A HISTÓRIA NATURAL DA MORALIDADE HUMANA: POR QUE SER BOM É UM MILAGRE. (Comentado)

O relato de como os seres humanos aprenderam a ser bom de Michael Tomasello é uma leitura difícil, mas em última análise esclarecedora.

Soldados tendem a lutar guerras não por seu país, mas para seus companheiros Rene Burri / Magnum Photos

Soldados tendem a lutar guerras não por seu país, mas para seus companheiros
Rene Burri / Magnum Photos

A atrocidade terrorista do 11 de setembro em Nova York teve muitas repercussões sociais surpreendentes. Uma das menos esperada foi o aumento da simpatia mostrado por residentes caucasianos da cidade para os afro-americanos, um efeito que persiste até hoje. Taxistas negros entrevistados por pesquisadores dos dois aeroportos da cidade informou que os clientes trataram-os muito mais educadamente após os ataques do que antes.

Sem título

No entanto, os nova-iorquinos de repente não se tornaram mais amigável para todos. Motoristas de táxi do sul da Ásia relataram uma experiência oposta: onde tinham sido   respeitados, agora se sentiam perseguidos.

Um rápido olhar para o líder evolucionista e antropólogo Michael Tomasello em “Natural History of Human Morality” irá dizer-lhe que este fluxo nas normas sociais é uma peça só com a psicologia de grupo. Interesses e identidades dentro de grupos muitas vezes parecem ter influência sobre os de indivíduos. Isto pode parecer irracional, mas no contexto de nossa história evolutiva é tudo menor. Tomasello pretende descrever não só como essas atitudes “nós e eles” evoluiu, mas também como eles chegaram a definir o nosso senso de certo e errado.

Ele começa imaginando o último ancestral comum dos grandes símios e seres humanos, uma criatura do tipo chimpanzé que teria vivido em grupos sociais complexos, suas relações moldadas por uma mistura de cooperação e competição. Uma das suas características reconhecidamente humana foi a forte inclinação para ajudar os outros em necessidade, um comportamento Tomasello está convencido foi impulsionado por simpatia. “Não há razão para acreditar que esses atos de ajuda sejam outra coisa senão um artigo genuíno”, diz ele.
Tomasello esta igualmente convencido de que nosso antepassado primata não teria tido qualquer senso de equidade ou justiça, um ponto que o primatologista Frans de Waal não teria nenhuma disputa de dúvida (os dois foram parceiros por anos).

Mova-se sobre alguns milhões de anos, e encontramos os primeiros seres humanos que tomam este comportamento de ajuda acima em um entalhe de como eles se tornam cada vez mais dependentes de uma maior variedade de indivíduos em seu grupo. O modelo de Tomasello para esta fase são as crianças, que estão fortemente motivadas para ajudar os outros a partir de uma idade jovem – não, ao que parece, porque procuram favores recíprocos, mas fora da genuína preocupação com o bem-estar dos outros.

Tomasello observa: “As crianças pequenas são igualmente satisfeitas tanto quando ajudam alguém em necessidade ou quando vêem que a pessoa a ser ajudado por um terceiro … Isto sugere … a sua motivação não é fornecer ajudar a si mesmos, mas apenas ver que a outra pessoa é ajudada. “a partir daí, ele supõe que os primeiros seres humanos eram provavelmente morais, na medida em que eles tinham um senso de justiça e uma obrigação para com os outros. Mas essa moralidade nascente aplicada somente entre os indivíduos, e não a nível do grupo.

O escalada- da moral em todo o grupo que nós reconhecemos hoje surgiu apenas cerca de 100 ou 150 mil anos atrás, quando grupos maiores de seres humanos começaram a superar a competiçao. A partir de então, a segurança estava em números. Uma vez que ninguém poderia estar intimamente familiarizado com mais de cerca de 150 indivíduos, em qualquer momento (número do famoso Dunbar), os seres humanos daquela época repente precisavam de uma forma de reconhecer outros membros de suas tribos recém-expandidas. A solução: fazer todo mundo conformar, vestindo-se iguais ou adotar comportamentos semelhantes. Identidade cultural, em seguida, tornou-se parte da identidade individual, e uma psicologia moral grupo de espírito seguido. O resto é história.

Tomasello é convincente, acima de tudo, porque ele executou muitos dos estudos relevantes (em chimpanzés, bonobos e crianças) a si mesmo. Ele conclui enfatizando a poderosa influência de grandes grupos culturais sobre os seres humanos modernos, mas esta não é a história toda. Grande parte do nosso comportamento ainda é impulsionado por uma dinâmica de pequenos grupos: soldados tendem a lutar guerras não por seu país, como ele sugere, mas por os seus camaradas de armas. Teria sido interessante ouvir sua opinião sobre a forma como estas diferentes esferas de influência colidem.

Desafio gratificante

O livro pode ser uma leitura desafiadora – se preparar para uso liberal de termos como “co-especifico” e “obrigam ao forrageamento colaborativa”. Vale a pena o esforço, no entanto, porque no final você se sente como uma autoridade de si mesmo.

Tomasello também faz um guia agradável, aparecendo feliz e espantado que a moralidade existe. “É um milagre que somos moral, e não tem que ser dessa maneira. Acontece que, no seu conjunto, aqueles de nós que tomaram decisões na maior parte morais e na maioria das vezes tiveram mais bebês … Devemos simplesmente maravilhar-se e celebrar o fato de que, mirabile dictu (e Nietzsche não obstante), a moral parece ser de alguma forma boa para a nossa espécie, nossas culturas e nós mesmos – pelo menos até agora”.

Os cínicos dirão que é frequentemente o contrário: todos nós estamos fortemente motivados por interesses próprios, e muito preconceito e a maioria das guerras são causadas pela mentalidade in-group/ou-group. Mas para Tomasello, não é nenhuma contradição que motivações egoístas e altruístas coexistam. Além disso, ele observa com alegria, em qualquer situação de nossos “motivos generosos ou igualitários, podem em princípio, prevalecer, como as pessoas demonstram todos os dias quando elas se sacrificar pelos outros”.

Fonte: Science News

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Comentários internos

O comportamento cooperativo favorece a evolução das nossas capacidades cognitivas. Durante o desenvolvimento, as crianças gradualmente constroem suas habilidades cognitivas com base em amplas entradas sociais altruístas de pais atenciosos e outros ajudantes. Muitos pesquisadores acreditam que este é um novo modo de cuidar que simultaneamente coloca os nossos antepassados no caminho para a nossa excelência cognitiva. Quando nossos ancestrais hominídeos começaram a aumentar sua prole de forma cooperativa, lançou as bases para tanto o nosso altruísmo quanto da nossa cognição excepcional.

Grande parte deste assunto esbarra no que o físico Leonard Mlodinow tratou em seu livro “Subliminar”. Partes do sistema nervoso ligadas a recompensa são estimuladas quando realizamos algum ato de cooperação mútua de tal forma que a bondade não é só boa para quem recebe mas é fisiologicamente recompensatória a quem ajuda (Rilling et al, 2002). Faz parte da evolução humana e de mamíferos em geral ser altamente social. De fato, a privação ou rejeição social não traz apenas uma dor emocional, mas constitui o principal fator de risco para a saúde uma vez que afeta nossa estrutura física. Casos de suicídio são comuns devido á rejeição ou exclusão social.

Portanto, a necessidade de interação social foi uma das principais forças motrizes da evolução de nossa espécie.

Um dos indicativos desta afirmação vem da teoria da mente (Theory of Mind, ou ToM);  capacidade de entender o que outras pessoas pensam e sentem. A empatia é um conceito relacionado a ToM, significando a experiência de reconhecimento e compreensão dos estados mentais, incluindo crenças, desejos e particularmente emoções dos outros, frequentemente caracterizada como a habilidade de “compreender o ponto de vista do outro”. Estudos neuro-etológicos de comportamentos animais recentemente desenvolvidos sugerem que mesmo roedores podem exibir habilidades éticas ou empáticas (de Waal, 2007). Teorias neo-piagetianas sobre o desenvolvimento cognitivo mantém que a ToM é um produto da habilidade hipercognitiva dos humanos para registrar, monitorizar e representar seu próprio funcionamento (Demetriou et al, 2010).

Teoria da Mente

Teoria da Mente (ToM).

Nossa tendência a ToM é tão forte que tendemos a buscar entender o que sente ou pensam os animais, ou mesmo formas geométricas inanimadas como fazem os bebes aos seis meses de idade com objetos de madeira. Um exemplo prático disto é a intencionalidade (Dunbar, 2009). Um ser vivo capaz de refletir sobre o seu próprio estado mental poderia desejar, por exemplo, “Quero um pedaço de torta de limão da minha namorada”. Esta intencionalidade é de primeira ordem e nela estão a maioria dos mamíferos. Mas saber sobre si próprio é diferente sobre saber sobre o que o outro. A intencionalidade de segunda ordem vem quando o pensamento diz que “Acho que minha mãe quer um pedaço da torta de limão que eu fiz”. Uma intencionalidade de terceira ordem pode dar um passo racional adiante sobre o que uma pessoa pensa que a segunda pessoa esta pensando “Ao que parece, minha namorada acha que minha mãe quer um pedaço de bolo que ela preparou”. Inicialmente pode parecer não ter sentido, mas um chimpanzé pode pensar ou sentir que quer uma banana (primeira ordem), ou que seu amigo quer banana (segunda ordem), mas é incapaz de pensar “Meu amigo acha que eu quero banana”. Nos seres humanos a intencionalidade pode chegar ao caráter de terceira ou quarta ordem, e em alguns casos de sexta ordem. Por esta razão os neurocientistas conseguem explicar, por exemplo a relação do tamanho do cérebro (especialmente o neo-córtex) com o grupo social. Por este motivo, o comportamento cooperativo favorece a evolução das nossas capacidades cognitivas, e nossas capacidades cognitivas favoreceu nossa sobrevivência e perpetuação como espécie no desenvolvimento de estratégia e lutas pela sobrevivência. De fato, se observarmos a evolução de nossa espécie Homo sapiens somente nos últimos 200 mil anos notamos que os maiores avanços na luta pela sobrevivência vieram de aglomerações onde houve desenvolvimento não só tecnológico, mas este é resultado do aumento da complexidade social. O registro fóssil deixa isto bem evidente. Todas ás vezes em que o ser humano se aglomerou em grandes grupos sociais houve aumento de complexidade social, novidades cognitivas e tecnológicas expandiram-se. Isto aconteceu primeiramente em alguns pontos isolados da África e posteriormente a partir de 50 mil anos com uma expansão expressiva de pensamento simbólico.

Por exemplo, nas cavernas de Pinnacle Point (África do Sul), datadas em 164 mil anos há evidências de uso de fogo e alimentação de certos frutos do mar que só poderiam ser coletados com a compreensão correta do calendário lunar. Em Qafzeh (Israel) há sepultamentos de indivíduos adultos cobertos de oferendas e adornos com galhada de cervos datados em 100 mil anos. Entre 70 e 50 mil anos, período de expansão da criatividade humana encontramos diversos exemplos na expressão artística, ferramentas mais complexas compostas que se expandiram exatamente devido a socialização em grande aglomerados humanos, que favoreceu não só o compartilhamento de informações mas o desenvolvimento de novas técnicas e tecnologias. De fato, entre 50 e 20 mil anos muitas regiões com recursos escassos criariam sociedades com grupos de ate 30 indivíduos e regiões com recursos abundantes criariam sociedades com grupos de ate 200 indivíduos (Neves et al, 2015).

O texto apresenta dois conceitos importantes dentro da psicologia social, in-group e out-group. Ou seja, o “nós” e o “eles”.

Nós e eles, in-group out-group

“Nós e Eles” ou in-group out-group

Podemos não gostar muito das pessoas de maneira geral, mas nosso subliminar, ou inconsciente (que é super-estimado por Freud e por isto é tão criticado) tende a gostar mais de pessoas in-group. Um experimento perguntou aos participantes qual era a taxa de simpatia que eles tinham por médicos, cabeleireiros, garçons, advogados e etc. Porém, os participantes eram médicos, cabeleireiros e garçons e de modo bem claro membros de um grupo expressaram uma simpatia de cerca de 50% com outros grupos e 70% de simpatia pelo grupo na qual pertencia. O único grupo cujos membros se opuseram a membros do próprio grupo foram os advogados; o que não deveria nos espantar!

O estudo sugere (algo que é bem evidente) que grupos religião, raça, nacionalidade, unidade operacional de trabalho tem uma tendência inata em preferir membros do mesmo grupo, ou in-group. E mais, que membros de um mesmo grupo tendem a superar atributos negativos dos companheiros. Este tipo de associação favorece desde a formação de clubes da árvore da garotada, clube do livro das senhoras que querem aprender a cozinhar como a Palmirinha, até empresários de negócios e políticos (ou quadrilhas de corruptos) e ordens secretas que alimentam teorias de conspiração.

Claro, ao avaliarmos os grupos tendemos a favorecer e dar vantagem aos membros que pertencem aos mesmos grupos que nós, de tal forma a classifica-los entre “Nós e eles”, criando rivalidades do tipo palmeiras e corinthians, esquerda e direita, Montéquios e Capuletos, Hatfield e McCoy e Stark ou Rogers. A hostilidade surge mais prontamente em grupos do que entre pessoas. É comum ver agrupamentos ideológicos políticos ou torcidas organizadas de futebol protagonizando verdadeiras barbáries por pessoas que individualmente não tenham apresentado tendências agressivas. Damos muito significado a categorizações em um sentido muito mais amplo do que elas deveriam receber. Ainda que pensemos de forma bastante igualitária tendemos a essas posturas. Até mesmo o estudo feito com advogados e médicos, quando pediu aos participantes que dessem nota as profissões segundo o nível de criatividade e flexibilidade, ganharam uma nota homogênea, embora as tendências em favorecer in-groups sejam evidentes! Ás vezes não é preciso ter qualquer afinidade com o grupo, mas só de pertencer a ele já lhe garante vantagens.

Por outro lado ações em conjunto com pessoas de diferentes pensamentos e ideias com objetivos em comum que trabalham unidas tendem a criar novos padrões de comportamentos. Isto quer dizer que quanto mais pessoas em grupos considerados tradicionalmente diferentes (como raças, etnias, classe, gênero ou religião) trabalhem juntas, e notam a vantagem deste trabalho, menor será a discriminação umas com as outras (Sherif et al, 1954).

Quem deu uma grande sacada neste sentido foi o filosofo esloveno Slavoj Žižek que destacou que em uma sociedade multiculturalizada, especialmente do ponto de vista religioso, é a melhor estratégia é um estado laico. No Brasil temos grupos que se combatem exatamente pelas categorizações quanto á identidade de gênero e relacionamentos homo-afetivos; buscando de um lado o respeito social e reconhecimento legal, e posturas religiosas que são opostas a esta ideia defendendo uma bandeira de família Parsoniana (Homem, mulher, filho e um cachorro). Neste caso, os grupos enxergam-se como out-groups e um deles leva a certa vantagem; ter apoio político e religioso ao defender sua categorização de grupo que muitas vezes supera a questão do indivíduo e em alguns casos até desumaniza o próximo.

Na história da Alemanha posturas out-group levaram a exemplos extremos. A história do cristianismo viveu os dois lados; cristãos sendo perseguidos massacrados pelo imperador romano Dioclecianos entre 303 e 313 d.c. Após a oficialização do cristianismo como religião principal do império romano por Constantino no Concílio de Nicéia em 325 d.c, temos, pouco tempo depois, o início da Idade Média (476 d.c) onde o cristianismo outrora perseguido passa a ser perseguidor. De fato, as histórias da Antiguidade estão cheias de conquistas gloriosas que hoje seriam classificadas como genocídios. E mesmo antes! A guerra entre caçadores-coletores, ou entre horticultores [agricultores primitivos] é crônica e endêmica. Em povos pré-históricos a agressão entre grupos deixa marcas em seus ossos e muitas vezes podem nãor deixar uma interpretação clara.

Para o psicólogo evolucionista Steven Pinker o mundo esta muito mais pacífico que antigamente. Faz pelo menos 500 anos que o mundo está se tornando um lugar cada vez mais seguro para se viver, e a espécie humana nunca foi tão pouco violenta. Ataques terroristas e guerras civis são meros desvios estatísticos em uma paz que nossos ancestrais achariam quase impensável. Mas vale lembrar que a violência moral pode ser menos evidente que a física, como aqueles que condenam out-groups por serem formados por homossexuais, ímpios ou qualquer um que não esteja alinhado a sua verdade.

Pinker propõe a Teoria das Raízes Profundas aborda não apenas a agressão humana violenta em geral, mas uma manifestação específica dela, envolvendo ataques de um grupo contra o outro. Pinker estabelece que ataques e disputas crônicas caracterizam a vida em um estado natural. Mas um estudo publicado na revista Science fornece evidências contrárias a sua teoria. Fry e Soderberg se concentram em bandos de coletores com grande mobilidade porque se acredita que seu comportamento forneça uma janela para a evolução humana.

Todo fundamentalismo parte de uma ausência de auto-percepção e de auto-avaliação. Os fundamentalistas não conseguem perceber que o que fazem, e o que falam tem efeito nos outros porque o que ele vai lhe apresentar é mais importante do que qualquer outra verdade que já se ouviu. Quando pergunta-se a um fanático se ele sente-se um homem a serviço de Deus, propagador de sua Palavra literal, da Verdade, Aletheia e dos princípios morais, dos valores tradicionais, do defensor da família tradicional, se sente-se como o pregador e transformador do mundo ou um apóstolo do Messias; ele vai se identificar.

Mas ele não enxerga que a introdução forçada de sua crença é algo desrespeitoso, é uma forma de violência, que é preconceituosa ao avaliar o próximo. Porque a postura do próximo diz não esta alinhado com o que ele acredita e prega como fundamento de sua vida; por isto se chama fundamentalismo, e não é só religioso. Então o que o outro diz é mentira, é fraude, é errado, é conspiração para ocultar uma verdade messiânica.

Quando o texto acima destaca que interesses e identidades dentro de grupos muitas vezes parecem ter influência sobre os de indivíduos, ele esta correto. Neste sentido, tanto Tomasello quanto Mlodinow ao definir como o “nós e eles” evoluiu, também mostram como eles chegaram a definir o nosso senso de certo e errado e a distorção dos valores morais. Usemos religiões abraâmicas como exemplo, na qual há uma série de argumentos morais são apresentados para definir uma moralidade objetiva. Mas um caso messiânico como do cristianismo ou do islamismo pode enxergar a conversão forçada ou guerras santas como o certo a ser feito em nome do bom Deus.

O fundamentalista não tolera diferenças, não tolera heterogenia de pensamento á sua visão pré-concebida. Ele é intolerante muitas vezes o Estado neutro, porque laico é uma condição de  um estado de multiculturalismo. Nenhum fundamentalista gosta de multiculturalismo porque não suporta out-groups. Por isso tentam catequizar, converter, batizar, ungir tudo aquilo que não esta em alinhamento com sua pré-concepção. É necessário tornar aquilo digerível. É por isto se catequiza costumes e crenças, para aquilo que era intolerável, passe a estar em concordância (que é diferente da tolerância) com a crença pessoal. É mais fácil catequizar do que respeitar e tolerar o out-group devido nossa tendência muitas vezes patológica em categorizar tudo e defender apaixonadamente nosso in-group.

Dentro da psicologia de Leon Festinge, a ideia do fundamentalista é eliminar a dissonância cognitiva, e não supera-la com o Estado laico, com a tolerância ao out-group; ignora-se as virtudes de grupos alheios. Esta, é aquela pessoa que catequiza, aquele que impõe com o uso da força (física, psicológica ou moral) sua crença pessoal, literal, libertadora, gloriosa, absoluta sob o outro.

No fundo, se analisarmos este texto sob uma perspectiva filosófica, temos novamente o velho dilema entre Hobbes ou Rousseau. No século XVIII Jean Jacque Rousseau escreveu o “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens” em uma época em que ecoava a necessidade de uma reforma social, muitas delas incentivadas por Voltaire. Neste momento acendeu-se um debate entre Rousseau e Hobbes.  Para Hobbes, o estado egoísta e selvagem do homem é o que o faz mau, portanto, viver em sociedade sob o domínio de um regramento social é que torna o homem civilizado. Para Rousseau o que torna homem mau é a sociedade civil, deixando claro que o estado natural do homem é a inocência e felicidade, independente do homem nascer livre. Quando observamos a coisa sob a ótica dos primatologistas, o que eles debatem é a velha ideia de que se o homem nasceu biologicamente determinado para ser mau ou bom.

Talvez uma abordagem comparativa com Frans de Waal seja interessante em relação á violência. Afinal, nós mamíferos, especialmente primatas somos muito mais do que o geneticamente determinados. Carl Sagan em “Dragões do Éden” destaca muito a diferença destes tipos de informações que temos, a genética e nossa capacidade sem igual de absorver uma quantidade de informação extracorpórea, e armazenar no sistema nervoso central recontextualizando quando necessário. De Waal em seu livro “Eu, primata” destaca como chimpanzés e seres humanos são territoriais e tendemos a tratar a vida do intruso com desprezo. Obviamente, isto não justifica que o homem seja biologicamente ou socialmente condicionado a violência. De fato, só explicita que determinados comportamentos podem ser compartilhados. O que sabemos é que guerras são iniciadas por motivos econômico/políticos, ideológicos ou religiosos. Na maioria das vezes os três se combinam (a situação atual do Brasil mostra isto). A justificativa para atentados contra a vida advinda de grupos terroristas (e também pelos americanos) é sempre ideológica, político/econômica e religiosa.

As regras ditadas pela sociedade, as Leis, funcionam como um agente neutralizador de atitudes hostis, sejam elas condicionadas pela sociedade ou pela simples natureza biológica. Neste sentido, contrariando Descartes, em “O Discurso do Método”, se os mandamentos bíblicos realmente funcionassem não precisaríamos criar Leis.

É preciso fazer uma ressalva, uma diferença clara entre explicar determinados fenômenos e justificar determinados atos. Sabemos que chimpanzés muitas vezes armam ataques em grupo, com estratégias claramente bem elaboradas, não só para capturar uma presa, mas para defender seus territórios. Chimpanzés são claramente xenofóbicos.

Isso quer dizer que biologicamente explica-se que os chimpanzés são xenofóbicos e não justifica tais atos. O mesmo devemos pensar a respeito da natureza humana. Cogitando a possibilidade do Homo sapiens ser um guerreiro por natureza, ou mau biologicamente, não é uma justificativa plausível para perpetuarmos tal postura. Isso seria uma descontextualização, redução e transformação de nossa natureza em uma concepção genérica, que é a capacidade de julgar nossos atos, especialmente o de se por no lugar do próximo (como diria o pensador chinês Confúcio). Todas estas constatações dizem somente que a ciência explica o comportamento agressivo do homem diante de determinadas condições esta explicando um fenômeno e não justifica ou legitima atos de barbárie.

De Waal faz um comparativo interessante entre humanos e chimpanzés, uma vez que em situações de conflito e guerra tendemos, assim como os chimpanzés, a tratar o inimigo como se fosse de outra espécie. De fato, isso foi usado no nazismo, em Ruanda na guerra étnica entre os Hutus e Tutsis, Sérvios e Croatas com muçulmanos da Bósnia e até técnicas psicológicas do exército americano em desumanizar o inimigo na guerra contra o terrorismo.

De Wall parece justificar que a guerra é uma condição biológica, mas na verdade não o faz. De fato, ele mostra que tal comportamento surge como uma opção, onde o impulso é dado quando surge conflito entre interesses de grupos étnicos distintos em chimpanzés.

Possivelmente algo parecido ocorre conosco como espécie que compartilha uma ancestralidade comum. Sendo assim, existe a possibilidade de que o impulso a violência seja condicionado por motivos sociais ou ainda, que aspectos individuais determinem tais comportamentos. Nem a genética ou o condicionamento social podem definir o caráter ou a personalidade de uma pessoa, sendo assim, tendência á violência pode constituir algo ligado a identidade de uma pessoa. De Waal ainda ressalta que o termo guerra é algo bastante recente, afinal, os primeiros conflitos que o ser humano passou a ter foi com membros do próprio grupo, depois conflitos intergrupais e posteriormente a guerra com armamento específico e conflito de interesses entre nações. Outra questão é, não podemos determinar que nossa espécie é naturalmente violenta quando vemos que bonobos, que também são evolutivamente próximos a nós (e temos cerca de 3% de nosso DNA mais próximo a  eles do que chimpanzés), apresentam comportamentos pacifistas. De fato, bonobos resolvem conflitos sociais sem a necessidade do uso da violência (e sim com sexo), o que mostra que tais comportamentos não precisam ser necessariamente ditados por um regramento biológico ou social, mas parece ser algo multifatorial, ou muito provavelmente, cada sociedade alcança um equilíbrio entre a harmonia dos grupos ou a competitividade. Isso quer dizer que poderíamos considerar que o homem em sua natureza profunda é tanto bom quanto mau, e cabe a sociedade e tantos outros fatores condicionar qual status comportamental é adotado.

Chimpanzés, bonobos e primatas em geral conseguem se reconciliar, mediar conflitos expressando compaixão mesmo depois de grandes situações de conflito. Na nossa espécie este comportamento é mais difícil de ocorrer ou de ser mensurado, pois envolve aspectos da educação e da cultural de cada indivíduo. Mas ao que parece, biologicamente somos tanto bons quando maus, dependendo do contexto em que nossas atitudes são expressas.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Moralidade, Psicologia, Sociedade, complexidade Social, Evolução Humana, Altruísmo, In-group, Out-group, Teoria da Mente, Multiculturalismo.

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Referências

de Waal, Franz B.M. (2007), “Commiserating Mice” (Scientific American), 24 June 2007
Demetriou, A., Mouyi, A., & Spanoudis, G. (2010). The development of mental processing. Nesselroade, J. R. (2010). Methods in the study of life-span human development: Issues and answers. In W. F. Overton (Ed.), Biology, cognition and methods across the life-span. Volume 1 of the Handbook of life-span development (pp. 36-55), Editor-in-chief: R. M. Lerner. Hoboken, NJ: Wiley
Dunbar RI.The social brain hypothesis and its implications for social evolution. Ann Hum Biol. 2009 Sep-Oct;36(5):562-72.
Rilling, J, K. David A. Gutman, Thorsten R. Zeh, Giuseppe Pagnoni, Gregory S. Berns, Clinton D. Kilts. A Neural Basis for Social Cooperation. Neuron. Volume 35, Issue 2, p395–405, 18 July 2002
Sherif, M. O. J. Harvey, B. Jack White, William R. Hood, Carolyn W. Sherif. Intergroup Conflict and Cooperation: The Robbers Cave Experiment. 1954

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