A CONSCIÊNCIA HUMANA COMO RESULTADO DE PROCESSOS EVOLUTIVOS DO SISTEMA NERVOSO CENTRAL.

Percepções, individualidade, linguagem, ideias, significado, cultura, escolha (ou livre arbítrio), moral e ética, todos existem em decorrência do funcionamento cerebral, e como se espera, a consciência também se apresenta como fruto da evolução do sistema nervoso. A percepção que o ser humano tem de si mesmo (e de seus semelhantes) tem profundas implicações na origem e evolução do homem (Xavier et al, 1997).

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Muito se discutiu sobre a consciência como fruto da evolução biológica, como ela surgiu se deve ou não ter qualquer valor para a sobrevivência. Muitas linhas de argumento sugerem que a consciência emergiu exclusivamente nos primeiros seres humanos, ou que tal ineditismo é característico dos primeiros mamíferos. Algumas linhas sugerem que ela surgiu de modo independente em mamíferos e aves, ou ainda, com os primeiros répteis (Peter et al, 2008). Outros autores datam a origem da consciência nos primeiros animais com sistema nervoso ou início dos vertebrados, no Cambriano a mais de 500 milhões de anos (Feinberg & Mallatt, 2013). Donald Griffin (2001) sugere em seu livro que a mente de animais sofreu uma evolução gradual da consciência.

Cada proposta levanta a questão do possível valor para a sobrevivência vindo da consciência. Para Thomas Henry Huxley, naturalista defensor das ideias de Darwin, em um de seus ensaios propôs uma teoria epifenomenalista de consciência, segundo a qual a consciência é um efeito causalmente inerte da atividade neural – “como apito do motor que acompanha o trabalho de uma locomotiva, é sem influência sobre suas máquinas” (Huxley, 1874). William James em seu ensaio “Are We Automata?” apresenta um argumento evolucionário para a interação mente-cérebro e sugere que a preservação e desenvolvimento da consciência é um resultado da seleção natural, plausível uma vez que a consciência não só foi influenciada por processos neurais, mas teve um valor de sobrevivência si; e que só poderia ter assim se tivesse sido eficaz (Lindahl, 1997). Karl Popper (1977), filosofo da ciência, propôs um argumento evolucionário similar. Atualmente, há uma tendência em relação à função primária do processamento consciente, uma idéia recorrente nas teorias recentes é que estados fenomenais de alguma forma integram as atividades neurais e processamento de informações que seriam independentes (Baars, 2002). Isto tem sido chamado de consenso de integração.

Outro exemplo foi proposto por Gerald Edelman para explicar a consciencia a partir da chamada “hipótese núcleo dinâmico” na qual ligações que reciprocamente ligam áreas do cérebro de uma maneira massivamente paralela estabelecem a consciência (Seth et al, 2006). Ele também propõe que a importância da emergência evolutiva da consciência de ordem superior em humanos é o traço filogeneticamente mais antigo da consciência primária que os seres humanos compartilham com os animais não-humanos. Neste sentido, qualquer análise da evolução da consciência é confrontada com grandes dificuldades, mas alguns pesquisadores têm argumentado que a consciência pode ser vista do ponto de vista da biologia evolutiva como uma adaptação no sentido de uma característica que aumenta a aptidão (Nichols, 200). Em seu artigo “A evolução da consciência“, o pesquisador John Eccles argumentou que a anatomia especial e física de propriedades do córtex cerebral de mamíferos deu origem à consciência (Eccles, 1992). Bernard Baars propôs que uma vez que este circuito “recursivo” (ou seja, repetitivo) pode ter fornecido uma base para o desenvolvimento posterior de muitas das funções que a consciência facilita em organismos superiores (Baars, 1993).

Peter Carruthers propôs que a vantagem adaptativa potencial de ganho da consciência permite que um indivíduo possa fazer distinções entre a aparência e a realidade (Carruthers, 2004). Esta capacidade permitirá uma criatura reconhecer a probabilidade de que suas percepções estejam enganando-o (por exemplo, que a água na distância pode ser uma miragem) e agir em conformidade, além de também facilitar a manipulação dos outros, ao reconhecer como as coisas parecem para ambas as extremidades cooperativas e tortuosas.

Muitos filósofos sugeriram que a consciência não seria necessária a qualquer vantagem funcional em processos evolutivos (Rosenthal, 2008). Nenhum deles oferece uma explicação causal e geralmente argumentam que não seria possível um organismo não-consciente funcionalmente equivalente (como o apresentado no argumento do zumbi filosófico) alcançar as mesmas vantagens de sobrevivência como um organismo consciente. Alternativamente, uma explicação exaptativa da consciência ganhou campo com alguns teóricos que postulam que a consciência não evoluiu como uma adaptação, mas foi um exaptação que surgiu como consequência de outros processos de desenvolvimento, tais como o aumento no tamanho do cérebro ou re-arranjo cortical (Harnad, 2002). Neste sentido a consciência tem sido comparada com o ponto cego da retina onde não é uma adaptação da retina, mas ao contrário, apenas um subproduto do caminho os axônios da retina foram ligados (Robinson, 2015). Vários estudiosos incluindo Steven Pinker, Noam Chomsky, Garald Edelman e Luria indicaram a importância do surgimento da linguagem humana como um importante mecanismo regulador da aprendizagem e da memória no contexto do desenvolvimento de ordem superior consciência.

Talvez o obstáculo mais difícil de transcender na pesquisa científica da consciência esteja relacionado à profunda concepção culturalmente enraizada de que percepções conscientes não podem ser consideradas como fruto do funcionamento do sistema nervoso, criando uma condição de consciência que muitas vezes é vista como uma entidade distinta do cérebro e que apenas manifesta-se através dessa estrutura. Isto ficou bem evidente com o Frances René Descartes e seu dualismo cartesiano e o fluído res cogitans.

Entretanto, a estruturação da consciência humana depende da consolidação de nosso sistema nervoso, que é fruto de processos evolutivos. O objetivo, então, é estruturar como o substrato nervoso que deu origem a consciência qye surgiu em escala filogenética. E para isto, vamos beber da fonte da neurociência.

Hipócrates, no século quinto a.C já havia notado que a consciência é perdida em danos cerebrais, destacando que cérebro e consciência estão relacionados. Quase 2 mil anos depois, Descartes, pai da filosofia moderna e do método científico, considerou uma formulação dualista da relação mente/cérebro, promovendo um afastamento dos “fenômenos mentais” da esfera da investigação científica (Xavier et al, 1997).

O sistema nervoso permite um determinado organismo obter o máximo de informações sobre o ambiente, possibilitando solucionar problemas no momento em que surgem de forma não-antecipatória (ou de forma antecipatória) sempre que um padrão regular puder ser notado. Como é algo altamente adaptativo, completará seu processo de adaptação quando as condições de uso da função forem encontradas. O sistema nervoso permite então a elaboração de um modelo interno de ambiente que é adaptativo na medida em que favorece a avaliação das consequências futuras das ações correntes, evitando expor ao risco a integridade do sistema no desempenho de uma determinada ação. Os mecanismos cerebrais ligados ao processo de atenção, por exemplo, originaram-se evolutivamente a partir da pressão ambiental sobre animais que precisavam selecionar uma entre várias ações possíveis. Portanto, a aquisição de uma determinada habilidade requer atenção, e quando adquirida permite o animal tornar seu desempenho automático (Xavier et al, 1997).

Aprendemos a dirigir prestando atenção no professor da auto-escola, e quando este aprendizado se torna um hábito, ele é automatizado. Assim podemos conversar com alguém sentado ao nosso lado sem precisar constantemente ficar pensando ou regulando (acessando conscientemente) quais pedais pisar e quais marchas engatar.

Este comportamento automático se torna inconsciente, é exercido sem a necessidade de vigilância constante do modo de dirigir, embora, certa atenção seja necessária. Por isto, o uso de celular no volante pode causar acidentes. A atenção é necessária devido imprevistos (não antecipado, ou antecipados) que podem acontecer no trânsito, mas o habito de dirigir em si já é automático.

A capacidade de receber e interpretar estímulos externos, ou mesmo internos cria uma condição de “consciência primária” que ajuda a abstrair e organizar mudanças complexas ocorrendo em um determinado ambiente envolvendo múltiplos sinais concomitantes. Desta forma, o sistema nervoso central também processa informações inconscientemente; isto é, discriminações, memórias e processos complexos de julgamento e solução de problemas que podem ocorrer fora do domínio da consciência, influenciando a experiência, pensamento ou ação em curso. A crítica geralmente voltada ao inconsciente freudiano (subconsciente ou subliminar) é que ele superestima demais tais processos, como pontuou Leonard Mnodilow em seu livro “Subliminar”. Claro, parte desta super-estimativa do inconsciente deu origem a psicanálise e teve desdobramentos na filosofia pós-moderna.

Todas as mensagens sensoriais, com exceção das provenientes dos receptores do olfato, passam pelo tálamo antes de atingir o córtex cerebral. Esta é uma região de substância cinzenta localizada entre o tronco encefálico e o cérebro. O tálamo atua como estação retransmissora de impulsos nervosos para o córtex cerebral. Ele é responsável pela condução dos impulsos às regiões apropriadas do cérebro onde eles devem ser processados. O tálamo também está relacionado com alterações no comportamento emocional; que decorre, não só da própria atividade, mas também de conexões com outras estruturas do sistema límbico (que regula as emoções).

Todas as mensagens sensoriais, com exceção das provenientes dos receptores do olfato, passam pelo tálamo antes de atingir o córtex cerebral. Esta é uma região de substância cinzenta localizada entre o tronco encefálico e o cérebro. O tálamo atua como estação retransmissora de impulsos nervosos para o córtex cerebral. Ele é responsável pela condução dos impulsos às regiões apropriadas do cérebro onde eles devem ser processados. O tálamo também está relacionado com alterações no comportamento emocional; que decorre, não só da própria atividade, mas também de conexões com outras estruturas do sistema límbico (que regula as emoções).

Segundo Edelman (1992), o surgimento deste modo de consciência pode estar atrelado à evolução de 3 funções nervosas envolvendo diferentes conjuntos de estruturas do sistema nervoso: o desenvolvimento do sistema tálamo-cortical que tem projeções do diencefálo para o córtex. Este sistema permitiu que quando funções conceituais apareceram elas puderam ser ligadas fortemente ao sistema límbico (circuito neural que envolve estruturas talâmicas e corticais supostamente envolvidas no comportamento emocional), estendendo as capacidades de aprendizagem; a segunda função esta ligada ao desenvolvimento de um novo tipo de memória baseada nesta ligação. Diferentemente do sistema de categorização perceptual, tal sistema de memória é capaz de categorizar respostas em diferentes sistemas do encéfalo e consequentemente a categorização perceptual de acordo com as demandas da relação entre o sistema límbico e o tronco encefálico (que incluiria alguns dos principais sistemas neurais envolvidos nas sensações de prazer e dor). Por último, a categorização de modalidades sensoriais e a criação de um sistema de memória conceitual (Xavier et al, 1997).

Assim, a consciência primária estaria relacionada ao desenvolvimento do sistema tálamo-cortical (o córtex organizado sob a forma de mapas capazes de processar paralelamente muitas informações), que evoluiu em paralelo com o cerebelo, gânglios basais e hipocampo, envolvidos na manipulação de espaço e tempo, com os quais mantém grande quantidade de conexões. Estes sistemas estariam conectados com o sistema límbico-tronco encefálico que fornece o valor do estímulo frente a homeostase (pleno funcionamento) fisiológica (Xavier et al, 1997).

A flexibilidade comportamental e a competência cognitiva de diferentes grupos de animais está diretamente relacionada com a quantidade de tecido nervoso, que é, por sua vez, proporcional ao tamanho corpóreo (Xavier et al, 1997). Obviamente, esta afirmação não traz uma concepção ligada a uma escalada filogenética como a proposta aristotélica da Scala naturae que punha o homem como topo da criação ou evolução. Isto significa que a evolução do sistema nervoso não deve ser vista como uma escala contínua, unitária ou cumulativa, mas corretamente como uma “árvore” estruturalmente ramificada onde cada galho acaba transformando-se de forma independente dis outros, seguindo suas respectivas trilhas evolutivas.

Nos vertebrados, curiosamente, a quantidade de tecido nervoso relacionado ao controle de ajustes neuro-vegetativos (aqueles que controlam funções orgânicas básicas), encontrado principalmente nas porções posteriores do sistema nervoso varia muito pouco nas diferentes espécies. Entretanto, as porções anteriores do sistema nervoso, relacionadas ao processamento de informações advindas do ambiente, a memória, a antecipação, a atenção, e a produção de respostas variam amplamente, sendo maiores em primatas e em particular, em seres humanos (Xavier et al, 1997).

o sistema límbico é a unidade responsável pelas emoções e comportamentos sociais.. As amígdalas são duas massas de substância cinzenta que apresentam a forma de uma amêndoa. O grupo corticomedial-central é filogeneticamente mais antigo do que o basolateral, sendo que as suas conexões serão para as áreas filogeneticamente mais antigas (bulbo olfativo, hipotálamo e tronco encefálico) e mais recentes, respetivamente. Neste núcleo da base é possível detetar diversos neurotransmissores tais como a acetilcolina, a noradrenalina, a serotonina, o ácido gama-aminobutírico (GABA), a substância P e encefalinas. Imagem: Uol

O sistema límbico é a unidade responsável pelas emoções e comportamentos sociais. As amígdalas são duas massas de substância cinzenta que apresentam a forma de uma amêndoa. O grupo corticomedial-central é filogeneticamente mais antigo do que o basolateral, sendo que as suas conexões serão para as áreas filogeneticamente mais antigas (bulbo olfativo, hipotálamo e tronco encefálico) e mais recentes, respectivamente. Neste núcleo da base é possível detetar diversos neurotransmissores tais como a acetilcolina, a noradrenalina, a serotonina, o ácido gama-aminobutírico (GABA), a substância P e encefalinas. Imagem: Uol

Estudos envolvendo a comparação genética de diferentes grupos de primatas, diante de suas notáveis diferenças de comportamento permitiu analisar sequências DNA de humanos, chimpanzés e gorilas tem auxiliado diferentes linhas de pesquisa (Diamond, 1992). Um estudo demonstrou que humanos e chimpanzés exibem apenas 1,6% de diferenças ao nível genético (tendo um ancestral comum há aproximadamente 7 milhões de anos). Gorilas diferem de humanos em cerca de 2,3% de seu material genético tendo um ancestral comum com o homem datado em cerca de 10 milhões de anos. Gorilas e chimpanzés diferem entre si em 2,1%. Sob esta perspectiva, do ponto de de vista genético, chimpanzés estariam mais próximos de seres humanos que dos gorilas. Mas, estas evidências genéticas parecem contrastar com evidências anatômicas, pois gorilas e chimpanzés compartilham pelo menos duas características não presentes em seres humanos: o modo de andar e a estrutura do dente molar, utilizadas pelos adeptos da análise cladística para situá-los em grupo diferente do dos humanos. As substanciais diferenças anatômicas entre humanos e chimpanzés não obstante a similaridade genética sugerem que as diferenças estão certamente nos genes reguladores e não necessariamente nos genes que codificam proteínas estruturais específicas.

Notamos então que diversos níveis de interações físicas, biológicas e sociais estão relacionados ao surgimento de uma consciência superior; uma vez que o pensamento depende de interação social e cultura, de convenções, lógica, metáforas e tantos outros métodos (além dos biológicos) que são necessários para entender plenamente o processo consciente.

Neste sentido, o professor Gilberto Xavier (1993) da Universidade de São Paulo propõe que a habilidade para relacionar uma grande quantidade de informações do passado, presente e antecipações de eventos futuros conferem certa flexibilidade ao controle comportamental, criando uma valorosa vantagem evolutiva no aparecimento do que se costuma chamar de consciência; a percepção de si próprio.

Quanto aos processos de integração da atividade dos diferentes módulos cerebrais, o córtex pré-frontal parece preencher os requisitos necessários para o desempenho dessa função; a integração. Do ponto de vista evolutivo, esta estrutura sofreu um visível aumento de área ao longo do tempo evolutivo, tendo se tornado um dos mais proeminentes componentes do cérebro humano (Xavier 1993). Mesulam (1986) sugere que sua função está associada à organização de processos cognitivos como julgamento, perspicácia, curiosidade, abstração e criatividade. Pelas bases neurais da consciência citadas aqui, tal processo poderia corresponder ao nível de atividade de cada um dos módulos neurais, cujas atividades podem ser moduladas pelo córtex pré-frontal. Assim, a consciência parece não estar localizada em qualquer centro ou área geográfica do sistema nervoso, mas se apresenta como fruto da atividade em diferentes módulos amplamente dispersos no sistema nervoso cada qual processando informações específicas (Xavier et al, 1997).

A consciência parece então, ser é uma propriedade (Searle, 1992), que o cérebro manipula, que é dobrável, flexível e pode ser amplificada, sendo, como vimos, uma função da tipologia do cérebro e que pode ser formada pela cultura. Rumbaugh e colegas (2000) sugerem que a realidade é uma construção de consciência moldada por forças do cérebro que é moldada pela cultura.

Cultura é um termo antropológico e se apresenta como uma força que emergiu evolutivamente e que permite uma adaptação da espécie para o ambiente a uma taxa que a biologia por si só não permitiria. Rumbaugh e colegas (2000) argumentam que a cultura, linguagem e ferramentas surgem sob um substrato neural comum, enquanto que a língua e as ferramentas são subconjuntos culturais. Partindo deste ponto, a consciência é bastante geral entre espécies animais. A diferença é que nós como seres humanos podemos interpretar como graus de consciência são dependentes do “tamanho“ do substrato neural e podemos dobrar nossa curva de consciência para a realidade apropriada. A cultura e a consciência co-constroem uma força que impulsiona o mecanismo de ação evolutivo mediante uma matéria altamente plástica de vida biológica. De acordo com Hameroff (1998) esta posição permite sustentar que o comportamento inteligente proposital pode acelerar a evolução e explicar, por exemplo, a explosão cambriana. Rumbaugh e colegas (2000) defendem que a cultura, se apresenta como uma força, um agente unificador da consciência dentro de uma espécie, de tal forma que, a cultura constrói a estrutura da nossa consciência de modo que nós (e outras espécies) somos capazes de compartilhar experiência.

É possível sustentar que a cultura em que um primata é criado irá afetar significativamente a forma de consciência que se desenvolve, bem como a sua expressão comunicativa do que é a consciência. Se criado em uma cultura humana, a consciência do primata será moldada de acordo com uma forma que os seres humanos podem reconhecer mais facilmente como semelhante a si próprio e, portanto, ser compreensível por eles.

Há também a observação direta de um processo de transmissão cultural em um grupo de chimpanzés na natureza foi obtida por pesquisadores da Universidade de St. Andrews, Neuchatel, Quebec e Anglia Ruskin University, que descrevem em um artigo publicado no “PLoS Biology“. Muitos grupos de chimpanzés selvagens são caracterizados por diferentes hábitos no uso de ferramentas, de modo a considera-los animais “culturais”, tal como é o homem. Até pouco tempo, a demonstração da capacidade de transmissão cultural em chimpanzés era obtida apenas para os grupos em cativeiro e em poucos casos documentados na natureza, não houve evidência de que as diferentes tradições em chimpanzés selvagens foram devidas a uma transmissão de indivíduo para indivíduo, e não simplesmente o resultado da aprendizagem indivíduo por tentativa e erro.

A observação em tempo real de propagação de novos comportamentos tambem ocorreu na comunidade de chimpanzés em Sonso, nas reservas de Budongo em Uganda. Para beber, os chimpanzés de Sonso mergulhavam uma folha na água e pegava-a como se fosse uma colher. Durante um estudo, Catherine Hobaiter e colegas observaram Nick, um macho alfa de 29 anos, que, encontrou-se com outros chimpanzés em uma área de floresta onde tinha havido uma inundação recente, em vez de beber com a técnica habitual, levou algumas folhas e um pedaço de musgo e construiu uma mais eficiente “esponja folhosa”. Um comportamento deste tipo nunca havia sido detectado no decurso de mais de vinte anos em que a comunidade de Sonso foi constantemente monitorada. Nos dias seguintes seis indivíduos usaram outra folha como esponja e foi observada a sua utilização. Um sétimo exemplar, um jovem de 12 anos, ele reutilizou a esponja de folhas abandonada, um comportamento adotado por outros oito chimpanzés. Neste segundo comportamento de reciclagem, os pesquisadores observam que a transmissão cultural pode ter tido uma influência menor, mas foi, sem dúvida, fundamental para a disseminação da capacidade de produzir folhas de esponja.

Estudos de criação cross-culturais podem ser entendidos como experimentos de enxerto de consciência cultural em plataformas biológicas. Muitas vezes as expectativas dos participantes humanos em tais estudos, inadvertidamente, afetam o resultado. Isto se dá porque a medida em que elas estendem suas atividades de ”humanidade” para permitir a incorporação de plataformas biológicas alternativas para a sua consciência cultural de grupo, isto afeta a capacidade do organismo em seu desenvolvimento. Assim, estudos que analisam a competência de um primata símio em ”tarefas humanas” nunca podem ver a coisa como puras medida da capacidade do primata. As expectativas e cultura do medidor inevitavelmente afetam. No entanto, ao que diz respeito a nós mesmos, o papel das nossas expectativas é a plasticidade dos primatas. A experiência com grandes símios tem convencido os cientistas que eles possuem consciência, muitos têm noção de sua ‘pessoa’ para oferecer de suas vidas e é claro o poder das forças culturais sobre o substrato neural da biologia e o papel significativo da cultura como uma força na evolução (Rumbaugh et al, 2000).

A consciência humana

O filosofo alemão Nietzsche certa vez disse “A consciência é a última fase da evolução do sistema orgânico, por consequência também aquilo que há de menos acabado e de menos forte neste sistema”. Talvez esta concepção esteja errada por dar a conotação de que há certa progressividade intencional na evolução da consciência, mas esta correta no sentido em considerar que a evolução é um processo que pode explicar a origem da consciência em um sistema orgânico.

Mesmo que, ironicamente, muitas vezes consideremos a consciência como uma “maldição”, ela não deve ser vista como uma desvantagem, mas pelo contrário, torna ainda mais plausível que ela tenha ofertado uma vantagem biológica, ou então, a seleção natural teria se livrado dela há muito tempo economizando uma série de tecidos cerebrais. O fato é que nossa espécie experimenta a aurora da consciência. Ou dentro de um desdobramento filosófico hegeliano, o universo torna-se consciente de si através de nós (Carl Sagan, eminente astrônomo também dizia algo do tipo).

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Carl Sagan

A consciência é quase certamente muito mais simples do que a visão humana, até porque a visão exige uma enorme quantidade de tecido cerebral, conexões de circuitarias e centenas de milhões de anos de evolução para aperfeiçoar. Ela parece ter se consolidado apenas há algumas dezenas de milhões de anos e envolve apenas uma quantidade relativamente pequena do córtex cerebral.

As pessoas muitas vezes vem a “consciência” como misteriosa, que geralmente consiste em perplexidade sobre por que os humanos são aparentemente conscientes de pelo menos alguns dos seus próprios atos (fruto de processamento cognitivo). O pensar, ao invés de processamento cognitivo “consciente” simplesmente vai gerando comportamentos sem consciência em si e de si. Por que sabemos o que sabemos, em vez de apenas simplesmente faze-lo? A maior parte da vida mental (incluindo algumas das tarefas mais computacionalmente difíceis, tais como as relacionadas com a visão) procede sem a consciência da transformação que nos leva. Estudos de criação cross-cultural nos sugere uma questão importante: a consciência deveria existir em tudo? Ou ainda, em primeiro lugar; a consciência é uma adaptação evolutiva? Em outras palavras; daria para a consciência evoluir e resolver um problema com consequências reprodutivas para o animal, ou a consciência, talvez seja um epifenômeno?

Segundo Henri Wallon (2007), a “mente” é produzida por algum fenômeno, e nossa compreensão exclusivamente científica endereça os processos cerebrais como “fenômeno” da “mente”. Assim com os fenômenos da mente são nomeados como epifenômeno, pois ao mesmo tempo que o cérebro por si só não gera uma consciência, os impulsos eletromagnéticos também não são nada sem os neurônios, havendo então a necessidade, a existência mente/corpo (homem/mundo ou cognição/afeto). Se assumirmos que a consciência é uma adaptação com uma função biológica útil, a questão epifenomenológica diz respeito à natureza biológica desta adaptação. Seria então, este, o mecanismo pelo qual a consciência resolve o problema ou evoluiu para resolver?

Não é o fenômeno geral deaconsciência, e a consciência é “meramente” um tipo específico de reconhecimento. Na verdade, o reconhecimento é consciência de estados internos do corpo, como veremos.

A consciência não é distintiva para os seres humanos. Muitos animais exibem as características de consciência, que é algo que parece ter evoluído muitas vezes em muitas linhagens. E a consciência tem uma definição muito exata: é a capacidade seletiva para dirigir a atenção para aspectos específicos do ambiente, e para poder cognitivamente manipular esses aspectos através de uma escala de tempo mais prolongada do que o processamento cognitivo normal permitirá. Para manter a mente selecionada aspectos da paisagem perceptual. Poderíamos então olhar a consciência na perspectiva da atenção, mais a memória de trabalho. Memória de trabalho ou memória de curto prazo entende-se como um componente cognitivo que permite o armazenamento temporário de informação com capacidade limitada.

Sob esta perspectiva, a consciência não é, portanto, um aspecto da inteligência social, mas um mecanismo de integração. Ela deve se apresentar como uma forma de convergência a combinar informações e uma habilidade funcional que é encontrada em animais complexos e que vivem em ambientes complexos. Neste sentido, o reconhecimento se relaciona com a capacidade de lidar com a complexidade ou a percepção e comportamentos que encontra-se não somente em animais sociais, mas também em animais solitários. Enquanto o reconhecimento é encontrado em animais à direita em todo o reino animal; a consciência é de distribuição muito mais limitada. A consciência parece estar confinada a um pequeno número de animais sociais recentemente evoluídos como a linhagem dos grandes símios – chimpanzés, especialmente comuns e bonobos – e talvez alguns outros mamíferos sociais recentemente evoluídos, como elefantes e golfinhos (Charlton, 2000).

Se a consciência compreende atenção e memória de trabalho, então estar ciente de uma percepção que deve ser atendida seletivamente, e a representação dessa entidade deve ser mantida ativa e realizada no cérebro durante um período de tempo adequado para permitir que outras representações cognitivas interajam com ele e em um lugar onde outras representações cognitivas possam ser projetadas. A memória de trabalho é um local onde a informação converge e é mantida ativa por mais tempo do que os períodos usuais. Daí a memória de trabalho é a “localização” anatômica de consciência (Charlton, 2000).

A natureza da memória de trabalho pode ser entendida usando conceitos derivados da neurociência cognitiva. A memória de trabalho é um espaço tridimensional preenchido com os neurônios que podem ativar-se em padrões. Cognição é conceituada como o processamento de informações sob a forma de padrões topograficamente organizados (3 dimensões) da atividade neural chamadas de representações – porque cada padrão específico “representa” uma entrada perceptual (Charlton, 2000).

As representações cognitivas na maioria das partes do cérebro normalmente permanecem ativas e persistem por uma escala de tempo da ordem de várias dezenas de milissegundos. Mas na memória de trabalho, as representações cognitivas podem ser mantidas em uma escala de tempo muito mais longa – talvez centenas ou milhares de milissegundos – e provavelmente pela ação de neurônios especializados que em “atraso” mantêm disparando-se por períodos mais longos. Então a memória de trabalho é um espaço 3-D, que contém padrões de impulsos nervosos que são sustentados tempo suficiente para que eles possam interagir com outros padrões de ‘entrada’. Esta sustentação de representações cognitivas significa que a memória de trabalho é também uma região de “convergência” que reúne e integra dados de vários fluxos de informação separados altamente processados (Charlton, 2000).

Qualquer animal que é capaz de participar seletivamente na sustentação de representações cognitivas podia ser dito possuir uma memória de trabalho “ciente” embora o teor de consciência e duração do tempo que pode ser sustentado possa ser simples e curto. A capacidade da memória de trabalho certamente varia entre as espécies, e as estruturas que executam a função da memória de trabalho vão variar substancialmente de acordo com a concepção do sistema nervoso central. Em outras palavras, a memória de trabalho é uma função realizada pelas estruturas que tem se manifestado pela evolução convergente, e não é homóloga entre todos os animais que a possuem – presumivelmente a excelente memória de trabalho de um polvo é executada por estruturas cerebrais bastante distintas a memória de trabalho de um cão ou de carneiros. Esta estrutura não têm ancestral comum e evoluiu por um caminho completamente diferente. O mecanismo e conectividade da memória de trabalho humana permite representações cognitivas de diferentes modalidades de percepção ou de diferentes partes do ambiente interagindo e se submetendo a integração criando respostas comportamentais de todo o organismo e as que são apropriadas podem ser produzidas. A memória de trabalho é reciprocamente ligada a memória a longo prazo, de tal modo que as representações formadas na memória de trabalho podem ser armazenadas a longo prazo com padrões de transmissão aumentados ou diminuídos entre células nervosas (Charlton, 2000). O mecanismo pelo qual isto ocorre é incerto, mas certamente envolve o hipocampo, ligado também a memória espacial com a sua associação córtex entorrinal.

O hipocampo é uma estrutura no interior do cérebro que participa de forma muito importante no bom funcionamento da memória, entre outras coisas.

O hipocampo é uma estrutura no interior do cérebro que participa de forma muito importante no bom funcionamento da memória, entre outras coisas.

É desta forma que pensamentos complexos são construídos e estruturados, com representações que podem interagir com a memória de trabalho no tempo disponível (em talvez um par de segundos). A memória de trabalho é, portanto, conceituada como um local onde há a integração da informação perceptual que participou recorrentemente de uma série de estímulos sensoriais. A sensibilização parece ser utilizada para selecionar e integrar entradas relevantes a partir de um complexo ambiente para permitir que os animais escolham um dentre um elenco enorme de respostas comportamentais.

Existe uma pressão seletiva para evoluir a memória de trabalho em qualquer animal capaz de gerar respostas comportamentais complexas a um ambiente variável complexo. Assim, as representações cognitivas em memória de trabalho em animais não-conscientes são derivadas de inputs sensoriais externos advindos da visão, audição, olfato, paladar e tato. O ponto crítico para este argumento atual é que os animais não-conscientes podem estar cientes de seus arredores, mas falta-lhes a capacidade de se tornarem cientes de seus próprios estados corporais. A consciência de ambiente externo é comum, mas a consciência de estados corporais internas é exclusivamente para animais conscientes.

A figura representa a circuitaria trissináptica na região hipocampal e do Córtex entorrinal de um rato. Pode-se ver claramente como estão dispostas as fibras musgosas e as colaterais de Schaffer. As fibras musgosas partem das células granulares do giro denteado e projetam seus axônios até a região CA3, onde se encontram com células piramidais. Na porção inferior do lado direito pode-se visualizar a via perfurante (VP), na porção superior pode-se ver as conexão estabelecidas com regiões do manto cortical.

A figura representa a circuitaria trissináptica na região hipocampal e do Córtex entorrinal de um rato. Pode-se ver claramente como estão dispostas as fibras musgosas e as colaterais de Schaffer. As fibras musgosas partem das células granulares do giro denteado e projetam seus axônios até a região CA3, onde se encontram com células piramidais. Na porção inferior do lado direito pode-se visualizar a via perfurante (VP), na porção superior pode-se ver as conexão estabelecidas com regiões do manto cortical.

O ponto de partida para a evolução da consciência é um animal com a percepção e um centro de integração para a memória de trabalho que é capaz de manter a atividade participativa de diversas representações perceptuais. O avanço evolutivo da consciência ocorre quando a memória de trabalho não recebe informação perceptual apenas externa dos sentidos, mas também projeções de estados corporais internos. Em outras palavras, em um animal consciente a memória de trabalho contém representações estaduais do próprio corpo, bem como a percepção do ambiente externo (Charlton, 2000).

A consciência surge quando as informações de estado do corpo tornam-se acessíveis ao reconhecimento. E a consciência depende do animal evoluir a capacidade de alimentar informações sobre o seu estado fisiológico interno em memória de trabalho, de modo que ela possa ser integrada com os dados de percepção sensorial. Por exemplo, o estado fisiológico dos estados corporais constitui o que é mais comumente chamado de emoção. As emoções são estados corporais representados no cérebro. Damásio (1996) aponta que apesar de pensarmos no cérebro como estando preocupado principalmente com o processamento de informações derivadas dos inputs dos cinco sentidos, ele de fato esta controlando estados internos do corpo, é o processo evolutivo primário do cérebro. O cérebro primitivo nos animais “inferiores” é um dispositivo que serve principalmente para monitorar o que está acontecendo no corpo – o sistema nervoso central evoluiu quando os corpos começaram a ficar grandes demais para permitir a comunicação ocorrer puramente por difusão de produtos químicos. Assim, o principal negócio do cérebro é monitorar e interpretar estados corporais (incluindo as emoções), de tal forma a modular esses estados.

Sentimento é o termo para as emoções dos quais temos conhecimento e acesso consciente. Por exemplo, o “medo” é a ativação do sistema nervoso simpático e preparação do corpo para um comportamento de “luta ou fuga”. Desta forma, o medo nada mais é que o efeito do sistema nervoso simpático sobre a disposição dos órgãos internos (gerando uma resposta vísceral), tais como tensão muscular, frequência cardíaca, glândulas sudoríparas e assim por diante. O sistema nervoso simpático pode acelerar os batimentos cardíacos; dilatar as passagens dos brônquios; diminuir a motilidade do intestino grosso; constringir vasos sanguíneos; aumentar o peristaltismo do esôfago; causar a dilatação da pupila, piloereção e transpiração; além de aumentar a pressão sanguínea. As mensagens aferentes (que chegam ao sistema) podem transmitir sensações como calor, frio ou dor.

Quando esses estados corporais registram-se no cérebro e afetam o comportamento sem consciência isso pode ser chamado a emoção do medo, quando nos damos conta de que estamos com medo, isto pode ser chamado de sentimento de medo.

O neurologista Damásio, autor do livro “O Erro de Descartes” apresenta uma proposta baseada em pressupostos neurológicos sobre as emoções. Ele distingue vários tipos de emoções, há o que ele denomina como: Emoções Primárias, aquilo que é considerado inato ou “reflexo”, reações comuns a todos os seres humanos, independentemente de fatores sociais ou socioculturais. Deste grupo fazem parte as emoções básicas ou elementares, como: a alegria, tristeza, medo, nojo, raiva e surpresa. Há as Emoções Secundárias ou sociais que são mais complexas que as primárias e dependem de fatores e variáveis socio-culturais. Elas podem variar amplamente entre culturas e sociedades e abrangem a culpa, vergonha, simpatia, gratidão, compaixão, orgulho, inveja, desprezo e assim por diante. Há também as Emoções de Fundo que estão relacionadas com o bem-estar ou com o mal-estar interno. Elas são induzidas por estímulos internos e são originárias de processos físicos ou mentais, levando o individuo a um estado de tensão ou relaxamento, fadiga ou energia. Estas emoções expressam-se em alterações músculo-esqueléticas refletindo-se em variações na postura e nos movimentos.

Os sentimentos são exclusivamente humanos e podem ser considerados uma evolução das emoções. O sentimento é uma auto-percepção do próprio corpo, acompanhada pela percepção de pensamentos com determinados temas e pela percepção de um modo de pensar. O sentimento parte de um juízo sobre um conjunto de auto-percepções que se assemelha a um tipo de metacognição, porém, em sua essência, são ideias. Neste sentido, eles dão uma ideia sobre o corpo, e quando este é perturbado de alguma forma pelos processos emocionais. Os sentimentos são mais conscientes que a emoção, pois enquanto as emoções muitas vezes chegam ao ser humano e aos animais de forma inconsciente, o sentimento é uma forma de juízo sobre essas emoções, devido a percepção deste acesso emocional que se torna consciente, então é considerado sentimento. A maioria dos animais então não são conscientes de suas emoções. Uma vaca pode experimentar a emoção do medo (e reagir de forma adequada a um predador), mas não terá acesso a percepção que ele está com medo; ela simplesmente terá medo. Em outras palavras, o medo não tem uma representação na memória de trabalho de uma vaca. Por outro lado, uma pessoa pode sentir medo, e o ato de perceber que tem medo de algo, torna-o consciente.

Talvez a partir destas perspectivas fique mais clara quando se nota a função da consciência como fruto de um processo evolutivo. A consciência como um aspecto da inteligência social, e a função adaptativa da consciência permite a modelagem cognitiva de situações sociais. Os animais evoluíram a habilidade de projetar representações estaduais do corpo em uma memória de trabalho; isto culminou em emoções que podem interagir com percepções. A sensibilização dos estados corporais internos é então um subproduto acidental da junção de representações cognitivas de emoções e representações cognitivas de percepções sociais na memória de trabalho (Charlton, 2000).

Neste sentido, a memória de trabalho atua como uma zona de convergência para as emoções e percepções, portanto, a consciência existe porque a memória de trabalho é a localização – o único local – onde os fluxos de informação interna e externa convergem entre si e a  informação sobre o meio ambiente é justaposta com a informação sobre o corpo. Assim as representações emocionais podem interagir, modificar e avaliar representações de percepções sociais. O ponto crucial, uma vez que a consciência evoluiu, é que representações de percepções socialmente relevantes poderiam ser “avaliadas” correlacionando uma percepção com as alterações subsequentes no estado do corpo. Um exemplo disto é o medo que obtemos depois de ver uma pessoa em particular. Assim que uma determinada pessoa é avaliada como “provocando medo”, eventos sociais muitas vezes levam a respostas emocionais e comportamentos adaptativos – e medo de uma pessoa em particular pode levar à evasão sem consciência do processo em si. Mas em um animal consciente, representações cognitivas, tanto do evento social e a emoção resultante pode interagir com a memória de trabalho e podemos assim nos tornar conscientes de que temos medo de uma pessoa em particular por causa da justaposição que ocorreu na memória de trabalho.Essa interação perceptiva-emocional cria a possibilidade de novas formas de representação cognitiva que compreendem informações de ambos os sentidos do corpo. Uma é acidental devido o produto de convergência na memória de trabalho que estas novas formas de representação perceptual-emocional são capazes de se tornar objecto de consciência. A consciência de estados corporais internos não é o principal papel da consciência, pelo contrário, é um epifenômeno ao fato de que a convergência é alcançada na memória de trabalho, que é apenas a maneira em que as coisas evoluíram (Charlton, 2000).

Córtex pré-frontal e dorso-lateral

Córtex pré-frontal e dorso-lateral

Assim, a consciência é fundamentalmente dependente de circuitos neurais localizados no córtex cerebral pré-frontal em seres humanos, parte filogeneticamente mais recente no desenvolvimento do encéfalo humano. O córtex pré-frontal dorso-lateral (lóbulos superior externo da parte frontal do cérebro) é provavelmente o local da memória de trabalho em seres humanos. Além disto, é especificamente no córtex pré-frontal dorso-lateral do hemisfério dominante que acaba contendo toda a estruturação da linguagem. A memória de trabalho provavelmente tem funções em matrizes de neurônios capazes de permanecer ativo por mais tempo do que a maioria dos outros neurônios. Assim, na maioria das pessoas, a memória de trabalho esta, provavelmente, localizada na cúpula do cérebro acima do olho esquerdo e estendendo-se por cerca de um terço do caminho de volta, e quanto mais a pessoa integra as informação em níveis superiores de processamento mais ela fica refinada.

As representações estaduais do corpo são construídas no lobo parietal não-dominante (geralmente à direita), no córtex, a informação sobre o estado do corpo converge no lobo parietal não-dominante, é interpretada por sua importância emocional e comportamentos são iniciados, adequados a esta informação contextual junto a todo o processo que acontece com qualquer necessidade de consciência. A região parietal parece ser necessária para a interpretação e o significado biológico de realimentação do estado do corpo em termos de relevância para o comportamento (Charlton, 2000).

Sem esses estados corporais na região parietal relevante não haveria interpretação. Tanto é que danos no região parietal do lado direito (por exemplo, um acidente vascular cerebral ou uma lesão cerebral traumática) destroem a representação da imagem corporal e a capacidade de determinar o que é corpo e o que não é. No fenômeno comum da “negligência” ou anosognosia, uma pessoa com uma lesão parietal não-dominante pode perder a sua consciência sobre o lado oposto do seu corpo. Pacientes com anosognosia  desconhecem o fato de não serem capazes de responder às informações do lado esquerdo; por essa razão, não tentam compensar suas deficiências (Xavier et al, 1997)

Aqui também entra o mecanismo marcador somático, um sistema para modelar internamente o comportamento social, e as suas consequências emocionais. Este sistema tem varias funções importantes que não estão ligadas somente a origem da consciência mas também na condição de “Theory of Mind” (ToM). A marcação somática é o mecanismo real de ToM, e, nesse sentido é a base da “leitura da mente”. Grande parte do real significado da ToM foi discutido em “A HISTÓRIA NATURAL DA MORALIDADE HUMANA: POR QUE SER BOM É UM MILAGRE” e apresenta um mecanismo para inferir quais são de fato as intenções, motivações e disposições do outro indivíduo. O mecanismo marcador somático pode ser considerado quase o inverso da conceptualização cognitiva comum de ToM. Por exemplo, a hostilidade não seria representada diretamente como os conteúdos hostis da mente de outra pessoa, mas sim como a atribuição de reciprocidade do sentimento de “medo”. Um homem estranho ‘hostil’ seria representado pelo mecanismo marcador somático como um homem estranho ‘evocando o medo’ – uma identidade ‘marcada’ por uma emoção com a inferência de que se nós sentimos medo, então ele provavelmente é hostil. Em um animal social consciente sem linguagem (como um chimpanzé) o mecanismo marcador somático permite a modelagem da identidade social diferencial juntamente com marcadores somáticos para representar a disposição, motivação e intenção. O mecanismo marcador somático pode formar combinadas representações perceptuais-emocional (implicitamente simbólicas) como aquelas ligadas a “macho irritado, agressivo que me odeia”. E claro, o mecanismo marcador somático permite então o pensamento abstrato, ou simbólico. A adição da linguagem à consciência aumenta essa representação sócio-emocional combinada com mais deslocamentos e marcadores indicativos de outros tempos, outros lugares ou outras pessoas.

No caso da consciência, o mecanismo marcador somático permite a possibilidade de criar um combinado de representações perceptual-emocionais significativas em que as relações sociais podem ser diversamente combinadas e sequenciadas na memória de trabalho, e as consequências dessa implantação podem ser avaliadas por re-experimentação do estado corporal emocional como algo tão gratificante ou aversivo (repulsivo). Na perda desta entrada de percepções e conteúdo emocional elas não podem ser avaliadas por referência aos estados do corpo (as emoções) que eles evocam. Lesões no lobo parietal não-dominante ou no corpo caloso (estrutura que conecta os dois hemisférios) estão associadas com a uma inteligência social prejudicada. Isto ocorre quando, por exemplo, se corta o corpo caloso como um tratamento para epilepsia, ou das conexões horizontais entre a região pré-frontal do córtex e o restante do cérebro (como em certos tipos de leucotomia) serão ambos prejudicados gravemente em sua inteligência social. Isto é consistente com a hipótese de que a inteligência social precisa de informação emocional (isto é, de estados do corpo), a fim de desempenhar a sua função (Charlton, 2000).

A questão depois de tudo isto é; por que os animais, como os seres humanos evoluíram para se tornar consciente de estados corporais? Uma resposta é que a consciência de estados corporais tem alto valor adaptativo, o que permitiu a avaliação das informações sociais por emoções, e isso deu as vantagens competitivas ao animal consciente no campo social, permitindo certa inteligência social estratégica.

Os teóricos que discutem ao longo desta linha, querem sugerir que a consciência não é adaptativa, mas emerge evolutivamente como resultado acidental por produtos de outra coisa. Muitos argumentam que a consciência é um mecanismo necessário para a solução de algum problema de adaptação especial que só pode ser resolvido através da auto-percepção (ou auto-reconhecimento). Um problema pelo qual a consciência fornece a solução mais simples ou mais eficiente (Charlton, 2000).

Existem muitas soluções teoricamente possíveis para qualquer problema comportamental específico. A solução real alcançada pela seleção natural raramente é a solução mais simples ou mais eficiente. Isto surge porque fatores históricos contingentes restringem as possíveis direções que a seleção natural pode tomar, cada passo evolutivo poderia ser uma melhoria incremental sobre o que se passou antes, e, além disso, as mutações genéticas nas quais adaptações são construídos são aleatórias e sem direção (Charlton, 2000).

O esquema a equerda demonstra como a evolução moldou o sistema nervoso central dos organismos a partir do momento que passaram a ser terrícolas. Note que o encéfalo de um réptil não passa de uma sofisticação de algumas áreas que se projetam para outras regiões. A direita nota-se nestes mamíferos claramente o desenvolvimento do neocortex.

O esquema a equerda demonstra como a evolução moldou o sistema nervoso central dos organismos a partir do momento que passaram a ser terrícolas. Note que o encéfalo de um réptil não passa de uma sofisticação de algumas áreas que se projetam para outras regiões. A direita nota-se nestes mamíferos claramente o desenvolvimento do neocortex.

Em conclusão, os seres humanos não precisam estar cientes dos estados do corpo, a fim de integrar as informações de estado do corpo com a informação perceptual. Se nossa história evolutiva tivesse tomado um caminho diferente, a integração poderia ter sido alcançada em regiões do cérebro onde o processamento cognitivo não alcançaria a consciência. Mas, pelos “acidentes” de história evolutiva, a memória de trabalho passou a ser o lugar em que as emoções e percepções foram reunidas e integradas. Assim, a consciência humana das emoções é uma consequência de fatores evolutivos contingentes, não é um aspecto formal necessário de inteligência social estratégico e, nesse sentido, o seu mecanismo é acidental. Ao mesmo tempo a consciência de emoções não traz por si própria uma vantagem adaptativa mas é apenas a convergência de emoções com as percepções sociais na memória que é adaptável e funcional.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Cultura, Consciência, Córtex, Tálamo, Memória de Trabalho, Percepção, Reconhecimento.

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Referências

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