HOMOLOGIA DEMONSTRA RELACIONAMENTO FILOGENÉTICO? SIM!

Fui questionado se aceitava que similaridades entre estruturas corroboravam processos evolutivos. Sim e não! Similaridades demonstram relacionamento evolutivo, mas não só isto. De fato, isto é secundário. Não é exatamente a similaridade entre estruturas de duas espécies que importa para estabelecer esta relação de homologia; senão colocaríamos cactos e porcos-espinho no mesmo grupo. O que mais importa para esta relação é a constituição biológica entre duas espécies. Concluir isto demanda o modo correto de se perguntar o que são estruturas homólogas, diminuindo a chance de terem surgido de modo independente, convergente ou falso positivo.

Danaus erippus and D. plexippus

Danaus erippus (esquerda) e Danaus plexippus (esquerda). Essas borboletas tem grandes semelhanças para diversos genes mitocondriais. Uma comparação genômica mostra uma diferença de 4,3%, há homologias por todos seus genomas. Ainda sim, são espécies distintas. Danaus plexippus faz famosa migração do Canadá ao México (veja 1, 2 e 3). Danaus erippus não migra.

Na biologia evolutiva, homologia corresponde á constatação de ancestralidade comum entre estruturas ou genes em espécies diferentes. Um exemplo comum de estruturas homólogas em biologia evolutiva são as asas do morcego e os braços de primatas. Então, a homologia exemplifica a existência de estruturas adaptadas a diferentes fins como resultado de descendência com modificação a partir de ancestral comum.

As asas dos morcegos e braços de um primata, assim como os membros dos tetrápodes foram adaptados a nova função permitindo que o padrão básico, 5 dígitos, tenha sido mantido por mais de 350 milhões de anos desde sua origem. Este número sofreu diversas variações; por exemplo, camelos tem 2 dedos, rinocerontes possuem 3 dedos, alguns animais desenvolveram cascos, outros ganharam nadadeiras peitorais (cetáceos), braços/remos em tartarugas, outros perderam não somente os dígitos mas os membros por completo (serpentes e alguns anfíbios).  Entretanto, ainda sim, apresentam características embrionárias que demonstram serem tetrápodes. Assim, é possível dizer que salamandras, humanos, ratos, saurópodes e pangolins tem estruturas homólogas (Carroll, 2006).

Estruturas homólogas, como a nadadeira peitoral das baleias e outros tetrápodes estão adaptadas a uma função. No caso das baleias e dos golfinhos, ambos mamíferos com os membros anteriores modificados para a vida em ambiente aquático. Neste caso há homologia de estrutura e da função

Estruturas homólogas, como a nadadeira peitoral das baleias e outros tetrápodes estão adaptadas a uma função. No caso das baleias e dos golfinhos, ambos mamíferos com os membros anteriores modificados para a vida em ambiente aquático. Neste caso há homologia de estrutura e da função

Ainda sim, uma simples semelhança morfológica ou de função não demonstra homologia se fizermos um exame mais profunda. O estabelecimento de homologias deve ser criterioso, e considerado de modo mais completo do que a mera similaridade estética de estruturas para evitar falsos positivos. Isto significa que análises mais profundas precisam ser feitas para que a biologia evite dizer que uma cecília (anfíbio – Gymnophiona) e uma serpente (réptil – Squamata) sejam espécies irmãs. Não basta observar um broto embrionário de um membro durante o desenvolvimento do animal para estabelecer homologia, e dizer que ele é um tetrápode. Cetáceos têm brotos embrionários reduzidos, são tetrápodes, não só pela constatação dos membros em si, mas porque apresentam evidências genéticas disto.

A afirmação de que animais têm estruturas homologas exige a constatação genética das estruturas. Por exemplo, usando genes Hox, aqueles que comandam o processo de desenvolvimento das regiões do corpo. Outro elemento importante no estabelecimento de homologias está ligado á rede de genes e a forma com que eles interagem na determinação de uma estrutura. E claro, se há respaldo em registros fósseis, isto traz mais confiabilidade na conclusão.

Um exemplo que ilustra isto vem dos artrópodes. Asas da mosca Drosophila são construídas com os mesmos genes que constroem as asas das borboletas, porque o gene Distal-less (Dlx) é o gene responsável por este papel. A frequência e intensidade de expressão deste gene em ambos os animais são distintas embora o gene em si seja o mesmo, ou seja, homólogo, porque apresenta a mesma sequencia genética, com mais de 90% de semelhança (tendendo a aumentar quanto maior for o distanciamento evolutivo de grupos estudados). As diferenças entre uma borboleta e uma mosca ocorrem porque há um interruptor molecular a mais no Dlx de borboletas que tem padrões de atividade distintos e com funções distintas (mas não sua sequencia de pares de bases). Enquanto em drosofilas esse gene produz asas, pernas e um segundo par de asas modificadas em halteres, em borboletas eles são responsáveis pela produção igualmente das pernas e asas anteriores, porém, desativados na construção do segundo par de asas, (desativados pelo gene Ultrabithorax, que constrói um padrão de asas diferentes). Além disto, o Dlx ganha uma nova função, a de produzir manchas ocelares em borboletas da família Nymphalidae (Carroll, 2006).

O mesmo gene é homólogo ainda entre aracnídeos, onde são responsáveis pela produção das fiandeiras e pulmões foliáceos, bem como nas branqueias de crustáceos, nas pernas do onicóforo e muito provavelmente (99%) em trilobitas por serem um grupo irmão que compartilha as mesmas características com crustáceos. Esse gene certamente vem do ancestral comum de todos os artrópodes que antecede o Cambriano estando presente certamente na Aysheaea que é o ancestral comum de todos esses artrópodes. Desta forma, é possível coletar evidências genéticas, moleculares, fossilizadas e morfológicas que nos permite com confiança afirmar que estes grupos são relacionados com características homologas (Carroll, 2006).

Nota-se então que não é a simples presença de uma estrutura, mas que a instrução que os determina são homólogas, que os genes responsáveis pelo desenvolvimento das estruturas é o mesmo, tem padrões de regulação, expressão e de relacionamentos com outros genes que são homólogos.

Outro exemplo que ilustra a homologia vem das serpentes, mas agora observando membros dos tetrápodes. Em serpentes Python, a expressão de genes Hox desenvolve os membros a partir de uma expansão rostral. Isso acaba resultando na perda de posições axiais adequadas para a iniciação do membro peitoral. Apesar de sinais de posicionamento para membros peitorais serem alterados em serpentes como as jiboias, as evidências sugerem que as conseqüências aberrantes em brotos dos membros pélvicos de Python ocorrem no início do desenvolvimento, mas não conseguem sustentar crescimento associado á inativação de vias de sinalização (Cohn & Tickle, 1999).

Como em jiboias, os embriões de baleias iniciam os brotos dos membros pélvicos, mas não conseguem continuar o desenvolvimento (Bejder & Hall, 2002). Os genes Hox especificam a padronização e posição dos membros durante o desenvolvimento embrionário de todos tetrápodes (Burke et al, 2000;  Carroll 1995; Shubin et al, 1997). Em peixes teleósteos e tetrápodes, os genes Hox estão envolvidos na especificação das estruturas ao longo das barbatanas peitorais ou formação dos membros anteriores; os limites anteriores de expressão são dados pelos genes HoxC-6 e HoxC-8 e 10 e coincidem com a localização das gemas de formação do membro posterior. Os mesmos limites de expressão HoxC-6 terminam em diferentes níveis dos somitos embrionários em espécies diferentes; os somitos 11 e 12 em ratos, 18 e 19 em pintinhos, 20 e 21 em gansos e 3 e 4 em Xenopus (Burke et al, 1995). Notamos, então, que eles têm a mesma função em diferentes grupos, mas se expressam em momentos distintos. Mas não é só isto!

homologia

Expressão do gene HoxC6 em diferentes animais determinando a divisão das vértebras

Genes Hox também são diferencialmente expressos em diferentes tecidos que contribuem para a formação do membro. Por exemplo, genes Hox-9 são regulados diferencialmente na porção lateral mesodérmica e na mesoderme paraxial do indivíduo (Cohn et al, 1997;. Burke, 2000).

Os HoxC-6 e HoxC-8 são diferencialmente expressos na mesoderme do pintinho e presumivelmente em outros tetrápodes. Por exemplo, seus padrões de expressão e sobreposição, começam mais anteriormente e param igualmente anteriormente (antes do território dos membros posteriores) em embriões de galinha. Em Pythons durante a fase embrionárias há a expressão expandida de HoxB-5, HoxC-6 e HoxC-8 ao longo do eixo do corpo. Os genes HoxC-6 e HoxC-8 têm limites posteriores de expressão que são um pouco mais posteriores do que os observadas em embriões de galinha, estendendo-se para o território dos membros posteriores, mas vão muito mais longe anteriormente. De fato, para o limite anterior do tronco. Eis ai porque os membros são reduzidos; resultado de um prolongamento do corpo.

No caso da baleia fica claro não só a homologia da estrutura em si, mas dos genes Hox envolvidos, que são os mesmos em todos os tetrápodes (mais de 30 genes Hox foram identificados em tetrápodes, todos homólogos) (Bedjer & Hall, 2002).

Todos os peixes (incluindo o celacanto, que estão ligados a origem dos tetrápodes), anfíbios, répteis aves e mamíferos tem 4 agrupamentos Hox, e então podemos concluir que esses mesmos agrupamentos estavam presentes no ancestral dos vertebrados. Mas as lampreias possuem menos agrupamentos que os vertebrados modernos. As análises genéticas comparativas entre mamíferos e peixes ósseos mostram que nossos 4 agrupamentos são produto de duas series de duplicações no início da evolução dos vertebrados. Uma duplicação ocorreu após a separação de cefalocordados e lampreias e a outra no momento em que os peixes ósseos surgiram. Os fósseis encontrados no sitio chinês de Chengjiang são de peixes sem mandíbulas e isso permite-nos inferir que eles deviam ter apenas um único agrupamento desses genes. Além desses genes outros conjuntos genéticos foram duplicados durante a evolução dos vertebrados, seja essa duplicação parcial ou total do genoma. Obviamente, esses conjuntos nos permite ver que outros genes relacionados à arquitetura corporal também se originaram ao longo da história. Uma das evidências disso é a quantidade de diferentes tipos celulares que surgem em cada um desses grupos.

Da mesma forma com que ocorre em estruturas anatômicas, a homologia de genes é estabelecida entre sequências de proteínas ou de DNA onde se define ancestralidade compartilhada. Entre proteínas e DNA a melhor estratégia de estabelecer relacionamento entre duas espécies é comparando DNA nuclear das espécies e o DNA mitocondrial. O uso de proteínas para estabelecer relacionamento também é utilizável, mas precisa de cautela.

Hox gene origem

Duplicação de genes Hox

A certo tempo atrás, criacionistas alegaram que bananas têm 50% das mesmas DNA/proteínas que humanos. Curiosamente não foi encontrado um artigo que estabeleça homologia entre homens e bananas,por mais que tenha sido procurado. O que foi alegado em alguns momentos é que proteínas de humanos e bananas eram homólogas. Isto é falso, porque o fato de haver a mesma proteína não implica que as sequências que as codificam sejam homologas e sim convergentes. Vejamos um exemplo hipotético.

Uma proteína hipotética-H pode conter 4 aminoácidos; fenilalanina-serina-tirosina-cisteína cujo código genético que a representa seja UUU-UCU-UAU-UGU. Uma mesma proteína-H pode ter uma sequencia diferente desta, sendo por exemplo; UUC-UCC-UAC-UGC. Nenhum dos códons genéticos da primeira proteína é igual á segunda, embora sejam a mesma proteína. Se esta proteína estiver presente em duas espécies distintas, como uma briófita e um verme sipunculídeo, cujo relacionamento filogenético e distante, configurando funções distintas, ou coordenando aspectos distintos é evidente que não há relacionamento evolutivo. São proteínas convergentes.

O que os criacionistas propõem é que semelhanças entre sequencias de DNA não implicam em relacionamento filogenético. O que eles propõem é que as similaridades genéticas existentes entre genomas inteiros (entre bonobos e chimpanzés – 99%, entre leões, tigres e gatos domésticos 95,6%, ou entre humanos e chimpanzés), padrão de expressão de genes próximo entre si das espécies e fósseis são falsos positivos; e que criações independentes são mais coerentes. Infelizmente (para eles) estas alegações carecem de evidências empíricas, e se respaldam em crenças religiosas.

Para frisar bem, deixe-me dizer de outra forma: para os criacionistas a semelhança de genomas, de padrões de expressão de genes são resultado de criações independentes apesar dos fósseis, sequencias de genomas inteiros e padrões de expressão genes, comportamento, cariótipo, semelhanças morfológicas e anatômicas mostrarem claramente relacionamentos. É como duvidar de um exame de paternidade dizendo “O fato da criança ter metade do meu DNA não implica que seja meu filho, mas criação divina”.

A sequência de DNA nos genes indica muito sobre relacionamento. Dois segmentos de DNA podem ter compartilhado ancestrais devido a um evento de especiação (são chamados de ortólogos) ou de um evento de duplicação (parálogos) (Koonin, 2005).

A homologia estabelece uma porcentagem de identidade, e tal como acontece com nas estruturas anatômicas, elevadas semelhanças de sequências podem ocorrer por causa da evolução convergente, ou, como com as sequências mais curtas, por pura obra do acaso.

Tais sequências são semelhantes, mas não homólogas, como vimos no hipotético exemplo da proteína-H. Regiões de sequências que são homólogas são também chamadas conservadas. Isto não deve ser confundido com a conservação em sequências de aminoácidos em que o aminoácido numa posição específica tenha sido substituído com um diferente com propriedades físico-químicas funcionalmente equivalentes. Pode-se, no entanto, referir-se a homologia onde uma fração das sequências comparadas são próximas.

Será mais provável que exista uma relação histórica de genes de duas espécies que seja explicada por um processo natural constatado cientificamente como é a evolução, ou será que é mais plausível que as milhares de espécies de mamíferos terem genes iguais mediante criações independentes?

A pergunta é capciosa, e não precisa ser respondida. Podemos observar as semelhanças entre os genes. Um bom exemplo vem de borboletas amazônicas em que pesquisas demonstram que a borboleta Heliconius melpomene e H. erato trocam genes em determinadas áreas da Amazônia e permite a formação de híbridos saudáveis e com padrão de coloração próxima (BMC, 2008). Será que diante deste resultado, estes híbridos possuem genes homólogos a H. melpomene sendo ele uma H. erato? A resposta se salta a vista. A homologia vai estar presente, afinal, o resultado é um hibridismo, e apesar de serem de espécies distintas, a contribuição genética ocorreu.

Será que variedades híbridas, e até mesmo novas espécies como a H. heurippa (que se originou de hibridismo de H. melpomene e H. erato) vão ser resultado de criação individual, mesmo diante dessas constatações?

A individualização da criação das espécies não tem respaldo acadêmico. Isso sem contar o caso do DNA mitocondrial que claro, muitas vezes conserva semelhanças grandes entre espécies irmãs (como a Danaus gillipus e D. eresimus), ou a Danaus plexippus (a famosa monarca) e sua espécie irmã Danaus erippus.

Danaus plexippus e Danaus erippus apresentam 4,8% de diferença em DNA mitocondrial (Smith et al, 2005). Somando as semelhanças comportamentais, semelhanças entre DNA nuclear, DNA mitocondrial e dados de especiação devemos alegar que Danaus plexippus e D. erippus não possuem sequencias homologas? Veja você mesmo a semelhança genética entre ambas.

Danaus sequencia

Seqüência de DNA mitocondrial do loci COI, tRNALeu e COII encontram uma divergência genética média de 4,8% entre D. erippus D. e plexippus em comparação par a par. Entretanto,  a diferença genética é de somente 0,3% quando se observa separações geograficamente diversas de amostras entre grupos. Assim, afirma-se que D. erippus é uma espécie distinta, de D. plexippus. Na imagem é possível ver a comparação entre os caracteres 18S, EF1α ,12S e COI. Aplicando a taxa de divergência de DNA mitocondrial de 1,2% por milhão anos na separação de D. erippus e D. plexippus a origem dessas duas espécies ocorreu a cerca de 2 milhões de anos atrás (Plioceno-Pleistoceno). Sugere-se a possibilidade de que uma população erippus-plexippus ancestral foi inicialmente dividida durante um período interglacial, quando sucessivas níveis do mar foram levantados para 100m e 60 m (em comparação com os dias de hoje). Nesses momentos a Amazônia foi inundada e tornou-se uma série de enormes lagos de água doce e salobra que se estendeu para o oeste do Atlântico ao pé da Cordilheira dos Andes no leste do Peru. A sucessões seguintes nas baías amazônicas formaram uma barreira geográfica que isolaram D. erippus ao sul de a sub-espécies megalippe para o norte durante milhares de anos; tempo suficiente para desencadear a especiação.

O que os criacionistas alegam é que apesar de todas essas semelhanças escancaradas no nível mais profundo da vida, a molécula de DNA, ainda sim a homologia é um falso-positivo; mas o verdadeiro positivo vê de uma criação individualizada que é evidente sem a necessidade de publicações científicas, e sim teológicas (uma teologia especifica por sinal).

Ainda nos resta outro questionamento; Será possível constatar a inexistência de homologia entre duas estruturas que supostamente são a mesma. Sim! O Saccoglossus kowalevskii é um hemicordado da costa atlântica dos Estados Unidos. Eles possuem uma estomocorda que se estende desde a haste de células a probóscide que a princípio seria homóloga a notocorda. Após analisar o padrão de expressão gênica desta estrutura constatou-se que não correspondia a notocorda dos hemicordados. Isso porque a notocorda embrionária e suas células precursoras se expressam em conjunto com os genes brachyury, chordin e nodal, e outros que não são ativos na estomocorda.

No entanto, a expressão de genes sugere que o local da estomocorda é relacionado com a endomesoderme pré-cordal e que o animal não tem uma notocorda homóloga. Como os biólogos já sabem que os hemicordados têm muitos genes e famílias de genes homólogas com cordados, as sequências destes genes mostraram que o grupo se encaixa perfeitamente como um grupo irmão dos cordados e equinodermos (veja mais aqui).

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A filosofia da ciência sob a questão da homologia

Fui questionado se deveria botar confiança na homologia proposta pelos modelos de biologia evolutiva por se tratarem de inferências. Como se a inferência sempre fosse algo duvidoso. Para discutir isto precisamos ter em mente o que é uma inferência e como a biologia trabalha para justificar se uma inferência é válida, ou não.

A inferência é parte do estudo de lógica; é uma construção feita com base em uma afirmação de verdade de uma proposição em decorrência de sua ligação com outras proposições já reconhecidas como verdadeiras. O cientista quando infere homologia parte de proposições que são reconhecidas como verdade, como por exemplo; semelhanças genéticas entre genes, semelhanças entre genomas, cariótipo, proximidade dos grupos biológicos estudados, fósseis que fomentem um relacionamento histórico. Uma inferência não é um “eu acho”, mas um”seguindo as evidências já corroboradas em casos semelhantes, um resultado próximo é provável”.

Na ciência, a inferência é uma construção feita não somente com base na lógica, mas na constatação. Não basta que a afirmativa seja coerente do ponto de vista lógico. Ela precisa ter respaldo prático. Vejamos um exemplo.

Poderíamos afirmar que:

1) Todos gatos têm 5 patas;

2) Tom é um gato;

3) Tom têm 5 patas.

É uma dedução perfeitamente válida, lógica, mas as premissas 1 e 3 são falsas. A lógica dedutiva sozinha não funciona como uma fonte de afirmações válidas sobre o mundo. Ela precisa se relacionar com derivações de afirmações e serem corroboradas (Chalmers, 1993).

Quando os cientistas afirmam que:

1) Todos gatos têm 4 patas;

2) Tom é um gato;

3) Tom têm 4 patas

Ele esta partindo de uma constatação; de que todos os gatos encontrados por ele e pela ciência de fato têm 4 patas. Ainda que não conheçamos todos os gatos do mundo, esta proposição é válida até que a exceção seja encontrada. Se algum gato com 5 patas for encontrado um adendo pode ser colocado, 1) Todos gatos têm 4 patas (exceto os que tem má formação no desenvolvimento embrionário) ou ainda: 1) Há gatos com 4 ou 5 patas.

Assim, as premissas posteriores podem mudar: 2) Tom é um gato; 3) mas Tom têm apenas 4 patas; ou alternativamente; 3) mas Tom é um gato especial, ele têm 5 patas.

Quando a ciência estabelece homologias ela conecta grupos com base em suas características constituintes e não meras semelhanças estéticas. Essa semelhança não pode ser superficial, pois geraria falsos positivos. A ciência busca a verdade que muitas vezes não é aparente, por isto os experimentos, para fugir de falsos-positivos gerados pelo olhar superficial. Um falso-positivo ocorre quando um determinado resultado de algum teste ou equação dá positivo para algo que não ocorre devidamente, porque na verdade o resultado é negativo. Algo que ocorre com mais frequência em medicina e para anti-vírus e firewalls nos computadores.

Em nosso caso, na biologia, um exemplo de falso-positivo seria coletar características, ou ter pistas para um fenômeno ou objeto e no final estar errado, pois tais características se referiam a outro objeto ou fenômeno.

Se eu pedisse que um amigo me descreve-se o nome de uma fruta cujo formato é arredondado, vermelha, muito saborosa, as pessoas comem quase diariamente, da para fazer suco e é bastante produzida no Brasil. Sabidamente alguém me diria que é uma maçã. Entretanto, eu poderia esta me referindo a um tomate. Afinal, tomate é um fruto e preenche todas as características acima. Portanto, eu poderia demonstrar como premissas verdadeiras podem nos conduzir a uma conclusão falsas. Vejamos um exemplo:

1) Todas as maçãs são frutas. (Correto)

2) Tomates são frutas. (Correto)

3) Portanto, tomates são maçãs. (Errado)

Tomates não são maças, mas biologicamente poderíamos analisar a situação. Ambas as frutas fazem parte do mesmo grupo biológico; são do reino Plantae, fazem parte da divisão Magnoliophyta e classe Magnoliopsida. Apesar de pertencerem ao mesmo grupo biológico carregam características biológicas que os diferenciam em espécies, gêneros, famílias e ordens distintas; tomates são Solanales e maças Rosales. Chegamos ao topo da distinção biológica do grupo, a Ordem na qual pertencem, pois acima disto pertenceriam a mesma Classe (Magnoliopsida).

Rosales (maças) tem uma série de caracteres homólogas apomórficas (características derivadas, exclusivas do grupo) compartilhados por dois ou mais táxons. Essas características exclusivas da ordem são a redução (e ás vezes, até a ausência) de endosperma e a presença de um hipanto; um receptáculo tubular ou em forma de taça que envolve ou cresce junto ao ovário da planta. Algo que é distinto, de Solanales (tomates).

Note que a descrição da cor, forma e características culinárias da fruta são muito genéricas. A biologia evolutiva sai do patamar genérico, sai do nível superficial e vai buscar o que é exclusivo do grupo para caracteriza-lo. Muitas vezes as exclusividades são o que define uma espécie. Com tudo, esta espécie não é um ser isolado do mundo, ela veio de algum lugar, no caso, de um ancestral ou uma espécie irmã. É neste ponto que a ciência vai classificar tomates, tabaco e fumo em um grupo, com seus respectivos pigmentos e suas respectivas 3000 espécies distribuídas em 150 gêneros de Solanales, e em rosales classificará a maça, rosas e morango e seus respectivos pigmentos tomando Fagales e Cucurbitales como grupo irmão por compartilhar características em comum.

A biologia sai do superficial. Enquanto vemos borboletas Morphos todas azuis, os lepidopterologistas veem seu padrão de coloração azulado e dentro do seu DNA o que há de exclusivo da espécie; o que há de compartilhado no mais profundo conhecimento que se pode ter de um ser vivo, o seu DNA. Assim, identifica-se as semelhanças morfológicas, comportamentais, anatômicas, cariotípicas, estrutura molecular e lamelar de suas escalas, DNA nuclear, DNA mitocondrial, padrão de expressão de genes, redes genética, cariótipo etc e tal. A partir daí faz-se a inferência, calcula-se qual a possibilidade de que tal semelhança genética seja fruto do acaso e qual a possibilidade dela ser fruto de processos evolutivos considerando todas as características de todas as espécies utilizadas.

Assim, a validade de uma inferência depende da forma como ela é feita. A palavra “válido” não se refere à verdade das premissas ou da conclusão, mas sim a forma na qual se dá a inferência. Uma inferência pode ser válida, mesmo se as partes são falsas, como vimos acima. Mas uma forma (inferência) válida, acompanhada de premissas verdadeiras, e com respaldo empírico terá uma conclusão verdadeira. Assim, a homologia é sim uma forte evidência a favor da evolução, pois busca no mais profundos níveis biológicos as semelhanças entre as espécies e o que as torna exclusivas. Essas inferências da biologia evolutiva são feitas não com base no que há de superficial sobre as espécies, mas com base no nível mais profundo delas, a informação genética, que determina a construção dos indivíduos que a compõe.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Homologia, Evolução, DNA.

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Referências

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Bejder, L., Hall, B.Limbs in whales and limblessness in other vertebrates: mechanisms of evolutionary and developmental transformation and loss. EVOLUTION & DEVELOPMENT 4:6, 445–458 (2002)
Carroll, S. B. Homeotic genes and the evolution of arthropods and chordates. Nature 376: 479–485. 1995
Carroll. S. B. Infinitas formas de grande beleza. Editora Jorge Zahar. 2006
Chalmers, A. Afinal, o que é ciência? Editora Brasiliense. 1993
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Judd et al. 2009. Sistemática vegetal: um enfoque filogenético. Ed. Artmed.
Koonin EV (2005). “Orthologs, paralogs, and evolutionary genomics”. Annual Review of Genetics 39: 309–38.
Shubin, N., Tabin, C., and Carroll, B. B. 1997. Fossils, genes and the evolution of animal limbs. Nature 388: 639–648

2 thoughts on “HOMOLOGIA DEMONSTRA RELACIONAMENTO FILOGENÉTICO? SIM!

  1. Já vi criacionista responder dizendo que não compartilhava da mesma fé da pessoa quando foi confrontado com o fato de fósseis como o do ambulocetus ser ancestral das baleias modernas. Ou seja, o criacionista insinuou que acredita-se apenas por fé que o ambulocetus é ancestral da baleia moderna.

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