A EPA FINALMENTE ADMITIU QUE O PESTICIDA MAIS POPULAR DO MUNDO ESTA MATANDO ABELHAS – COM 20 ANOS DE ATRASO. (Comentado)

As abelhas estão morrendo em números recordes, e agora o governo admite que um pesticida extremamente comum é parcialmente culpado.

Armando Frazao/Shutterstock

Armando Frazao/Shutterstock

Por mais de uma década, a Environmental Protection Agency (acrônimo EPA em português: Agência de Proteção Ambiental) tem estado sob pressão de ambientalistas e apicultores a reconsiderar a sua aprovação de uma classe de inseticidas chamada de neonicotinóides, com base em um corpo de pesquisas sugerindo que eles prejudicam as abelhas e outros polinizadores em doses pequenas. Em um relatório divulgado, a EPA, basicamente, admitiu o caso.

Comercializado por gigantes químicos europeus Syngenta e Bayer, neonicotinóides são os inseticidas mais utilizados, tanto nos Estados Unidos como mundialmente. Em 2009, a agência iniciou um longo e lento processo de reavaliação-los, não como uma classe, mas sim, um por um (em um total de cinco). Enquanto isso, dezenas de milhões de acres de terras agrícolas são tratados com neonicotinóides a cada ano, e a saúde de colmeias de abelhas dos EUA continua a ser sombria.

A avaliação muito aguardada da EPA focada em como um dos neonicotinóides – da Bayer, mais proeminentes de imidacloprida – afetam as abelhas. O boletim foi tão terrível que a EPA “poderia tomar medidas” para “restringir ou limitar a utilização” do produto químico até o final deste ano (2016), segundo um porta-voz da agência escreveu em um comunicado enviado por e-mail.

Revendo dezenas de estudos realizados por investigadores independentes e financiados pela indústria, a equipe de avaliação de risco da EPA estabeleceu que quando as abelhas encontram imidacloprida em níveis acima de 25 partes por bilhão de um nível comum para neonicotinóides causam danos em campos de fazenda. “Esses efeitos incluem reduções em polinizadores, bem como menos mel produzido”, comunicado de imprensa da EPA.

As culturas mais susceptíveis de expor as abelhas para níveis prejudiciais de imidacloprida são de algodão e cítricos, enquanto o “milho e vegetais de folhas ou não produzem néctar ou têm resíduos abaixo do nível identificado pela EPA.” Observe no gráfico abaixo da USGS que traça a quantidade substancial de imidacloprida que vai para a cultura do algodão dos EUA.

Enquanto isso, o fato de que a EPA diz milho tratadas com imidacloprid provavelmente não prejudicar as abelhas soa reconfortante, mas como os mesmos mostra o gráfico USGS, milho recebe pouca ou nenhuma imidacloprid. (Ela recebe grandes quantidades de outra Neonic, clotianidina, cuja avaliação de risco EPA ainda não foi liberado.)

Enquanto isso, a EPA diz que milho tratado com imidacloprida provavelmente não prejudica as abelhas e soa reconfortante,  mas como os mesmos mostra o gráfico USGS, milho recebe pouca ou nenhuma imidacloprida (Ela recebe grandes quantidades de outro Neonicotinóide, a clotianidina, cuja avaliação de risco da EPA ainda não foi liberado)

A maior safra de todas tratada com imidacloprida é a soja, soja e continua a ser um buraco negro de informação. A avaliação da EPA observa que a soja é “atrativo para as abelhas através do pólen e néctar,” o que significa que poderia expor as abelhas a níveis perigosos de imidacloprida, mas os dados sobre a quantidade do pesticida aparece em pólen e néctar ‘soja são “indisponíveis”, ambos da Bayer e de pesquisadores independentes. Oops. Lembre-se, imidacloprida foi registrado para uso pela EPA desde os anos 1990.

A agência ainda tem de considerar os comentários do público sobre a avaliação abelha que acaba de ser lançado, e ele também tem que completar uma avaliação de risco de efeito de imidacloprida em outras espécies. Além de seu impacto sobre as abelhas, pesticidas neonicotinóides podem também prejudicar pássaros, borboletas e invertebrados transmitidas pela água, segundo estudos recentes sugerem. Depois, há as avaliações dos outros quatro produtos neonicotinóides que precisam ser feitas. Enquanto isso, uma coalizão de grupos ambientalistas apicultores e entrou com uma ação no tribunal federal quarta-feira apontando que neonicotinóides nunca foi devidamente avaliada na sua forma mais utilizada: como revestimentos de sementes, que são então absorvidas pelas culturas.

Fonte: Mother Jones

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Comentários internos

Polinizadores e plantas têm relacionamentos íntimos. Alguns polinizadores dependem exclusivamente de uma planta, ou do néctar de uma determinada flor. Alguns reagem somente a estímulos específicos. Por exemplo, um inseto pode tornar-se ativo quando temperaturas aumentam, enquanto a planta começa a floração e/ou quando a neve derrete.

Muito se sabe sobre a relação entre abelhas e plantas com flores. Então, quando colocamos um em perigo o outro pode acompanhar. Algumas plantas e insetos podem adaptar-se às alterações climáticas em conjunto, mas outros não podem, possivelmente colocando ambas as espécies em risco. Os extremos da precipitação (chuva) e os extremos da seca estão relacionados com o aquecimento global está tendo um efeito muito desagradável sobre como podemos prever o que as abelhas terão no futuro e como podemos responder ao que nossas abelhas vão precisar. Isso significa que as colônias de abelhas podem ser tanto um indicador como uma vítima do aquecimento global (Yale Climate Connections, 2016) e não só dele, mas do desmatamento e da prática da monocultura.

Abelha Jataí (Tetragonisca angustula)

Abelha Jataí (Tetragonisca angustula). Foto: Sergio Buratto

Os polinizadores tem grande importância não somente para a questão da ecologia de ecossistemas, mas têm um papel fundamental na atividade agrícola.

As abelhas e outros insetos polinizadores respondem em média por 24% do ganho em produtividade agrícola em pequenas propriedades rurais (até dois hectares). Os outros 76% estão associados à irrigação e a nutrientes e técnicas de cultivo, de acordo com estudo publicado na revista Science.

Estudos anteriores já haviam ressaltado a importância dos polinizadores para a agricultura e fornecido uma estimativa dos ganhos de produtividade com a polinização por abelhas, equivalente a 10% do valor da produção agrícola.

Em um destes estudos os pesquisadores analisaram o número de polinizadores, a biodiversidade e o rendimento de 33 cultivos dependentes de polinizadores (maçã, pepino, caju, café, feijão, algodão e canola, entre outras) em 334 propriedades pequenas e grandes na África, Ásia e América do Sul durante cinco anos (2010-2014), por meio de métodos padronizados e uniformes.

Nos 12 países analisados, o rendimento agrícola cresceu de acordo com a densidade de polinizadores, indicando que as populações reduzidas de abelhas e outros insetos poderiam ser parcialmente responsáveis pela queda de produtividade (Revista FAPESP, 2016).

Antonio Mauro Saraiva, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Biodiversidade e Computação (Biocomp) e professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), que participou do trabalho de organização, registrou e analisou os bancos de dados. Para as pequenas propriedades, o ganho de produtividade depende da quantidade de polinizadores e não está ligada à diversidade desses insetos na propriedade. Para as grandes fazendas, em contrapartida, a única forma de se tornarem mais produtivas seria aumentar tanto a quantidade de polinizadores quanto a diversidade de plantas e animais na área cultivada.

O estudou destacou que em propriedades pequenas, houve a redução do déficit de polinizadores e que o aumento na produtividade pode ser alcançado apenas com o aumento da quantidade de polinizadores visitando as flores. Já nas grandes propriedades, é necessário ainda aumentar a diversidade de espécies de polinizadores nos cultivos.

Muitas vezes é possível notar que o grau de informação técnica dos produtores é muito baixo e que muitos não sabiam que a visitação das flores por abelhas estava relacionada à produção dos tomates (Revista FAPESP, 2016). Isto é um problema sério, pois constatou-se que aspectos técnicos básicos da ecologia são muitas vezes desconhecidos, se isto de fato ocorre, imagine em áreas onde se faz uso de agrotóxicos que demanda um conhecimento técnico mais específico. Não é surpreendente que muitas vezes o aplicador de agrotóxicos em fazendas no Brasil desconheçam os perigos a própria saúde que a exposição destes agroquímicos provoca. Muitos não usam (ou recebem) qualquer tipo de proteção como já foi denunciado tantas vezes na mídia. Vale lembrar que o Brasil é o país que mais consome agrotóxico no mundo e corresponde a maior da parcela da produção e consumo mundial. Claro, também faz-se necessário destacar que a bióloga Rachel Carson destacou grande parte dos efeitos nocivos aos ecossistemas e a saúde pública na década de 60 em seu livro clássico “Primavera Silenciosa” que foi um marco na problemática ambiental mundial.

Mamangaba ou mamangava (Bombus sp). Foto: Jaroslav Maly

Mamangaba ou mamangava (Bombus sp). Foto: Jaroslav Maly

Neste sentido, tal estudo também abre uma janela de oportunidade de mudança para o novo paradigma da sustentabilidade, por meio da intensificação ecológica da agricultura.

Blandina Viana, da UFBA, pesquisadora responsável pela cultura da maçã da variedade Eva, durante três anos estudou o assunto na Chapada Diamantina, na Bahia. A maçã é uma cultura autoincompatível, portanto, para a produção de frutos, ela requer o plantio consorciado de uma variedade receptora e uma variedade doadora de pólen, sendo os polinizadores essenciais para a transferência dos grãos de pólen. Em seu trabalho ela observou a existência de déficit dos serviços de polinização, afetando negativamente a produtividade da macieira, provocado pela baixa riqueza e densidade de visitantes florais, ou, polinizadores (ABEA, 2016).

Foram realizados também experimentos de adensamento do pomar com colmeias manejadas, para compensar o déficit, com uma única espécie e com duas diferentes espécies de abelhas,  e observou-se que a adição de uma espécie a mais de abelha no pomar foi suficiente para aumentar em  67 % a produção de sementes e 44 % a produção de frutos.

Em outro estudo feito pela EMBRAPA, notou-se que a presença de árvores no campo é vantajosa para preservar e manter abelhas. Trabalhos recentes têm destacado a importância das abelhas para a produção agrícola, indicando déficit de polinização em diversas culturas e revelando o papel fundamental que a vegetação do entorno tem na manutenção do serviço de polinização. Um estudo realizado com três espécies arbóreas comumente utilizadas em Sistemas Agroflorestais (SAF) revelaram que a atratividade dessas espécies como fonte de alimento para abelhas silvestres. Os SAF implantados em 2010 no Sítio Agroecológico da Fazenda Experimental da Embrapa Meio Ambiente, em Jaguariúna (SP) mostrou que as três espécies de arvores observadas ofereceram pólen como o principal recurso para as 359 abelhas observadas em 309 amostragens.

Observações da diversidade, abundância de abelhas e dos recursos por elas explorados durante a floração simultânea de três espécies de árvores: aroeira-pimenteira (Schinus terebinthifolius), escova-de-macaco (Apeiba tibourbou) e urucum (Bixa orellana) mostrou que a abelha-jataí (Tetragonisca angustula) coleta de óleos florais (Ephicaris sp.) e foram as visitantes mais numerosas. Flores de urucum tiveram maior abundância e diversidade de visitantes florais. Suas flores foram visitadas por abelhas que têm capacidade de coletar pólen por vibração – mamangava-de-chão (Bombus sp) e abelhas silvestres do gênero Ephicaris e Oxaea, além de outras que não apresentam esse comportamento, como a abelha africanizada (Apis mellifera) e a jataí.

Na aroeira-pimenteira foram observadas apenas abelhas de pequeno porte, como a jataí, a iraí (Nannotrigona testaceicornis), a abelha africanizada e a mirim (Plebeia sp), sendo jataí a mais abundante e frequente. Essa árvore revelou-se uma fonte atrativa de néctar para essas abelhas, uma vez que não foi observada coleta de pólen em metade das visitas às suas flores.

A planta escova-de-macaco foi a espécie com menor diversidade e abundância de visitantes florais, sendo a abelha silvestre do gênero Oxaea sp a principal visitante, coletando pólen em 100% das observações.

Abelha Iraí (Nannotrigona testaceicornis). Foto: Marcus Vinicius Lameiras

Abelha Iraí (Nannotrigona testaceicornis). Foto: Marcus Vinicius Lameiras

Com este estudo preliminar, a equipe concluiu que essas três espécies arbóreas fornecem recursos alimentares para as abelhas e podem contribuir para a recuperação da diversidade e abundância das abelhas silvestres em agroecossistemas representando uma alternativa economicamente viável e legalmente aplicável em Áreas de Preservação Permanente (APP) e Reserva Legal (ABEA, 2015).

Estas diferenças no rendimento agrícola em sistemas onde se preserva polinizadores tem despertado interesse de pessoas que estudam o futuro do abastecimento de alimentos do mundo no momento em que o crescimento explosivo da população humana que demanda cada vez mais alimentos (embora grande parte deste problema seja de ordem administrativa e fruto do capitalismo selvagem). Alguns pesquisadores estimam que os produtores de alimentos terão de duplicar a produção agrícola até 2050 para manter as necessidades básicas da população humana. Fazendas de baixo rendimento, em média produzem apenas 47% do rendimento do que as de alto rendimento, criando uma lacuna. As pequenas propriedades são especialmente importantes porque mais de 2 bilhões de pessoas dependem diretamente delas para alimentação nas nações em desenvolvimento. Os agricultores podem fazer isso, incentivando os serviços naturais que vêm de um ecossistema local saudável. É possível fazer isto, por exemplo, transferindo ou colocando plantas que atraem polinizador ao lado dos campos de cultivo ou reduzir as aplicações de pesticidas e exposição por polinizadores (Science News, 2016).

Um relatório publicado pela ONU com base em cerca de 3 mil trabalhos científicos concluiu que cerca de 40% por cento das espécies de polinizadores de invertebrados (como abelhas e borboletas) estão enfrentando a extinção. Só no Brasil, cerca de 57 espécies de borboletas correm risco de extinção. (veja mais aqui)

Polinizadores vertebrados (tais como morcegos e aves) ainda estão em uma condição um pouco melhor em comparação, com “apenas” 16% ameaçados de extinção, e há uma tendência de intensificação para mais extinções.

Cerca de 75% das culturas alimentares do mundo dependem da polinização. Eles são importantes contribuintes para a produção mundial de alimentos e segurança nutricional como vimos acima. Segundo a co-Presidente da avaliação Vera Lucia Imperatriz-Fonseca feita pela ONU nossa saúde e economia também está diretamente ligada a eles.

Culturas que necessitam de ajuda de polinizadores incluem café, maçãs, cacau, algodão, mangas e amêndoas, para citar apenas alguns. O valor anual das culturas globais diretamente afetadas pelos polinizadores varia de US$ 235 bilhões a US$ 577 bilhões. Infelizmente o grupo de empresários só aprende certas lições quando começa a doer no bolso, e agem em favor dos recursos naturais por motivos errados.

Abelha Silvestre (Oxaea sp). Fonte: Abelhas do Brasil V

Abelha Silvestre (Oxaea sp). Fonte: Abelhas do Brasil V

O relatório é amplamente baseado em estudos na América do Norte e Europa; com alguns estudos feitos sobre polinizadores na África e na Ásia. Como estratégia de conservação foi lançado o The Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services que opera sob o comando da ONU. A avaliação cita todos estes 3 mil artigos e ainda inclui informações sobre práticas baseadas em conhecimento indígena e local de mais de 60 locais em todo o mundo.

 O declínio das borboletas selvagens, abelhas e outros polinizadores se da principalmente devido a mudanças no uso do solo, práticas de agricultura intensivas e uso de pesticidas, além da invasão de espécies exóticas, doenças, pragas e as alterações climáticas. Outro problema que também vem prejudicando os polinizadores é o declínio de práticas baseadas no conhecimento indígena e local. Estas práticas incluem sistemas tradicionais de cultivo; manutenção de diversas paisagens e jardins; relações de parentesco que protegem polinizadores específicos e culturas e línguas que estão ligados aos polinizadores e que poderiam ser considerados durante as atividades agrícolas citadas anteriormente. Não se trata de voltar a ser uma nação indígena, mas sim da adoção de práticas tradicionais que sabidamente são sustentáveis e benéficas a agricultura. Uma série de medidas podem ser tomadas para reduzir os riscos de perda dos polinizadores além das práticas indígenas, como por exemplo a promoção de uma agricultura sustentável que enfatiza diversos habitats; apoio a práticas tradicionais que gerem rotação de culturas e co-produção entre a ciência e o conhecimento local indígena; redução da exposição a pesticidas (citado anteriormente), incluindo a buscar formas alternativas de controle de pragas alternativas e que adote uma gama de aplicações específicas  incluindo tecnologias para reduzir pesticidas; e claro, melhorar a criação de polinizadores gerenciando controle de patógenos, juntamente com uma melhor regulamentação do comércio e uso de polinizadores em atividades comerciais (NPR, 2016).

Recentemente um novo método para detectar uma ampla gama de pesticidas foi desenvolvido e pode ajudar a salvar as populações de abelhas européias que estão sendo envenenadas com até 57 pesticidas diferentes, de acordo com nova pesquisa publicada no Journal of Chromatography A.

A ameaça ás abelhas é global, só nos EUA, as quedas foram tão dramáticas nas populações de abelhas devido a uma condição chamada de transtorno do colapso da colônia (CCD) que continuam a colocar as culturas em risco. Vários estudos têm mostrado uma ligação entre o uso de pesticidas e morte de abelhas e a União Europeia proibiu o uso de pesticidas neonicotinóides, citados na reportagem acima. De fato, seu uso foi posto em cheque já em 2010 como demonstrado aqui.

O problema é que a relação entre o uso de pesticidas e da morte das abelhas é complexa e a ciência ainda esta tentando descobrir exatamente o que está acontecendo. No novo estudo, os pesquisadores do National Veterinary Research Institute in Poland desenvolveram um método para analisar 200 pesticidas, e ao mesmo tempo, descobrir o que está realmente esta colocando as abelhas em risco.

A saúde das abelhas é um assunto de preocupação pública e global, pois são consideradas criticamente importante para o meio ambiente e agricultura, polinizando mais de 80% das culturas e plantas selvagens na Europa. Com tantos pesticidas atualmente em uso, é difícil trabalhar com os que estão prejudicando as abelhas. Certas combinações de pesticidas, ou a sua utilização a longo prazo pode afetar as abelhas diretamente, mas de diferentes maneiras, seja na questão da biodiversidade ou mesmo na saúde, como já havia destacado Rachel Carson em seu livro.

A maneira de identificar estes pesticidas foi desenvolvida por Kiljanek e sua equipe que usou um método chamado QuEChERS, que é atualmente utilizado para detectar pesticidas nos alimentos. Com esta análise, eles poderiam testar abelhas envenenadas para 200 pesticidas diferentes simultaneamente, bem como vários compostos adicionais criados com os pesticidas. Cerca de 98% dos pesticidas que foram testados são aprovados pela União Europeia. A equipe usou o método para investigar mais de 70 incidentes de envenenamento de abelhas. Seus resultados revelaram 57 diferentes pesticidas presentes nas abelhas. Os resultados irão ajudar a expandir o conhecimento sobre a influência dos pesticidas sobre a saúde das abelhas, e irá fornecer informações importantes para outros pesquisadores para avaliar melhor o risco relacionado com a mistura de produtos fitossanitários utilizados atualmente (Science Daily, 2016).

Uma nova pesquisa oferece algumas das primeiras evidências de que um grupo popular de inseticidas pode estar matando borboletas monarcas jovens. As planta hospedeira da borboleta monarca (Danaus plexippus), a serralha, estão se tornando tóxicas para as borboletas devido a presença dos neonicotinóides.  Na Universidade de Minnesota a entomologista Vera Krischik tratou as plantas serralha com uma quantidade de insecticida imidacloprida encontrado em plantas de quintal. As monarcas adultas e outras borboletas não foram afetados. Parece que os adultos têm a capacidade de desintoxicar, mas, o impacto foi muito grande sobre as lagartas, matando-as.

As lagartas se desenvolvem ao se alimentarem da serralha durante semanas. No estudo, as lagartas foram alimentadas com plantas tratadas durante sete dias. Para a borboleta Vanessa cardui houve lagartas mortes ao fim do seu período de alimentação.

Krischik diz que sua pesquisa mostra um potencial, o risco para as monarcas quando os neonicotinóides são usados em plantas do quintal perto de serralha. Ela não olhou para o impacto das taxas de inseticidas muito mais baixos usados em campos de exploração agrícola.

Neonicotinóides são os insecticidas mais utilizados no mundo. Eles são usados em uma variedade de plantas de jardim, especialmente em rosas. São absorvidos pelas plantas, por isso, quando uma praga da uma mordida de uma folha, também recebe uma dose de inseticida. Quando eles são aplicados ao solo ou em sementes, são absorvidos pelas plantas, juntamente com nutrientes.

Lagarta de borboleta monarca (Danaus plexippus). Foto: Wikipédia

Lagarta de borboleta monarca (Danaus plexippus). Foto: Wikipédia

O inseticida fica nas folhas, flores e pólen, mas também podem se mover através de água no solo ou ar para plantas próximas, como serralha. Uma Lei de Minnesota aprovada em 2014 exige a rotulagem para que os consumidores saibam se as plantas que compram foram tratadas. A pesquisadora tem documentado o perigo para as abelhas que se alimentam de flores de plantas tratadas com insecticida neonicotinóide. Ela também examinou os efeitos de imidacloprida em quatro espécies de joaninhas e descobriu que a alimentação em plantas tratadas reduzia significativamente a sobrevivência de três das quatro espécies.

Enquanto seu trabalho com a monarca ela observou que o uso de inseticidas nos campos agrícolas esta levantando a preocupações semelhantes. Mais de 90% dos campos de milho são tratados com neonicotinóides. Uma grande percentagem de outras culturas como a soja e girassol também são tratados com o insecticida sistêmico.

Os inseticidas neonicotinóides (como a imidacloprida, thiamethoxam e etc) mimetizam a ação do neurotransmissor acetilcolina no sistema nervoso central. Eles não são degradados pela enzima acetilcolinesterase. Assim, eles se encaixam no receptor da acetilcolina na membrana das células pós-sinápticas, abrindo canais de Na+ causando hiperatividade nervosa, seguido de colapso do sistema nervoso. Os mecanismos envolvidos na transmissão de impulsos nervosos em insetos são muito semelhantes àqueles operantes em mamíferos, aves e peixes. Por isso, muitos inseticidas neurotóxicos são tóxicos também a esses organismos não-alvo, incluindo os seres humanos.

Jacob Pecenka, um estudante de graduação que trabalha com USDA cientista Jonathan Lundgren em Brookings, Dakota do Sul, expos borboletas monarca ao neonicotinóide e ao insecticida clotianidina no laboratório. Também amostraram níveis de inseticidas em plantas serralhas selvagens e descobriram que que durante todo o verão havia quantidades detectáveis dos neonicotinóides nas plantas serralha e que as lagartas estavam ficando expostas durante todo seu ciclo de vida.

Eles descobriram que níveis de inseticidas em serralha aumentavam entre junho e julho, um período muito maior do que a exposição que eles fizeram em laboratório, que foi de 36 horas. Esta exposição no meio do verão foi uma surpresa para o estudo porque tem implicações muito importantes para a equação de avaliação de risco. Esse nível de exposição é muito importante; a duração dessa exposição. Sua pesquisa descobriu também que em uma exposição de 36 horas, as taxas de neonicotinóides matavam as largartas de monarca como ocorre nas encontradas em plantas de campo. O mais surpreendente foi descobrir que o crescimento das jovens monarcas foi significativamente atrofiado no campo, diante da exposição. Um número de estudos científicos mostram que lagartas menores são menos propensos a sobreviver e se tornar borboletas.

Neurotrasmissão e onde os neonicotinóides atuam, os canais de Na+

Neurotransmissão e onde os neonicotinóides atuam, os canais de Na+. Clique para ampliar

A conclusão é que as populações de monarca são claramente afetadas por inseticidas neonicotinóides e que é preciso mais investigações e razão de sobra para dar fim no uso deste tipo de inseticida. Grande parte do habitat que resta para a serralha está em estreita proximidade com os campos agrícolas e as monarcas estão sendo forçadas pela proximidade a estes campos de milho (MPRNews, 2015). Também não é novidade que os EUA esta correndo com o incentivo ás pessoas para que façam o plantio de serralha para conter o progressivo impacto populacional que a borboleta monarca tem sofrido estes últimos anos. Existe uma força muito grande entre os ambientalistas e pesquisadores para que ela entre na lista de espécies ameaçadas de extinção.  Apesar das sugestões feitas nos EUA, de manter um plantio de serralha na rota de migração destas borboletas, é preciso antes de tudo abolir o uso de neonicotinóides, afinal, a simples proximidade entre uma área agrícola e uma área de serralhas pode ser suficiente para comprometer o ciclo de vida da borboleta. É preciso abolir inseticidas que afetam não somente as borboletas, mas as abelhas e toda a biodiversidade de polinizadores e estimular modelos agrícolas sustentáveis não só pelo bem da diversidade e da ecologia local, mas para a manutenção da nossa vida e também por questões econômicas. O que ocorre com as borboletas e com as abelhas é só o reflexo daquilo que vemos em espécies que já estudávamos há décadas. Muitas espécies pouco estudadas se perderam e estão sendo perdidas sem qualquer conhecimento científico ou chance de lutar pela sua conservação.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Abelhas, borboletas, Agricultura, Agrotóxicos, Neonicotinóides, Conservação, EMBRAPA.

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