QUEBRANDO A HISTORY CHANNEL – TÍTULO SENSACIONALISTA NÃO CORRESPONDE AOS REGISTROS FÓSSEIS

Esta semana a página da History Channel (HC) cometeu mais uma gafe. Colocou um título sensacionalista e apresentou um artigo na qual não corresponde as evidências fósseis. Para entender o caso vejamos o que a HC disse a respeito da origem dos tetrápodes.

Sem título

Os tetrápodes constituem uma superclasse de vertebrados terrestres, é um grupo biológico constituído por individuo com quatro membros (anfíbios, répteis, aves mamíferos). Os tetrápodes evoluíram dos peixes de nadadeira lobada a cerca de 395 milhões de anos, no Período Devoniano (Clack, 2012), e não a 333 milhões de anos como citado acima.

A evolução das narinas internas dos tetrápodes durante muito tempo foi debatida no meio acadêmico, especialmente no século 20. Discutia-se principalmente se a narina deste grupo biológico seria formada por um conjunto de ossos que migraram para a porção interna da boca.

Para abrir caminho para uma migração, no entanto, dois ossos que suportam a mandíbula superior, a maxila e a pré-maxila, teriam que separar-se para formar a narina através do osso e dar origem a anatomia atual dos tetrapodes. Não havia nenhuma evidência para uma fase de transição como esta, com os dois ossos desconectados. Tal evidência se tornou disponível em um pequeno peixe de nadadeiras lobadas chamado Kenichthys, encontrado na China e datado em cerca de 395 milhões de anos. Ele representa este passo evolutivo com a maxila e a pré-maxilla separadas com uma abertura (coana) na central, formando a intersecção dos dois ossos (Zhu & Ahlberg, 2004). Notamos então, que este ancestral mais antigo está ligado a origem dos tetrapodes e é datado em 395 milhões de anos. Portanto, antecede e muito a origem proposta pelo texto do HC.

De fato, o artigo original destaca que o objetivo do trabalho foi analisar ossos fraturados datados em 333 milhões de anos e que tais ossos poderiam solucionar inconsistências antigas sobre a evolução dos vertebrados:

“We demonstrate that the oldest known broken tetrapod bone, a radius of the primitive stem tetrapod Ossinodus pueri from the mid-Viséan (333 million years ago) of Australia, fractured under a high-force, impact-type loading scenario”.

Em momento algum o autor cita qualquer risco ou crise na teoria da evolução. De fato, o artigo destaca-se como um potencial elemento para solucionar o perfil evolutivo do grupo dos tetrapodes. O artigo ainda destaca que:

“Our findings have important implications for understanding the temporal, biogeographical and physiological contexts under which terrestriality in vertebrates evolved. They push the date for the origin of terrestrial tetrapods further back into the Carboniferous by at least two million years. Moreover, they raise the possibility that terrestriality in vertebrates first evolved in large tetrapods in Gondwana rather than in small European forms, warranting a re-evaluation of this important evolutionary event”.

O artigo simplesmente puxa a origem de um grupo de tetrapodes (Ossinodus) para dois milhões de anos antes ao que se pensava anteriormente, cuja datação era de aproximadamente 327–331 milhões de anos.

“ we have observed two anatomical features in the radius of Ossinodus—cancellous bone architecture with preferential trabecular alignment parallel to the long-axis of the bone, and nutrient foramina that pierce the bone at low angles of entry—that likely would have served as important adaptations to terrestrial weight support. A consilience of the three lines of evidence reported here strongly suggest that Ossinodus spent a significant part of its life on land, which is augmented by its exceptional degree of ossification, presaging the condition observed in later amniotes. Concluding that Ossinodus was at least partly adapted to a terrestrial lifestyle then, the skeletal morphology shown by Ossinodus may be used as a basis for interpreting the lifestyle of other stem tetrapods. For instance, comparison of the gross osteology of known elements for Ossinodus and Tulerpeton [15], as well as Pederpes [22], suggests that these stem tetrapods may too have been at least partly terrestrially adapted, although this remains to be further tested.”

Até a década de 1990, havia uma lacuna de 30 milhões anos no registro fóssil entre os tetrápodes Devonianos e o reaparecimento de fósseis de tetrápodes em meados de Carbonífero, que eram de linhagens reconhecidamente anfíbias. Na época, essa lacuna ficou conhecida como “Gap de Romer”, que abrangia o período de cerca de 360-345 ilhões de anos.

Os primeiros tetrápodes evoluíram em ambientes marinhos costeiros e de água salobra, em ecossistemas de água doce, rasos e certamente pantanosos (Clack, 2012). De fato, a partir de 2010, pesquisadores fizeram novas descobertas, particularmente de icnofósseis de tetrápodes. Trilhas deixadas por tetrápodes preservados em sedimentos marinhos da costa sul da Laurásia, em uma região montanhosa da Polônia. Elas foram feitas no final do Devoniano Médio. As trilhas mostram dígitos datados em cerca de 395 milhões de anos; cerca de 18 mil anos mais antigo do que os mais antigos fósseis conhecidos de tetrápodes (Niedźwiedzki et al, 2010).

Sem título

Além disso, as trilhas mostram que o animal era capaz de deslocar seus braços e pernas para frente de tal forma a estabelecer movimentos que não seriam possíveis a outros grupos biológicos, inclusive pelo Tiktaalik (Dalton, 2010).

Mesmo o Tiktaalik roseae, com apenas uma única espécie classificada viveu a aproximadamente 375 milhões de anos atrás. Os paleontólogos sugerem-no como uma figura apenas representativa da transição entre vertebrados não-tetrápodes e tetrapodes (Shubin, 2008). Há ainda o Panderichthys, que é conhecido a datado em 380 milhões anos de idade. Os primeiros tetrápodes como o Acanthostega e Ichthyostega, são datados em cerca de 365 milhões de anos. Sua mistura de peixes primitivos e características de tetrápodes derivados levou um de seus descobridores, Neil Shubin, a caracterizar Tiktaalik como um “fishapod” (Wilford, 2006)

Desta forma, de maneira alguma o fóssil de 333 milhões de anos representa um viés no registro fóssil, ou mesmo o primeiro registro do grupo, e indubitavelmente, não representa crise alguma na evolução biológica.

O título da reportagem não só é tendencioso, mas o conteúdo nele apresentado não condiz com o que esta estabelecido no artigo original. Artigo na qual trata de uma análise muito importante sobre a anatomia de um grupo específico de tetrápodes.

Sugere-se aos editores da página que antes de emitir estes textos consultem os artigos científicos disponíveis em revistas cientificas de prestígio, que leiam todo o artigo para que a notícia seja dada da forma mais integra e fiel á publicação original. Isto evita transtornos na divulgação do conhecimento científico, evita má veiculação de informação e principalmente, evita dar munição de graça para grupos anti-ciência que naturalmente tendem, por si só, distorcer os dados de artigos científicos executando falácias em nome de bandeiras pseudocientíficas.

Saiba mais em:

BIOLOGIA AVANÇADA – RUMO AOS VERTEBRADOS

NOVOS FÓSSEIS REVELAM PASSAGEM DOS ANIMAIS DA ÁGUA PARA A TERRA.

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Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Tetrapode, Fósseis, History Channel.

Referências

Clack, J.A.. Gaining ground: the origin and evolution of tetrapods (em inglês). 2ª ed. Bloomington, Indiana, EUA: Indiana University Press, 2012.
Zhu, Min; Ahlberg, Per E. (2004). “The origin of the internal nostril of tetrapods”. Nature 432 (7013): 94–7.
Niedźwiedzki, G. Piotr Szrek, Katarzyna Narkiewicz, Marek Narkiewicz, Per E. Ahlberg (2010). “Tetrapod trackways from the early Middle Devonian period of Poland”. Nature 463 (7277): 43–8.
Dalton. R  (January 6, 2010). “Discovery pushes back date of first four-legged animal”. Nature News. Retrieved January 8, 2010.
Shubin, Neil (2008). Your Inner Fish. Pantheon.
Wilford, J. N. The New York Times, Scientists Call Fish Fossil the Missing Link, Apr. 5, 2006.

5 thoughts on “QUEBRANDO A HISTORY CHANNEL – TÍTULO SENSACIONALISTA NÃO CORRESPONDE AOS REGISTROS FÓSSEIS

  1. O canal passa “alienígenas do passado”… precisa dizer mais alguma coisa? É siência pura… Não me venha com essas coisas de cientistas que nem acreditam que existem homens lagartos dominando o mundo…. Todos sabem que a evolução é falsa, todos sabem que foram os alienígenas junto com papai Noel que criaram o ser humano….

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