O PODER DO MITO – A ÁGUIA RENOVADA

Os mitos surgem como narrativas que (geralmente) fazem uso de forças sobrenaturais para justificar ou explicar fenômenos naturais. A espécie humana é evolutivamente inacabada, e sempre buscou, como espécie, aumentar suas chances de sobrevivência e alcançar a idade reprodutiva. Com o desenvolvimento da técnica (ferramentas líticas), as necessidades básicas foram conquistadas e com certa tranquilidade e o homem tornou-se livre para o exercício de sua espiritualidade. Não é a toa que neste momento a humanidade começa a tratar do desenvolvimento de pinturas rupestres e criação de esculturas de deusas Vênus encontradas no Paleolítico.

Mitologia grega

Mitologia grega

Nossas necessidades primordiais foram supridas pelas armas e ferramentas líticas, a técnica deu espaço para o conhecimento, para o entender da natureza e a grande sacada de sua ciclicidade, com a concepção de tempo (passado presente e futuro). Isto deu espaço para a representação abstrata do mundo. Onde? Nas pinturas rupestres, nos sepultamentos com rituais e na criação de estatuas de deusas Vênus ou algo como o Homem-leão, encontrado na Alemanha.

Neste momento surgem os mitos para suprir as três perguntas básicas que tomaram conta do ser: para onde vou? (abstração de futuro), quem sou? E de onde vim? As narrativas surgem para suprir estas questões espirituais do homem e com elas vêm os mitos, ou o poder da palavra; posteriormente a filosofia questionando tudo isto!

Deusa Vênus de Willendorf datada de 24-22 mil anos.

Deusa Vênus de Willendorf datada de 24-22 mil anos.

Confesso que inicialmente fiquei tentado a recusar escrever este texto quando um amigo pediu para que descreve-se sobre o relato da renovação da águia. Quando percebi o quanto as pessoas dão valor a este relato não como mito, mas como uma leitura literal me veio a necessidade de escrever sobre ele. Sim, este mito lido sob a ótica da literalidade é de uma tolice absurda, porque como biólogo e na busca por literatura a respeito de águias não há dado algum que faça tal narrativa valer a pena como um fato que legitima a narrativa.

A ideia da águia renovada é um simples relato inspirado no cristianismo que diz que águias sobem as alturas a partir de uma determinada idade, e passam para um processo auto-mutilatório arrancando seu bico, penas e unhas esperando a renovação de sua vida. Obviamente isto é relatado segundo a leitura de determinados versículos da bíblia. As pessoas não devem divulgar que águias fazem isto porque elas simplesmente não fazem.

A leitura desses relatos deve ser metafórica e contextualizada para ter um valor realmente significativo na vida dos que entendem a mensagem e para evitar disseminar uma mentira para justificar uma crença. Os meios não justificam os fins, especialmente dentro de posturas religiosas.

Do ponto de vista biológico não há qualquer relato que indique que a auto-mutilação leva a um processo de renovação como significado para uma nova vida ou qualquer leitura do tipo. As falhas são obvias. Por exemplo, a narrativa trata de uma águia qualquer e não específica qual das várias espécies de águias se trata. Águias fazem parte da família biológica dos Accipitridae onde estão os abultres e gaviões. No grupo das águias há mais de 120 espécies distintas que podem ser conferidas aqui.

Os accipitrídeos distinguem-se dos falconídeos pelas técnicas de construção de ninhos (muito primitivas nos falconídeos), olhos amarelos, encarnados ou amendoados (por oposição aos olhos castanhos dos falcões) e diferenças na anatomia do esqueleto.

Águia

Águia. Clique para ver os detalhes da ave.

Os accipitrídeos são aves que se alimentam exclusivamente de carne, como predadores ativos ou como necrófagos (como os abutres). Este modo de alimentação reflete-se na estrutura do bico, encurvado e aguçado, e tipo de patas, fortes e terminando em garras bem desenvolvidas.

Os bicos de Accipitridae são fortes e curvados. Em algumas espécies, há um entalhe ou “dente” na mandíbula superior. Em todos Accipitridae, a base da mandíbula superior é coberta por uma membrana carnosa chamado de cere que é geralmente de cor amarela. O tarso de diferentes espécies variam de acordo com a dieta; os de espécies-caça de aves, como gaviões, são longos e finos, enquanto que as espécies que caçam mamíferos de grande porte têm muito mais espessa do tarso, mais forte, e os tarsos das serpentes águias têm escamas espessas para proteger de picadas de animais que eventualmente estão presentes em seus ninhos ou no chão.

Sabe que algumas aves, como araras podem arrancar as próprias penas quanto sujeitas a condições de stress, por exemplo, viver em gaiolas muito pequenas. Tive a oportunidade de observar uma arara-canindé (Ara ararauna) na casa de uma amiga veterinária que estava cuidando do animal a pedido do IBAMA e que estava arrancando suas penas exatamente por viver em um ambiente inadequado. A ideia era dar espaço ao animal para que ele pudesse se sentir seguro e parar de arrancar suas penas, assim como muitas vezes pessoas passam por alguns distúrbios psiquiátricos que desencadeiam a tricotilomania.

Os bicos de águias são desgastados naturalmente em suas atividades comportamentais de caça e manutenção do ninho, mas constantemente se restabelecem, assim como também acontece com os dentes incisivos de hamsters. Não há qualquer relato de águias que repousam em seus ninhos arrancam intencionalmente todas suas penas, seus bicos e suas garras para completar um ritual específico.

Devemos lembrar que nas narrativas mitológicas muitas culturas usam animais como sinais de aviso dos deuses. O jaguar era muito comum na simbologia dos povos sul-americanos, como os Maias; a pomba é um símbolo muito importante para o cristianismo e tem fundamental importância no relato de Noé. A Phenix é uma ave renascida das cinzas. Ganimedes era príncipe de Troia; ao vê-lo, Zeus se apaixonou por sua beleza, disfarçou-se de águia e raptou-o para torná-lo copeiro do Olimpo. Gatos e crocodilos tinham um grande significado ao povo egípcio.

A águia pode ser encontrada, simbolicamente, representando força, grandeza e majestade. Foi muito usada em brasões de exércitos, figurando nos estandartes de Ciro, rei dos Persas, e, mais tarde, durante o segundo consulado de Mário, encimando as lanças como insígnias das legiões. Na simbologia cristã, aparece como possível símbolo de pessoa muito perspicaz, penetrante, que vê longe, superior em inteligência. Representava também Zeus o rei dos deuses na mitologia grega.

São mais de 30 espécies de lêmures em Madagascar, o Indri (Indri Indri) é o maior e mais sagrado e muitas vezes é morto, pois a população local acredita que ele é um mensageiro da morte. A população acredita que se não for morto tal profecia se concretiza. A mesma ignorância que defende estas narrativas de forma literal também pode causar a morte de animais por puro preconceito.

Em alguns lugares, corujas são vistas como anúncios de morte. Na mitologia greco-romana elas eram vistas como símbolo da sabedora graças á deusa Minerva (ou Atena). Na Europa elas são vistas como presságio de morte e bruxaria.

Os urubus também tem a mesma fama de anuncio da morte. Na áfrica as pessoas acreditam que ao matar escorpiões a pauladas eles se tornam pequenos escorpiõezinhos, lenda retirada pelo fato da fêmea levar os rebentos no dorso. As lendas européias dizem pessoas picadas por que aranhas licosideas (Lycosa erythrognatha) dançam tarantela, devido a grande quantidade dessa espécie na cidade de Tarento no sul da Itália.

A obra foi descoberta rota em pedaços, em 1939, no estado alemão de Baden-Württemberg, na caverna de Hohlenstein-Stadel, situada no vale do rio Lonetal, donde a resgatou o arqueólogo Otto Volzing. A antiguidade estimada (por Carbono-14) é de 32.000 anos, o que a faz remontar ao período aurignaciano, como muitas das estatuetas de Vênus paleolíticas.

A obra foi descoberta em pedaços, em 1939, no estado alemão de Baden-Württemberg, na caverna de Hohlenstein-Stadel, situada no vale do rio Lonetal, onde quem a resgatou foi o arqueólogo Otto Volzing. A estátua foi datada em 32 mil anos, o que a faz remontar ao período aurignaciano, como muitas das estatuetas de Vênus paleolíticas.

Na bíblia há uma passagem que também diz que Nossa Senhora, Jose e o menino Jesus saíram do Egito escondidos numa gruta usando teias de aranha como proteção contra os soldados. Morcegos também são constantemente associados a figuras satânicas.

Na Amazônia as pessoas acreditam que os botos-cor-de-rosa durante a noite cantam e hipnotizam as mulheres. Assim elas seguem até a beira do rio onde o boto se transforma em um homem e engravida as mulheres. Os répteis como as cobras simbolizam o demônio graças a mitologia judaica-cristã. Existe a crença de que elas hipnotizam as pessoas. Os sapos são tratados como símbolos de bruxaria e são usados em feitiços.

Todos estes relatos muitas vezes se concretizam por falsos positivos e dão a ilusão de que um animal esta ligado a um determinado fenômeno, profecia ou presságio e que sua presença justifica tal ato de superstição. Animais representam isto porque é da natureza que o homem vai abstrair suas narrativas; é a partir do natural que o homem concebe o mundo sobrenatural.

O que mais surpreende é que as pessoas estão afundadas em uma leitura literal acrítica sem compreender o contexto sócio/histórico/cultura em que essas narrativas foram forjadas e estão replicando uma leitura literal de algo que deveria ser abstrato, estão esquecendo dos aspectos metafóricos e estão correndo irracionalmente a uma leitura feita pelo senso-comum na tentativa de alimentar sua fé e sua espiritualidade ainda que com leituras desregradas. Não há qualquer dado na literatura científica que legitime a narrativa mitológica.

Veja mais aqui.

Victor Rossetti

Palavras chave: Netnature, Rossetti, Mito, Animais, Águia, Homem, Superstição.

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