SIMULAÇÃO DA DINÂMICA DE POPULAÇÕES PRÉ-HISTÓRICAS USANDO DADOS DE SATÉLITES TOPOGRÁFICOS ATUAIS. (Comentado)

Em uma recente descoberta, os cientistas do Tata Institute of Fundamental Research, e do Centre for Excellence in Basic Sciences, Mumbai, demonstram um método preciso para simular movimentos pré-históricos de pessoas com base em dados de satélite topográficos atuais. Recentemente publicado na revista PLoS ONE, dinâmica populacional de migração humana pré-histórica na ilha compreendendo Inglaterra, Escócia e País de Gales foi simulada pela aplicação de uma equação de difusão temperada por dados geográficos determinados a partir de informações baseadas em satélite.

Esta imagem mostra a) a corrente de densidade populacional britânica, b) o mapa genético, c) a habitabilidade da massa de terra, e d) simulado distribuição na população após 2.000 passos. Crédito: Mayank N. Vahia, Uma Ladiwala, Pavan Mahathe, e Deepak Mathur

Esta imagem mostra a) a corrente de densidade populacional britânica, b) o mapa genético, c) a habitabilidade da massa de terra, e d) simulação da distribuição na população após 2.000 passos. Crédito: Mayank N. Vahia, Uma Ladiwala, Pavan Mahathe, e Deepak Mathur

É importante ressaltar que estes resultados são validados por dados genéticos recentemente disponíveis. Este método pode ser útil na determinação da dinâmica populacional humana que iniciou-se mesmo quando nenhuma informação genética estava disponível.

Movimento de pessoas em tempos pré-históricos foi quase inteiramente determinada por parâmetros determinísticos geografia e as necessidades humanas, tanto quando pequenas populações mover-se em áreas desocupadas onde os conflitos e grandes dinâmicas de grupo não são importantes. O período inicial da migração humana nas ilhas britânicas fornece um laboratório quase ideal que, devido ao seu isolamento geográfico relativo, pode permitir que alguns insights sobre a dinâmica complexa da migração humana precoce e interação.

Simulação da dinâmica da população da Grã-Bretanha pré-histórica, utilizando dados de satélite topográficos atuais. Crédito: Mayank N. Vahia, Uma Ladiwala, Pavan Mahathe, Deepak Mathur.

Simulação da dinâmica da população da Grã-Bretanha pré-histórica, utilizando dados de satélite topográficos atuais. Crédito: Mayank N. Vahia, Uma Ladiwala, Pavan Mahathe, Deepak Mathur.

Comentando sobre a simulação utilizado neste estudo, Professor Vahia, o principal cientista deste trabalho, disse que: “O nosso código de simulação é baseado em afinidade humana a terra habitável, conforme definido pela disponibilidade de fontes de água, a altitude, e nivelamento do terreno. Estes parâmetros temperam a difusão de pessoas e permitir-nos a seguir o seu caminho de migração”. Os pontos de entrada iniciais de pessoas para a principal ilha britânica foram determinadas usando dados do período megalítico. Dados topográficos e hidro-shed de bancos de dados de satélite foram utilizados para definir habitabilidade, com base na distância de corpos d’água, nivelamento do terreno e altitude acima do nível do mar.

movimentação da população foi simulado com base em premissas de afinidade para os locais mais habitáveis, com a taxa de movimento temperado pelas populações existentes. A equipe de cientistas compararam os resultados de suas simulações de computador com dados genéticos disponíveis para mostrar que sua simulação pode prever com bastante precisão os pontos de contatos entre os diferentes caminhos migratórios. Tal comparação também fornece informações mais detalhadas sobre o caminho do movimento dos povos mais de ~ 2000 anos antes da era atual.

Fonte: Phys.Org

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Comentários internos.

Este trabalho proporciona uma ferramenta bastante útil no que diz respeito a comparação entre o modelo civilizatório atual e a densidade populacional pré-histórica. Isto permite fazer comparações e estabelecer certas conexões, com a situação atual em que no encontramos e nossa crise civilizatória. Não é a primeira vez que este tipo de trabalho é feito, mas talvez, esta seja a primeira vez que há um nível de precisão bastante razoável.

Neste sentido, pensando na dinâmica de população e no modelo civilizatório resolvi comparar e relacionar eventos históricos importantes dos últimos 40 anos; dados sobre a expansão do neoliberalismo, a Era de Ouro do Capitalismo, aumento do consumo de combustíveis fósseis, aumento da temperatura do planeta e aceleração do aumento da população humana. Pode parecer estranho, mas há um padrão e há uma data clara comum entre todos estes pontos.

O período pós-guerra até o início da década de 1960 e especial década de 70 foram os “anos dourados” das economias capitalistas. O boom do pós-guerra terminou no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, e a situação foi agravada pelo aumento da estagflação. A Europa renasce do financiamento conseguido por meio do Plano Marshall. Isto porque durante o período das décadas de 1930/45 e na década de 1970, o modelo econômico keynesiano era predominante dentre os países do bloco ocidental da Guerra Fria.

O sucesso no desenvolvimento desses países durante esse período, levou o historiador Eric Hobsbawm a cunhar a expressão “era de ouro” do capitalismo mundial.

Durante as décadas de 1960 e 70 houve uma significativa melhoria das relações entre os Estados Unidos e a União Soviética, levando o período a ser conhecido como de “coexistência pacifica”, no qual os dois países buscavam, de forma coordenada, garantir suas posições e impedir a ascendência de terceiros.

Para descrever o ressurgimento de ideias associadas ao capitalismo apresentadas pelo Liberalismo Clássico, foram implementadas medidas neoliberais a partir do início dos anos 1970 e 1980 (Haymes, 2015). Um conjunto de políticas adotadas pelos governos neoconservadores, sobretudo a partir da segunda metade dos anos 1970.

Resumidamente, o capitalismo global entrou em uma nova etapa de desenvolvimento histórico, e nos anos seguintes nos projetou em outra dimensão econômica. A grande crise da década de 1970 alterou a dinâmica social capitalista que se distingue radicalmente de outras épocas históricas. A década de 70 significou, no plano histórico-mundial, a inauguração de uma nova perspectiva histórica no processo civilizatório do capital, a crise do petróleo e por isso, surgiram novos fenômenos sociais radicalmente novos.

As emissões globais de carbono a partir de combustíveis fósseis aumentaram consideravelmente desde 1900. Entretanto, desde 1970, as emissões de CO2 aumentaram cerca de 90%, provenientes da queima de combustíveis fósseis e processos industriais que contribuem cerca de 78% do aumento total de emissões de gases de efeito estufa entre 1970 e 2011. A agricultura, desmatamento e outras mudanças no uso da terra têm sido as segundas maiores contribuidores (Carbon Dioxide Information Analysis Center). As emissões de gases de efeito estufa sem ser o CO2 também aumentaram significativamente desde 1900.

As emissões de gases de efeito estufa sem ser o CO2 também aumentaram significativamente desde 1900. Clique para ampliar.

As emissões de gases de efeito estufa sem ser o CO2 também aumentaram significativamente desde 1900. Clique para ampliar.

Os gases de efeito estufa de origem antropogênica (liberados pelo homem em suas atividades) desde a era pré-industrial têm impulsionado grandes aumentos nas concentrações atmosféricas de dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O). Entre 1750 e 2011, as emissões de CO2 antropogênicas cumulativas na atmosfera foram 2,040 ± 310 Gt de CO2. Cerca de 40% dessas emissões permaneceram na atmosfera (880 ± 35 Gt de CO2); o restante foi removido da atmosfera e armazenado em terra (em plantas e solos) e no oceano. O oceano absorveu cerca de 30% do CO2 antropogênico emitido, causando a acidificação dos oceanos. Cerca de metade das emissões antropogênicas de CO2 entre 1750 e 2011 ocorreram nos últimos 40 anos, ou seja, a partir da década de 1970.

Emissão anual total de origem antropogênica de gases com efeito de estufa (gigatoneladas de de CO2 por ano, GtCO2-eq / ano) para o período 1970-2010 por gases: CO2 provenientes da queima de combustíveis fósseis e processos industriais; CO2 de Florestas e Outros Usos da Terra (Folu); metano (CH4); óxido nitroso (N2O); gases fluorados abrangidos pelo Protocolo de Quioto (F-gases). Ao lado direito vemos as emissões de 2010, usando ponderações de emissões de CO2 em alternativa equivalente com base no relatório do IPCC na Segunda Avaliação (SAR) e os valores AR5. As emissões de CO2 neste relatório incluem gases de Quioto (CO2, CH4, N2O, bem como gases fluorados), calculado com base em 100 anos o Potencial de Aquecimento Global (GWP100), valores do SAR. Usando os valores mais recentes GWP100 dos AR5 (barras da direita) resultaria em aumento das emissões totais anuais dos gases do efeito estufa de origem antropogênica (52 Gt de CO2-eq / ano) e um aumento da contribuição de metano, mas não altera a tendência de longo prazo de forma significativa.

Emissão anual total de origem antropogênica de gases com efeito de estufa (gigatoneladas de de CO2 por ano, GtCO2-eq / ano) para o período 1970-2010 por gases: CO2 provenientes da queima de combustíveis fósseis e processos industriais; CO2 de Florestas e Outros Usos da Terra (Folu); metano (CH4); óxido nitroso (N2O); gases fluorados abrangidos pelo Protocolo de Quioto (F-gases). Ao lado direito vemos as emissões de 2010, usando ponderações de emissões de CO2 em alternativa equivalente com base no relatório do IPCC na Segunda Avaliação (SAR) e os valores AR5. As emissões de CO2 neste relatório incluem gases de Quioto (CO2, CH4, N2O, bem como gases fluorados), calculado com base em 100 anos o Potencial de Aquecimento Global (GWP100), valores do SAR. Usando os valores mais recentes GWP100 dos AR5 (barras da direita) resultaria em aumento das emissões totais anuais dos gases do efeito estufa de origem antropogênica (52 Gt de CO2-eq / ano) e um aumento da contribuição de metano, mas não altera a tendência de longo prazo de forma significativa. Clique para ampliar.

Emissão anual total de origem antropogênica de gases com efeito de estufa (gigatoneladas de de CO2 por ano, GtCO2-eq / ano) para o período 1970-2010 por gases: CO2 provenientes da queima de combustíveis fósseis e processos industriais; CO2 de Florestas e Outros Usos da Terra (Folu); metano (CH4); óxido nitroso (N2O); gases fluorados abrangidos pelo Protocolo de Quioto (F-gases). Ao lado direito vemos as emissões de 2010, usando ponderações de emissões de CO2 em alternativa equivalente com base no relatório do IPCC na Segunda Avaliação (SAR) e os valores AR5. As emissões de CO2 neste relatório incluem gases de Quioto (CO2, CH4, N2O, bem como gases fluorados), calculado com base em 100 anos o Potencial de Aquecimento Global (GWP100), valores do SAR. Usando os valores mais recentes GWP100 dos AR5 (barras da direita) resultaria em aumento das emissões totais anuais dos gases do efeito estufa de origem antropogênica (52 Gt de CO2-eq / ano) e um aumento da contribuição de metano, mas não altera a tendência de longo prazo de forma significativa. Clique para ampliar.

Notamos então que o total de emissões antrópicas sofreu um aumento continuo entre 1970-2010 com maiores aumentos absolutos entre 2000 e 2010, apesar de um número crescente de políticas de mitigação das mudanças climáticas. As emissões antrópicas desses gases em 1970 eram de 27 Gt de CO2 e em 2010 atingiram 49 ± 4,5 Gt de CO2: um aumento de 22 Gt de CO2 em 40 anos. As emissões de CO2 provenientes da queima de combustíveis fósseis e processos industriais contribuíram com cerca de 78% das emissões totais a partir de 1970.

Globalmente, o crescimento econômico e populacional contínuo são os principais motores do aumento das emissões de CO2 provenientes da queima de combustíveis fósseis. A contribuição do crescimento da população entre 2000 e 2010 manteve-se praticamente idêntica às três décadas anteriores, enquanto a contribuição do crescimento econômico aumentou consideravelmente. A maior utilização do carvão reverteu a tendência de longa data de descarbonização gradual (ou seja, reduziu a intensidade de carbono da energia) do fornecimento de energia do mundo (IPPC, 2014).

A evidência da influência humana sobre o sistema climático tem crescido desde o Quarto Relatório de Avaliação do IPCC (AR4 em 2007). É extremamente evidente então, que mais da metade do aumento observado na temperatura média da superfície global de 1951-2010 foi causado pelo aumento das concentrações de gases do efeito estufa de origem antropogênica.

Influências antropogênicas já tinham afetado o ciclo global da água desde 1960 e contribuíram para o recuo das geleiras nesta década, e o aumento do derretimento da superfície da camada de gelo da Groenlândia desde 1993 (Saiba mais aqui). As influências antropogênicas contribuíram para a perda do gelo marinho no Ártico desde 1979 (e ainda persistem) e muito provavelmente fez uma contribuição substancial para o aumento do teor de calor do oceano superior global (0-700 m) e à subida do nível médio do mar global observado desde os anos 1970. A extensão anual do gelo marinho do Ártico diminuiu durante o período de 1979 a 2012, com uma taxa que era muito provável no intervalo de 3,5 a 4,1% por década (IPPC, 2014).

Em (A) anomalias em temperaturas de superfícies terrestres e oceânicas combinadas em relação à média no período de 1986 a 2005, medidas anuais e em média global. As cores indicam diferentes conjuntos de dados. (B) mudança do nível do mar em relação à média, durante o período de 1986 a 2005 no conjunto de dados de mais longa duração, medidas anuais e em média global. As cores indicam diferentes conjuntos de dados. Todos os conjuntos de dados são alinhados para ter o mesmo valor, em 1993, o primeiro ano de dados da altimetria satélite (vermelho). Onde avaliadas, as incertezas são indicadas por sombreamento colorido. (C) As concentrações atmosféricas de dióxido de gases de efeito estufa de carbono (CO2, verde), metano (CH4, laranja) e óxido nitroso (N2O, vermelho) determinada a partir de dados de núcleos de gelo (pontos) e de medições atmosféricas diretas (linhas). Indicadores: (D) emissões de CO2 antropogênicos globais de outros usos da terra florestal e, assim como da queima de combustíveis fósseis, produção de cimento, e queimadas. Emissões acumuladas de CO2 a partir destas fontes e suas incertezas são mostradas ao lado direito respectivamente. Os efeitos globais da acumulação de emissões de CH4 e N2O são mostrados no painel C. Dados de emissão de gases de efeito estufa de 1970 a 2010 estão mostrados na figura anterior.

Em (A) anomalias em temperaturas de superfícies terrestres e oceânicas combinadas em relação à média no período de 1986 a 2005, medidas anuais e em média global. As cores indicam diferentes conjuntos de dados. (B) mudança do nível do mar em relação à média, durante o período de 1986 a 2005 no conjunto de dados de mais longa duração, medidas anuais e em média global. As cores indicam diferentes conjuntos de dados. Todos os conjuntos de dados são alinhados para ter o mesmo valor, em 1993, o primeiro ano de dados da altimetria satélite (vermelho). Onde avaliadas, as incertezas são indicadas por sombreamento colorido. (C) As concentrações atmosféricas de dióxido de gases de efeito estufa de carbono (CO2, verde), metano (CH4, laranja) e óxido nitroso (N2O, vermelho) determinada a partir de dados de núcleos de gelo (pontos) e de medições atmosféricas diretas (linhas). Indicadores: (D) emissões de CO2 antropogênicos globais de outros usos da terra florestal e, assim como da queima de combustíveis fósseis, produção de cimento, e queimadas. Emissões acumuladas de CO2 a partir destas fontes e suas incertezas são mostradas ao lado direito respectivamente. Os efeitos globais da acumulação de emissões de CH4 e N2O são mostrados no painel C. Dados de emissão de gases de efeito estufa de 1970 a 2010 estão mostrados na figura anterior. Clique para ampliar.

Se compararmos o gráfico do aumento do consumo de combustíveis fósseis e os dados do aumento da temperatura, quando começou a “era do ouro do capitalismo” e a expansão do neoliberalismo vemos que os gráficos se alteram entre meados de 1960 e expressivamente a partir de 1970.

Na Universidade de Reading, o cientista do clima Ed Hawkins apresentou há algumas semanas com uma nova e revolucionária forma de olhar para as temperaturas globais. Usando um gráfico circular de temperaturas mensais de cada ano e animando-a, imagem Hawkins mostrou calor planetário em espiral mais próxima do limiar de 2°C em uma maneira que nenhum gráfico de barras ou linha poderia fazer (Climate Central, 2016).

Uma atualização para o famoso espiral temperatura utilizando futuro projeções climáticas Crédito: Jay Alder / USGS

Uma atualização para o famoso espiral temperatura utilizando futuro projeções climáticas Crédito: Jay Alder / USGS

Seu gráfico original apresenta a visualização clima mais convincente de todos os tempos. A popularidade da espiral pode ser atribuída em parte à sua natureza hipnótica e a forma visceral mostra a situação atual da mudança climática. Se os efeito da perspectiva futura deste gráfico se concretizarem, teríamos um mundo muito diferente do que hoje, com o nível do mar até 3 pés mais elevados (e possivelmente mais se o gelo da Antártida entraria em colapso), que diminui rapidamente geleiras e oceanos altamente ácidas (de fato, a acidez já ocorre). Essas mudanças teria consequências muito reais para cidades costeiras, dos recursos hídricos e dos ecossistemas em todo o planeta.

Por fim, se compararmos toda a história da humanidade e os levantamentos demográficos notaremos que a partir de meados ou final da década de 60 e especialmente na 1970 ocorreu um aumento na população humana (vídeo abaixo mostra que a partir de meados da década de 60 há explosões demográficas mais intensas). De fato, taxas de crescimento da população mundial acima da média de 1,8% por ano ocorram rapidamente durante a década de 1950, e mais expressivamente durante os anos 1960 e 1970. A taxa de crescimento global atingiu um pico de 2,2% em 1963, e diminuiu para 1,1% somente a partir de 2012 (Exponential Population Growth, 2012).

Já em 1968, o biólogo especialista em crescimento populacional Paul R. Ehrlich repetiu o argumento de Malthus em seu livro The Population Bomb, prevendo que a fome mundial em massa ocorreria em 1970 e 1980 (Kindall, Henery W & Pimentel, 1994), mas ele e tantos outros neo-malthusianos foram vigorosamente contestados por uma série de economistas. Entre 1950 e 1984, com a Revolução Verde houve uma profunda transformação na agricultura ao redor do mundo e a produção de grãos aumentou mais de 250% (BBC, 2003). A população mundial cresceu mais de quatro bilhões desde o início da Revolução Verde, e a produção de alimentos até agora manteve o ritmo. No entanto, os especialistas em populações destacam que a energia para a Revolução Verde foi fornecida por combustíveis fósseis, e condições agrícolas e ambientais degradantes, com uso de pesticidas derivados do petróleo e de irrigação movidas a hidrocarbonetos, e que muitas culturas têm se tornado tão geneticamente uniformes que uma quebra de safra em qualquer país poderia ter repercussões globais (van den Bergh & Rietveld, 2004).

O que se percebe é que há um conjunto de fatores que historicamente vem agravando a situação ambiental e que explode a partir da década de 1970. O neoliberalismo que foi criticado recentemente pelo FMI na revista Finance & Development deixou claro que em vez de gerar crescimento, suas políticas neoliberais aumentaram a desigualdade, prejudicando o nível e a sustentabilidade do crescimento. Outro problema é pensar na condição econômica sem considerar os fatores sociais e ambientais na questão do desenvolvimento do país. Ainda confunde-se “crescimento” com “desenvolvimento” de um país. Crescimento traz uma caracterização quantitativa e exclusivamente monetária que vai indicar o quanto de receita o país obteve em um determinado período de tempo; medido através do produto interno bruto (PIB) que representa a soma (em valores monetários) de todos os bens e serviços finais. O desenvolvimento de um país não pode trabalhar unicamente na esfera monetária sem consideração a condição social e ambiental que garante a qualidade dos serviços econômicos. Por isto o desenvolvimento de um país é mais importante, porque considera aspectos qualitativos. Uma expansão selvagem do capitalismo e de políticas neoliberais unicamente voltadas para as questões monetárias gerou, como vimos, a desigualdade social e tratou as questões ambientais como meros recursos a serem explorados, sem respeitar suas especificidades.

Maior desigualdade gera maior impacto ambiental nas duas pontas deste eixo: o indivíduo que vive na linha da pobreza vai partir para exploração dos recursos naturais a partir de práticas ilegais (o arco do desmatamento da Amazônia deixa isto bem evidente, palmiteiros, grilagem, carvoarias etc e tal) na outra ponta esta o rico e o incentivo e prática do consumismo desenfreado na lógica do “consumo, logo existo”.

Recentemente a China ultrapassou os Estados Unidos como o maior emissor de gases de efeito estufa na Terra; em 2007. Se considerarmos que quase todos os produtos que a China produz (de iPhones a camisetas) são exportados para o resto do mundo, o quadro é muito diferente.
Se observarmos com base em consumo per capita a pegada ecológica da China; ela é pequeno; é o que diz Diana Ivanova, doutorando da Universidade Norueguesa de Ciência e Programa de Ecologia Industrial de Tecnologia. Eles produzem uma grande quantidade de produtos, mas para exporta-os. É diferente se você colocar a responsabilidade por esses impactos sobre o consumidor, ao contrário do produtor.

O que Ivanova fez com seus colegas foi observar o impacto ambiental na perspectiva do consumidor em 43 países diferentes e 5 regiões do mundo. Seu trabalho foi publicado em um artigo científico no Journal of Industrial Ecology e mostrou que os consumidores são responsáveis por mais de 60% das emissões de gases de efeito estufa do globo, e até 80% do uso de água do mundo. (veja: IMAGENS DE SATÉLITE DA NASA MOSTRAM QUAIS SÃO OS PAÍSES MAIS POLUÍDOS DO MUNDO).

Existe uma parcela de culpa enorme no governo e empresas, e nós tendemos a responsabiliza-los, mas esses dados mostram que impactos sobre o planeta vêm de consumo das famílias. Se há demanda, o governo e as empresas produzem. Se mudarmos nossos hábitos de consumo, isso teria um efeito drástico sobre a nossa pegada ecológica. A pegada ecológica é uma maneira de quantificar e qualificar o quanto de terra e água seria necessário para sustentar as gerações atuais, levando em conta todos os recursos materiais e energéticos, gastos por uma determinada população e seus respectivos estilos de vida.

A análise permitiu ver que os consumidores são diretamente responsáveis por 20% de todos os impactos causados pelo carbono, que resultam quando as pessoas dirigem seus carros e aquecer suas casas.

Ainda mais surpreendente é o fato de que quatro quintos (4/5) dos impactos que podem ser atribuídos aos consumidores não são impactos diretos, como a queima do combustível quando nós dirigimos nossos carros, mas sim o que chamamos de impactos secundários, ou os efeitos ambientais de realmente produzir os bens e produtos que compramos. Um bom exemplo disso, Ivanova diz, é o uso da água.

Quando pensamos no seu corte individual de uso de água, pensamos em usar a máquina de lavar de forma muito eficiente, ou tomar banhos mais curtos. De fato, essas não são ideias ruins, mas um olhar mais profundo nos leva a entender e descobrir que muito do uso da água no planeta é engolido na produção do que consumimos: carne, plástico, vidros etc.

A carne, por exemplo, requer muita água porque as vacas comem grãos que precisam de água para crescer. As vacas são relativamente ineficientes em fazer a conversão de grãos em carne que comemos, e leva, em média, cerca de 15.415 litros de água para produzir um quilo de carne bovina. Os produtos lácteos exigem semelhante grandes quantidades de água para serem produzidos. A produção de um litro de leite de soja com soja cultivada na Bélgica em comparação com a produção de um litro de leite de vaca, descobriu-se que a vaca precisa de 297 litros de água para fazer o leite de soja contra uma média global de 1050 litros de água para produzir um litro de leite de vaca.

Alimentos processados, como a pizza congelada, materiais de embalagem também são desproporcionalmente altos no consumo porque o processamento requer energia, e água. O chocolate é um dos produtos mais intensivos em consumo de água. É preciso 17.000 litros de água para produzir um quilo de chocolate.

Em países mais ricos, os impactos são maiores quando se observa os impactos ambientais em per-capita. Neste sentido, Luxemburgo tem uma pegada de carbono per-capita quase idêntica a dos Estados Unidos. Quanto mais rico um país, mais seus habitantes consomem, e quanto mais indivíduos consomem maior é o impacto dessa pessoa no planeta. Infelizmente, a economia não considera estes impactos e vende a ideia de que uma nação em crescimento é uma nação em desenvolvimento. Enquanto este crescimento econômico não for revertido na mudança e manutenção dos serviços e do tecido social e nas problemáticas ambientais não é possível dizer que um país desenvolve-se. Não é possível desenvolver-se com consumos, impactos e incentivo a desigualdade social dentro de uma visão exclusivamente mercantilizadora de tudo e todos; a coisa não pode ser unicamente monetária.

As diferenças entre países individuais são extremamente elevadas. Os países com o maiores consumos tem um impacto ambiental cerca de 5,5 vezes maior em relação à média mundial. Os Estados Unidos apresentam o pior desempenho global quando se trata de emissões de gases com efeito de estufa per-capita, com uma pegada de carbono per-capita de 18,6 toneladas de equivalente CO2, a unidade usada por pesquisadores para expressar a soma dos impactos de diferentes gases de efeito estufa, como carbono dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e hexafluoreto de enxofre. A situação ambiental dos EUA pode piorar com os resultados políticos das eleições, em especial com Donald Trump; magnada vencedor da eleição americana que deixou claro que vai tirar os EUA de acordos globais que envolvam questões ambientais (pois é um negacionista das mudanças climáticas), apresentando uma agenda não só extremamente monetária, mas preconceituosa em diversos sentidos.

No estudo de Ivanova, os EUA foi seguido de perto por Luxemburgo, com 18,5 toneladas de CO2, e em seguida veio a Austrália, com 17,7 toneladas. Para efeito de comparação, a pegada de carbono per capita da China era apenas 1,8 toneladas de CO2. Noruega, em 10,3 toneladas de equivalente CO2 per-capita.

Os resultados para cada país também refletem os efeitos da mistura da eletricidade, ou a fonte de combustível que os países dependem de energia elétrica. A prevalência da energia nuclear ou hidrelétrica em países como a Suécia, França, Japão e Noruega significa que esses países têm menores pegadas de carbono do que os países com rendimentos semelhantes, mas com mais combustíveis fósseis em sua matriz energética. Por esta razão, a pesquisa mostra que uma parcela significativa dos impactos domésticos da Suécia e da França vêm de importações (65 e 51%, respectivamente), porque os produtos que são importados são produzidos principalmente com combustíveis fósseis.

Os 43 países estudados representam 89% do produto interno bruto global e entre 80 e 90% do fluxo de comércio na Europa. Desta forma, duas medidas familiares eficazes para cortar (ou reduzir bastante) o impacto ambiental devem ser tomadas; cortar o consumo de carne e consumo de bens supérfulos. Quando tratamos de medidas educacionais para melhor nossa relação com o ambiente recorremos a educação ambiental (que mais do que nunca faz-se imediatamente necessária), e neste caso, a redução do consumo de carne vai se dar com uma forma de re-educação alimentar; portando deve ser uma medida educadora e racional, não ideológica pode ser a melhor medida, levando em conta a nossa necessidade de proteínas animais. A outra, é a redução do consumismo, em um mundo em que é (ou, esta) regido pelo que voce consome (e tem) e não pelo que voce realmente é.

Esta última batalha talvez seja a mais complexa quando existe cotidianamente a alimentação da ideia de consumismo, da indústria criadora de necessidades, e a necessidade absoluta do modelo capitalista de girar a economia através do consumismo. Por isto, a relação entre a defesa dos recursos naturais e o modelo capitalista é como água e óleo, insolúvel (não no sentido de não haver solução).

Uma vez que o mercado vê a natureza como recurso a ser explorado e a defesa de áreas verdes como um obstáculo a economia, o problema obviamente não esta na preservação da natureza, mas na estrutura econômica predatória, ultra-monetária que precisa, obviamente, ser superada. E supera-la é superar o consumismo e acumulo de riquezas que é o principal fator que gera a desigualdade social. Não é possível falar sobre desenvolvimento de uma nação sem colocar em equilíbrio na balança a economia, justiça social e a questão ambiental; elas são indissociáveis. Nós, seres humanos somos mamíferos sociais, inseridos em um ambiente em que também somos natureza, e a natureza também tem economia. Neste sentido a crise ambiental, econômica e social que vivemos é antes de tudo, uma crise de caráter porque depende do indivíduo em ultima instância. Precisamos voltar a noz enxergar como natureza.

Victor Rossetti

Palavras chave: Populações, Neo-Liberalismo, Capitalismo, Combustíveis fósseis, Mudanças climáticas, 1970, EUA, China, Consumismo.

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Referências

Haymes, Stephen; Vidal de Haymes, Maria; Miller, Reuben, : (2015). The Routledge Handbook of Poverty in the United States (London: Routledge). p. 7
Kindall, Henery W & Pimentel, David (May 1994). “Constraints on the Expansion of the Global Food Supply”. Ambio 23 (3).
van den Bergh, Jeroen C. J. M.; Rietveld, Piet (2004). “Reconsidering the Limits to World Population: Meta-analysis and Meta-prediction”. BioScience 54 (3): 195.

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