CONCEPÇÕES ERRADAS SOBRE A EVOLUÇÃO HUMANA.

Há alguns meses atrás me deparei com a alegação de um criacionista tentando justificar as falhas da evolução humana. O problema é que suas alegações eram negacionistas, e completamente injustificadas. Sem artigos, e na maioria das vezes, sem nexo algum.

De tal forma que cada um dos tópicos que ele me apresentou fiz questão de clarear. Apesar de achar que isso não teve significado algum para ele, uma vez que seu negacionismo era bem expressivo, fiz questão de selecionar todo o seu argumento, e expor aqui minhas pontuações.

Símios, Antropóides ou Primata de grande porte.

Símios, Antropóides ou Primata de grande porte.

Eis o que foi apresentado:

Anônimo: Entendo as provas da evolução. Elas são:

“Homem” de Java ou Pithecanthropos erectus, descoberto, em 1891, pelo holandês Eugéne Dubois, em Java. Depois descobriu-se que juntou pedaços de esqueleto de homens e macacos.

“Homem” de Piltdown ou Eanthropos Dawsoni, encontrado por Charles Dawson, na primeira década do século XX. Depois descobre-se que eram ossos de macacos limados para darem semelhança aos de humanos.

O “Homem” de Nebraska

Foi encontrado em Nebraska em 1922 APENAS UM DENTE (e os “cientistas” conseguiram desenhar o pai a mãe e os filhos COM ESSE DENTE(INCRÍVEL NÃO??)). amplamente divulgados por Henry Fairfield Osborn; tido como ancestral humano. Depois descobre-se que era de uma raça de porco extinta.

O “Homem” de Pequim ou Sinanthropus Pekinensis

Sua história bem complicada começa em 1921 quando dois molares foram encontrados, provenientes de Chou-Kou-Tien, uma aldeia perto de Pequim. A partir de 1929, o Padre Teilhard de Chardin (o mesmo que é acusado de forjar a fraude de Piltdown) passou a participar das pesquisas na qualidade de conselheiro geológico. Mais tarde, descobre-se que se tratava de uma espécie de animais que foram caçados por humanos normais, e curiosamente, havia, próximo a esses, os fósseis destes.

A mandíbula infantil de Ehringsdorf

Este fóssil foi descoberto em 1916, era apenas uma mandíbula com um dente diferente. Mais tarde, o paleontólogo francês Pierre Legoux, em comunicado à Academia de Ciências de Paris, demonstrou que toda a mandíbula era fraudulenta, tendo sido montada e apresentando flagrantes contradições entre suas partes.

O Ramapithecus

Os primeiros fragmentos fósseis do Ramapithecus foram encontrados em 1915. Mais tarde o Dr. Robert Eckhardt, da Universidade de Pensilvânia, num artigo publicado em 1972 se perguntava se o Ramapithecus poderia ser tido como um ancestral do homem, e respondia: “Se se considera o fator de variabilidade genética, a resposta é não”. Após tantas contradições, o Ramapithecus abandonou a passarela da fama, onde fez curta carreira.

Os Australopithecus

Estes continuam em plena glória, sob o foco dos holofotes da mídia e dos intelectuais materialistas. O primeiro deles foi achado em 1924 por Raymond Dart, que o denominou Australopithecus Africanus. Mais tarde, o célebre anatomista inglês Solly Lord Zuckerman estudou por mais de 15 anos estes fósseis, comparando-os com os ossos de macacos e de homens, e chegou à conclusão que o Australopithecus é macaco!

“Lucy”
Particularmente famoso se tornou o fóssil descoberto, em Hadar, na Etiópia, por Donald Johanson e Maurice Taieb, em 1973. Mais tarde descobre-se que era um fóssil de macaco-aranha.

O Crânio 1470 do Homem do lago Turkana

Em 1968, Richard Leakey descobriu três maxilares fósseis de Hominídeos, junto ao Lago Turkana. Em 1981, surgiu uma primeira divergência. Enquanto Richard Leakey insistia que o Crânio 1470 era o de um Homo Habilis (homem que sofria de microcefalia, defeito genético que ocorre até nos dias de hoje :D). Em debate com Donald Johanson, R. Leakey fez um grande x sobre a árvore genealógica do homem proposta por Donald Johanson em que “Lucy” era a figura principal, e quando este lhe perguntou o que colocava em seu lugar, Leakey escreveu um grande ponto de interrogação. Sobre esta grande divergência, James Lewin, um articulista da famosa revista científica “Nature”, escreveu seu famoso livro “The bones of contention” (“Os ossos da discórdia”), deixando claras as divergências entre os antropólogos evolucionistas em nossos dias. Tal foi o escândalo causado pelo livro de Lewin, que um dos comentadores do livro escreveu que “ao contrário do muitos apregoam, a ‘objetividade’ científica é um mito” (Folha de São Paulo, 1989). Tendo em vista os dados contraditórios entre o Australopitheco “Lucy” e o Crânio 1470, Stephen Jay Gould afirmou: “Que restou de nossa escada, se há três linhagens coexistentes de Hominídeos (A. Africanus, o robusto Australopicineos, e o H. Habilis), nenhum deles derivando claramente do outro? Mais ainda, nenhum dos três desenvolvendo nenhuma força evolucionária durante sua existência na terra: nenhum deles se tronando mais cerebral ou mais ereto à medida que se aproximavam dos dias atuais.” (S. Jay Gould apud D.T. Gish, op. cit. p. 171)..

Por essas razões Stephen Jay Gould passou a acreditar que não houve uma linhagem direta, uma “escada que levasse do animal ao homem diretamente, mas que a evolução se teria dado mais como um arbusto que se ramifica em várias direções do que como uma linhagem direta”.

É um modo de manter o dogma da evolução de pé — como um arbusto — já que a escala evolucionista desabou.

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Desmistificando o argumento criacionista.

Eis aqui minha resposta a tal comentário oferecido pelo criacionista.

Primeiramente não são provas não, são evidências. Segundo, alguns nomes foram trocados e não pertencem mais ao gênero exatamente pela reclassificação em relação a outros que foram sendo achados e foram estabelecendo suas conexões. Por exemplo, O Homem de Java ou Pithecanthropos erectus é o Homo erectus, na qual existem não somente um, mas diversos fósseis, na qual sua transição começa com o H. ergaster. (Vide as evidências ao longo de todo o texto)

A negação a respeito do Pithecanthropos erectus carece de fontes de artigos. Se pegar livros de evolução de Craig Standford, por exemplo, ou de Douglas Futuyama podemos entender o processos de saída do H. ergaster e origem do H. erectus e tantos migrações que ocorreram durante a evolução humana.

Desta lista, apenas dois foram sabotagem, o Nebraska e o Piltdown. Piltdown que foi de fato uma fraude, e não foi Dawson o seu protagonista. O principal protagonista da falsificação foi Pierre Teilhard de Chardin (Veja aqui)

Alias, ele era criacionista assumido que estudou teologia em Hastings, em Sussex (Reino Unido), de 1908 a 1912. Lá, ele sintetizou o seu conhecimento científico, filosófico e teológico, à luz da evolução. Leia seu livro chamado l’Evolution creatrice (A evolução criativa) e vai entender do que se trata.

Quanto ao caso do uso do dente, ainda sim, um dente de um animal pode revelar parte de seu relacionamento filogenético. Um dente, e a morfologia das cuspides podem identificar se um animal é um peryssodactylo ou um artiodactilo, bem como o astragalo, ou o osso em “forquilha” das aves. Não é possível reconstruir a anatomia do animal, mas em certos casos, como um dente, é possível saber até a dieta do animal pela morfologia do dente e claro pelos isótopos da dentina. N

Sinanthropus Pekinensis nada mais é que outro Homo erectus. Foi o primeiro nome científico dado a descoberta, que posteriormente foi modificado por se tratar de um fóssil com características especificas e uma diversidade ampla. Veja mais aqui

Veja o artigo de Paul Rincon (11 March 2009). “‘Peking Man’ older than thought“.BBC News. Retrieved 22 May 2010.

Ehringsdorf é uma mandíbula de Neanderthal, e os paleoantropólogos já tem mais de 300 exemplares encontrados de Neanderthais. Seriam todos falsificações? Me desculpe, mas o registro fóssil de Autralopthecus, H. erectus e Neanderthais é unanimidade no meio acadêmico, são de fato relacionados (em maior ou menor grau) com a espécie humana.
Vide Phenice, T. W.; Sauer, Norman J. (1972). Hominid fossils: an illustrated key (2nd ed.). W. C. Brow

Ramapithecus
Também não foi falsificação, foi reclassificação. A partir de fósseis que foram sendo descobertos, surgiu o Sivapithecus que é um símio. Alias, inicialmente foi dado nomes separados Ramapithecus (para o símio de Rama) e Bramapithecus (para o símio de Brahma), e foram pensados para ser possíveis ancestrais dos seres humanos depois. Este ponto de vista não é mais considerado sustentável, e todos são Sivapithecus. Desta forma, a reclassificação vai retirando os menos semelhantes ou que não tem relacionamento com a linhagem humana. Portanto, não foi farsa, mas sim reclassificação de acordo com as evidências de novos fósseis que demonstram que a cada descoberta a ciência se auto-corrige.
Fonte: Kelley, Jay (2002). “The hominoid radiation in Asia”. In Hartwig, W. The Primate Fossil Record. Cambridge University Press. pp. 369–384.

Australopithecus
Há o A. africanus, A. anamensis, A. afarensis e A. sediba. Todos eles com artigos antigos  recentes e corroborando seu claro relacionamento filogenético.

Sugiro que assista o documentário “O menino de 2 milhões de anos” ou leia os artigos do Ian Tattersal, ou mesmo da The Journalof Human Evolution

(Artigo da Nature de 1938)

“Lucy”
A alegação sobre Lucy esta descontextualizada. Macaco-aranha é um primata das Américas. Lucy é da África. Macacos do gênero Ateles sp são comuns no norte da América do Sul e são macacos, e não símios. Macaco-aranha usa a cauda como 5 membro. Lucy não tem cauda, assim como todos os símios. O tamanho, comportamento também são diferentes, seja na estrutura do osso ou na altura dos indivíduos Australopitecineos
A alometria já demonstra sua falácia (Veja aqui e aqui)
O dimorfismo sexual também era bem expressivo e nem se aproximava de Macacos aranha que estavam em outro continentes e apresentam fósseis muitos mais antigos.

A mandíbula também é característica de símios e não de primatas (Prognatas vs Ortognatas)

Turkana Boy

Continua sendo aceito como um importante imigrante da África para a Ásia através de onde hoje é o Egito, e dando origem ao H. erectus. Esta espécie viveu somente 500 mil anos e conta também com vários exemplares. Ele se aproxima demais ao H. erectus e alguns pesquisadores até o consideram um.

Veja o artigo “Skeleton from west Lake Turkana, Kenya”. Nature 316 (6031): 788–792. (A Nature atesta isto meu caro).

Stephen Jay gould esta certo, e essa cautela em relaciona-los ainda é mantida exatamente porque os registros fósseis ou análises de DNA vão completa-las. A prudência de Gould ainda se faz presente, mas permitiu com que ele concordasse claramente que o homem é somente mais uma dentre tantas espécies de símios de grande porte filogeneticamente relacionadas. Seus livros deixam isso claro, especialmente o “Darwin e os grandes enigmas da vida“.

Os dogmas ficam por conta das religiões e movimentos fundamentalistas como o criacionismo/Design inteligente, que por sinal, são marginalizados pelas academias do mundo todo (inclusive dos EUA, berço do movimento).

Para nós, da ciência, pesquisadores professores, cientistas etc e tal… cabe-nos analisar as evidências segundo o método, respeita-lo para termos paradigmas cada vez melhores e nos afastarmos do dogmatismo e imprudência da ignorância travestida de conhecimento.

 

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Evolução Humana, Australopithecus, Homo erectus, Turkana Boy, Lucy, Piltdown.

8 thoughts on “CONCEPÇÕES ERRADAS SOBRE A EVOLUÇÃO HUMANA.

    • Bom, eu ouvi o argumento da microcefalia em Homo floresiensis e não em Homo habilis. Em nenhum dos casos há respaldo a essas argumentações. Como vc me perguntou do Homo habilis responderei por ele.
      Se fosse um caso isolado talvez. Mas não existe somente um fóssil de Homo habilis. Todos eles são característicos da espécie e não uma exceção a regra da espécie.
      Nenhum deles aponta para casos de microcefalia, e se fosse uma característica deveríamos encontrar ela em todos os especimens. Mas vale ressaltar que a capacidade craniana das espécies de homonineos eram pequenas nos primeiros representantes do gênero homoe nos australopitecineos, de tal modo que ela aumenta gradualmente com o desenvolvimento do gênero Homo.
      Em Homo habilis a capacidade cerebral varia em torno de 582 cm2. Nenhum dos fósseis de H. habilis mostra exceções, a característica cerebral da espécie era em torno desta medida e olha que há vários exemplares. eis aqui alguns:
      – OH 62 : descoberto por Donald Johanson e Tim White em Olduvai Gorge (Tanzania) em 1986
      – KNM ER 1813: Encontrado em Koobi Fora, Quênia por Kamoya Kimeu in 1973
      – OH 24: o Twiggy, com um crânio danificado descoberto em outubro de 1968 em Olduvai Gorge,
      – OH 7: Descoberto por Mary e Louis Leakey em novembro de 1960 em Olduvai Gorge.
      – KNM ER 1805: Encontrado em Koobi Fora, Quênia em 1974.

      Lembrando que ele esta associado a algumas ferramentas líticas, como a Olduvaiense, junto com Homo erectus., então apesar do cérebro com um volume menor (mas não microencefalico, ao menos do ponto de vista clínico) ele tinha capacidade cognitiva de fabricar ferramentas rudimentares como as Olduvaiense. E obviamente, ele não era um homem, humano como pensamos, mas uma espécie do gênero Homo. Na duvida chama de Hominineo!!!😉

  1. Não, o que me deixa triste que existe um monte de fósseis de, hominídeos e tem criacionistas que, não acredita na evolução pó, eu nunca vi evidência de jd do eden, Adão e Eva. E tem pessoas que acredita nisso ninguém merece…

  2. Os esqueletos de todos os Canis lupus familiaris são exatamente iguais né? Não, péra, os chiuauas são de uma espécie diferente do mastim tibetano, ops, errado de novo hahahahah calma, estamos falando de primatas humanos, pega o crânio de um nativo homem angolano, um japonês e um irlandês, serão exatamente iguais, opa, será???

    • Nao sao iguais, mas são parecidos, um estudo de de biologia permite sem ducida alguma notar as diferenças de especie em cranios diferentes.
      O que ocorre é que os cranios dos Homo.sp apresentam ENORMES diferenças em volume cerebral, forma da mandibula, presença ou ausencia de queixo, , tamanho da zona occipital, TODOS os H. sappiens modernos tem caracteristicas comuns que nos permitem determinar a especie como a mesma, isto nao ocorre no H habilis.

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