IMAGENS DE SATÉLITE DA NASA MOSTRAM QUAIS SÃO OS PAÍSES MAIS POLUÍDOS DO MUNDO. (Comentado)

Imagens divulgadas pela Nasa revelam quais são os países mais poluídos do mundo – e quais partes do globo reduziram ou aumentaram suas emissões nos últimos dez anos.

Nasa mostra, em laranja e vermelho, as áreas mais poluídas em 2014; em azul, aquelas com melhor ar

Nasa mostra, em laranja e vermelho, as áreas mais poluídas em 2014; em azul, aquelas com melhor ar. Image copyright Goddard Space Flight Center l Nasa

Embora ainda estejam entre as áreas com o pior ar em todo o mundo, Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão apresentaram melhora entre 2005 e 2014, de acordo com as imagens da agência espacial americana.

No continente europeu, a queda da poluição chegou a até 50%, como resultado da maior restrição sobre os poluentes, mesmo em meio ao escândalo de fraudes no controle de emissões de veículos que abateu a Volkswagen, gigante do setor automotivo.

No Brasil, os mapas mostram que o quadro geral se manteve similar, ainda longe dos altíssimos lançamentos de gases ocorridos nas regiões mais desenvolvidas do mundo – porém, centros tradicionalmente mais poluídos, como a Grande São Paulo, continuam com altos e preocupantes índices, semelhantes às de outras metrópoles globais.

No mapa acima, de 2005, "área vermelha" era maior nos Estados Unidos e na Europa, mas menor no norte da China.

No mapa acima, de 2005, “área vermelha” era maior nos Estados Unidos e na Europa, mas menor no norte da China. Image copyright Goddard Space Flight Center l Nasa

Desde 2004, a Nasa monitora as emissões em todo o planeta por meio de um instrumento instalado em seu satélite Aura. Entre elas, as de dióxido de nitrogênio, resultado da queima de combustíveis fósseis, principalmente por carros, pela produção de energia e pela atividade industrial.

O gás se transforma no “mau” ozônio ao reagir com compostos orgânicos voláteis, quando exposto à irradiação solar. O resultado dessa mutação é o poluente respiratório mais presente no ar que respiramos – por isso, o dióxido de nitrogênio é usado, em geral, como indicador da qualidade do ar em geral, principalmente nas cidades grandes de países desenvolvidos ou em desenvolvimento.

“Ao monitorar do espaço as emissões de dióxido de nitrogênio, conseguimos ver os efeitos de fatores como a energia, políticas ambientais e até conflitos civis na qualidade do ar ao redor do globo”, afirmou, em comunicado divulgado pela Nasa, o cientista Bryan Duncan, que lidera o estudo no centro de voo espacial Goddard.

Image caption Mudanças na Europa entre 2005 e 2014; quanto mais forte é o azul, maior foi a queda nas emissões. Goddard Space Flight Center l Nasa

Mudanças na Europa entre 2005 e 2014; quanto mais forte é o azul, maior foi a queda nas emissões. Goddard Space Flight Center l Nasa

Onde a poluição cresceu

Em países como China, Índia e parte do Oriente Médio, principalmente na região do Golfo Pérsico, locais cujas economias e atividade industrial estão em expansão, a poluição aumentou.

As imagens da Nasa, porém, mostram um movimento interessante no norte chinês, onde estão as cidades mais industrializadas e a produção de energia se torna cada vez mais intensa. Enquanto a área, em geral, apresentou um aumento considerável da emissão do gás, Pequim, a capital do país, registrou uma considerável redução.

Segundo Duncan, isso é resultado de uma maior pressão da crescente classe média de Pequim por um ar melhor – a metrópole é historicamente considerada uma das cidades mais poluídas do mundo, e imagens constantemente a mostram coberta sob uma nuvem de poeira e com parte de seus habitantes usando máscaras nas ruas.

Image caption Mapa mostra que emissões caíram entre 2005 e 2014 na Síria em guerra (área com manchas em azul) e avançaram no Iraque, que produz muito petróleo (onde há mais marcas vermelhas, à direita). Goddard Space Flight Center l Nasa

Mapa mostra que emissões caíram entre 2005 e 2014 na Síria em guerra (área com manchas em azul) e avançaram no Iraque, que produz muito petróleo (onde há mais marcas vermelhas, à direita). Goddard Space Flight Center l Nasa

Os mapas da agência espacial americana mostram também os efeitos da movimentação demográfica, como a ocorrida por causa da guerra civil na Síria: enquanto os índices de dióxido de carbono caíram consideravelmente no país, principalmente em cidades maiores como a capital Damasco e Aleppo, as emissões cresceram nos países da vizinhança que mais receberam refugiados sírios.

Nos Estados Unidos, embora as emissões tenham sido reduzidas em geral, elas avançaram até 30% em algumas áreas de Estados como o Texas e a Carolina do Norte, onde há intensa produção de petróleo e gás natural.

Áreas "vermelhas", mais poluídas, diminuíram nos EUA entre 2005 (acima) e 2014 (abaixo). Image copyrightGoddard Space Flight Center l Nasa

Áreas “vermelhas”, mais poluídas, diminuíram nos EUA entre 2005 (acima) e 2014 (abaixo). Goddard Space Flight Center l Nasa

Image copyrightGoddard Space Flight Center l Nasa

Goddard Space Flight Center l Nasa

Fonte: BBC Brasil

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Comentários internos

É cada vez mais evidente o papel que o desmatamento, o consumo de combustíveis fóssil associado a uma série de outras atividades humanas insustentáveis se relaciona com a crise ambiental que passamos. Na história recente da química a primeira cogitação de mudanças climáticas veio do francês Jean Baptiste Joseph Fourier que em 1820 calculou que um objeto do tamanho da Terra e sua distância em relação ao Sol deveria consideravelmente ser mais frio do que se o planeta fosse aquecido exclusivamente por efeitos da radiação solar incidente. Após várias análises de diferentes fontes do calor ele publicou artigos entre 1824 e 1827 sugerindo que a radiação solar poderia ser responsável por uma grande parte do calor adicional na atmosfera terrestre e sobre a possibilidade de que a atmosfera da Terra agiria como um isolante térmico. Esta foi a primeira proposta referente ao efeito estufa (Fourier, 1824 e 1827 & Weart, 2008). O trabalho de Fourier foi simples; ele usou a equação de Stefan-Boltzmann (E = σ.T4 / onde E= emissividade) para calcular a entrada e saída de calor. Em termos práticos, ele calculou que 1.367 W/m2 (Watts = Joules por segundo) era o fluxo de entrada de energia na Terra e que a saída deste calor em infravermelho deveria ser ter o mesmo valor, assim, a temperatura do planeta seria constante.

Ao realizar seus cálculos ele obteve a temperatura média do planeta em torno de 19°C (ou 254°K) e notou que a temperatura não correspondia a realidade. Dois cenários poderiam estar acontecendo: ou muito calor estava chegando a terra, ou pouco calor estava sendo emitido de volta ao espaço. Após estudar as variáveis de seus calculos notou o papel dos gases da atmosfera como isolante térmico e considerou-os em seus novos cálculos, tendo no final a temperatura média do planeta em 15°C (ou 288°K). Fourier foi o primeiro a constatar o efeito estufa potencial agente importante na alteração da temperatura média do planeta.

Posteriormente, o escoces John Tyndall constatou em 1863 o que Fourier havia sugerido. Tyndall fez um experimento colocando tubo cm uma vela em uma ponta e detector de infravermelho na outra. Seu experimento consistiu em preencher este tubo com gás carbônico. Ele notou que este gás atuava como um isolante impedindo a passagem de raios infravermelhos constatando o papel dos gases como promotor da manutenção e aumento de temperatura. Para constatar melhor o papel deste gás Tyndall deveria ter medido o ganho de calor global, o que não aconteceu no experimento. A experiência mostrando o absorção de radiação infravermelha pelo dióxido de carbono foi repetida no programa da BBC 2 “Earth: The Climate Wars“.

Em 1896 o famoso químico sueco Svante Gustav Arrhenius (aquele que conceituou ácido, base e sal) descreveu o efeito estufa e propôs a teoria de que mudanças na concentração de CO2 da atmosfera poderiam afetar a temperatura na superfície da Terra. Ele estimou que, dobrando a quantidade de CO2, haveria um aumento de temperatura da ordem de 4 a 6°C. Na década de 1930, G. S. Callendar sugeriu que o aquecimento global verificado a partir de 1860, quando as medições meteorológicas passaram a ser feitas rotineiramente, poderia ser conseqüência do aumento do CO2 na atmosfera. Opinião semelhante também surgiu nos anos 50, mas não foi levada suficientemente a sério pela maioria dos cientistas da época. Em 1957, foi incorporado ao programa do Ano Internacional de Geofísica um plano para medir o dióxido de carbono na atmosfera. Dois medidores de CO2 foram então instalados: um na Antártida, outro em Mauna Loa, no Havaí. O resultado dessas medições comprovou definitivamente que a quantidade de CO2 na atmosfera estava aumentando. Posteriormente, o pesquisador japonês Manade e o americano Wetherald previram, através de modelos matemáticos de simulação climática, o aquecimento global induzido pelo aumento do CO2.(Ecolnews)

Portanto, a constatação de que os gases emitidos pelo homem tem grande contribuição com a as mudanças climáticas é sugerida de longa data e precede a criação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) de 1988, criado no âmbito das Nações Unidas (ONU) pela iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Hoje os dados a respeito das mudanças climáticas são mais precisos e também mais evidentes. Por exemplo: os cientistas já sabem que o derretimento das geleiras está ameaçando a vida do oceano antártico, que níveis recordes de CO2 anunciam o futuro das mudanças climáticas, ou ainda, que a acumulação de neve no litoral da antártida ocidental aumentou 30% durante o século 20 e que recentemente chegamos a uma concentração de 400ppm do dióxido de carbono.

Mas algo ainda ficou sem resposta; Como a molécula de carbono pode atuar como isolante térmico?

As moléculas de CO2 podem absorver a energia da radiação infravermelha. Ela absorve um fóton infravermelho de entrada (setas amarelas da imagem abaixo). A energia do fóton faz com que a molécula de CO2 a vibre. Pouco tempo depois, a molécula devolve esta energia extra através da emissão de outro fóton e infravermelho mantendo-o dentro da atmosfera, sem dissipar para o espaço. Uma vez que a energia extra foi removida pelo fóton, o CO2 deixa de vibrar.

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Esta capacidade de absorver e re-emitir energia infravermelha é o que faz um gás de efeito estufa CO2 eficaz em reter calor. Nem todas as moléculas de gás são capazes de absorver a radiação Infravermelha. Por exemplo; o nitrogênio (N2) e oxigênio (O2), que constituem mais de 90% da atmosfera da Terra não absorvem fótons e cumprimentos de onda infravermelhos. Moléculas de CO2 podem vibrar de forma que as moléculas de nitrogênio e oxigênio mais simples não podem, o que permite que as moléculas de CO2 para captar os fótons e infravermelho. Os gases de efeito estufa desempenham um papel importante no clima da Terra. Sem gases de efeito estufa, o nosso planeta seria um planeta geóide e gelado. O efeito estufa foi favorável a origem da vida na terra a 4 bilhões de anos, mas sua intensificação nos últimos anos alteram a temperatura média do planeta. Isto força os ecossistemas e sua dinâmica ecológica a se reajustarem a uma nova temperatura global que modifica-se constantemente em “pouco tempo”. Neste processo muitas espécies podem ser extintas. Outros gases de efeito estufa com significativo valor para a climatologia inclui o vapor de água (H2O), o metano (CH4), óxido nitroso (N2O) e ozônio (O3) (Center for Science Education & UCAR, 2012).

Muitos avanços em pesquisa para monitorar as mudanças climáticas foram feitos em 2015 e constataram, por exemplo que regiões ao redor do Ártico podem ter passado de 2°C o aumento da temperatura em 2000 e, se as taxas de emissões não mudarem, as áreas em torno do Mediterrâneo, região central do Brasil e os Estados Unidos podem aquecer cerca de 2°C até 2030.

Esta nova pesquisa publicada na revista Nature liderada pela professora Sonia Seneviratne da ETH Zurich e colegas do Centro ARC da Austrália e da ARCCSS quantificaram as mudança de extremos regionais em um mundo onde as temperaturas médias globais subiram 2°C. A pesquisa mostra extremos de aquecimento em todo o planeta e em áreas sólidas excedem as estimativas, chegando em alguns casos, a um aumento de até 6°C.

Em um cenário, sem o cessar das emissões atuais haveria aumento de 4,4°C no Ártico e 2,2°C na bacia do Mediterrâneo. O aquecimento regional projetado para o Alaska, Canadá, Europa do Norte, Rússia e Groenlândia poderia ter impactos globais, acelerando o ritmo de aumento do nível do mar e da probabilidade de liberação de metano provocado pelo derretimento de gelo e regiões de permafrost. Além da mudança na dinâmica de correntes oceânicas (que afetaria novamente o clima) e claro, poderia afetar também a eficiência e capacidade fotossintética do fitoplâncton.

A diferença entre as temperaturas médias globais e temperaturas extremas regionais sobre a Terra não só tem impactos climáticos diretos mas também indiretos. Por exemplo, para manter a mudanças extremas de temperatura sobre o Mediterrâneo abaixo de um limiar de 2°C, as emissões acumuladas de CO2 teriam de ser restritas a 600 gigatoneladas em vez das atuais 850 gigatoneladas estimadas. Só assim seria possível manter as temperaturas médias globais aumentando até no máximo 2°C.

O aumento das temperaturas médias regionais em todo o mundo, quando as temperaturas médias globais chegar a 2 ° C acima dos níveis pré-industriais. Crédito: De papel da natureza dos autores, as emissões de CO2 admissíveis com base em metas climáticas regionais e relacionados com o impacto

O aumento das temperaturas médias regionais em todo o mundo, quando as temperaturas médias globais chegar a 2 ° C acima dos níveis pré-industriais. Crédito: De papel da natureza dos autores, as emissões de CO2 admissíveis com base em metas climáticas regionais e relacionados com o impacto. Clique para ampliar

Uma das poucas exceções é a Austrália, que é conhecida pelas secas e chuvas com inundações. Para ela, as projeções mostram pouca diferença entre as temperaturas médias globais e uma mudança em suas temperaturas regionais extremas. Segundo a pesquisa, as temperaturas médias globais aquecidas em 2°C em comparação aos tempos pré-industriais equivaleria a um 3°C de aquecimento de extremos de calor na região do Mediterrâneo e entre 5,5 e 8°C de aquecimento para o redor do Ártico. A maioria das massas de terra de todo o mundo verá uma temperatura extrema subir superior a 2°C (Science Daily, 2016).

Por este motivo a comunidade científica passou a discutir novamente a definição de nosso tempo geológico e sugerir o termo Antropoceno devido as mudanças climáticas causada pelo homem (antropos). Embora o marco seja sempre a Revolução industrial, algumas pesquisas sugerem inícios diferentes para o Antropoceno. Há uma recente pesquisa que sugere que as primeiras mudanças climáticas causadas pelo homem começaram a ocorrer após o desenvolvimento extensivo da agricultura ainda no Crescente fértil.

Recentemente um estudo destacou o papel de nativos americanos como protagonistas de eventos de poluição. Muitos estudiosos afirmam que a doença atingiu a população nativa logo após seu primeiro contato com os europeus, e espalhou com tamanha rapidez que deixou impressões digitais sobre o clima global. Outros, no entanto, argumentam que embora tenha sido devastador, o processo foi muito mais gradual, durando muitos anos.

Um novo estudo sugere que ambas as teorias estão erradas. O pesquisador Matt Liebmann, o John e Ruth Hazel Professor da Social Sciences in the Department of Anthropology e sua equipe demonstraram no que é hoje o norte do Novo México, a doença não saiu do local durante o primeiro século após o primeiro contato entre os europeus e os nativos americanos, coincidindo com o estabelecimento de igrejas missionárias.

De acordo com o artigo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences em apenas 60 anos, as populações nativas caíram de cerca de 6500 para menos de 900 em  18 aldeias, representando um despovoamento (com taxa de mortalidade de 87%) muito rápido entre 1620 e 1680. Muitos incêndios florestais também ocorreram neste período. Quando as pessoas estão vivendo nestas aldeias, elas precisam de madeira para seus telhados, se aquecer e cozinhar. Além disso, eles limparam a terra para a pratica da agricultura. Quando pessoas morreram, as florestas começaram a crescer novamente e começou a haver mais incêndios florestais.

Embora ainda haja um amplo debate a cerca do Antropoceno e quando esta nova época começou, vários pesquisadores têm apontado para o ano 1610, quando os registros do núcleo do gelo mostram que os níveis globais de CO2 baixaram drasticamente. Uma das hipóteses a do “Antropoceno Precoce” sugere que os nativos americanos estavam sendo removidos da paisagem em grande escala (inclusive na Amazônia), e já não estavam queimando a floresta para a agricultura, levando a floresta a se re-estabelecer e seqüestrar novamente o carbono. O argumento gira em torno da noção de que o despovoamento das Américas foi tão extremo que deixou a sua marca na atmosfera e do clima em escala global.

Os dados da pesquisa apontam que um período um pouco mais tarde ao das baixas emissões de CO2 provenientes dos núcleos de gelo o despovoamento no sudoeste poderia se intensificar. O sudeste então foi um dos primeiros pontos de contato entre europeus e nativos americanos no que se tornou os EUA, e ainda não tinham experimentado o êxodo catastrófico de 1610, por isso é difícil defender que este acontecimento em qualquer parte do resto da América do Norte, tenha uma data precoce.

A pesquisa então rastreou 18 aldeias americanas nativas usando uma tecnologia a lasers para penetrar na densa cobertura florestal e mapear as antigas aldeias e calcular o volume de cada construção estimando quantas pessoas viviam na área. Usaram também as árvores para rastrear os eventos ambientais que ocorreram. Usando a dendrocronologia eles descobriram que o crescimento das árvores decolou entre 1630 e 1650, indicando que algo aconteceu a estas aldeias para dar origem a essas árvores.

O que ocorreu foi a retirada da população nativa da paisagem. Sem os seres humanos na região para limpar árvores para construir e agricultar, sem o aquecimento da culinária a floresta começou a recuperar esse território, fornecendo, literalmente, mais combustível para incêndios.

Quando observa-se os padrões de incêndios nos anéis de árvores por volta do ano 1620 nota-se que os incêndios eram pequenos e esporádicos. Isso continuou até quase exatamente 1900, quando uma combinação de aumento da pastagem de gado e uma mudança nas políticas de gestão florestal federal americana começaram a suprimir todos os incêndios.

O estudo ainda mostrou que muitos incêndios florestais eram geridos por nativos que viviam em densas concentrações nesses locais (Science Daily, 2016).

Notamos que historicamente causamos problemas ambientais cada vez mais graves, fruto da poluição estabelecida por comportamentos e processos culturais que tem eliminado o carbono da biomassa em forma de gases do efeito estufa através de desflorestamento, queimadas e uso indiscriminado de combustível fóssil.

Uma das áreas ambientais que também estagnou envolvem poluição foi a saúde pública. Cerca de 23% dos países não têm qualquer tipo de tratamento de águas residuais. A pesca do mundo passa por períodos terríveis (predatórios) com a maioria das populações de peixes em risco de colapso e extinção. A poluição do ar tem piorado e é responsável hoje por 10% de todas as mortes, em comparação com os 2% causados pela poluição dos recursos hídricos. Mais de 3,5 bilhões de pessoas (metade da população mundial) vivem em países com níveis inseguros de poluição do ar.

Há também problemas na agricultura. Recentemente o bolsista Rafael Silva que faz doutorado na Escócia pelo projeto Ciência Sem Fronteiras teve um artigo publicado na revista Nature Climate Change na qual apresenta um modelo matemático que liga a demanda por carne e a variação nos estoques de carbono no solo, sequestrado pelas pastagens. Uma maior demanda serve como estímulo para os produtores recuperarem pastagens degradadas e pastagens de melhor qualidade tem mais biomassa abaixo do solo. Mesmo com mais bois na pastagem para atender uma demanda maior o ganho em sequestro de carbono por pastagens melhoradas faz com que as emissões sejam menores. De forma análoga, com a diminuição da demanda, as pastagens degradam e perdem carbono, fazendo as emissões aumentarem (Capes, 2016).

Outro projeto desenvolvido recentemente é sobre o Índice de Desempenho Ambiental (EPI). Uma iniciativa que avalia como 180 países protegem os ecossistemas e a saúde humana, fornecendo uma ferramenta diagnóstica envolvendo políticas públicas para avaliar e melhorar o desempenho em direção a objetivos ambientais. O EPI é produzido a cada dois anos por pesquisadores das universidades de Yale e Columbia, em colaboração com o Fórum Econômico Mundial e com o apoio da Fundação da Família Samuel e a Fundação McCall MacBain. Embora muitos dos problemas ambientais sejam resultado da industrialização, os resultados da EPI mostram que ambas as nações, pobres e ricas, sofrem com graves problemas de poluição do ar, o que é evidente, como visto na reportagem da BBC.

Dezessete novos objetivos de Desenvolvimento Sustentável do tratado de Paris Climáticas foram recentemente adotados pela ONU na tentativa de criar um quadro para reforçar as iniciativas globais para enfrentar os desafios ambientais. A ideia é acompanhar os progressos das metas dos encontros internacionais considerando as pautas da proteção das pescas, qualidade de água doce, agricultura  sustentável, prevenção a perda de espécies promovendo a adaptação às alterações climáticas e gestão de resíduos. O EPI vai identificar pontos cegos dentro de metas políticas existentes a partir de indicadores de biodiversidade como a criação de áreas protegidas que não cruzam as espécies indicando que parques nacionais podem ser ineficazes na proteção de espécies (Science Daily, 2016).

A ideia é encontrar e auxiliar na correção destas falhas e a avaliação da qualidade ambiental nas cidade ou regiões é um incentivo as estratégias de gestão e educação ambiental integradas com as comunidades buscando resultados socioambientais.

A problemática ambiental e a crise societária.

A crise que passamos tem um caráter ética. Como destacou sabiamente um dos ambientalistas mais expressivos de Portugal, o professor e filósofo Viriato Soromenho Marques da Universidade de Lisboa, existe uma “utopia para um mundo sustentável e o que as pessoas esperam é uma receita de soluções práticas para nossos problemas energéticos, de alimentação e transportes”. O professor propõe que hoje defendemos a tese de crise para tudo, entretanto, tudo gira em torno da crise ambiental.

O que é de se esperar, afinal, a crise econômica emerge de um sistema mercantilizador que visa uma progressão capitalista infinita em um planeta com recursos finitos. A crise econômica é fruto de uma crise sócio/ambiental e essencialmente é uma particularidade nossa; portanto é uma crise de caráter e ética.

O professor Viriato destaca um conjunto de particularidades a respeita da crise que passamos. Primeiro, ela é ética, ambiental e puramente planetária. Afinal, notemos, mas a crise econômica e financeira não atinge a Antártida, por exemplo. Oceanos não discutem quedas de bolsa de valores. A segunda caraterística refere-se á modificação da estrutura química da atmosfera que começou há 260 anos, na qual a A BBC destacou bem no texto acima bem como as publicações e defesas de Fourier, Tyndal e Arrhenius. A terceira característica é a irreversibilidade de tais processos; na crise ambiental, quando uma espécie desaparece, ela realmente desaparece. Em quarto lugar, o impacto da crise ambiental na própria estrutura sociopolítica é um elemento de insegurança político-institucional, e vai deixar como legado estados quebrados.

E por último, ela inclui um desafio psicológico de encarar de frente a extrema crise ambiental que passamos, vítima de séculos de nosso próprio descaso e incoerência da forma na qual tratamos os recursos naturais e nossos modos de produção. Isto nos impõe o dilema de aceitar a complexidade da crise tal qual ela é, e que a solução é clara, mudar o modo de vida, os hábitos de consumo, o que comemos e como nos deslocamos.

A crise não cessará com procedimentos tecnológicos por mais eficientes e desenvolvidos que sejam. A ideia não é defender uma postura tecnofóbica, longe disto. Como profissional da área de educação ambiental devo invocar a ideia de que apesar de todo maravilhoso progresso que a ciência faz ele não cessa o problema, cujo centro cai sobre nós mesmos, protagonistas da crise e atores da mudança e da superação dela.

É utópica a ideia de domínio absoluto da natureza defendida Francis Bacon e ideiais iluministas. Infelizmente até hoje vivemos em uma utopia tecno-científica que acredita que a crise ambiental pode ser resolvida com tecnologias. O brilhante físico Stephen Hawking acredita que uma parte da humanidade poderá emigrar para outro planeta. Esta é uma solução mecanicista e do ponto de vista da crise ambiental, é fugir do cerne do problema.

Em 1822, o filósofo Augusto Comte dizia que a humanidade substituiria o domínio do homem sobre o homem pelo domínio do homem sobre a natureza. A ideia era que a maior produção de riqueza, paz e abundância se estabeleceria com o desenvolvimento tecnológico. Quando a ciência se apresentou com esta visão utopia esperava-se também a superação do capitalismo, mas nada disto aconteceu.

Isto não é motivo uma postura anti-ciência ou anti-tecnológica visando rejeitar a ciência e seus respectivos avanços (inclusive o uso de transgênicos que é criticado pelos ambientas ou mesmo o filosofo português Viriato).

Como ressaltou recentemente um amigo que é físico, a ciência não é agente ativo. De fato, não é ela que causa a dominação e alienação, mas sim grupos específicos e seus interesses diversos sobre a sociedade. O sistema capitalista é quem esta determinando o contexto tecnicista e mecanista atual. O capitalista é dominante não porque tem o capital, mas porque domina o sistema de produção (Na Idade Média dominava o sistema pastoril, na revolução industrial o capitalista se tornou burgues dominou a atividade tecnológica cientifica promovendo o êxodo rural, e atualmente o sistema de produção é financeiro. Em todos os casos historicamente verificados, a dominação se deu pelo sistema de produção).

Infelizmente a superação do capitalismo pela ciência foi mercantilizada e catequizada pelo próprio capitalismo. Esta visão esta arraigada até hoje em nossa formação escolar, com cursos tecnológicos que, via de regra, visa á formação de cidadãos que atuem como engrenagens do sistema servindo a interesses específicos.

Esta é a lógica promovida pelo capitalismo e sua visão política direitista, tradicionalista, meritocrata e conservadora. Quando a postura crítica e emancipatória se apresenta na luta contra o tecnicismo promovido pelo sistema capitalista (sistema este que é claramente incompatível com a questão ambiental, e que vê a problemática do clima como empecilho ao crescimento econômico) de interesses individuais e levam ao livre pensar, ao agir coletivamente, a reflexão, o uso da ciência com coerência pensando no bem coletivo, este ensino é taxado de marxismo cultural, no Brasil. Então, qual é o papel da ciência na problemática ambiental?

O conhecimento científico deve indicar o caminho a ser seguido para a solução de problemas identificados, mas não pode ignorar a categoria ambiental como uma categoria social e como um problema que se materializa nos interesses individuais.

Como ciência não é um agente ativo, é notável que o protagonista das guerras e os problemas ético-morais envolvendo ciência e/ou políticas tem como agente ativador o próprio homem. Quem produz a bomba e aperta o botão de detonação é o homem, não a ciência. Einstein ficou profundamente decepcionado quando soube que líderes políticos americanos deram aval para a detonação das bombas de Hiroshima e Nagazaki.

Infelizmente, dentro do contexto atual (especialmente para vertentes pós-modernistas) a ciência fica sujeita a uma visão tecnofóbica, anti-tecnológica onde o esclarecimento vira sinônimo de ditadura e concepções microfisicistas de poder acabam sendo falacionsamente concebidas. A ciência esta sujeita a costumes, cultura, fatores emocionais e políticos. Mas felizmente, ela também esta sujeita á educação (especialmente a Ed. científica) e é altamente dependente do caráter individual, seja no processo de humanização para o uso consciente e coerente da tecnologia, ou no agir educando na conscientização e evitar o uso negativo dela feito por aqueles que seguem ou dão ordens.

É neste ponto que a educação científica e ambiental devem atuar conjuntamente, respeitando os limites. Isto deve ocorrer não só no uso criterioso e coerente da ciência para o bem comum, mas entender que a ciência pode fornecer limitadamente soluções aos efeitos da crise ambiental, pois a solução sempre vai depender exclusivamente de uma profunda mudança no tecido social, individual e na sua dialética. A ciência neste sentido deve nortear medidas que favoreçam a mudança de pensamento. Vimos aqui dados que concretizam empiricamente os efeitos da poluição sobre o clima graças á ciência, que pode fornecer tecnologias que nos auxiliam cotidianamente, mas solução a problemática ambiental depende única e exclusivamente do homem e sua mudança de postura mercantilista, dominada e predatória.

Infelizmente, o professor Viriato se manifesta oposto ao uso de organismos geneticamente modificados (OGMs) pois argumenta-se que seu uso não pode cumprir a promessa de acabar com a fome no mundo. Devemos ter cuidado neste sentido para não confundir uma postura crítica a ciência da anti-tecnológica. Devemos lembrar que o uso de OGMs não se restringe exclusivamente a suprir necessidades nutricionais. O problema da fome do mundo é um problema administrativo fruto da mercantilização da vida humana promovida pelo capitalismo. Mas o uso de OGMs se expressa muito além da questão nutricional e pode ter significativos efeitos no que diz respeito á medicina para a produção de medicamentos, por exemplo. É necessário pensar com critério o uso de OGMs, sempre se pautando em estudos preliminares que tracem um perfil sobre as suas reais vantagens e desvantagens de seu uso, e que seja utilizando coletivamente. Em “Primavera Silenciosa” Rachel Carson condenou o uso indiscriminado de pesticidas (heptacloro, hidrazida maleica, clordano, organofosforados, uretano, arsênico, aldrina, endrina, dieldrina, dicloro-difenil tricloroetano, malatião e paratião) fomentador da extinção de espécie ou de problemas de saúde pública gravíssimos na década de 60, 70 e 80 nos EUA. Ao mesmo tempo demonstrou coerência ao propor o uso correto, em último caso para controle de pragas e defender uma agricultura que preserva as relações ecológicas, sendo esta uma melhor estratégia.

A crise ambiental e social como fruto de um sistema econômico predatório deve ganhar mais críticas com um estudo publicado em janeiro de 2016 com dados de um estudo feito pela Oxfam na qual reflete o exato problema que capitalismo.  O estudo constatou que 1% da população global detém mesma riqueza dos 99% restantes. A Oxfam é organização não-governamental que baseou seu estudo em dados do banco Credit Suisse relativos a outubro de 2015. Também verificou que as 62 pessoas mais ricas do mundo têm o mesmo (em riqueza) que toda a metade mais pobre da população global. A ONG mostrou que das 62 pessoas mais ricas do mundo acumulam o equivalente à riqueza dos 50% mais pobres da população mundial uma concentração de riqueza impressionante que se agrava quando consideramos que em 2010, o equivalente à riqueza da metade mais pobre da população global estava na mão de 388 indivíduos. Infelizmente, há pessoas (alienadas) que não enxergam esses índices como um, defendendo que esta postura é “normal”.

Os dados da pesquisa evidenciam que, contrário ao senso comum, á economia que deveria trabalhar para a prosperidade de todos e para as geração futuras e pelo planeta atua de forma clara e objetiva sob uma perspectiva minoritária, em favor do 1% mais rico.

A ONG ainda verificou que a proporção de riqueza do 1% dos mais ricos vem aumentando anualmente desde 2009; e vale lembrar que este aumento certamente é fruto da crise, pois é notável que períodos de crise econômica são oportunidades para ricos concentrarem mais renda e ficarem ainda mais ricos (BBC, 2016). Novamente, existem pessoas que defendem que isto é “natural”.

A Oxfam sugere que os governos tomem providências para reverter esta tendência de desproporção do capital a partir do estabelecimento de metas que visem a redução da diferença entre o que é pago a trabalhadores que recebem um salário mínimo e o que é pago a executivos. Sugere-se também o fim da diferença de salários pagos a homens e mulheres, e a compensação pela prestação não remunerada de cuidados a dependentes, além da promoção de direitos iguais a heranças e posse de terra para as mulheres, que os governos imponham restrições ao lobby, reduzam o preço de medicamentos e cobrem impostos pela riqueza em vez de impostos pelo consumo.

Em resumo: somente com mudanças sociais é que a crise econômica e ambiental modificará seu panorama, criando um contexto que seja mais sustentável a própria humanidade na tentativa de evitar a repetição da histórica dos nativos americanos. A ideia é minimizar nossa contribuição com os gases do efeito estufa cientificamente constatado e tendo a ciência como indicador do caminho a ser seguido para a solução de certos efeitos ambientais. Entretanto, não podemos ignorar a categoria ambiental que direciona a solução da crise diretamente ao ator principal da mudança, o homem.

Victor Rossetti

Palavras chave: Netnature, Rossetti, Carbono, Poluição, Mudanças Climáticas, Química ambiental, Fourier, Tyndall, Arrhenius, Temperatura Média, Ambientalismo, Capitalismo, Crise ambiental, Educação Ambiental.

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Referências

Fourier J (1824). “Remarques Générales Sur Les Températures Du Globe Terrestre Et Des Espaces Planétaires”. Annales de chimie et de physique [S.l.: s.n.] 27: 136–67.
Fourier J (1827). “Mémoire Sur Les Températures Du Globe Terrestre Et Des Espaces Planétaires”. Mémoires de l’Académie Royale des Sciences [S.l.: s.n.] 7: 569–604.
Weart, S. (2008). The Carbon Dioxide Greenhouse Effect. Página acessada em 27 de maio de 2008.

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