TRÊS EM UM: NENHUMA NOVIDADE PARA A BIOLOGIA EVOLUTIVA.

Algumas pessoas tem enviado um link de um texto escrito em um site criacionista em que destaca uma situação de fossilização inusitada e quem tem sido utilizado por criacionistas para defender a concepção de dilúvio. Deixo aqui relatos prévios de outros casos e demonstrando que do ponto de vista tafonômico, é um fenômeno bem explicado e do ponto de vista criacionista não tem sentido algum a concepção de que foram mortos em um dilúvio global.

Sem título

O texto refere-se a três animais fossilizados um dentro do outro, como uma casa-de-boneca-russa. Ele descreve que o possível caso ocorreu quando um Pterossauro (Rhamphorhynchus sp) engoliu um pequeno peixe (Leptolepide sp) e posteriormente, estes foram engolido por um peixe maior (Aspidorhynchus sp). Por algum motivo morreram, foram soterrados e preservados em registro fóssil.

Fóssil três em um

Fóssil três em um

A primeira crítica esta ligada ao conceito de fóssil. Fóssil corresponde a restos ou vestígios de animais, plantas e outros organismos do passado remoto que foram preservados. Tal processo demora cerca de um milhão de anos para acontecer. O termo subfóssil pode ser utilizado para se referir a ossos, ninhos ou fezes de animais, cujo processo fossilização não é completo, por diversos motivos: porque o período de tempo desde que o animal morreu é muito curto (cerca 10 mil anos) ou porque as condições em que os restos foram enterrados não foram ideais para a fossilização. Subfosseis são frequentemente encontrados em cavernas ou outros abrigos onde eles podem ser preservados por milhares de anos (Subfossils Collections, 2014). Notamos então que se o dilúvio ocorreu a 4 mil anos atrás, ainda não teríamos fósseis, e tão pouco subfósseis. (Veja outros textos que descontroem a concepção diluviana envolvendo geologia, aqui e aqui)

Como os fósseis existem, aos milhares, em diversos locais do mundo, com a morte diagnosticada de diversas formas, então a concepção diluviana não se encaixa em nenhum achado fossilífero. Considerando que tal concepção esta completamente enraizada com a mitologia suméria e mesopotâmica em geral, tal relato é figurativo e não literal.

A segunda questão é referente as diversas formas na qual fosseis podem se estabelecer. De fato três animais podem ter sido soterrados subsequentemente, o que é raro, mas não impossível. Pode acontecer dos animais terem morrido em locais diferentes, mas terem sido deslocados para um ponto em comum e ali soterrados e fossilizados. No Brasil é muito comum encontrar fósseis de preguiças-gigantes em cavernas, misturados com o de outros animais, mas não porque morreram dentro das cavernas. Seus ossos foram arrastados para lá através de fluxo de água da chuva.

Muitos fósseis ligados a evolução humana foram encontrados em sumidouros com diversos ossos de outros animais, especialmente aves de rapina e pequenos mamíferos. Geralmente eles eram atacados por leopardos na África, e os ossos acabam sendo levados aos sumidouros e soterrados.

Fósseis de Homo erectus (especialmente na China, como o “Homem de Pequim”) foram encontrados em cavernas (Zhoukoudian) junto com o de outros animais e outros indivíduos da mesma espécie. Eventualmente eram comidos por hienas-gigantes e arrastados para lá. Os ossos iam se acumulando e se sobrepondo (Neves, Junior e Murrieta, 2015. A tafonômia e paleontologia conseguem descobrir (dependendo das condições de fossilização) se de fato animais foram fossilizados juntos (como no caso da ingestão ou de fêmeas grávidas), ou se foi um acúmulo de ossos sobrepondo-se. Para isto, é preciso observar a amostra com um pouco mais de acurácia, desprendido do senso-comum.

Caverna de ZhouHomo erectus pekinensis (datado em 770 mil anos) que era atacado e comido por hienas gigantes Pachycrocuta brevirostris. foram também encontrados restos de

Caverna de Zhoukudian na China (Pequim). Foram encontrados fósseis de Homo erectus pekinensis (datado em 770 mil anos). Mais de 200 ossos de 40 indivíduos que eram atacados e comido por hienas gigantes Pachycrocuta brevirostris. Foram encontrados, geralmente faltando os membros. Devido a predação das hienas. Foram também encontrados restos de outras 200 espécies diferentes no mesmo local. A maior parte deste material foi perdido em 1941 durante a ocupação japonesa e nunca foi recuperado. As escavações recomeçaram em 1949 e continuou a produzir fósseis e artefatos que fazem deste site um dos mais fecundos fontes de material da era do Pleistoceno Médio.

Há casos também de fêmeas grávidas que morreram e foram preservadas com seus ovos internamente, ou com conteúdo estomacal. Um exemplo bastante comum é o do antigo cavalo (Eurohippus messelensis) encontrado no sítio de Messel Pit, na Alemanha, um local famoso por seus fósseis bem preservados que datam do Eoceno, entre cerca de 57 milhões e 36 milhões de anos atrás. O fóssil corresponde a uma fêmea grávida onde o adulto e o feto foram preservados em registro fóssil (veja aqui).

Em placodermos isto já foi encontrado. Foram encontrados registros fósseis de placodermos datados em 375 milhões de anos com filhotes fossilizados dentro de seus corpos (Long, 1995).

Sem título

Baleia Jubarte engole pelicano. Neste caso, posteriormente, o pelicano saiu da boca da baleia

A tafonômia estuda todas essas situações em que a fossilização ocorreu, como ocorreu e quais foram os cenários que contribuíram para tal processo. Não é de espantar que se encontre este tipo de situação. As orcas (Orcinus orca, erroneamente chamada de baleia-assassina) geralmente têm em seu conteúdo estomacal ossos de golfinhos,  leões marinhos, focas,  baleias comunsbaleias-de-minkebaleias-cinzentas ou, mesmo, jovens baleias-azuis.

Em certas situações em alto mar é possível encontrar peixes, baleias e diversas aves disputando por comida e sobrevivência. Já foi visto baleias engolindo pequenas aves.

Quando a baleia efetua aquela subida em direção ao cardume, ela engole vários animais, e os peixes que estão na porção superficial da água acabam sendo atacados por gaivotas. Estas, eventualmente acabam sendo mordidas ou engolidas junto com os peixes, pelas baleias. Desta forma, este tipo de situação é comum e não é de se espantar que tais processos ocorram.

Quanto a sedimentação, fossilização e suas condições, já foi demonstrado como tal processo pode ocorrer em meio oceânico. De fato, o processo também explica como tecidos não-resistentes de invertebrados foi fossilizado. Este é o caso da Dickinsonia sp, Leanchoilia sp e de muitos exemplares da fauna Ediacarana.

Um artigo publicado na Proceedings of National Academies of Science e mostra três condições essenciais para cessar a atividade das bactérias decompositoras e favorecer a fossilização; a ausência de oxigênio, a presença de certa concentração de sulfato e a presença de carbonato de cálcio (este último, no caso de tecidos não-resistentes, como os da fauna ediacarana).

A ausência de oxigênio no fundo do mar é um fator fundamental na fossilização. A anoxia pode ocorrer após o soterramento do animal morto na lama do fundo do mar. Isso porque o oxigênio é usado no metabolismo das bactérias. Outra característica é a aparente escassez de sulfato na água do mar. Isso porque existem bactérias que utilizam o sulfato em vez de oxigênio para realizar a decomposição. O sulfato é um constituinte comum na água dos mares modernos. Em muitos ambientes marinhos o sulfato é mais usado pelas bactérias do que o próprio oxigênio na atividade metabólica decompositora.

A presença de carbonato de cálcio em grandes concentrações pode então formar uma barreira de “cimento” que corta o suprimento de sulfato das bactérias que estão atuando na decomposição. As bactérias então morrem e a decomposição é interrompida, assim os processos de fossilização podem ocorrer nos milhares de anos seguintes preservando, inclusive preservando tecidos não-resistentes.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Fosseis, Tafonomia, Placodermes, Baleias, Evolução humana, Biologia evolutiva.

.

Referências

Climatic cycles investigated by sediment analysis in Peking Man’s Cave, Zhoukoudian, China., Zhou, C., Lui, Z., Wang, Y.; Journal of Archaeological Science 27, 2000, pp 101-109
John A. Long. The Rise of Fishes – Armoud fishes and fishes with arms. Johns Hopkins University Press, 1995.
Neves, W. A. Junior, M. J. R. Murrieta, R. S. S. Assim caminhou a Humanidade. Palas Athenas. 2015
Subfossils Collections”. South Australian Museum. Archived from the originalon 2011-06-17. Retrieved 23 January. 2014

 

6 thoughts on “TRÊS EM UM: NENHUMA NOVIDADE PARA A BIOLOGIA EVOLUTIVA.

  1. Divertiu-me muito! Quanto à questão de o Dilúvio estar presente na Babilônia e na Mesopotâmia, isso não é grande coisa, visto que eu ouvi dizer que lendas de um grande dilúvio estão bem espalhadas pelo mundo. Ainda assim, defendo que o Dilúvio foi local, e não global (eu acredito que por global é “toda a região habitada por pessoas”). Também que a Epopeia de Gilgamesh também tem diferenças perceptíveis a olho nu do Dilúvio de Gênesis (obviamente a maior delas é o politeísmo).
    Em relação ao final, eu nunca pensei que baleias de barbatana realmente engolissem aves😉. Isso não é prejudicial para a baleia?

    • Diluvio local sim, pode ate ser, mas curiosamente os diversos relatos de diluvio ao redor do mundo ocorreram em epocas distintas. No hinduísmo ocorreu 2 ou 3 mil anos do povo hebreu existir, nos Incas o dilúvio ocorreu muito depois do relato do diluvio cristão. Certamente são referencias locais e não universais.

      Sim, a epopeia de Gilga mesh tem coisas distintas. Detalhes em relação aos dias de chuva, casais de animais e claro, a perspectiva teologica que nos suméros o Deus Enlil tentou destruir a humanidade por um motivo, no cristianismo o diluvio tem outro significado e outra função. Mas considerando que Abraão, pai das religioes abraâmicas viveu na Cidade de Ur, que era uma cidade suméria onde o relato fervilhava, não me espanta que tenha se inspirado em tal conto para construir uma teologia própria que fundamentou uma concepção monoteista. Mesmo entre judeus e cristãos o conto de Noé tem concepções teologicas distintas. Razão pela qual o filme do Noé (com o Russell Crowe) nos países critãos foi bastante criticado. Isso porque a leitura teológica feita no filme é judaica e não cristã.😉

      • Verdade, nem me passou muito pela cabeça isso na hora (de que são relatos de eventos distintos). Mas, então, tu reconhece Abraão como histórico? Se sim, finalmente achei um ateu coerente! O problema está que a maioria aí diz que Moisés copiou, daí que vocês se contradizem. Mas não há nenhuma razão para Abraão construir uma teologia própria em torno do Dilúvio.
        Eu não cheguei a assistir o filme “Noé”, só ouvi muita crítica da parte de teólogos, por exemplo. Se soubesse que a leitura era dentro de uma cosmovisão judaica, teria me estressado menos.
        Não sei também como que o Épico de Gilgamesh vai descredibilizar o Dilúvio de Gênesis, visto que o segundo é mais coerente do que o primeiro, pelo que pude observar.

      • Acho que abraão existiu sim, mas Moisés não tenho certeza.
        Talvez para Abraão não, mesmo porque ele viveu em uma sociedade politeista e acredito que ele aceitava isto sem problemas, embora sua devoção fosse a um único Deus.
        Moisés já não tenho certeza se existiu, existem algumas criticas a historicidade dele e algumas linhas que demonstram que ele pode ter sido um personagem criado, com muitas semelhanças ao próprio akenathon. Mas ai deixo para os historiadores.

        Bom, eu como biologo e como ex-cristão não vejo coerencia. E ainda que houvesse lógica na concepção do diluvio as evidências não apontam para ele. E claro, ainda pode ser uma concepção regional e ai carece de significado global, inclusive para tomar o cristianismo como a religiao certa e etc e tal!!!.
        Abraço!!

    • Sabe as enchentes que ocorrem de tempos em tempos em certas regioes?
      Sabe-se que muitas religioes começaram com historias orais contadas de geraçao em geraçao e “quem conta um conto aumenta um ponto”, agora minha conjectura: grupos humanos primitivos explicavam(alguns ainda tentam) explicar tudo com deus(es), enchentes ocorrem o tempo todo e o povo pensava que isto era u sinal de furia divina, mas os com o tempo o povo exagera nas coisas e quando as lendas sao compiladas, ja nem se parecem com a explicaçao do povo sobre tal enchente/guerra/praga etc.

  2. Eu me confundi ali na hora, eu quis dizer “Suméria e Mesopotâmia” e não Babilônia🙂😉. Mas vou aproveitar e falar um pouquinho mais sobre isso: o Dilúvio mostrado em Gênesis não está realmente enraizado na mitologia suméria e mesopotâmica por causa das grandes diferenças entre si, mas se levarmos em conta que no passado houve sim um dilúvio de grandes proporções na Mesopotâmia é provável que as culturas próximas iriam saber e documentar isso. Acho difícil de considerar algo metafórico, apesar de o Dilúvio ter um grande significado para os cristãos: Julgamento.

    Abraço!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s