A CULTURA E A ORIGEM DA HUMANIDADE.

Para alguns pesquisadores, a origem humana se dá exatamente na consolidação da anatomia humana moderna em associação com a cognição e a cultura moderna incluindo a linguagem. Outros especialistas preferem usar o termo “evolução humana” de modo a restringir-se ao aparecimento físico do Homo sapiens como uma espécie distinta. Por outro lado, há quem diga que a cognição associada ao contexto social desenvolveu a cultura, que é o que nos caracteriza.

Acheulean machadinhas Período Paleolítico França, Reino Unido e África EST. 750.000 a 90.000 ANOS. Fonte: Lithic Casting Lab

Machados Acheulense do Período Paleolítico, encontrado na França, Reino Unido e África. Estimado entre 750 e 90 mil anos. Fonte: Lithic Casting Lab.

A evolução humana compreende todo o processo evolutivo que levou ao surgimento dos humanos anatomicamente modernos, ou seja, se concentra na história evolutiva dos primatas, em especial aqueles que fizeram parte da origem do gênero Homo, os chamados de hominínios e culminou no surgimento de nossa espécie propriamente dita, o Homo sapiens.

Sabemos que chimpanzés criam ferramentas com um nível de complexidade limitado quando comparado ao homem, e que há transmissão destas informações a outros membros do grupo configuram uma forma de cultura.

Na história evolutiva da espécie humana houve muitos hominínios que desenvolveram indústrias de ferramentas que se desdobrou em aumento de cognição ao longo da história de nossos ancestrais, graças a sua postura bípede. O resultado foram indústrias líticas cada vez mais complexas que favoreceram não só a sobrevivência de nossos ancestrais, mas também algo que é bem característico em nossa espécie; a cultura.

Chimpanzés, gorilas e orangotangos constroem ferramentas de modo rudimentar, e nós também construímos diferentes ferramentas de modo tal que a competência cognitiva certamente esteve presente no ancestral comum de nossa espécie com estes símios antropomorfos. Por conseguinte, estava presente nos hominínios ligados a origem do Homo sapiens. De fato, muitas ferramentas foram encontradas representando os hominínios. Elas refletem um aumento de complexidade, especialmente quando comparada e relacionada com o aumento da capacidade craniana. Isto fica bem mais evidente na origem do gênero Homo, embora haja evidências de que um grupo anterior (com características pós-cranianas humanas arcaicas) que poderia confeccionar ferramentas de modo muito semelhante aos chimpanzés.

Este grupo que pode ter construído ferramentas líticas é o Australopithecus garhi, que datam de aproximadamente 2.6 milhões atrás, e foram encontrados ao lado de ferramentas de pedra que seriam entre 100 e 200 mil anos mais antigas que o H. habilis. Embora, haja esta constatação, não se pode afirma concretamente que o A. garhi foi de fato o construtor dessas ferramentas líticas, permanecendo uma grande incógnita sobre este primata; se ele tem relacionamento direto com o H. habilis (e neste sentido, o recém-descoberto Homo naledi poderia auxiliar nas respostas) e como de fato se originou o gênero Homo (Neves et al, 2015).

O H. habilis normalmente fazia suas ferramentas de ossos, madeira, e principalmente de pedra. Muitas vezes utilizada para tirar o tutano do osso dos animais. O H. habilis é uma espécie de hominídeo que viveu no início do Pleistoceno inferior (entre 2,2 milhões a 780 mil anos atrás). Este hominídeo apresenta um aumento em média de 20% da capacidade craniana com volume craniano entre 500 e 775 cm3 em comparação com o A. garhi, com aproximadamente 400 cm3. Neste sentido, é possível classificar as ferramentas líticas segundo suas características físicas (Neves et al, 2015).

No caso do H. habilis é a ferramenta Olduvaiense, caracterizada por ser a primeira indústria lítica dos hominídeos durante o período Paleolítico Inferior, na África. A denominação refere a um sítio arqueológico muito importante onde tais indústrias foram encontradas: a Garganta de Olduvai, na Tanzânia. Tal indústria é associada ao Homo habilis ao menos em onze sítios paleoantropológicos. Um dos mais expressivos é o sítio de Sterkfontein (África), além de ser o sítio mais frutífero em fósseis de hominídeos pré-humanos do mundo, possui estratos datados entre 2 e 1,5 milhões de anos onde há ferramentas líticas talhadas associadas a fósseis de Homo habilis e de australopitecíneos. Aqui, fica a questão não resolvida sobre quem fabricou as ferramentas Olduvaienses iniciais; H. habilis ou A. garhi.

Parece provável atribuir a fabricação destas ferramentas aos primeiros espécimes do gênero Homo, ou seja, Homo habilis (entendido em sentido amplo, incluindo também Homo rudolfensis, que hoje é visto como uma variedade habilis) e as formas ancestrais de Homo erectus (que aceita também o Homo ergaster).

O Homo erectus é uma espécie extinta de hominínio que viveu entre 1,8 milhões de anos e 300 mil anos atrás (Stringer, 2011). Apresentavam um volume craniano entre 750 e 1250 cm³, um aumento de cerca de 50% em relação ao seu ancestral Homo habilis. Sofreu um alongamento das pernas e encurtamento dos membros anteriores. Seus fósseis datam de cerca de 1,5 milhão de anos atrás, e foram encontrados principalmente na África. Inicialmente usavam também ferramentas Olduvaiense, mas desenvolveram técnicas novas de fabricação dando origem a indústria Acheulense, encontrados pela primeira vez em Saint-Acheul (França). Eles expandiram-se amplamente na Indonésia, Ásia e Europa de tal modo a dar origem a variedades geográficas. Houve uma intensa transmissão da informação de como produzir estas ferramentas, que representam uma nova tecnologia: uma variação da indústria lítica anterior, a Olduvaiense dando origem a Acheulense (Neves et al, 2015).

O H. erectus provavelmente foi o primeiro hominínio a usar o fogo (usar, e não produzir) segundo os achados na caverna chinesa de Zhoukoudian, e a iniciar uma migração do continente africano para diversas regiões (Neves et al, 2015).

A indústria Acheulense foi uma cultura do Paleolítico Inferior caracterizado por certo tipo de utensílios bifaces de pedra e situada na época do segundo interglacial. Os bifaces acheulenses são caracterizadas por ter um perfil muito regular. Bifaceis porque ambos os lados da ferramenta eram trabalhados, aumentando sua complexidade e eficácia. Esta indústria estendeu-se primeiramente pelo vale do Rift e pela África Oriental, como demonstram os achados na Camada II da jazida de Olduvai, na Tanzânia e na região de Konso, ao sul da Etiópia, que datam de cerca de 1,5 milhões de anos. O seu primeiro uso é atribuído ao Homo ergaster (uma das formas do H. erectus) (McBrearty & Brooks, 2000).

Outro hominínio de grande importância é o Homo heidelbergensis, que surgiu a 1,3 milhão de anos e sobreviveu até cerca de 250 mil anos, no Pleistoceno médio. O H. heidelbergensis é uma descendência do Homo erectus, sendo provavelmente um descendente migratório. É possível e bastante provável que o Homo erectus (ergaster) tenha sido o primeiro hominídeo a ter uma vocalização mais complexa, que isto tenha favorecido a transmissão cultural e que, com o H. heidelbergensis tenha se desenvolvido ainda mais. Desta forma, a cultura mais sofisticada procedeu a partir deste ponto. Este hominínio tinha um volume crâniano entre 1100 e 1400 cm³, e tudo indica ser o ancestral comum entre os Neandertais e nossa espécie.

Os utensílios associados aos fósseis de H. heidelbergensis consistem basicamente em “pedras de cortar” e algumas ferramentas lascadas com pontas e raspadores de madeira, ossos e chifres. Eles foram os iniciadores desta nova técnica, que abrange o machado de mão, talhado em ambas as faces. Sua utilidade é muito diversa: de acordo com a análise de outras pedras, o machado de mão era usado para curtir peles ou trabalhar em madeira. Por volta de 400 mil anos atrás já se utilizava lanças de madeira bem rudimentares. Nesta época, o fogo era utilizado com certa frequencia e já que há evidências de grandes fogueiras. O domínio do fogo ficou por conta dos Neandertais e mais expressivamente no Homo sapiens primitivo.

O tipo de ferramenta que eles desenvolveram chama-se Musteriense e foi transmitida também aos Neandertais, entre 300 e 400 mil anos.

O nome procede do abrigo rochoso de Le Moustier (Dordonha – França), onde Gabriel de Mortillet descobriu em 1860 uma indústria lítica pré-histórica, associada com os fósseis de Homo neanderthalensis encontrados em 1907.

Hominídeos do gênero Homo caracterizados por fabricarem ferramentas líticas.

Hominídeos do gênero Homo caracterizados por fabricarem ferramentas líticas. Australopithecus sediba pode (ou não) ter produzido ferramentas; e A. garhi (Não mostrado na figura) pode ter sido o primeiro a desenvolver um tipo de ferramenta lítica chamada de Olduvaiense, que se tornou característica no Homo habilis.

Quando o Homo sapiens surgiu na África cerca de 200 mil anos atrás, os humanos eram “anatomicamente modernos”, porém comportamentalmente e cognitivamente arcaicos. Richard Klein (Klein, 1999) propõe que uma mutação genética que favoreceu o desenvolvimento da linguagem ocorreu recentemente, entre 50 e 40 mil anos, na Eurásia, na a transição do ‘Paleolítico Superior e na África, na Idade da Pedra. De acordo com este ponto de vista, os Neandertais da Eurásia (juntamente com os seus homólogos arcaicos no resto do mundo) tornaram-se extintos, porque não tinham aparato cognitivo necessário para a linguagem. Em apoio a esta tese, Klein aponta para as pouquíssimas evidências de arte ou decoração pessoal entre os humanos pré-modernos contrastando isto com os artefatos culturais “simbólicos” impressionantes (figuras esculpidas de modo sofisticados em cavernas, pinturas) produzidos pelos seres humanos modernos e como eles migraram para fora da África a partir de cerca de 50 mil anos.

Os arqueólogos Sally McBrearty e Alison Brooks (2000), argumentam que a teoria original da “revolução humana” reflete um profundo viés eurocêntrico. Para eles, a evidência arqueológica recente mostra que os seres humanos em evolução na África cerca de 300 mil anos ou talvez mais, a cerca de 400 mil anos tornando-se modernos do ponto de vista cognitivo e comportamental. Esses recursos incluem lâmina e tecnologias microlíticas, ferramentas de osso, maior alcance geográfico, caça especializada, o uso de recursos aquáticos, o comércio de longa distância, o processamento sistemático e uso de pigmento, e arte e de decoração. Todos estes itens não ocorrem subitamente em conjunto, como previsto pelo modelo, mas vão sendo desenvolvidos em locais que são amplamente separados no espaço e no tempo. Isto sugere uma montagem gradual do pacote de comportamentos humanos modernos na África, e sua posterior exportação para outras regiões do Velho Mundo.

Neste sentido, o termo “revolução” significaria um desenvolvimento histórico ao longo das linhas de “revolução industrial” ou “revolução neolítica” (Mellars et al, 2007), sendo um processo relativamente acelerado, muito rápido para ser herdado pela “descendência com modificação” darwiniana e ainda muito gradual para ser atribuído a um único evento súbito da genética. A organização simbólica da vida social humana foi uma transição chave na evolução humana moderna.  Uma das evidências mais expressivas sobre essa revolução humana primitiva vem do sítio de Blombos e no Pinnacle Point (África do Sul), onde conchas furadas, ocre, colares, pigmentos e outros sinais marcantes da ornamentação pessoal foram datados dentro em 160 mil anos. Também há evidências de uso de fogo, e consumo de alimentos de origem marinha na qual dependia do conhecimento prévio do calendário lunar. Isto coincide a origem do Homo sapiens com a transição para uma cognição e comportamento mais moderno (Henshilwood & Dubreuil, 2009).

Ao visualizar o surgimento da linguagem como um desenvolvimento “revolucionário”, ela pode ser melhor compreendida pelos processos evolutivos sociais, cognitivas e culturais cumulativos e não única e exclusivamente genético (Botha & Knight).

A rápida mudança climática entre 80 e 40 mil anos atrás provocou surtos de inovação cultural em populações humanas modernas iniciais.

Estudando núcleos de sedimentos marinhos ao largo da costa da África do Sul e reconstruído a variabilidade climática dos últimos 100 mil anos Martin Ziegler (2013), da Escola de Ciências da Terra e do Oceano da Universidade de Cardiff descobriram que a África do Sul experimentou transições climáticas rápidas em direção a condições mais úmidas quando o hemisfério norte experimentou condições extremamente frias.

Estes grandes eventos de resfriamento do Hemisfério Norte estão associados a uma alteração na circulação Oceano Atlântico que levou a um transporte reduzido de água quente para as altas latitudes do Norte. Em resposta a este resfriamento, grandes partes da África subsaariana experimentaram condições muito secas que posteriormente esquentaram e aumentaram a precipitação. Os arqueólogos então descobriram a ocorrência de várias indústrias líticas importantes da Idade da Pedra concomitante a períodos com aumento das chuvas. E do mesmo modo, o desaparecimento das indústrias parece coincidir com a transição a condições climáticas mais secas.

A correspondência entre mudanças climáticas e inovações culturais apoia a ideia de que o crescimento populacional impulsionado mudanças culturais, através do aumento das interações humanas. O registro arqueológico Sul-Africano é tão importante porque mostra algumas das evidências mais antigas para o comportamento moderno nos primeiros seres humanos. Isto inclui a utilização de símbolos, que tem sido associada ao desenvolvimento de linguagem complexa, e objetos de adorno pessoal de conchas do mar.

A qualidade dos dados da África do Sul permite fazer essas correlações entre o clima e mudanças de comportamento.

Tal como acontece com quaisquer outras espécies, populações humanas são moldadas pelas forças usuais de seleção natural, como a fome, a doença ou o clima. Uma nova força está agora entrando em foco, e com uma implicação surpreendente – que nos últimos 20 mil anos tem ficado mais expressiva, e está inadvertidamente moldando nossa própria evolução; esta força é a cultura humana.

A evidência de sua atividade é ainda mais surpreendente porque a cultura há muito tempo parecia desempenhar apenas o papel oposto. Os biólogos a têm visto como um escudo que protege as pessoas de toda a força de outras pressões seletivas, desde roupas e abrigo, até desenvolvimento da agricultura que ajuda a construir excedentes para superar a fome.

Esta ação “tampão” inicialmente parecia ter anulado a taxa de evolução humana, mas muitos biólogos agora estão vendo o papel da cultura sob outra perspectiva.

Apesar de não proteger as pessoas de outras forças, a cultura parece ser uma poderosa força da seleção natural. As pessoas se adaptam geneticamente a mudanças culturais sustentadas, como novas dietas. E essa interação funciona mais rapidamente do que outras forças seletivas, levando alguns pesquisadores a argumentar que a co-evolução entre gene/cultura pode ser o modo dominante da evolução humana (Laland et al, 2010)

A ideia de que genes co-evoluem com a cultura tem sido discutida a várias décadas, mas começou a ganhar adeptos apenas recentemente. Os principais proponentes, Robert Boyd, da Universidade da Califórnia, Los Angeles, e Peter J. Richerson, da Universidade da Califórnia, Davis já argumentam a anos que os genes e cultura foram interligados na formação da evolução humana e nos últimos anos, as referências de outros cientistas tem sustentado muito esta ideia.

A melhor evidência disponível para Dr. Boyd e Dr. Richerson para a cultura ser uma força seletiva era a tolerância à lactose encontrada em muitos europeus do norte. A maioria das pessoas desliga o gene que digere a lactose no leite logo depois do desmame, mas em europeus do norte, os descendentes de uma antiga cultura de criação de gado que surgiu na região cerca de 6 mil anos, o gene é mantido ligado na idade adulta (The New York Times, 2010).

A tolerância à lactose é reconhecida como um caso em que uma prática cultural e causou uma mudança evolutiva no genoma humano. Presumivelmente, a alimentação extra era de tal grande vantagem que os adultos capazes de digerir o leite deixaram mais descendentes sobreviventes, e a mudança genética varreu a população. Esta instância de interação gene-cultura acaba por esta longe de ser única. Nos últimos anos, os biólogos têm digitalizado todo o genoma humano e as assinaturas dos genes submetidos à seleção. Uma assinatura é formada quando uma versão de um gene se torna mais comum do que as outras versões, porque os seus proprietários estão deixando tal característica em suas descendências. A partir das sequências de DNA analisadas descobriu-se que até 10% (cerca de 2 mil genes) mostram sinais de estar sob pressão seletiva.

Estas pressões são recentes, em termos evolucionários datando de cerca de 10 a 20 mil anos segundo Mark Stoneking, geneticista do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária em Leipzig, na Alemanha. Assim, é possível inferir a razão para estas forças seletivas dos tipos de genes serem marcadas pelas varreduras genômicas. Os papéis de mais de 20 mil genes no genoma humano são ainda pouco compreendidos, mas todos podem ser atribuídos a grandes categorias de função provável, dependendo da estrutura física da proteína que especifique.

Por este critério, muitos dos genes sob seleção parecem responder a pressões convencionais. Alguns estão envolvidos no sistema imunológico e se tornaram mais comum por causa da proteção que forneceram contra doenças. Genes que causam a pele pálida em europeus ou asiáticos são, provavelmente, uma resposta à geografia e clima (The New York Times, 2010).

Genes que permitem a tolerância à lactose, o que provavelmente resultou em mais descendentes sobrevivente, foram detectados em culturas como este queniano pastor da. Crédito Per-Anders Pettersson / Getty Images.

Genes que permitem a tolerância à lactose, o que provavelmente resultou em mais descendentes sobrevivente, foram detectados em culturas como este queniano pastor da. Crédito Per-Anders Pettersson / Getty Images.

Muitas vezes as pessoas falam da cultura no plural porque acreditam que existem muitas culturas diferentes no mundo. Sob um nível isso é verdade; a cultura americana é diferente a partir da cultura chinesa, ambos os quais são diferentes a partir da cultura egípcia, mas, todas as diferenças culturais estão na superfície; no fundo, no nível mais fundamental, todas as culturas humanas são essencialmente as mesmas (Kanazawa, 2008).

Cultura e socialização importam para o comportamento humano, até certo ponto. O grave erro de sociólogos tradicionais e outros sob a influência do Modelo Padrão de Ciência Social (um termo atribuído aos co-fundadores da psicologia evolutiva, Leda Cosmides e John Tooby) é acreditar que o comportamento humano é infinitamente maleável, capaz de ser moldado em forma sem limites, de qualquer forma, por práticas culturais e de socialização. A evidência disponível mostra que esta visão pode ser falsa. O comportamento humano, ao mesmo tempo que é flexível, não é infinitamente maleável pela cultura, porque a cultura não é infinitamente variável. De fato, apesar de toda a superfície e pequenas diferenças, os psicólogos evolucionistas têm mostrado que todas culturas humanas são essencialmente as mesmas.

Um exemplo disto é verdade que, ao nível da superfície, as pessoas em algumas sociedades consomem carne de porcos, e adoram objetos religiosos sagrados, enquanto os outros consomem carne de porco como alimento e de cultuam vacas como objetos religiosos sagrados.

Portanto, há variedade cultural a este nível concreto. No entanto, carne de bovina e carne de porco são constituídas de proteínas animais (tal qual cães, baleias e macacos), e ambos,  porcos e vacas são entidades animadas (para Buda, Alá, e Jesus). As pessoas em todas as sociedades humanas consomem proteínas animais e entidades animadas do culto. Nesse nível abstrato, não há exceções, e todas as culturas humanas são as mesmas. Não há variabilidade infinita na cultura humana, no sentido de que não há culturas em que as pessoas não consomem entidades de proteína animal ou animais no culto.

Outro exemplo, as línguas faladas em diferentes culturas parecem completamente diferentes, como qualquer um que já tentou aprender uma língua estrangeira sabe. Inglês é completamente diferente do chinês, nenhum dos quais tem qualquer coisa com a língua árabe. Apesar destas diferenças de superfície, todas as línguas humanas naturais compartilhar o que o linguista Noam Chomsky chama de “estrutura profunda” da gramática. Neste sentido, o Inglês e chineses são essencialmente o mesmo, no sentido de que a carne de porco e boi são essencialmente as mesmas.

Qualquer criança com um desenvolvimento normal pode crescer e falar qualquer língua humana natural. Independentemente do idioma de seus pais genéticos falou, todas as crianças desenvolvem competências para serem falantes nativos de Inglês, chinês, árabe, ou qualquer outra linguagem humana natural. Na verdade, quando um grupo de crianças cresce em conjunto com nenhum adulto para lhes ensinar uma língua, eles vão inventar a sua própria linguagem humana natural, completa e com gramática. Isso não significa, no entanto, que a capacidade humana para a linguagem é infinitamente maleável. Crianças humanas não podem crescer e falar a linguagem não-natural, como fortran (linguagem de programação) ou lógica simbólica, apesar do fato de que estas são muito mais lógicas e mais fáceis de aprender do que qualquer linguagem natural (sem verbos irregulares, onde há exceções a regras). Uma criança em desenvolvimento normal pode crescer e falar qualquer língua, desde que a língua seja um produto da evolução humana, não uma invenção recente de cientistas ou lógicos de computador.

Pierre van den Berghe, um sociobiologo pioneiro na Universidade de Washington, coloca-o melhor quando diz

Certamente somos únicos, mas não somos o único a ser único. Cada espécie é única e evoluiu sua singularidade na adaptação ao seu ambiente. A cultura é a forma exclusivamente humana de se adaptar, mas a cultura também evoluiu biologicamente. Apesar de todas as diferenças superficiais, há apenas uma cultura, porque a cultura, como o nosso corpo, é um produto adaptativo da evolução humana. A cultura humana é um produto de nossos genes, assim como as nossas mãos e pâncreas são.

Biologicamente, os seres humanos são muito fracos e frágeis; não temos presas para combater predadores e capturar presas ou pele para nos proteger do frio extremo. A cultura é o mecanismo de defesa com o qual a evolução nos equipou para nos proteger, para que possamos herdar e, em seguida, passar o nosso conhecimento de fabricação de armas (para combater predadores e presas captura) ou vestuário e abrigo (para nos proteger do frio extremo). Nós não precisamos de presas ou pele, porque temos cultura. E, assim como todos os tigres têm mais ou menos as mesmas presas e todos os ursos polares têm mais ou menos a mesma pele, todas as sociedades humanas têm mais ou menos a mesma cultura. Caninos são uma característica universal de todos os tigres; pele é uma característica universal de todos os ursos polares. Assim, a cultura é um traço universal de todas as sociedades humanas (Kanazawa, 2008).

Saiba mais em CULTURA EM CHIMPANZÉS, ORANGOTANGOS, GORILA E EM HUMANOS.

Victor Rossetti

Palavras chave: Netnature, Rossetti, Cultura, Sociedade, Homo, Ferramentas líticas, Olduvaiense, Acheulense, Musteriense.

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Referências

Botha, R. and C. Knight (eds), The Cradle of Language. Oxford: Oxford University Press.
Henshilwood, C. S. and B. Dubreuil 2009. Reading the artifacts: gleaning language skills from the Middle Stone Age in southern Africa. In R. Botha and C. Knight (eds), The Cradle of Language. Oxford: Oxford University Press, pp. 41-61.
Klein, R. G. 1999. The human career: human biological and cultural origins. Chicago: University of Chicago Press.
Laland, John Odling-Smee, Sean Myles.How culture shaped the human genome: bringing genetics and the human sciences together. Nature Reviews Genetics 11, 137-148 (February 2010)
Martin Ziegler, Margit H. Simon, Ian R. Hall, Stephen Barker, Chris Stringer, Rainer Zahn. Development of Middle Stone Age innovation linked to rapid climate change. Nature Communications, 2013; 4: 1905
McBrearty, S. and A. Brooks 2000. The revolution that wasn’t: a new interpretation of the origin of modern human behavior. Journal of Human Evolution: 39: 453-563.
Mellars, P. A., K. Boyle, O. Bar-Yosef and C. Stringer (eds), 2007. Rethinking the Human Revolution: new behavioural and biological perspectives on the origin and dispersal of modern humans. Cambridge: McDonald Institute for Archaeological Research.
Neves, W. A. Junior, M. J. R. Murrieta, R. S. S. Assim caminhou a Humanidade. Palas Athenas. 2015
Stringer, C. 2011. The Origin of Our Species. London: Allen Lane.

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