E AGORA, ONDE ENFIAR O Homo naledi?

Um equipe internacional com cientistas da Universidade do Colorado (Denver) e Universidade do Colorado de Anschutz Medical Campus (Aurora) declararam a descoberta de uma nova espécie de hominídeo.  O achado conta com fósseis de 15 indivíduos (adultos de aproximadamente 45 anos e crianças) e mais 1.550 ossos dentro de uma caverna. Aqui, vamos descrever um pouco de suas características o que pode acontecer com a árvore filogenética de nossa espécie.

Esquema da Caverna Ring Star na África

Esquema da Caverna Rising Star na África

Discutir sobre os achados da evolução humana é muito importante para entender como a classificação de nossa espécie é dinâmica. Ao mesmo tempo que novas descobertas trazem luz sobre as transformações evolutivas que ocorreram nos últimos 7 milhões de anos, traz em seu bojo implicações sobre como a árvore de nossa espécie se organizará.

Apesar da empolgação com a descoberta de uma nova espécie é preciso entender onde exatamente ela se encaixa no quebra-cabeça de nossa espécie. Muitos fósseis inicialmente classificados como novas espécies podem acabar agrupadas em variedades de uma mesma espécie que já existia. Isto porque muitas vezes o limite entre uma espécie e outra é muito tênue e gera discordância entre os paleoantropólogos.

Muitas críticas são feitas nesse sentido, no que diz respeito á necessidade de nomear uma espécie a cada descoberta.

Geralmente, uma nova descoberta que desafia os critérios paleantropológicos gera uma classificação de nova espécie, mas isto não é definitivo. A história da classificação dos fosseis da evolução humana é cheia de descobertas que são mosaicos de diferentes espécies, e ás vezes até mesmo de gêneros distintos, e conforme novos achados vão sendo feitos, esses indivíduos mosaicos podem, de fato, constituir uma espécie, ou passam a ser vistos como variedades de uma única espécie com uma amplitude ecotípica razoável. Este é o caso de algumas espécies de Australopithecus, Homo erectus e Homo neanderthalensis.

Portanto, a avaliação de Homo naledi ainda é precoce, mas necessária, pois com mais descobertas ela pode constituir de fato uma nova espécie, tal como é o Homo floresiensis; ou pode ser realocada em uma das espécies já descobertas, visto como uma variedade, tal qual o Homem de Pequim e outros.

Portanto, aqui, vamos fazer um recorte um pouco diferente do convencional dos sites de divulgação, que apenas expõem a nova descoberta. Vamos descrever como se deu tal descoberta, a classificação inicial de Homo naledi e posteriormente analisar casos em que algumas espécies da evolução humana se apresentam como mosaicos e que podem ou não ser atribuídas a variedades de outras espécies já bem determinadas na evolução humana.

Quem é o Homo naledi?

O Homo naledi representa uma nova descoberta á evolução humana. Dentre os achados, há adultos e crianças na caverna que são membros do gênero Homo, mas diferentes dos humanos modernos. A caverna em questão é a Rising Star, no Berço da Humanidade e faz parte do Patrimônio Mundial fora de Joanesburgo, África do Sul.

Ilustração com a distribuição de fósseis, sedimentos, escorrimentos geológicos e tafonômica no interior da Câmara Dinaledi. A distribuição das diferentes unidades geológicas e escorrimentos são mostradas em conjunto com a distribuição de material fóssil.

Ilustração com a distribuição de fósseis, sedimentos, escorrimentos geológicos e tafonômica no interior da Câmara Dinaledi. A distribuição das diferentes unidades geológicas e escorrimentos são mostradas em conjunto com a distribuição de material fóssil.

O sítio e seus fósseis foram descobertos em 13 de Setembro de 2013, dois espeleólogos, Steve Tucker e Rick Hunter, como parte de uma exploração organizada pelo geólogo Pedro Boshoff.

A caverna se tornou foco dos paleoantropólogos desde outubro quando mais de 1200 fósseis de hominídeos foram descobertos e catalogados representando inicialmente 6 de indivíduos. Apenas 20 dos 206 ossos do corpo não foram encontrados na caverna até o fim de 2014 (National Geographic).

Um rico filão de fósseis de hominídeos antigos foi descoberto em uma câmara chamada Dinaledi (classificada como UW-101) cerca de 30 metros abaixo da superfície e acessível a partir de uma fenda longa e estreita de cerca de 18cm de largura. O trabalho de recuperação dos fósseis foi realizado ao longo de um período de 3 semanas por uma equipe de investigadoras; Lindsay Eaves, Marina Elliott, Elen Feuerriegel, Alia Gurtov, Hannah Morris, e Becca Peixotto escolhidas pela sua experiência e espeleologia e perícia.

Constatação do volume cerebral de Homo naledi

Constatação do volume cerebral de Homo naledi Clique para ampliar

A descoberta de H. naledi demonstra uma espécie de tamanho pequeno e com o volume do cérebro reduzido, cerca de 500cm3, próximo ao dos chimpanzés.

As mãos têm características com a de Homo sapiens, para a manipulação de objetos e dedos curvados que são bem adaptados para a escalada, mas a sua posição exata na nossa árvore de família ainda é desconhecida.

A espécie foi apelidada de Naledi devido a uma estrela segundo a língua local de Sesotho na África do sul.

Um dos aspectos mais intrigantes da descoberta é que os corpos parecem ter sido depositados na caverna intencionalmente. Os cientistas há muito tempo acreditam que esse tipo de ritual ou comportamento repetido limitou-se a seres humanos, mas ultimamente evidências tênues de sua presença foram encontradas em sítios atribuídos a Neaderthais.

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Mãos de Homo naledi. Clique para ampliar

Uma pesquisada publicada na PNAS em 2014 por William Rendu demonstra que os achados de neanderthais na caverna francesa La Chapelle-aux-Saints apresenta evidências de sepultamentos intencionais e possivelmente com rituais uma vez que ficou evidente que os corpos foram cuidadosamente dispostos em covas. Agora, este comportamento fica mais evidente se de fato for confirmado em H. naledi (Neves et al, 2015).

Segundo Francisco Marshall, historiador e arqueólogo, professor do Departamento de História da UFRGS a data de sepultamento mais antiga certificada é na Croácia, 130 mil anos. Se for confirmado, que de fato Homo naledi fazia sepultamentos, estaremos estendendo isso em 2,4 milhões de anos. Sepultamento é o grau máximo de cultura nesse ambiente histórico. Para que ele exista, tem de haver uma linguagem e comunicação, e isto exige coordenação de todos esses indivíduos, sistema de códigos, adaptação a um aparelho fonador, e claro, capacidade cognitiva. Simultaneamente, também um sistema de memória cultural que transmita esse conhecimento, logo, instituições, mitos, ritos, narrativas, representações iconográficas. Além disso, concepções metafísicas sobre o post mortem, ou seja, um pensamento abstrato que imagine ser necessário o sepultamento e que o realize ritualmente (PUCRS, 2015).

A equipe de 35 a 40 cientistas liderados por Lee Berger do Instituto de Estudos Evolutivos da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul foi apoiado pela National Geographic Society e da Fundação Nacional de Pesquisa.

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Imagens retiradas durante as escavações. Clique para ampliar

Os pesquisadores ainda vão tentar colocar o Homo naledi em contexto com outras espécies, pois supõe-se que qualquer novo grupo de fósseis deve pertencer a uma espécie existente antes de ser classificado de fato como uma nova espécie. Este tipo de reconhecimento é importante, pois não deixa margem para alimentar a falácia de que os paleoantropólogos classificam novas espécies para aumentar seu próprio currículo/prestígio, ou para fazer propaganda de si mesmos. Existem critérios para classificação de espécies.

Ainda sim, os autores destacam que este achado é diferente de qualquer espécie conhecida, pois enquanto o Homo naledi compartilha aspectos da morfologia craniana e mandibular com Homo habilis, Homo rudolfensis, Homo erectus e Homo sapiens, difere de todos estes táxons no que diz respeito a combinação única da abóbada craniana, que se apresenta como uma característica derivada (apomorfia), e pela morfologia maxilar e mandibular.

O estudo sugere que Homo naledi se assemelha mais a Homo erectus com seu cérebro e corpo pequeno tamanho, embora também se assemelhe muito com Australopithecus, destacando assim sua própria singularidade; um mosaico.

O tamanho do cérebro e o tamanho do dente em hominídeos. A largura vestíbulo-lingual do primeiro molar superior é mostrado em comparação com o volume intracraniano para muitas espécies de hominídeos. Homo naledi ocupa uma posição com o tamanho relativamente pequeno molar (comparável com o Homo) e volume relativamente pequeno intracraniano (comparável ao australopithecus). O intervalo de variação dentro da amostra Dinaledi também é relativamente pequeno, em particular em comparação com a extensa gama de variação dentro de H. erectus lato sensu. As linhas verticais representam o intervalo de estimativas de volume endocranianos conhecidos para cada táxon.

O tamanho do cérebro e o tamanho do dente em hominídeos. A largura vestíbulo-lingual do primeiro molar superior é mostrado em comparação com o volume intracraniano para muitas espécies de hominídeos. Homo naledi ocupa uma posição com o tamanho relativamente pequeno molar (comparável com o Homo) e volume relativamente pequeno intracraniano (comparável ao australopithecus). O intervalo de variação dentro da amostra Dinaledi também é relativamente pequeno, em particular em comparação com a extensa gama de variação dentro de H. erectus lato sensu. As linhas verticais representam o intervalo de estimativas de volume endocranianos conhecidos para cada táxon.

Para complicar um pouco mais a situação, os pesquisadores ainda não sabem a idade exata da espécie. Se esses fósseis forem no Plioceno tarde (3 milhões de anos) ou início do Pleistoceno (aproximadamente 400 mil anos), é possível que esta nova espécie de cérebro pequeno, represente um intermediário entre Australopithecus e Homo erectus. Isso também faria a nova espécie muito antiga.

Entretanto, se os fósseis são mais recentes, levantam a possibilidade de que um membro do gênero Homo de cérebro pequeno no sul da África co-existiu com outra espécies do mesmo gênero , porém, com coeficientes encefálicos que permaneceram evoluindo. Isto acaba levantando perguntados do tipo; como muitas espécies de humano co-existiram? O que levou seu cérebro a se manter com um volume pequeno? Será que suas linhas de descendência foram estendidas para fora da áfrica e depois desapareceram? Será que eles coexistam com os humanos modernos? Será que eles cruzaram entre si? Como os fosseis foram parar dentro desta caverna? Será que no passado ela era iluminada? Ou foram para La devido a sumidouros?

Parte dessas últimas perguntas podem ter sido respondidas. Macro-fósseis de vertebrados, como os de H. naledi ocorrem dentro de sedimentos ricos em argila derivados do intemperismo e silte exógeno, que no presente caso entrou na câmara através de fraturas que impediram a passagem de material mais grosseiro. A câmara estava sempre na zona escura, e não acessível a não-hominídeos (Dirks et al, 2015).

Modificações tafonomicas de superfície. (A) A remoção da superfície do osso expôs várias estrias paralelas na fíbula (UW101-1037), que rodam com o eixo longitudinal principal do osso e são interpretadas como danos causados pela rádula de um gastrópode. (B) A fíbula (UW101-1037) que mostra a remoção da superfície do osso com conjuntos de, uniformemente espaçados, várias estrias paralelas rasas seguem as fibras de colágeno. (C) tíbia (UW101-484) que mostra a remoção da superfície do osso com conjuntos de estrias pouco profundas, que mostram um bordo ondulado liso em conjunto com os poços circulares que variam de 0,1 a 3 mm de diâmetro interpretado como o resultado da ação de larvas do besouro. (D) Tibia (UW101-484) com áreas de remoção de superfície que têm uma borda com linha reta associada com marcas de raspagem interpretadas como dano feito por uma mandíbula besouro. (E) A fíbula (UW101-1037) com conjuntos de, uniformemente espaçados, vários estrias paralelas superficiais orientadas transversalmente em relação ao eixo longo do osso interpretado como danos causados por rádulas de um gastrópode, resultando numa aparência de superfície gravada que expõe estruturas subjacentes. (F) Tibia (UW101-484) mostrando aglomerados de grandes estrias individuais que são variavelmente em forma de seta e, muitas vezes se sobrepõem, interpretadas como dano feito por uma mandíbula besouro.

Modificações tafonomicas de superfície. (A) A remoção da superfície do osso expôs várias estrias paralelas na fíbula (UW101-1037), que rodam com o eixo longitudinal principal do osso e são interpretadas como danos causados pela rádula de um gastrópode. (B) A fíbula (UW101-1037) que mostra a remoção da superfície do osso com conjuntos de, uniformemente espaçados, várias estrias paralelas rasas seguem as fibras de colágeno. (C) tíbia (UW101-484) que mostra a remoção da superfície do osso com conjuntos de estrias pouco profundas, que mostram um bordo ondulado liso em conjunto com os poços circulares que variam de 0,1 a 3 mm de diâmetro interpretado como o resultado da ação de larvas do besouro. (D) Tibia (UW101-484) com áreas de remoção de superfície que têm uma borda com linha reta associada com marcas de raspagem interpretadas como dano feito por uma mandíbula besouro. (E) A fíbula (UW101-1037) com conjuntos de, uniformemente espaçados, vários estrias paralelas superficiais orientadas transversalmente em relação ao eixo longo do osso interpretado como danos causados por rádulas de um gastrópode, resultando numa aparência de superfície gravada que expõe estruturas subjacentes. (F) Tibia (UW101-484) mostrando aglomerados de grandes estrias individuais que são variavelmente em forma de seta e, muitas vezes se sobrepõem, interpretadas como dano feito por uma mandíbula besouro.

As análises tafonômicas dos ossos indica que os indivíduos hominíneos atingiram a câmara completa durante e após a deposição dos ossos. Hominíneos acumulados ao longo do tempo e sedimentos ao longo do chão da caverna foram erodidos deixando evidências preliminares consistentes com a disposição do corpo em um único local (Dirks et al, 2015).

Os depósitos de sedimentos da caverna representam armadilhas que com fósseis de pelo menos 3 milhões de anos, e possivelmente mais, proporcionando uma perspectiva única sobre os ecossistemas Plioceno-Pleistoceno, e como eles evoluíram ao longo do tempo, ou ainda, como o clima e a paisagem mudaram. Nos 3 milhões de anos seguintes os depósitos em cavernas formadas em ambientes muito semelhantes envolvendo acumulações de detritos cone perto de aberturas da caverna foram também encontrados em outros locais da África.

Um estudo tafonômico detalhado do hominídeo permanece em curso, e os resultados iniciais foram fornecidos no artigo original (citado acima e abaixo) ilustrando o contexto mais amplo do perfil dos fósseis. As análises dos processos que afetam o H. naledi foram realizados para descrever a decomposição, intempéries e padrões de fratura, modificações de superfície como resultado de interações ósseas (ou ainda, sua falta de interações), o contexto espacial incluindo padrões esquelético de distribuição (Dirks et al, 2015).

Os dentes encontrados na caverna (n = 179), foram analisados in situ e confirmaram serem de hominíneos. Todos são morfologicamente consistentes entre si. Da mesma forma, todas as amostras ósseas morfologicamente informativas estão claramente hominídeas. Em todos os casos em que vários exemplares estão presentes, eles exibem pouca variabilidade, consistente com uma única amostra de uma única população. Em geral, o achado de H. naledi contém muitos elementos articulados, incluindo epífises de elementos de membro juvenis, e que contém um número elevado de restos dentários e pós-cranial juvenil e infantil. A constatação de que os restos mortais representam 15 indivíduos de hominídeos, é dada pela repetição e presença da folha caduca e elementos dentários adultos (Berger et al, 2015).

Ossos de aves e vários fragmentos de ossos longos que foram "arranjados" em rochas por um desconhecido antes da descoberta da equipe de espeleologia. Cerca de 80 cm.

Ossos de aves e vários fragmentos de ossos longos que foram “arranjados” em rochas por um desconhecido antes da descoberta da equipe de espeleologia. Cerca de 80 cm. Clique para ampliar

Os ossos de aves (UW 101-40) também foram encontrados e representam elementos de membros inferiores (incluindo fêmur, tibiotarso e tarsometatarso) consistente com a vinda de um único indivíduo. Os espécimes de aves faziam parte de um grupo de ossos que haviam sido “organizados” em rochas por um explorador da caverna desconhecido, antes da descoberta da feita pela equipe de espeleologia e são tafonomicamente distintos aos ossos dos hominídeos (Dirks et al, 2015).

Eles não têm padrões de modificação de superfície e de manchas, e são caracterizadas pela adesão de uma película fina de cristais de calcita durante a maior parte da superfície do osso, sugerindo que eles foram depositados mais recentemente. Um pequeno número de isolados (e ainda não identificados) roedores foram encontrados também em conjunto com os restos de hominídeos. A montagem dos fragmentos de ossos de H. naledi e dos animais lá encontrados indicam que a ruptura ocorreu em momentos diferentes na história. Alguns elementos do hominíneo, tais como fragmentos de ossos exibem padrões únicos de intemperismo e modificação de superfície (Dirks et al, 2015).

Exemplos de vestígios tafonômicos gravados em restos de hominídeos. (A) UW101-1288 diáfise da tíbia que mostra evidência de coloração mineral aderindo ao córtex. (B) UW101-419 (crânio A [1]), mostrando óxido de ferro coloração ao redor do ducto auditivo externo. (C) 1040 UW101-312 e fragmentos conjuntos de um eixo tibial, com uma rachadura longitudinal. (D) UW101-1288 diáfise da tíbia que mostra um padrão típico de desgaste em Fase 1 evidenciado por fendas longitudinais finas, sem descamação, deslaminação ou a formação de textura fibrosa. (E) UW101-1074 diáfise da tíbia mostrando mineral manganêse coloração amarela através da diáfise. (F) UW 101-419 Cranium A (1), exibindo linhas marrom escuro, marrom avermelhado e coloração amarela, que se estende por diferentes fragmentos. (G) UW101-498 diáfise da tíbia, mostrando fratura cominutiva pós-mortem por esmagamento preservado por infiltrado sedimentos. (H) UW101-1070 segmento da diáfise da tíbia exibindo padrões de coloração diferencial entre fragmentos minerais conjuntos.

Exemplos de vestígios tafonômicos gravados em restos de hominídeos. (A) UW101-1288 diáfise da tíbia que mostra evidência de coloração mineral aderindo ao córtex. (B) UW101-419 (crânio A [1]), mostrando óxido de ferro coloração ao redor do ducto auditivo externo. (C) 1040 UW101-312 e fragmentos conjuntos de um eixo tibial, com uma rachadura longitudinal. (D) UW101-1288 diáfise da tíbia que mostra um padrão típico de desgaste em Fase 1 evidenciado por fendas longitudinais finas, sem descamação, deslaminação ou a formação de textura fibrosa. (E) UW101-1074 diáfise da tíbia mostrando mineral manganêse coloração amarela através da diáfise. (F) UW 101-419 Cranium A (1), exibindo linhas marrom escuro, marrom avermelhado e coloração amarela, que se estende por diferentes fragmentos. (G) UW101-498 diáfise da tíbia, mostrando fratura cominutiva pós-mortem por esmagamento preservado por infiltrado sedimentos. (H) UW101-1070 segmento da diáfise da tíbia exibindo padrões de coloração diferencial entre fragmentos minerais conjuntos.

Isto quer dizer que a ruptura dos ossos ocorreu relativamente cedo na história deposicional. Em outras situações, fragmentos separados que podem ser remodelados para exibir correspondentes padrões de coloração (por exemplo, na figura F) indicam que ocorreu a ruptura relativamente tarde na história, por desgaste do osso. Isso quer dizer que o individuo tinha permanecido deitado sobre a superfície tempo suficiente para as manchas de minerais serem depositadas. Estes padrões são consistentes com a observação geológica de outras unidades de sedimentação da caverna e mostram como os restos fósseis foram afetados pelo retrabalho no material ósseo sendo re-depositado várias vezes nos últimos milhões de anos.

Os padrões de fratura de ossos secos observados ocorreram devido ao movimento de sedimentos pós-deposição no interior da câmara da caverna e são retrabalhados, bem como os danos involuntários por espeleólogos ou outras pessoas que entraram na câmara e não viram os fósseis (Dirks et al, 2015).

Foi cogitada a hipótese de terem sido mortos por algum predador carnívoro de sua época, mas seria necessário superar os desafios de navegação da zona escura da caverna ao mesmo tempo o transporte de uma grande carcaça hominídeo era feito. Entretanto, com a finalização da primeira etapa do estudo, não foram encontrados nenhum vestígio de dano provocado por carnívoros sobre os restos de H. naledi. Também não foi encontrado qualquer vestígio de carnívoro permanece ou os restos de outros animais de presa prováveis de grande carnívoros (Berger et al, 2015).

A primeira impressão nem sempre é a que fica.

Muitos fósseis inicialmente classificados como espécies novas acabaram sendo reorganizados em espécies que já existiam devido a novas análises e novos achados. Não sabemos se este é o caso do Homo naledi, mas faz-se necessário demonstrar que na história da classificação dos fósseis da evolução humana isto aconteceu mediante as novas descobertas e a constatação de que certas espécies do gênero Australopithecus e Homo tinham muitas variações geográficas (ecótipos). Muitas vezes fósseis não são classificados diretamente dentro de um grupo pré-existente devido á incertezas, uma vez que traços morfológicos chaves para a identificação da do achado são mosaicos ao de outras espécies.

Quando se trabalha com fósseis este tipo de situação pode ocorrer. Ás vezes, esta incerteza se apresenta em níveis taxonômicos maiores. Por exemplo, dentro de primatas ainda se discuti se os fósseis de Carpolestes sp, Purgatorius sp, classificados como Plesiadapformes devem, de fato, ser considerado um grupo separado para designar a origem de primatas, ou se devem ser alternativamente realocados na ordem Scadentia (musaranhos) ou Demoptera (cólugos). Isto ocorre porque apesar dos fósseis terem traços de primatas (barra pós-orbital ausente, número reduzido de pré-molares e grandes dentes incisivos projetados para frente) eles também se parecem com os outros dois grupos (Neves et al, 2015)

Desta forma, alguns caminhos podem ser tomados no futuro dá descrição de Homo naledi, assim como aconteceu com alguns achados da evolução humana. Ele pode complicar ou resolver questões ligadas á origem do gênero Homo.

Um dos casos onde uma espécie foi realocada a uma variedade ocorreu com o Austalopithecus bahrelghazali que foi encontrado no Chade (e no Sul e Leste) por Michael Brunet em 1995. Uma mandíbula incompleta do Vale Rift classificou esta espécie e datou-a em 3,5 milhões de anos. Devido a novos achados notou-se uma semelhança grande com o Austalopithecus afarensis de tal modo que atualmente ela é vista como uma variedade desta última (Neves et al, 2015).

Outro caso envolvendo este grupo ocorreu quando partes de um crânio, mandíbula e fragmentos pós-craniais descobertos em 1999. Com uma capacidade craniana pequena (400cm3) prognatismo facial, caninos grandes, molares grandes, pré-molares robustos (megalodontia) e uma crista sagital ligeiramente pronunciada levou a classificação do hominídeo Australopithecus garhi. Devido a estas características alguns autores preferem classifica-lo como uma variedade de Australopithecus afarensis, outros ainda preferem chama-lo de A. garhi (Neves et al, 2015).

Um caso ainda mais complicado envolve a classificação de alguns fósseis de gêneros distintos, como é o caso de Kenyanthropus platyops (3,5 a 3,2 milhões de anos), Australopithecus anamensis (3,9 a 4,2 milhões de anos) e o gênero Homo (2,4 milhões de anos). É neste ponto da história que, talvez, o Homo naledi tenha significativa importância.

De acordo com a faixa cronológica, fósseis de Kenyanthropus platyops podem ter evoluído diretamente de Australopithecus anamensis ainda que as duas espécies sejam significativamente diferentes, especialmente na morfologia dentária. Segundo algumas pesquisas, existe a possibilidade de K. platyops seja um ancestral tanto da linhagem ancestral de (Paranthropus) quanto de um crânio denominado KNM-ER1470 que é atribuído a um Homo habilis (2,4 milhões de anos), ou seja, o hominíneo mais antigo do gênero Homo.

Para complicar ainda mais a classificação, o Homo rudolfensis também pode ser classificado como uma variedade de Homo habilis. Se essa condição se confirmar, esses grupos poderiam ser classificados como K. platyops e tornaria a radiação adaptativa dos hominíneos ainda mais complexa (Neves et al, 2015).

Um crânio classificado como KNM-ER 1470, apresenta um tamanho craniano reduzido, com volume de 775cm3, face e dentes robustos. Ele tem sido classificado por alguns paleoantropólogos como Homo rudolfensis, por outros como Kenyanthropus rudolfensis devido sua semelhança facial com K. platyops. Como o H. rudolfensis parece ser uma variedade de Homo habilis a classificação fica incerta e complica-se porque H. habilis apresenta um mosaico com características de autralopitecíneos, especialmente nas porções pós-craniais (baixa estatura, braços longos em relação ás pernas, adaptações a ambiente arborícola).

É possível que as variedades morfológicas destes primeiros membros do gênero Homo tenham consolidado a espécie Homo erectus a cerca de 1,9 milhões de anos ainda que a relação exata de cada espécie ainda não esteja estabelecida (Neves et al, 2015).

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A área em vermelho é o provável local onde Homo naledi será alocado, resolvendo (ou não) algumas incertezas

Se o Homo naledi for confirmado genuinamente como uma espécie nova, ele pode tanto aliviar essa confusão causada por características mosaicas entre essas espécies, ou complicar ainda mais o relacionamento delas. Mas isso só era possível saber quando o achado for comparado com os outros fósseis, especialmente a este ponto onde esta o K. platyops e o Homo habilis. É possível que H. naledi preencha o nó da arvore da evolução humana na porção entre Homo habilis e Kenyantropus platyops.

Outro exemplo onde espécies descobertas foram posteriormente realocadas a variedades de uma única espécie esta no próprio Homo erectus. O Homo habilis, que possuía uma grande variedade morfológica (mosaico) com ancestrais certamente deu origem ao Homo erectus, que também apresenta uma grande variedade ecotípica (talvez a maior dentre os achados hominíneos). Com o passar dos anos, fósseis classificados como espécies novas se tornaram variedades de Homo erectus. Algumas variedades de Homo erectus apresentavam características morfológicas e anatômicas muito relacionadas com o Homo sapiens.

EM 1891 Eugéne Dubois descobriu em Java uma espécie de hominíneo, classificado inicialmente como Pithecanthropus erectus. Conforme novos fósseis foram sendo encontrados e mostraram semelhanças grandes com gênero Homo e também por consolidarem uma ampla variedade, a espécie mudou de nome para Homo erectus. Desde então muitas espécies que foram encontradas e classificadas de acordo com o local em que foram feitos os achados, ou de acordo com o papel que tinham para a evolução humana. Ainda sim, foram inicialmente classificadas em novas espécies e posteriormente agrupadas dentro da espécie Homo eretus.

Dentre os exemplos temos o Homo ergaster (ou Turkana boy), que representa o Homo erectus que saiu da África para colonizar a Ásia e Europa a cerca de 1,5 milhão de anos (Neves et al, 2015).

Em 1929 mais de 14 crânios e 100 dentes fósseis de Homo erectus foram encontrados na caverna chinesa Zhoukoudian (Chou Kou Tien) e foi inicialmente classificado como Sinanthropus pekinensis (o Homem de Pequim), posteriormente, com o decorrer das descobertas e análises cranianas e pós-cranianas ele foi enquadrado como uma variedade. Foi classificado como Homo erectus pekinensis. O volume craniano deste hominíneo era próximo ao do Homo sapiens, (respectivamente 1225 cm3 e nossa espécie com 1350 cm3) (Neves et al, 2015).

Em Dmanisi, na República da Georgia David Lordkipanidze encontrou próximo a aldeia Leo Gabunia vários dentes, uma mandíbula e uma mão direita datados em 1,6 milhão de anos (certamente atacado por um tigre-dente-de-sabre, já que fósseis destes animais foram encontrados na mesma camada estratigráfica e a ausência da mão do fóssil hominíneo indica uma predação). Inicialmente classificado como Homo georgicus, também acabou se enquadrou dentro de Homo erectus, sendo o registro mais antigo desta espécie fora da África. Este achado demonstra que a saída do Homo erectus da África ocorreu bem antes do registro de 1,5 milhão de anos atribuído ao H. ergaster.

O Homo erectus também foi encontrado na Europa (Espanha e Itália). Seu registro mais antigo data 1,2 milhões de anos em Sima Del Elefante, na Serra de Atapuerca (mandíbula parcialmente preservada com alguns dentes) se assemelhando a variedade Homo georgicus. Fósseis de animais associados a eles mostram marcas de ferramentas líticas olduvaiensis, característica de H. erectus. Em Atapuerca, no sítio Gran Dolina encontrou-se também fósseis do Homo antecessor (800 mil anos), mas como estão muito fragmentados não foi possível dizer se pertencem ao Homo erectus ou de fato a uma espécie nova. Na Itália, foi encontrado no sítio de Ceprano (900 – 800 mil anos ou 450 pela datação de um crânio por paleomagnetismo) um hominíneo classificado como Homo cepranensis e atualmente é visto como uma variedade de Homo eretus; o Homo eretus cepranensis (Neves et al, 2015).

Outros hominíneos da mesma espécie foram descobertos e re-classificados. O Homo soloensis tem um único exemplar conhecido, retirado do sítio arqueológico das margens do Rio Bengawan Solo, no leste da ilha de Java (Indonésia). Foi inicialmente classificado como Homo javanthropus. Devido às ferramentas encontradas no sítio e muitas de suas características anatômicas, foi classificado como uma subespécie de Homo sapiens (o Homo sapiens soloensis) e considerado o ancestral do moderno dos aborígenes australianos. Contudo, estudos mais rigorosos concluíram que, enquanto muitas subespécies de H. erectus desapareceram do registro fóssil bruscamente 400 mil anos atrás. Argumenta-se que esta espécie em particular seria uma variedade de H. eretus que persistiu até 50 mil anos e foi absorvida por uma população local de H. sapiens na época de seu declínio. Esta afirmação ainda precisa demais achados para se confirmar (Frank Huffman, 2010). Atualmente é classificado como Homo erectus soloensis.

O Homo lantianensis foi inicialmente, em 1964, classificado como uma nova espécie. Seus fósseis foram encontrados no Condado de Lantian, na província de Shaanxi, no noroeste da China. Estima-se ter vivido há cerca de 1,7 milhão de anos e também é considerada uma variedade de H. erectus; o Homo erectus lantianensis (Aigner & Laughlin, 1973).

O Homo nankinensis é também uma variedade de H. erectus, também descoberta na China. Em 1993 foram descobertos dois crânios de um macho e de uma fêmea na caverna Tangshan próximo a Nanquim, sendo datados entre 580 e 620 mil anos de idade (Barnard, 2012). Hoje são chamados de Homo erectus nankinensis.

Homo yuanmouensis é uma variedade de Homo erectus. Foi identificada em 1965 através de dois dentes incisivos encontrados próximo ao vilarejo de Danawu no Condado de Yuanmou na China. Os restos fósseis foram foi datados em cerca de 1,7 milhão de anos. Até pouco tempo era o fóssil mais antigo de ancestral humano achado na China e Leste da Ásia. Com a descoberta de artefatos de pedra, pedaços de ossos de animais exibindo sinais de trabalho e cinzas de fogueiras encontradas nas escavações do local foram re-classificados como Homo erectus yuanmouensis (Pu et al, 1977).

Meganthropus é o nome dado a vários grandes fragmentos de mandíbula e de crânios encontrados em Sangiran e Surakarta em Java Central (Indonésia). O nome científico original Meganthropus palaeojavanicus, e atualmente inválido porque em 2005, uma taxonomica e filogenética dos espécimes que ainda eram (e de certa forma ainda são) incertas, considerá os achados relacionadas com o Homo erectus. Isso se deu porque alguns desses achados foram acompanhados de evidências de do uso de ferramentas Olduvaienses, semelhante ao do Homo erectus. Por esta razão,hoje ele é uma variedade e classificada como Homo erectus palaeojavanicus (Krantz et al, 1995).

Homo tautavelensis, é uma variedade de Homo erectus datado de 450 mil anos de idade, seus fósseis foram encontrados na caverna Arago em Tautavel (França). As escavações começaram em 1964, com a primeira descoberta notável 1969 (Wood et al, 2012). Uma comparação do H. erectus na África e China o Homo erectus tautavelensis está mais perto de primeiros H. sapiens e ja formam um grupo morfologicamente distinto, juntamente com o de outras variedades européias do Pleistoceno Médio: especialmente daqueles encontrados em Steinheim, Swanscombe, e Pontnewydd, que mostram algumas das características mais proximas ao dos Homo neanderthalensis. O Homo erectus de Arago foi encontrado em um piso estalagmite mas não havia sinais de fogo, cinzas, carvão vegetal, pedra queimada, ou argila na caverna (Chippindale, 1986).

Há ainda o Homo gautengensis proposta pelo antropólogo biológico Darren Curnoe em 2010. A espécie é composta de fósseis de hominídeos do Sul da África e que já foram atribuídos ao Homo habilis, Homo erectus/ergaster e mais antigamente, em alguns casos, a Australopithecus. É defendido por Curnoe (2010) como uma das primeiras espécies no gênero Homo, entretanto, muitos ossos ainda mais velhos do que os de Homo gautengensis aguardam estudo e classificação para entender se de fato Homo gautengensis é genuinamente uma espécie nova, ou um Homo erectus (Pickering et al, 2011,).

Todos esses indivíduos foram realocados dentro da espécie Homo erectus viraram variedades (ou subespécies) e foram denominados como: Homo erectus erectus, H. e. georgicus, H. e. lantianensis, H. e. nankinensis, H. e. palaeojavanicus, H. e. pekinensis, H. e. soloensis, H. e. tautavelensis e H. e. yuanmouensis.

Mesmo no grupo dos neandertais há variedades que foram classificadas de uma forma e posteriormente realocadas em uma espécie. Os primeiros neandertais surgiram de uma espécie ancestral em comum com o Homo sapiens, o chamado Homo heidelbergensis. Esta espécie surgiu na África a 600-800 mil anos de anos (talvez 1,3 milhões de anos dependendo do autor) e sua presença na Ásia ainda é bastante debatida. Ele apresenta grande variedade morfológica, herança de seu provável ancestral, Homo erectus.

Os primeiros neandertais (300 mil anos sendo os proto-neandertais datados até 600 mil anos) apresentavam características morfológicas muito próximas a de seus ancestrais diretos H. heidelbergensis tanto quanto de Homo erectus; representando um mosaico, embora apresentassem uma grande expansão tecnológica para fabricação de ferramentas (Acheulense), armas e abrigos. Na África (Norte e Sul) foram descobertos sítios paleoantropológicos datados do Pleistoceno Médio (781 e 126 mil anos).

Há casos em que fósseis não são completamente realocados em uma variedade e podem ser vistos como mosaicos de todos os seus relacionados, no caso de Homo erectus e H. sapiens ou de Homo heidelbergensis e Homo neanderthalensis isto pode acontecer. Não existe uma receita exata para diferenciar neandertais de H. heidelbergensis e um “modelo de duas fases” pode ser adotado para diferencia-los. Geralmente o critério usado é que neandertais tem grande massa corpórea quando comparado com Homo heidelbergensis, robustez e prognatismo médio-facial, reorganização craniana que alterou (neurofisiologicamente e comportamentalmente ) os lobos temporais e occipitais (aumentados) (Neves et al, 2015).

No caso do Homo erectus e Homo sapiens também não há um modelo exato que determina quando “termina” uma espécie e “começa” outra. Em 1976, sítio de Bodo (Etiópia) um crânio bem preservado exibe traços intermediários entre Homo erectus e Homo sapiens. Note que os traços são intermediários e não estamos falando de espécies intermediárias porque a evolução é um continuum que não ocorre visando novas espécies para que sejam intermediárias e catalogadas pelos cientistas. O fato de não entender esse continuum talvez leve as pessoas a tirar conclusões que são erradas sobre a evolução humana, seja na mídia (que é péssima em divulgação de ciência no Brasil), ao tratar espécies recém-descobertas como “elos perdidos” (e isto ficou evidente na divulgação do achado de Homo naledi), ou por pessoas que abraçam movimentos anti-ciência (em especial o movimento anti-evolução, devido questões religiosas).

A repetitiva alegação errada sobre os "elos perdidos" promovida pela pseudociência e grupos de fanáticos religiosos

A repetitiva alegação errada sobre os “elos perdidos” promovida pela pseudociência e grupos de fanáticos religiosos

Diante desses fósseis, que de certa forma se confundem, modelos que explicam a origem do nossa espécie, Homo sapiens podem ser criados. Esses mosaicos deixam o limite de uma espécie e o começo de outra muito tênue. Existem dois modelos principais que explicam a origem de nossa espécie e eles esbarram exatamente na questão do mosaico e características intermediarias.

O primeiro cenário indica que uma população mediterrânea de Homo antecessor seria derivada de Homo erectus. O Homo antecessor então teria dado origem ao Homo rhodesiensis na África e ao Homo heidelbergensis na Eurásia. Não fica claro como o H. antecessor e H. heidelbergensis se relacionam, mas, neste cenário, a espécie humana surgiria na África fruto de Homo rhodesiensis, e os neandertais como fruto de Homo heidelbergensis na Eurásia. Mas como tido anteriormente, não há indicações de Homo heidelbergensis na Ásia.

O segundo cenário, mais conservador, parcimonioso (e adotado) é de que o Homo heidelbergensis ocupava uma vasta extensão (e era morfologicamente diversificado) tendo dado origem ao Homo sapiens e neandertal a partir de subpopulações (proto-neandertais) ainda na África (Neves et al, 2015).

Conclusão

A constatação do Homo naledi é um achado importante para a evolução humana porque destaca um possível relacionamento de um período confuso sobre a origem do gênero Homo. O achado pode iluminar ou confundir um pouco mais uma ramificação da árvore da vida de nossa espécie. Pelo que foi caracterizado inicialmente ele elucida algumas incertezas.

Apesar de ser nomeado como uma nova espécie, e considerando sua possível localização na árvore filogenética, é possível que ele se estabeleça, de fato, como uma nova espécie que faça o intercambio entre Australopithecus (ou Kenyanthropus platyops) e o gênero Homo, bem como pode ser realocado em uma variedade desses mesmos gêneros de tal forma que demonstre uma tendência evolutiva para a solução de um nó da árvore evolutiva humana.

Este tipo de nomeação segue critérios taxonômicos. Os achados fósseis da evolução humana não são encaixados segundos a lógica do “elo perdido” como destaca a mídia ou os movimentos anti-ciência. Tão pouco é uma visão linear da evolução.

Existem critérios a serem preenchidos que podem de fato consolidar Homo naledi como uma espécie nova, ou ser futuramente realocado em alguma espécie já descrita, caso novas evidencias sejam encontradas. Estas duas possibilidades são comuns na evolução humana, pois estão pautadas segundo as evidências. Isto ficou evidente no caso dos Australopithecus garhi, Kenyanthropus platyops, Homo habilis/rudolfensis, Homo erectus e todas suas variedades ecotípicas e no caso dos neandertais.

Não há uma árvore evolutiva finalizada, dogmática, absoluta impressa pela biologia evolutiva, uma vez que novos achados podem levar a reorganização das relações filogenéticas devido ás evidências. Somente novos estudos sobre o Homo naledi vão demonstrar sua datação precisa, seu posicionamento na filogenia e se ele complica um pouco mais ou resolve questões sobre a origem do gênero Homo.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Evolução Humana, Homo naledi, Fósseis, África, Australopithecus, Gênero Homo. 

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