testados para ver relacionamentos ou e eliminar a chance deles terem ocorrido ao acaso. O processo é bastante técnico e difícil de realizar na prática, mas o princípio é fácil de entender, na qual o Gee usou em seus próprios gatos como exemplos (e exemplificou que a 32 gerações atrás seus gatos ainda eram gatos).

O que Gee diz sobre a evolução é muito familiar para a maioria dos leitores de livros de ciência popular, ele não introduzir novas idéias ou formas, mas um modo diferente de olhar as coisas. De fato, ele estabelece uma correspondência interessante entre a tabela periódica dos elementos químicos e filogenias, afirmando que sabemos, ou acreditamos que sabemos, que os elementos desta tabela foram construídos em seqüência após o Big Bang, começando com hidrogênio e seguindo linearmente até o último elemento conhecido (Campbell, 2001). Essa concepção de linearidade vemos na evolução, e muitas vezes estampada em camisetas e slogans sobre evolução humana; um sistema linear, unicamente anagênico e progressista.

Errado: Concepção linear da evolução humana. Note a linha de fósseis na filogenia e os indivíduos que formam  uma fila em direção a espécie humana.

Errado: Concepção linear da evolução humana. Note a linha de fósseis na filogenia e os indivíduos que formam uma fila em direção a espécie humana.

Há sim bastante sentido no que a tabela periódica representa, e de forma muito próxima a árvore genealógica. Embora as pessoas entendam esses modelos de forma errada.

A biologia evolutiva e a polícia científica trabalham de forma muito semelhante, coletando evidências e pistas de eventos que consolidaram o fato (um crime, ou a especiação). Cabe ao policial e ao biólogo evolucionista descobrir as etapas na qual o fato se consolidou. Mas as semelhanças entre os fósseis parecem ser algo muito circunstancial, assim como na criminologia. Podemos nos deparar com uma prova que pode ser enganosa, mas às vezes é tudo o que temos. Ainda sim podemos usá-la para construir o que parece ser o cenário mais plausível do ocorrido. Cogitamos as hipóteses, testamos e consolidamos uma sequencia de eventos poderiam consolidar o fato (o crime, ou a origem de um grupo biológico: espécie, gênero, família, ordem, classe… dentro de uma sequencia lógica e natural de eventos. A aceitação desta explicação nós chamamos de paradigma, e não de fato.

Portanto, a evolução pode ser um fato (a descendência com modificações), mas os eventos que consolidaram este fato são controversos, porque os fósseis representam apenas pontos e não o trajeto completo da evolução. Gee, diz que os trajetos em que cada espécie tomou para criar as ramificações da árvore da vida são criações humanas, e de fato são.

São constatações testadas segundo o método científico e que toma partido da explicação mais parcimoniosa, e não a menos errada como alguns pressupõem. Se os modelos explicativos são corretos, nós nunca saberemos, porque esses fatos já ocorreram, mas eles são funcionais. Toma-los como referência (em especial a Teoria da evolução permite que vacinas, antibióticos e melhoramentos genéticos) é funcional do ponto de vista prático.

 Esses paradigmas podem ser satisfatórios como explicações temporárias sobre o possível trajeto que a evolução tomou. Na criminologia as pistas e evidências muitas vezes fornecem as etapas do crime, as motivações e eventualmente, até um perfil psicológico do autor do crime.

Ainda sim, são interpretações humanas e não correspondem ao trajeto ou a intenção do criminoso, embora na criminologia tenha o trunfo de poder encontrar o autor do crime e conseguir saber as reais motivações e intenções que o levou ao crime. O policial pode então saber o que acertou e/ou errou no seu modelo paradagimático.

Em evolução não vemos essas intenções na seleção natural (apenas na artificial). Nós apenas temos os fósseis (as pistas), e o que temos a mais que pode nos auxiliar a traçar esse trajeto com suas respectivas ramificações cladísticas pode ser retirado de comparações de sequencias de genes-chave. Geralmente as análises de parcimônia por verossimilhança e bayesiana consideram estruturas morfológicas, genes-chave como características importantes para se traçar o perfil evolutivo de um grupo (Por exemplo na filogenia de borboletas e gafanhotos). Além, claro, de um grupo externo para ser comparado e calibrar a datação com base nos fósseis encontrados.

Por mais lamentável que possa ser, não parece haver uma propensão humana inerente a contar histórias. Dada uma série de eventos aparentemente desconexos, tentamos ligá-los juntos em uma narrativa. Isso explica o apelo contínuo de romances, peças de teatro e filmes.

Assim, é inevitável que as pessoas não permaneçam satisfeitas com o resultado de cladogramas, e acabam sempre buscando novas evidências de seqüências históricas para refinar ainda mais o perfil evolutivo das espécies

Isso não é ruim, ao contrário, isto é bom. Haveria poucas razões para estudar os fósseis se nós nos acomodássemos com o que foi fornecido com apenas um representante do Archaeopteryx, ou somente com um fóssil de Neanderthal, e não os mais de 300 encontrados. Hoje, nossa concepção sobre esses hominídeos mudou drásticamente, especialmente na última década.

Os fósseis fornecem uma visão de como o passado deu origem ao presente, embora Gee certamente tem direito e competência para fazer pontuações desta questão sob outro ângulo.

O que Gee fez, foi nos puxar a orelha dizendo que tais narrativas são interpretações que vão além dos fatos disponíveis, de modo que nunca podemos estar absolutamente confiantes sobre a sua validade. Exceto pelo fato que os fósseis existem; ou alguém duvida de sua existência? O jargão dos evolucionistas ainda é válido “We have the fossils, we win”.

Infelizmente, não foi assim que todos notamos as apresentações de Gee. O que é para os cientistas um ponto de reflexão, para grupos criacionistas virou ponto de distorção e descontextualização.

Para nós da ciência, Gee nos pede para sermos precavidos, e devemos resistir á tentação de ver o passado como uma progressão linear, ou de ver os organismos como “superiores” e “inferiores” (Campbell, 2001). Neste contexto, Gee sugere que podemos perceber a nossa própria posição diferente se não estivéssemos a espécie humana únicos sobreviventes. Devemos descentralizar a humanidade como foco de uma evolução linear e ver-nos como mais uma espécie com fósseis que precisam ser analisados de forma cladística e não linear.

Isso não quer dizer que a concepção de anagênese seja inútil ou falsa, mas que para Gee, ela é não científica, no seu modo particular de ver a questão evolutiva.

A visão suja de Henry Gee

A frase de Gee foi, e ainda é, citada em sites que defendem posturas pseudocientistas, como é praxe no criacionismo/design inteligente, vertentes fundamentalistas cristãs que defendem o profundo literalismo bíblico e bandeiras anti-ciência.

A leitura feita pelos criacionistas do livro In Search of Deep Time de Gee teve um efeito interessante. Primeiro, ela despertou a ingênua esperança de que o autor da revista Nature estava assumindo um posicionamento anti-evolução. Em um segundo, a publicação do livro “The Accidental Species: Misunderstandings of Human Evolution”, onde ele aprofunda mais o assunto e aproveita para desfazer a leitura errada e descontextualizações feitas por criacionista. Em um refinamento melhor aproveitado de sua proposta ele descartou a leitura feita pelos criacionistas, destacando que as afirmativas criacionistas não correspondiam as suas expectativas.

Curiosamente, ao pesquisar sobre as afirmativas de Gee, encontrei (com a ajuda de amigos) um site criacionista brasileiro em defesa da “biologia teísta” na qual faz cria um sofisma usando outras citações de Gee. Sofisma é uma refutação aparente, na qual usa uma linha de pensamento que conduz você a aceitar uma falácia como uma refutação não deixando espaços para aquelas estejam fora daquilo proposto. Em resumo, o silogista te conduz a resposta que ele quer e te induz a aceitá-la como fato. Dois exemplos clássicos de sofismas são: as premissas de Willian Lane Craig, que te conduzem a aceitar a concepção do autor sobre a origem do universo; ou o sofisma de que “Se a evolução não explica, automaticamente, o criacionismo é um fato”.

Neste silogismo que encontrei, o autor cita um artigo de 2013 escrito por Sansom e Wills na qual destacam que os fósseis são a única fonte direta de dados que documentam transições macroevolutivas. E ainda destacam que a fossilização provoca o aparecimento errôneo de organismos primitivos, e que isto acaba distorcendo árvores evolutivas.

Então, o autor usa Henry Gee para argumentar em favor da invalidade dos fósseis para a evolução. A citação de Gee é:

“Do nosso ponto de vista privilegiado nos dias de hoje, olhamos para trás, para a ancestralidade humana e escolhemos as características em fósseis de hominídeos que vemos em nós mesmos – um cérebro maior, uma posição ereta, o uso de ferramentas, e assim por diante. Naturalmente, nós organizamos os fósseis de hominídeos em uma série de acordo com a sua semelhança com o estado humano…. Porque vemos evolução em termos de uma cadeia linear de ascendência e descendência, tendemos a ignorar a possibilidade de que alguns desses ancestrais poderiam ter sido ramos laterais em vez – primos colaterais , em vez de ancestrais diretosNovas descobertas de fósseis se encaixam nessa história preexistente. Chamamos essas novas descobertas ‘elos perdidos’, como se a cadeia de ascendência e descendência fosse um objeto real para a nossa contemplação, e não o que ele realmente é: uma invenção completamente humana, criada após o fato, em forma de estar de acordo com os preconceitos humanos. Na realidade, o registro físico da evolução humana é mais modesto. Cada fóssil representa um ponto isolado, sem conexão cognoscível a qualquer outro dado fóssil , e todos flutuam na esmagadora mar de lacunas

No que diz respeito à semelhança com o estado humano, obviamente o autor se refere a evolução humana, pois é o que usamos como referência porque buscamos a compreensão de nossas origens. E de fato, esta visão que centraliza a espécie humana pode dar a impressão do homem ser o ápice do processo evolutivo. Por isso Gee luta para que haja essa descentralização, pelo próprio bem da paleontologia.

Como destacamos anteriormente, a evolução não visa o progresso, nem objetivos pré-estabelecidos (tão pouco isso significa que seja ao acaso). Desta forma, a visão da evolução humana de forma linear de fato é errada. Alguns de nossos ancestrais fazem parte de ramos colaterais que deram origem ao homem, e certamente somos somente mais um ramo colateral sobrevivente, e não a linha central de todo o processo. O próprio Gee destaca isso ao citar que novas descobertas  se encaixam nessa visão cladística da evolução humana.

A invenção na qual Gee destaca, são as inferências que foram testadas e que gerou um cladograma. São construções humanas baseadas em inferências e constituem paradigmas, não verdades absolutas. Toda ciência é baseada em inferências que são testadas. No nosso caso, usamos características anatômicas/morfológicas para entender como os fósseis (que representam pontos isolados), podem formar uma conexão cognoscível e, portanto, do que pode ser o caminho que a evolução (o fato) seguiu no passado. Os fósseis são modestos e o cladograma com as relações evolutivas entre os fósseis também são por diversos motivos: por que de fato não são claras as relações existentes entre os fósseis, porque anualmente muitos fósseis novos foram encontrados, especialmente na última década, e porque as aberturas que existem entre os fósseis não são ( e não precisam ser) preenchidas por mais espécies.

Concepção artística da evolução humana onde os ramos incompleto mostram as incertas e inconclusividades em relação ao relacionamento entre os achados fósseis. A disposição deles é feita com base em inferências de relacionamento. Note que o ser humano não esta ligado diretamente a uma linhagem central. O crânio de Homo sapiens esta no topo eligeiramente maisaltonão por uma configuração superior ou antropocêntrica mas porque a porção apical da árvore representa os periodos de tempomais recente e porque somos a unica espécie de hominídeo que ainda esta viva.

Concepção artística da evolução humana onde os ramos incompletos mostram as incertas e inconclusividades em relação ao relacionamento entre os achados fósseis. A disposição deles é feita com base em inferências de relacionamento. Note que o ser humano não esta ligado diretamente a uma linhagem central. O crânio de Homo sapiens esta no topo e ligeiramente mais alto não por possuir uma configuração superior (ou antropocêntrica) mas porque a porção apical da árvore representa os períodos de tempo mais recente e porque somos a única espécie de hominídeo que ainda esta viva.

A evolução é um processo continuo e não visa criar espécies para fechar lacunas. A descendência com modificação ocorre especificamente nas gerações que carregam ligeiras modificações. Por essa razão, quando cita o conceito de “elos perdidos”, Gee usa áspas (como veremos abaixo).

O fato de não ser cognoscível a geração de espécies cotidianamente corresponde à expectativa evolutiva de mudança gradual e não saltacionista. Darwin usou a frase de Aristóteles para destacar este ponto “Natura non facit saltum” (a natureza não dá saltos). O fato da especiação de um grupo biológico não ser cognoscível em tempo real (exceto em alguns casos) não significa que ela não ocorra. A polícia científica não ve o crime acontecer em tempo real, mas ainda sim consegue estabelecer uma linha temporal, com os eventos pontuais que teoricamente consolidaram o crime.

O que Gee chama de preconceito, não é uma medida social (no sentido de “ser preconceituoso”), mas que os caracteres anatômicos usados nas filogenias para tornar cognoscível um perfil da evolução humana contam com caracteres humanas. O correto é que os caracteres usados nas filogenias sejam comparáveis entre si em todos os fósseis de todas as espécies nos níveis mais profundos possíveis sem que se privilegie nossa espécie, ou nosso antropocentrismo.

As inferências se baseiam nestes caracteres. Por essa razão sabemos que o gênero Paranthropus, por exemplo, é uma ramificação lateral da evolução humana e que possuíam uma crista sagital. Ela pode estar ou não presente nos outros fósseis de hominídeos e ter morfologias diferentes. A presença ou ausência dessa estrutura craniana pode ser usada para estabelecer relacionamento filogenético entre os fósseis. Ela e tantas outras características compõem um cenário mais parcimonioso para entender quais as relações entre esses hominídeos. Se esta relação é a que representa de fato o caminho evolutivo traçado na evolução dos primatas de grande porte, nós não sabemos. Mas ela é uma explicação temporal sujeita a modificação caso novas evidências surjam. As inferências são criações nossas, mas os fatos não.

O fato é, existem diversos fósseis de primatas com e sem cristas sagitais, com forâmen magno centralizado na base do crânio, ou deslocado para a porção próxima a região occiptal do crânio, bem como uma série de outras características anatômicas dos fósseis. As datas desses fósseis traçam um perfil que determinam um forame magno no centro da base do crânio, a ausência de crista sagital, a angulação do fêmur e o estreitamento da pélvis quanto mais próximas estão das linhagens de fósseis do gênero Homo. Não houve intenção na organização dessas estruturas para formar o Homem. A organização desse modelo anatômico se deu por processos naturais. Dizer que a evolução direcionou-se intencionalmente para favorecer o homem é colocar o homem como centro da evolução humana. Pensando assim, poderíamos dizer que a evolução projetou uma crista sagital de forma intencional para favorecer os músculos masseteres. Poderíamos então adotar uma visão Paranthopocentrista que seria igualmente errado. Isso independe da espécie estar viva ou extinta. Não há centralização.

Exemplos errados de filogenia - A) Filogenia onde a porção final de uma linhagem é o ser humano e  oferece uma concepção antropocêntrica. B)  Filogenia onde a porção final de uma linhagem é o Paranthropus e  oferece uma concepção Paranthopocêntrica.

Exemplos errados de filogenia – A) Filogenia onde a porção final de uma linhagem é o ser humano e oferece uma concepção antropocêntrica. B) Filogenia onde a porção final de uma linhagem é o Paranthropus e oferece uma concepção Paranthopocêntrica.

É muito comum isso acontecer também nas prerrogativas sobre a eucariogênese, ou seja, na origem das células eucariotas. Isso porque existe um forte “eucariocentrismo” mesmo dentro da biologia; a tendência de achar que tais células tem uma organização especial e por isto há tanta dificuldade em traçar seu perfil evolutivo, colocando-a em um “pedestal de especialidades evolutivas”. Essa concepção é falsa. Ela compreende um desafio igual a qualquer outro visto em outros níveis celulares, zoológicos ou comportamentais (Booth & Doolitle, 2015).

Apenas centralizamos (erroneamente) a evolução em nós porque somos hoje, a única espécie de hominídeo viva. E isso não significa que a evolução cessou para o grupo dos antropóides.

As evidências de datações e análises mostram uma filogenia X como o melhor cenário para explicar como os fósseis de hominídeos se relacionam, inclusive nossa espécie. Sendo ela mais uma dentro deste pandemônio de dados de ossos fossilizados.

Não é um preconceito a humanidade esta datada com 200 mil anos, essa é a datação que o material fossilizado nos dá, e não é um preconceito nossa espécie ser mais uma dentre tantos primatas de grande porte (símios ou antropoides).

Há outros suportes a filogenias. As evidências ganham mais peso quando analisamos o DNA e as possíveis semelhanças existentes nele entre espécies ainda vivas.

O gênero Paranthropus existia em três espécies: Paranthropus aethiopicus, Paranthropus boisei e Paranthropus robustus. Estas espécies já foram classificadas como Australopitecus. E o Paranthropus boisei que é mais um primitivo do Homo sapiens (homem moderno). Ele tinha uma qualidade e defeito, sua mandíbula era muito forte e seus dentes eram mais fortes ainda, para mastigar as folhas secas da savana, mas como o seu cérebro não era igual a sua mandíbula, forte,então era uma presa fácil para outros animais.

No gênero Paranthropus existia em três espécies: Paranthropus aethiopicus, Paranthropus boisei e Paranthropus robustus. Estas espécies já foram classificadas anteriormente como Australopitecus. O Paranthropus boisei é mais primitivo e representa um ramo colateral na filogenia da evolução humana. Eles tinham mandíbulas robustas, dentes fortes certamente para mastigar folhas secas da savana Africana.

O cenário da evolução humana não foi pintado somente com fósseis. Há outros estudos que dão suporte a inferência de que nós humanos somos resultado de processos naturais segundo as evidências. Os paleontólogos, como Sansom e Wills dizem que “fósseis são a única fonte direta de dados que documentam transições macroevolutivas”, geneticistas e zoólogos como Dawkins dizem “A evidência da evolução seria completamente segura, mesmo se nenhum cadáver tivesse sido fossilizado. É um bônus que nós realmente tenhamos ricos veios de fósseis para minerar, e que mais deles sejam descobertos a cada dia. As evidências fósseis da evolução para a maioria dos grupos de animais é maravilhosamente forte. Entretanto, é claro, eles também possuem brechas, que os criacionistas amam obsessivamente”. Provavelmente ambos estão certos.

O que Gee quer dizer é que; apesar de inferências, os modelos são validos, desde que o modelo seja feito com um bom critério e exigência.

Sua crítica se concentra na visão preconceituosa que toma como referência a espécie humana dentro da evolução. O que ele quer dizer é que somos somente mais um ramo colateral incognoscível em uma cadeia de eventos evolutivos em que não eramos o centro de uma linhagem. A evolução humana é então um quebra-cabeça na qual as peças que faltam talvez nunca serão encontradas, mas ainda sim, com as janelas, com os fósseis pontuais, nos permite ver parte da imagem do alvorecer dos antropóides e ainda sim é possível admirar esse quadro não terminado da natureza.  Ora, são as lacunas e as perguntas que criamos sobre ela e dentro dela que fazem a ciência (não só a biologia) de um modo geral funcionar. A beleza da ciência esta na sua auto-correção.

Posteriormente, em poucas palavras, o autor ainda afirma que Darwin usou a proposta de Charles Lyell porque era conveniente uma vez que a proposta de evolução por seleção natural precisava de um grande período de tempo para dar validade a sua prerrogativa.

E cita a crítica de Gee a Darwin:

“Em A Origem das Espécies, Darwin colocou o caso para a seleção natural – o mecanismo da evolução – por analogia. Dado que um grupo de criaturas variavam em forma, comportamento e outros atributos, a seleção natural escolhe essas variações mais adaptadas às condições ambientais prevalecentes, da mesma forma que columbófilos [modalidade desportiva relacionada a corrida entre pombos-correio] selecionar os animais com características mais próximas as características desejadas e usar esses animais como plantéis. Dê a um columbófilo um pombal bem abastecido e tempo suficiente, e ele poderia produzir pombos tão variados como pouters, tumblers, e fantails [espécies de aves]. Por analogia, dar a natureza uma paleta de protoplasma na Terra primitiva e da distância total do tempo geológico, e ela poderia produzir pombos, columbófilos, e tudo mais…A analogia entre os pombos de criação e seleção natural é, no entanto, incompleto. Pombos criados para serem pouters, tumblers e fantails ainda serão pombos. Em nenhum momento o criador produzirá uma raça de pombo tão extrema que não se pode mais considerá-lo um pombo. Em analogia, Darwin pode elaborar registros dos mais extravagantes, infinitas variedades podem ser produzidas, mas em nenhum caso são novas espécies formadas. A seleção artificial ocorre contra a continuidade de tempo de todos os dias. A seleção natural como concebido por Darwin – esta força que muda uma espécie para outra – não acontece dentro deste prazo.”

O que Gee destaca aqui, é algo muito semelhante ao que o paleontólogo Stephen Jay Gould destaca no capítulo 4 de seu livroDarwin e os grandes enigmas da vida” na qual ele pontua que a seleção artificial é uma analogia a seleção natural. Na seleção artificial a reprodução nem mesmo começou, mas o design da prole já foi projetado. Projetado pelo domesticador do animal que seleciona quais serão os progenitores segundo as características por ele desejadas.

Ela não funciona em função do tempo, mas em função das necessidades e desejo do domesticador. Na seleção natural este processo de seleção de características é determinado pelas mudanças ambientais de tal forma que as pequenas variações de design que sejam vantajosas em condições futuras e de competição permitem a sobrevivência. O agente impositor da condição é o meio, a seleção natural é o filtro do fenótipo (e consequentemente da informação genotípica). Desta forma Gould não só destaca o poder da seleção em modificar os organismos como destaca que a seleção natural nem mesmo é tautológica como cita o crítico Bethell (Gould, 1999). Isso significa que se um dia um criador por técnicas de domesticação ou de laboratório fizer um pombo virar um animal completamente diferente do pombo inicial em um espaço de uma ou algumas gerações, certamente não teríamos a evolução comprovada, mas sim o saltacionismo.

Mesmo voltando 32 gerações de gatos, citadas por Gee em seu livro, ele ainda teria gatos como resultado. Entretanto, apenas 35 gerações de seleção artificial de raposas fizeram tais animais mudarem completamente parte de suas características zoológicas.

Lysenko, um biólogo amigo de Josef Stalin, líder do Partido Comunista da Revolução Soviética, realizou um processo de seleção artificial usando a docilidade como modelador para trazer modificações em raposas selvagens. Após selecionar raposas mais dóceis ele começou a fazer a reprodução com base nesta característica e após seis gerações as raposas haviam mudado tanto que os pesquisadores nomearam uma nova categoria de animais domesticados. Após 10 gerações cerca de 18% dos descendentes faziam parte desta nova categoria; após a 20 gerações cerca de 35% das raposas já entravam nesta nova leva.

Depois de 35 gerações 78% dos animais já eram classificados nesta nova categoria, muitos se comportando como cães, anatomicamente bastante semelhantes, com uma pelagem malhada em branco e preto. As orelhas caíram semelhantemente as do Cocker, a ponta da cauda fazia uma curva para cima e o cio das fêmeas ocorria a cada seis meses. Até a vocalização lembrava a dos cães (Dawkins, 2009).

Muitos traços caninos dessas raposas obviamente não estavam no objetivo dos pesquisadores, mas acompanharam o processo de seleção artificial que modificou totalmente o comportamento, a anatomia e a fisiologia do animal para uma categoria nova. No momento em que os pesquisadores começaram a cruzar animais dóceis para promover a docilidade nesta variedade os genes que eram responsáveis por tal característica mudaram seus múltiplos efeitos sob a constituição fisiológica e anatômica dos animais de tal forma a permitir a criação de uma nova categoria de animal.

Se a seleção artificial em poucas gerações foi capaz de alterar comportamentos e fisiologia de modo direcionado, a seleção natural direcionada pelo meio ambiente cambiante poderia em espaço de milhões de anos isolar reprodutivamente espécies sem a necessidade de um domesticador inteligente. A dinâmica ecossistêmica, as condições ambientais, ecológicas e abióticas delimitariam os limites de uma espécie e outra.

De certa forma, pressões seletivas são criadas em laboratório para criar modelos evolutivos. RatCliff que estuda a origem da multicelularidade criou pressão seletiva em certas algas tornando-as multicelularizadas e se reproduzindo por propágulos (Veja RATCLIFF, LENSKY E NETNATURE NA BOCA SUJA DA PSEUDOCIÊNCIA). Outros exemplos como a origem da Drosophila pseudobscura (Dood, 1989) ou os trabalhos de Lenski, que a 27 anos usa pressões seletivas exercidas em laboratório de modo proposital pra testar teorias de resistência a anti-bióticos também são documentados.

Um dos casos mais interessantes publicados em 2015 foi feito por um grupo de pesquisadores que destruiu o gene responsável pelo maquinário molecular do flagelo de Escherichia coli e criou uma pressão seletiva que exigia motibilidade para a sobrevivência. Cerca de 90 hortas após o inicio do experimento um homologo antigo deste gene (Ntr-C) passou a exercer o papel do rotor do flagelo (Taylor et al, 2015) e sua função metabólica tradicional. São constatações empíricas não só da evolução, mas também de que o homem é um excelente designer inteligente para pesquisas em evolução.

O autor criacionista levanta outros questionamentos e cita que as afirmações de Gee criam ainda mais perguntas do que respostas e reconhece que a ciência nada muito pouco. E isto de fato acontece, e por isto que a ciência ainda tem campo para pesquisa e busca de respostas, afinal, são as perguntas que movem o mundo e não as respostas. Respostas finalistas são dogmáticas e não científicas. Se isto incomoda você assim como incomodou o autor criacionista, talvez vocês ainda não estejam preparados para entrar no mundo científico.

Compreendido o significado dos fósseis para o entendimento da evolução fica mais fácil compreender os trechos de Henry Gee citados pelo autor criacionista:

“Como, então, é possível avaliar a probabilidade de diferentes alternativas? Formalmente, não é, porque não podemos descobrir as particularidades de ascendência e descendência que se juntam a nós em conjunto. Na prática, no entanto, pode-se adotar um princípio que tem resistido bem a ciência durante séculos. Esse é o princípio da parcimônia, ou Navalha de Occam: quando apresentar-se duas hipóteses é prudente escolher como hipótese de trabalho o que requer o menor número de suposições para se justificar. É importante perceber que o princípio da parcimônia não seleciona a resposta ‘certa’ – que é incognoscível -, mas apenas o melhor para estar ficando com primeiro. Porque nós não podemos esperar para recuperar a meada contínuo de ascendência e descendência que nos une, este é o melhor que podemos esperar alcançar. Isto não só é verdade em biologia evolutiva, mas em toda a ciência. Todas as hipóteses são provisórias e são susceptíveis de serem derrubadas quando novas evidências permitem uma maior aproximação da verdade. Se isso não fosse verdade, a ciência iria parar.”

Essas são as palavras de Henry Gee ipsis litteris, mas a conclusão que o criacionista tira dessa citação é:

“Ou seja, para o Dr. Gee a questão da ancestralidade comum, assim como a linearidade da árvore filogênica são interpretações que se baseiam em um possível erro metodológico que ele chama de “preconceito humano” e que os fósseis são isolados e não representam nenhuma ligação com outro fóssil”.

Em momento algum Gee assume que as filogenias criadas pelos processos estatísticos de eliminação de suposição com base em parcimônia são erros metodológicos. O que Gee diz é que elas são inferências, criações humanas, que não são filogenias certas porque não são finalistas, absolutas, dogmáticas. Elas dependem de achados, pesquisa e novas inferências, afinal, a ciência seu auto-corrige.

O que o autor criacionista faz é forçar uma afirmação descontextualizando a original para tornar o argumento frágil e dar a falsa sensação de que ele é incoerente com as evidências e com os pressupostos básicos da metodologia científica e filosofia da ciência.

Outra citação de Gee que o próprio criacionista faz fecha com chave de ouro o assunto dos fósseis em relação á evolução humana. Nele Gee diz:

O retrato convencional da evolução humana – e, de fato, da história de vida – costuma ser uma das linhas de ancestrais e descendentes. Nós nos concentramos sobre os eventos que nos levam a humanidade moderna, mas negamos ou minimizamos a evolução de outros animais: nós cortamos fora todos os ramos da árvore da vida, exceto aquele que conduz a nós mesmos. O resultado, inevitavelmente, é um conto de melhoria progressiva, culminando na humanidade moderna. Do nosso ponto de vista privilegiado nos dias de hoje, olhamos para trás na ancestralidade humana e escolhemos as características em hominídeos fósseis que vemos em nós mesmos – um cérebro maior, uma posição ereta, o uso de ferramentas, e assim por diante. Naturalmente, nós organizamos os hominídeos fósseis em uma série de acordo com a sua semelhança com o estado humano. Homo erectus, com a sua aparência humana, postura ereta e cérebro grande, estará mais perto de nós do que Ardipithecus ramidus, ou Australopithecus afarensis, que tinham cérebros menores e mais simiesco recursos.” 

Como conclusão, o autor criacionista afirma que “Se os fósseis são a nossa única fonte direta que documentam transições macroevolutivas e essa interpretação é baseada em um preconceito humano de uma falácia de ad hoc, o que resta para a Teoria da Evolução?”

O problema é que os fósseis não são nossa única forma de documentar macroevolução, considerando a definição clássica de macroevolução definida por Theodosius Dobzhansky (1937), mudanças que ocorrem no nível de espécie ou acima; O preconceito é relação à descentralização do homem como objeto de estudo a evolução, e passar a ver a evolução de todas as formas de vida em geral é uma necessidade e uma cobrança continua que deve continuar a acontecer para quebrar qualquer tipo de antropocentrismo; e claro, Não há falácia ou ad hocs na construção das filogenias, elas são como são não por erros metodológicos. O princípio mais parcimonioso é o que usa menos suposições e não mais suposições para sustentar a evolução. Por si só ela tem respaldo acadêmico no nível mais fidedigno às evidências, razão pela qual a filogenia mais aceita nessas analises é a que mais retira o acaso como protagonista das relações e que se baseia em menos suposições.

Quando o autor criacionista cita “Será sensata essa extrapolação baseada somente em bilhões de anos que nunca serão observados?” ele cogita fenômenos geológicos de bilhões de anos possam não ocorrer, mas as taxas de decaimento radioativo das datações são claras quanto a essa afirmação. Elas não dependem de fósseis ou da evolução. A terra tem bilhões de anos e não são os fósseis que dizem isso, e sim as rochas ígneas. Se o autor tem motivos para duvidar que a terra têm bilhões de anos com base no que não pode ser observado, o que o faria pensar que uma terra de 6 mil anos poderia ser enxergado?

O fato é que uma terra de mil, 2 mil, 6 mil, um milhão ou 3,5 bilhões de anos, como datam alguns granitos da Índia e do Brasil, são constatáveis (Voronov, et al. 2010 & Martins & Babiski – IGC). O que o autor induz a pensar é que bilhões de anos não são constatáveis cientificamente porque não observáveis em tempo real. Bem, uma terra de 6 mil anos também não é, e não há relatos arqueológicos dela já que a primeira forma de escrita surgiu muito depois. Sendo assim, a melhor guia que temos são as datações com base em decaimento radioativo, que dentro de seus elementos e seus limites pode ser usada para datar camadas estratigráficas com milhões de anos. (Veja MÉTODO DE DATAÇÃO – A GEOLOGIA ENTERRANDO A TERRA JOVEM)

Para finalizar, o autor criacionista ressalta que “No campo da biologia, as inferências devem existir e sua produção deve ser incentivada com o livre pensar, contudo, nunca sem se afastar nanômetros de distância das evidências”. De fato, não devem se distanciar do que as evidências apontam, mas deve permitir inferência para que hipóteses possam ser testadas e estruturações teóricas possam ser feitas para o próprio bem da ciência. Mas acima de tudo, antes da ciência ser uma forma de livre pensar, os seus limites precisam ser respeitados, e seus limites epistemológicos descartam o criacionismo e o design inteligente como ciência por não preencherem pré-requisitos básicos do método científico.

De fato, o que motiva o criacionista a criticar a revista Nature tantas outras de grande prestigio como a Cell ou a Science é o discurso de que são revistas que se uniram com centros acadêmicos do mundo em um complô para impedir a “verdade” literalista cristã de ser constatada. Por trás de todo este argumento anti-ciência (anti-evolução-mudanças climáticas-vacina-fluoretação-transgênico) esta um discurso conspiracionista e de não aceitação da incompetência do criacionismo/design inteligente em se conceber como ciência empírica.

Adendo – A resposta de Gee para os criacionistas (pondo os pingos nos Ís)

Para pontuações feitas por criacionistas, Henry Gee dedicou um capítulo de seu segundo livro “The Accidental Species: Misunderstandings of Human Evolution” somente para destacar que seu posicionamento não tem absolutamente nada a ver com a negação da evolução. Eis alguns trechos que podem ser interessante aos olhos da pseudociência:

Sem título

Sem título

Victor Rossetti

Palavras chave: Rossetti, NetNature, Henry Gee, Revista Nature, Evolução Humana, Paleontologia, Fósseis, Criacionismo, Design Inteligente, Pseudociência, Falácia.

 

Referências

Booth. A & Doolittle. W. F. Eukaryogenesis, how special really? PNAS Early Edition. 19, 2015
Campbell. A. – In search of deep time – Bookreview. 2001
Dawkins, R. O maior espetáculo da Terra – Evidencias da Evolução (1ª edição) – São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
Dodd. D. M. B. (1989). “Reproductive isolation as a consequence of adaptive divergence in Drosophila pseudoobscura“. Evolution 43 (6): 1308–1311.
Excerpt: Richard Dawkins’s New Book on Evolution. Newsweek Staff. 24/09/09
Gee, H. In Search of Deep Time: Beyond the Fossil Record to a New History of Life. Chapter one, New York, Free Press, 1999.
Gee. H. The Accidental Species: Misunderstandings of Human Evolution. 2013.
McCrea, Richard T. Lisa G. Buckley, James O. Farlow, Martin G. Lockley, Philip J. Currie, Neffra A. Matthews, S. George Pemberton. A ‘Terror of Tyrannosaurs’: The First Trackways of Tyrannosaurids and Evidence of Gregariousness and Pathology in Tyrannosauridae . PLOS July 23, 2014
Sansom, Rs; Wills, Ma. Fossilization causes organisms to appear erroneously primitive by distorting evolutionary trees. Scientific Reports 3, article number: 2545, 29
Taylor TB1, Mulley G1, Dills AH2, Alsohim AS3, McGuffin LJ1, Studholme DJ4, Silby MW2, Brockhurst MA5, Johnson LJ6, Jackson RW7.. Evolution. Evolutionary resurrection of flagellar motility via rewiring of the nitrogen regulation system.Science. 2015 Feb 27;347(6225):1014-7.
Voronov, J.; Tarduno, J. A.; Mukul, M.; Cottrell, R. D.Paleomagnetic and paleointensity investigations of a 3.6 billion-year-old granite from India. American Geophysical Union, Fall Meeting 2010.

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