IDENTIDADE RACIAL É UM ABSURDO BIOLÓGICO, DIZ CONFERENCISTA. (Comentado)

Filósofo Kwame Anthony Appiah diz raça e nacionalidade são invenções sociais utilizadas para causar divisões mortais.

Kwame Anthony Appiah diz que "a raça não faz nada para nós". Fotografia: BBC

Kwame Anthony Appiah diz que “raça não faz nada para nós”. Fotografia: BBC

Duas semanas atrás, Theresa May fez uma declaração que, para muitos, pisou em 200 anos de iluminação e pensamento cosmopolita: “Se você é um cidadão do mundo, você é um cidadão do nada“.

Era uma proclamação que atingiu figuras de todos os lados, mas para Kwame Anthony Appiah, o filósofo deu a primeira palestra prestígiosa a BBC neste ano, e o sentimento foi dolorido. Sua vida – ele é o filho de uma mãe aristocráta britânica de Ghana e um pai ativista anti-colonial, foi criado rigorosamente como cristão em Kumasi, em seguida, enviado para um internato britânico, seguido por uma mudança para os EUA na década de 1970; ele é gay, casado com um judeu que explora a identidade para a vida – significa que os comentários de May foram “um insulto e um absurdo em todos os sentidos possíveis”.

“É apenas um erro da história dizer que, se você é um nacionalista, você não pode ser um cidadão do mundo”, diz Appiah sem rodeios.

No entanto, as palavras do primeiro-ministro foram oportunas. Eles eram um exemplo do que Appiah considera serem graves mal-entendidos em torno da identidade; em particular, como vemos raça, nacionalidade e religião, como sendo o centro de quem nós somos.

Considerado um dos maiores pensadores do mundo sobre estudos culturais afro-americanos e Africano, Appiah tem ensinado na Universidade de Yale, Harvard, Princeton e agora NYU. Ele segue os passos notáveis de anteriores professores como Stephen Hawking, Aung San Su Kyi, Richard Rodgers, Grayson Perry e Robert Oppenheimer.

As palestras “Confusão de identidades” cobrem um terreno já bem trilhado pelo filósofo. Sua formação mestiça, crenças religiosas caducas e até mesmo orientação sexual têm, em suas próprias palavras, colocado-o na “periferia de cada identidade aceita”.

Mas, em face do fundamentalismo religioso, Brexit e a necessidade de reiterar em partes o que os EUA faz com as vidas negras, Appiah argumenta que é tempo de pararmos de fazer suposições perigosas sobre como nós nos definimos e como fazemos uns aos outros.

A palestra de Appiah na nacionalidade inspira-se fortemente sobre os “equívocos absurdos” que ele viu emergir de forma proeminente nas campanhas Brexit e Donald Trump – que, para preservar nossa identidade nacional, temos de nos opor a globalização.

“Meu pai foi para a prisão por três vezes como um prisioneiro político, quase foi baleado uma vez, serviu no parlamento, representou seu país nas Nações Unidas e acreditava que ele deveria morrer por seu país”, disse Appiah. “Não houve um homem mais patriótico do que meu pai, e este patriota ganense foi á pessoa que explicitamente ensinou-me que eu era um cidadão do mundo. Na verdade, era tão importante para ele que escreveu isto em uma carta para nós antes de morrer”.

“Então eu sei por experiência profunda que o nacionalismo e globalização andam de mãos dadas e não são, como Theresa May disse, projetos opostos. Ele só não fazem sentido”.

A inconsistência em direção à soberania nacional irrita Appiah. “Ele aponta a importância do direito de uma pessoa no Reino Unido para “resolver o seu próprio destino”, como Boris Johnson colocou no centro do palco durante a campanha Brexit, um ano antes”, que mesmo o direito havia sido negado ao povo da Escócia.

“Quer trata-se de histórias atuais da Essential Britishness, histórias de tempos de Hinduness na Índia, ou contos de um Estado islâmico puro, todos eles são profundamente infieis à verdade histórica”, diz ele. “Nacionalidade, religião, ambos sempre foram fluídas e em evolução, que é como eles sobreviveram”.

E quando se trata de auto-identidade, Appiah argumenta, raça é tão mal-entendida como a nacionalidade – com consequências desastrosas.

Sociedade ainda opera em grande parte sob o equívoco de que raça (em grande parte definido pela cor da pele) tem alguma base na biologia. Há a ideia de perpetuar que as pessoas de pele negra ou branca em todo o mundo compartilham um conjunto semelhante de genes que definem as duas corridas à parte, mesmo em todos os continentes. Em suma, é o que Appiah chama de “disparate total”.

“A maneira que falamos da corrida de hoje é apenas incoerente”, diz ele. “A coisa sobre a raça é que é uma forma de identidade que se destina a aplicar em todo o mundo, todo mundo supostamente tem uma – você é negro ou você é branco ou você está asiático – e que é supostamente significativo para você, quem quer e onde quer que esteja. Mas biologicamente isso é um disparate”.

Não é nova informação, mas para Appiah é essencial para expressar isso. Apesar de ter crescido mestiço e gay em Ghana, em seguida, ido para o Reino Unido com idade próxima aos 11 anos, Appiah diz que estes aspectos supostamente conflitantes de sua identidade nunca foram um problema para ele, até que ele se mudou para os EUA. Como um estudante na Universidade de Yale em seus primeiros 20 anos, outros começaram a defini-lo inteiramente por sua raça, e até mesmo questionaram se ter uma mãe branca o faz “realmente um negro”.

“Se você tentar dizer o que é a brancura de uma pessoa branca ou a negretude de uma pessoa negra que realmente significa em termos científicos, não há quase nada que você possa dizer que seja verdade ou mesmo remotamente plausível. No entanto, socialmente, usamos essas coisas o tempo todo como se houvesse solidez nelas”.

Appiah tem o cuidado de salientar que, enquanto a sociedade tem feito raça e cor uma parte significativa de como nos identificamos, especialmente em lugares como o Reino Unido e os EUA, ela é uma idéia inventada a que nos apegamos irracionalmente.

A palestra de Appiah explora a noção de que duas pessoas de pele negra podem compartilhar genes semelhantes para a cor da pele, mas uma pessoa de pele branca e uma pessoa de pele negra podem compartilhar um gene semelhante o que o torna brilhante em tocar piano. Então, por que, ele pergunta, decidimos que o é o núcleo da nossa identidade e a do outro é um traço menor?

“Como raça funciona é realmente muito local e específico; o que significa ser negro em Nova York é completamente diferente do que significa ser negro em Accra, ou até mesmo em Londres”, explica. “E ainda assim as pessoas acreditam que significa mais ou menos a mesma coisa em todos os lugares. Raça não faz nada para nós”.

“Eu acho que, a longo prazo, se todos compreenderem os fatos relevantes sobre a biologia e os fatos sociais, eles teriam que tratar a corrida de uma forma diferente e parar de usá-la para definir cada um”, diz ele.

A certa altura em que o mundo continua a dividir-se ao longo de linhas raciais, nos EUA, vão “sendo colocados nessa caixa-preta significando que você tende a tratar de modo pior tornando-os mais propensos a levar um tiro por um policial”, e levar as pessoas a compreender que raça é uma construção social poderia, na opinião de Appiah, salvar vidas.

Ele está convencido de que a identidade não é um “mal-entendido de apenas um filósofo” e que o mundo carrega as cicatrizes de cruzadas infinitas de luta para protegê-lo.

“Erros sobre raça estiveram no centro do genocídio de Ruanda; na invasão do Iraque em 2003 que foi moldada por nacionalismo americano e do chauvinismo sobre os muçulmanos; nacionalidade está parando-nos e claramente fazendo-nos tratar as coisas tais como a crise dos refugiados, porque sinto que ele vai ameaçar a nossa própria identidade”, diz Appiah. “Esta crise que estamos enfrentando agora está enraizada nestas confusões morais e intelectuais sobre a identidade. E é muito caro continuar cometendo estes erros”.

Fonte: The Guardian

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Comentários internos

O filósofo Appiah esta coberto de razão em vários sentidos. Primeiramente, porque a sociedade ainda carrega a ideia de que o termo “raça” é cientificamente válido; e não é! Isto é falso. Perpetua-se a ideia de que brancos e negros seguem caminhos biológicos, intelectuais e genéticos distintos, quando isto é claramente falso. Aqui explanarei cada uma dessas falhas. Sabemos que vezes sociedades se manifestam de forma racista abertamente, e outras de forma maquiada. Appiah destacou que o termo “raça” funciona de modo distinto, variando de localmente: ser negro nos EUA é diferente de ser negro em outros lugares do mundo. Appiah também destacou o racismo que abertamente sofreu nos EUA, e que muitas vezes é generalizado.

Em alguns locais, o racismo esta presente, mas disfarçado. Neste caso, muitas vezes vemos cidadãos aceitando relacionamentos entre pessoas de cores de pele distintas, mas tentam (consciente, ou inconscientemente) segrega-las em seus direitos, ou tomando atitudes que prejudique o próximo em funçãode sua cor de pele. O Brasil é um país cuja população não se assume racista (o que torna a luta mais dura), mas cotidianamente temos exemplos em posturas individuais e sociais, quando notamos que negros são a maior parcela da população brasileira, mas fazem parte da maior parcela da população carcerárea; vivem esquecidas pelo poder público nas periferias e rincões do país. A população negra sofre com as mortes mais violentas exatamente por viverem na periferia.

Junto a eles estão índios e tantos outros grupos socialmente estigmatizados, seja no Brasil, seja em outros países.

Não há justificativa biológica alguma para o racismo, porque ao uso do termo “raça” é concebido na tentativa de hierarquização a humanidade entre superiores e inferiores, e isto falha categoricamente em biologia, uma vez que seguimos um conjunto semelhante de genes que nos tornam uma única espécie com uma grande diversidade genética e morfológica. Ainda que brancos e negros fossem espécies distintas nada justificaria posturas de superioridade e inferioridade. O homem precisa transcender esta postura irracional de categorização do próximo usando inferioridade e superioridade como critério, porque estes não se sustentam socialmente, cientificamente, moralmente e racionalmente.

O uso da palavra raça encoraja a construção de uma falsa identidade; de que a pessoa é categorizada pela sua cor, e estabelece o que torna significativo para a vida de quem sofre o preconceito sob a perspectiva de outrem. Isto significa que o valor e o significado de sua vida é dado pela categorização alheia (de quem se auto-proclama superior), e um grupo sofre com tal categorização injustificada. É uma apropriação da identidade alheia.

As revistas científicas e sociedades profissionais devem encorajar o uso de termos como “ascendência” ou “população” para descrever agrupamentos humanos em estudos genéticos e deve exigir que os autores definam claramente como eles estão usando tais variáveis. É preferível para se referir a ancestralidade geográfica, cultura, status socioeconômico e linguagem, entre outras variáveis, dependendo das questões a ser abordadas, para desembaraçar a complicada relação entre os seres humanos, em sua história evolucionária, por exemplo. Isto já foi discutido em outro texto publicado aqui.

A eliminação progressiva da terminologia racial em ciências biológicas iria enviar uma mensagem importante para os cientistas e o público em geral: categorias raciais históricas que são tratadas como naturais e infundidas com noções de superioridade e inferioridade não têm lugar na biologia. Nós sabemos do uso de raça como categoria política ou social para estudar o racismo e seus efeitos biológicos, e embora repleta de desafios, continua a ser necessária. Essa pesquisa é importante para entender as desigualdades como estruturais e disparidades de saúde discriminação produzir em grupos sócio-culturalmente definidos.

Como destaca Appiah, a ideia de racismo (e não só ela, mas status social, o nacionalismo e outras) são invenções sociais. Uma contrução social refere-se a mecanismos sociais que controlam o funcionamento da sociedade de indivíduos e mostram-se de interesse social, ou um artefato socialmente criado por participantes de uma dada cultura e que existe porque as pessoas concordam em agir como se ele fosse um fato, ou ainda, seguindo determinadas normas. Isto significa que uma construção social como é o racismo é uma crença; parte-se de uma crença de que tal afirmativa é um fato, mas ela carece de base lógica, empírica e racional.

E como destacou Appiah, conceito de raça é agrupamento social construído por valores de uma dada cultura. Valores construídos não são fatos, são apenas valores construídos; eles não precisam representar um fato, mas apenas acreditar que aquilo é um fato por membros da sociedade. É na ausência de criticismo e de conhecimento (do uso da razão) que um racista é concebido. E sabiamente Appiah usa uma palavra para definir como o racismo é concebido: de modo irracional.

Como filosofo que é, Appiah demonstra que o a adoção do racismo é irracional no sentido mais básico e essencial da filosofia. O uso da razão foi estabelecido pelos gregos antigos, o pai da razão, o primeiro filósofo Tales de Mileto partiu do uso da razão para entender o que não mudava na natureza (physis), mas que explicava toda sua mudança. No caso Tales chegou a água para constatar uma explicação sobre o sucesso de colheitas na Grécia antiga. Ele chegou a constatação de que o sucesso de uma colheta estava ligado ao regime de chuva e não a presença da deusa da fertilidade. Ele o fez com o uso da razão: o uso dos dados que coletou, das possibilidades que cogitou e a conclusão que chegou após a observação. Este é o caminho que fez a razão forjar a filosofia.

Como o termo “raça” não tem base biologica alguma, não se sustenta racionalmente nem empiricamente, parte de um pressuposto socialmente construído erguido e injustificado pela razão. Ele é irracionamente proposto e socialmente caduco aceito porque as pessoas que adotam posturas racistas não tem justificativa biológica alguma para sua adoção. De tal forma, que o racista defende a suposta inferioridade com base em uma mera crença socialmente erguida que carece de dados, constatações e argumentações coerentes com os fatos e que por conseguinte põe sob cheque suas crenças.

Um piano não é bonito por ter apenas teclas brancas ou peças negras. De fato, nem funcional ele pode ser uma vez que quebraria a escala para tocar um jazz, um blues ou uma música clássica. Toda canção vai depender de notas que estão ali representadas em preto e branco. A beleza do piano esta no fato de que peças brancas e negras são peças complementares; são teclas, com sonoridades individualmente distintas sim, mas ainda sim são teclas que tornam o piano um instrumento agradável e a música bela de se apreciar. Nossa espécie é o piano, e nossas teclas brancas e pretas representam uma metáfora a todas ascendências em nossa espécie; do aborígene ao asiático, do índio Yanomami ao europeu, do africano aos esquimós do Círculo Polar Ártico. A canção da nossa espécie só é bela e funcional com todas as teclas presentes.

Tentativas de justificar “cientificamente” inferioridades raciais foram muito usadas em séculos passados fazendo uso de pseudociências como a frenologia, determinismos biológicos e eugenias. Em vários ensaios feitos pelo eminente paleontólogo Stephen Jay Gould apresentados em seu livro “A falsa medida do Homem” (1999) ele destaca diversos personagens da história que tentaram justificar posturas de segregação social e como elas eram metodológicamente falhas.

Gould destaca que o preconceito racial pode ser tão antigo quanto o registro da história humana, mas nem por isto é justificável. E o argumento “científico” passou a ser usado especialmente a partir do século XIX. Grupos defendiam que o negro era inferior e que sua condição biológica justificava a escravidão e colnização. Outros grupos condenavam os negros a inferioridade, e defendiam o direito de uma pessoa a liberdade não dependia de seu nível de inteligência. Thomas Jefferson, terceiro presidente dos EUA chegou a dizer que “Qualquer que seja o grau dos seus talentos [os negros], ele não é a medida dos seus direitos”.

De fato, Jefferson expressou também:

“Sugiro, portanto, apenas como conjectura, que os negros, quer constituindo originalmente uma raça distinta, quer diferenciados pelo tempo e pelas circunstâncias, são inferiores aos brancos tanto física quanto mentalmente”

Alguns argumentavam que uma educação e um padrão de vida adequado elevaria os negros ao nível dos brancos, se aproximando da ideia de que a inferioridade do negro era puramente cultural e que uma educação erradicaria a inferioridade. Outros advogavam a incapacidade do negro para tal. Benjamin Franklin considerava a inferioridade dos negros como puramente cultural e remediável, mas destacou a esperança de que a América se tornasse uma nação de brancos livre de cores menos agradáveis.

Mesmo Lincoln, ícone do abolicionismo nos EUA teve manifestações racistas:

“Existe uma diferença física entre as raças brancas e negras que em minha opinião, sempre impedirá que as duas raças vivam juntas em condições de igualdade social e política. E, na medida que não podemos viver dessa maneira, enquanto permanecerem juntas deverpa existiruma posição de superioridade e uma de inferioridade, e eu, tanto quanto qualquer outro homem, sou a favor de que essa posição de superioridade seja conferida a raça branca”

Mesmo os geólogos e paleontólogos Georges Cuvieri e Chales Lyell tinham posturas que viam o negro com inteligência insuficiente. J. F Blumenbach que era antropólogo e zoólogo alemão acreditava que a as diferenças raciais eram fruto de condições climáticas rechaçando hierarquias sociais baseadas na beleza e capacidade mental. Ele tomava a raça branca como referência e as demais como desvios do “padrão”. Houve pessoas que se manifestaram contra essa forma de hierarquização racial com base na estética e no intelectual se opondo a escravidão e subjugação. Mesmo Darwin no seu diário de bordo no H.M.S Beagle condenou a escravidão no Brasil:

“Perto do Rio de Janeiro, minha vizinha de frente era uma velha senhora que tinha umas tarraxas com que esmagava os dedosde suas escravas. Em uma casa onde estive antes, um jovem criado mulato era, todos os dias e a todo momento, insultado, golpeado e perseguido com um furor capaz de desencorajar até o mais inferior dos animais. Vi como um garotinho de seis ou sete anos de idade que foi golpeado na cabeça com um chicote (antes que eu pudesse intervir) porque me havia servido um copo de água um pouco turva…E essas coisas feitas por homens que afirmam amar ao próximo como a si mesmos, que acreditam em Deus e rezam para que Sua vontade seja feita na terra!”

Houve também aqueles que defenderam o poligenismo. Louis Agassiz era um poligenista que afirmava que os caucasianos (brancos) eram a linhagem que derivava de Adão e Eva e que outro Adão e Eva havia dado origem a raças inferiores e portanto não poderiam gozar da igualdade entre os homens. Para Agassiz, um criacionista prestiagiado em seu grupo e ferrenho opositor da evolução darwiniana, esta posição poligenista não feria os princípios cristãos porque ainda sim somente um Adão e Eva deu origem a humanidade, considerando humano somente os caucasianos e negros como outra forma de vida. Agassiz defendia um poligeniso bíblico e uma política específica para os tipos raciais. Para ele a educação deve ser adaptada ás habilidades inatas, e então, os negros devem fazer trabalho manual e o branco o trabalho intelectual. Para Agassiz apesar da igualdade ter de ser garantida a todos, aos negros ela deve ser outorgada a igualdade social sob a pena de debilitar a raça humana. Agassiz disse:

“Afirmo, portanto, que eles são incapazes de viver em pé de igualdade social com os brancos, no seio de uma única e idêntica comunidade social, sem se converter em um elemento de desordem social.”

Em 1860 o anatomista francês Etinne Serres defendeu que a perfectibilidade das raças inferiores era uma demonstração de que a espécie humana era capaz de se aprimorar através de esforços próprios. Serres se contentou com a tese da recapitulação ontofilogenética: refere-se ao desenvolvimento dos embriões de uma dada espécie e a filogenia refere-se à história evolucionária das espécies. A teoria faz uma relação entre evolução e desenvolvimento defendendo que o desenvolvimento do embrião repete o desenvolvimento evolucionário da espécie à qual pertence passando por etapas que se assemelham aos seus ancestrais na fase adulta.

Para Serres o nível de inteligência de negros adultos correspondia ao de uma criança branca, e dos mongóis adultos ao de adolescentes brancos. A síndrome de Down descrita por Lagdon Down em 1883 foi explicada usando este pressuposto, dando origem ao termo mongolóide, dizendo que pessoas com esta doença cessavam seu desenevolvimento embrionário e um estágio que daria origem aos mongóis.

O cirurgião Charles White defendia que a hibridização entre grupos tradicionalmente distintos (brancos com negros ou outras populações humanas) era possível tal qual era possível obter animais híbridos entre raposas, lobos e chacais. Nota-se nesta afirmativa que considerava-se brancos e negros espécies distintas capazes de se hibridizar.

O pensamento de Agassiz influenciou muitas pessoas. Um dos maiores defensores da concepção de raça foi Samuel Morton, graduado em medicina duas vezes. Ele começou uma coleção de crânios em 1820 e no ano de sua morte, 1851, já continha mais de mil crânios. Para ele e colegas (George Combe) os aborígenes retrocederam permanentemente diante da raça anglo-saxonica.

Morton foi um líder poligenista e investiu pesado em estudos “científicos” e estatísticos sobre raças humanas. O conceito de espécies de Buffon (de que uma espécie e composta por indivíduos que se reproduzem e geram descendentes férteis) era repudiado por Morton que queria modifica-lo para justificar que a reprodução entre brancos e negros seria hibridismo. Ele defendeu que espécie deveria ser defendida como “uma forma orgânica primordial”.

Nas análises cranianas que fez, comparou diversos povos e seus volumes cranianos usando sementes de mostarda como método. Depois de encher o volume craniano com as sementes despejava-os em um cilindro graduado e obtinha uma medida do volume craniano. A partir disto ele inferia que cérebros maiores representavam seres intelectualmente superiores. Para Morton a hierarquia racial seria estabelecida a partir do volume médio de seus cérebros. Com isto ele fez vários estudos e comparou os europeus com egípcios antigos, mulheres, esquimós, hotentotes, chineses, índios americanos, negros, incas e índios. Em um dos estudos de Morton as médias cranianas (empolegadas cúbicas) foram: negro etiope (78 inch³), Malaios (81 inch³), índios americanos (82 inch³), mongóis (83 inch³) e no topo da escala de humanidade o caucasiano (87 inch³).

O crânio de um chimpanzé aparece representado em um tamanho maior e a mandibula do homem negro falsamente dintendida para dar impressão de que os negros poderiam se situar até mesmo abaixo dos chimpanzés. George Robins Gliddon, Types of Mankind, 6th ed. (Philadelphia: Lippincott, Grambo & Co., 1854), 458.

O crânio de um chimpanzé aparece representado em um tamanho maior e a mandibula do homem negro falsamente dintendida para dar impressão de que os negros poderiam se situar até mesmo abaixo dos chimpanzés. Fonte: George Robins Gliddon, Types of Mankind, 6th ed. (Philadelphia: Lippincott, Grambo & Co., 1854), 458. Clique para ampliar

Stephen Jay Gould reavaliou os dados de Morton no ano de 1977 com dados estatísticos e encontrou uma série de falsificações e acomodações de dados para justificar a estratificação racial. Em muitos estudos houve seleção de crânios masculinos (que são maiores) para viciar os dados, e retiradas de crânios menores comparando-os com os demais grupos que também sofreram com o viés estatístico intencional para justificar a segregação. Com uso destas medidas e da frenologia ele justificou que os indígenas eram intelectualmente inferiores em suas estruturas mentais; que hotentotes eram próximos a animais inferiores; que esquimós eram insensíveis e extremamente egoístas.

Para Morton, índios não se adaptam as limitações impostas pela educação caucasiana e são incapazes de raciocinar.

O problema é que o resultado que Morton obteve de suas medições foi obtido de 144 crânios analisados de grupos muito diferentes e generalizados posteriormente. E esses crânios tinham diferenças significativas em suas capacidades cranianas. A média dos diferentes crânios deveria ajustar-se a um critério de igualdade para que a média final não fosse distorcida pelo tamanho desigual das amostras parciais. Isto significa que os estudos de Morton foram viciados e tendenciosos, pois foi constatado que Morton conhecia os métodos estatísticos corretos e como as variáveis deveriam ser tratadas nos cálculos estatísticos, mas enviesou os resultados.

Gould introduziu as médias de crânios de índios excluídos no estudo de Morton e recalculou. O resultado foi que se os 17 crânios ignorados por Morton fossem parte da matriz estatística como deveriam ser, eles contituiriam 26% da amostragem total composta por 66 crânios. O resultado foi que a média caucasiana caiu de 87 para 84,4 polegadas cubidas e não haveria diferenças cranianas alguma para justificar a segregação racial. Pior, o grupo dos esquimós forneceu uma média de 86,8 polegadas cubidas que foram ocultadas em outros subgrupos analisados.

As análises cranianas que Morton fez para tentar segregar intelectualmente homens e mulheres também estavam cheias de vieses estatísticos e expressaram somente o dimorfismo sexual e nada tema ver com inferioridade intelectual. Uma vez que o tamanho do cérebro é relacionado com a massa corpórea e as pessoas mais altas tendem a ter cérebros maiores foi algo que enviesou os dados de Morton. E claro, humanos do sexo masculino tem uma massa corporal em media 20% maior que a fêmea; fruto do nosso ligeiro dimorfismo sexual (comum em primatas). Notavelmente, sem considerar todas estas variáveis, Morton obteve conclusões erradas e tendenciosas para justificar a suposta inferioridade de mulheres. Além disto, como Morton usava sementes, ao medir crânios de caucasianos ele apertava as sementes no crânio para que coubesse mais e sacuadia-o para acomodar melhor as sementes, alterando as amostragens desde o início dos estudos. Assim, ao analisar crânios chineses ele retirava amostras de crânios maiores, ocultou crânios de esquimós em análises, usou desigualdade numérica nos crânios de índios, excluiu amostras de crânios hotentotes do sexo feminino e não considerava a estatura baixa deste grupo.

Enfim, Morton e tantas pessoas posteriores a ele usaram características frenológicas, determinismo biológico e testes psicológicos para determinar categorizações e hierarquicas sociais. Todas estas tentativas do século XIX foram descartadas pela ciência e hoje são configuradas dentro de pseudociências porque não tem respaldo cientifico do método científico.

Notamos então que a história é cheia de tentativas de justificar crenças socialmente erguidas como se fossem verdades absolutas. Appiah destaca um caso muito interessante quando cita que ”uma pessoa de pele branca e uma pessoa de pele negra podem compartilhar um gene semelhante”.

Quadro de resultados em cruzamentos . Herança poligênica

Quadro de resultados em cruzamentos . Herança poligênica

Em genética isto acontece, é possível que casais negros tenham filhos brancos. Tudo vai depender da carga genética (alelos) que eles vão carregar. Um caso bastante interessante ocorreu em 2008 quando filhos gêmeos alemães nasceram. O pai era de origem germânica, e uma mãe que nasceu em Gana (mesmo país de Appiah), na África Ocidental.

Geneticamente, a cor da pele dos seres humanos é determinada por um conjunto de quatro a seis genes diferentes, e portanto, casais mestiços podem (com uma bela dose de sorte da loteria genética), gerar bebês muito diferentes entre si. Esses genes determinam a produção de melanina e de tipos ligeiramente diferentes. Isto significa que esta característica é uma herança poligênica.

Alguns destes genes estão ligados a pessoas de pele mais clara, outros a pessoas de pele mais escura. Os bebês recebem cópias desses genes tanto do pai quanto da mãe. Normalmente, se o pai é branco e a mãe é negra, os efeitos se misturam: é por isso que o filho de um negro (com genes para pele escura) com uma branca (com genes para pele clara) tende a ser mulato, ou seja, ter cor de pele intermediária. Mas, em seu DNA, o bebê tem ambos os tipos de gene. Algun destes genes são não-alélicos e representados por “S” e o “T”. Ao fazer um quadro estatístico de possóveis cruzamentos, cada alelo contribui com uma dose de melanina enquanto seus respectivos alelos “s”e “t” não contribuem, criando um conjunto de fenótipos possíveis. Os alelos “S” e “T” estão juntos no mesmo indivíduo seus efeitos se somam (negro), e a dosagem mínima “sstt” determina a cor branca (diferente do albinismo que ocorre sob o efeito de genes não-alélicos independentes, como citado anteriormente). As cores mulatas variam de acordo com a dosagem de cada gene (Linhares & Gewandsznajder, 1999).

Assim, a genética explica que é possível casais brancos terem filhos negros, casais negros tenham filhos brancos e que casais de cores distintas tenham filhos dos mais diversos fenótipos (branco, negro e mulatos). Claro, isto esta longe de qualquer justificativa racial e simplesmente faz parte do elenco da diversidade genotípica e fenotípica de nossa espécie, que do contráio, sendo uma cor só seria inapto biologicamente, monótona socialmente ou um piano cacofônico. Sendo assim: viva a diversidade humana!

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Appiah, Nacionalismo, Racismo, Morton, Agassiz, Pseudociência, Recapitulação, Frenologia.

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Referências

Gould, S. J. A Falsa medida do Homem. Editora Martins Fonte. 1999.
Linhares, S. & Gewandsznadjer, F. Biologia – Programa Completo. Editora Ática. 1999.

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