QUEM ERAM OS NEANDERTAIS? – ORIGENS E ANATOMIA NEANDERTALENSE

Ainda corre solta a velha imagem de que os Neandertais eram estúpidos homens das cavernas, com uma postura torpe e bruto. Na última década muito do nosso conhecimento sobre ele mudou drasticamente, embora poucas pessoas (guiadas pelo senso-comum) tenham percebido. O que as análises de DNA, estudos anatômicos e seu legado cultural/comportamental deixaram de evidências nos proporciona hoje um conhecimento absurdamente distinto do que era defendido há uma ou duas décadas atrás. 

Homo neanderthalensis

Homo neanderthalensis

Para estabelecer a filogenia dos Neandertais (Homo neanderthalensis) é preciso estudar sítios do Pleistoceno entre 781 e 126 mil anos, embora as condições para sua origem datem do Pleistoceno inferior (2,6 milhões de anos até 781 mil anos) um hominínio encontrado em Sima Del Elefante, na Serra de Atapuerca (norte da Espanha) em 2007.

De fato, o achado consistia em um fragmento de mandíbula de 1,1 – 1,2 milhões de anos que pode ser Homo erectus, mas os especialistas Eudald Carbonell Universidade de Rovira e Virgilli e Juan Luis Aesuaga Universidade Complutense de Madrid classificam como Homo antecessor. O Homo antecessor surge como uma forma de por duvida sobre as origens do Neandertal, que até hoje é visto como sendo uma espécie cujo ancestral era o Homo heldelbergensis.

Entre 2010 e 2013 mais de 80 fragmentos de ossos foram encontrados na Inglaterra fornecendo evidências de ferramentas líticas datadas de 950 mil anos que provavelmente pertenceram ao H. antecessor, além de pegadas de 800 mil anos; as mais antigas fora da África. Além disto, fragmentos de um fóssil de Homo antecessor foram encontrados no sítio de Gran Dolina, Atapuerca em 1994 e datado em 900 mil anos. Este hominínio é descendente do H. erectus fora da África (Neves et al, 2015).

As evidências mais fortes indicam que os Neandertais surgiram por volta de 600 mil anos (proto-Neadertais), a do Homo heidelbergensis. Essa população africana teria deixado o continente e migrado, como sugerem as evidências, para o Europa Ocidental, Europa Central, os Cárpatos e os Balcãs, (BBC News, 2014) alguns sítios paleoantropológicos foram encontrados na Ucrânia e na Rússia Ocidental, além da porção Central e Norte da Ásia até as montanhas de Altai, e na Ásia ocidental desde o Levante até o rio Indo chegando na China.

Fósseis de Homo heidelbergensis também encontrados na Serra de Atapuerca em Sima De Los Huesos em 1990 contam com mais de 5 mil ossos deste hominínio, correspondendo a cerca de 32 ou 28 indivíduos datados entre 600 e 350 mil anos. Os principais sítios de H. heidelbergensis são de Schoningen (Alemanha), Tautavel (França), Petralona (Grécia), Swanscombe, Suffolck e Boxgrove (Inglaterra).

Um sítio chinês de Dali conta com um crânio de 230-180 mil anos e um esqueleto parcial de 200 mil anos em Jinniushan que provavelmente representa um H. heidelbergensis.

Embora não haja uma receita específica para diferenciar Neandertais de H. heidelbergensis o “modelo de duas fases” pode ser adotado para diferencia-los.

Geralmente o critério usado é que Neandertais tem grande massa corpórea quando comparado com Homo heidelbergensis. A robustez e prognatismo médio-facial também são critérios, além da re-organização craniana que alterou (neurofisiologicamente e comportamentalmente ) os lobos temporais e occipitais (ficando aumentados). O outro modo trata do “modelo de acréscimo” e pode explicar essas semelhanças porque os traços morfológicos característicos de Neandertais resultariam de processos aleatórios de deriva e fixação, e as mudanças cranianas e processos de encefalização seriam alvo de pressão seletiva e não deixaria clara a exata divisão entre H. heidelbergensis e Neandertais (Neves et al, 2015).

Em Serra de Atapuerca, um artigo publicado na Science em 2014 analisou 17 crânios com múltiplas técnicas de datação fornecendo a data de 430 mil anos apoiando o modelo de acréscimo. Em Sima de los Huesos a face e morfologia são clássicas de um Neandertal enquanto a caixa craniana é primitiva em formato e volume. A taxa de encefalização ocorreu de forma independente em H. hedelbergensis da África e da Eurásia. E o desenvolvimento paralelo da encefalização em H. sapiens e Neandertal são apoiados por diferenças anatômicas relacionadas ao desenvolvimento e genética alterando o grau de conectividade encefálica (Neves et al, 2015).

O sítio de Bontnewydd Paleolítico em Denbighshire, North Wales é o local mais noroeste em que o Neandertal aparece, com os vestígios mais antigos na Grã-Bretanha, datados em cerca de 230 mil anos. Estima-se que o total da população Neandertal tenha contado com cerca de 70 mil indivíduos (Cartmill & Smith, 2015).

Os primeiros indivíduos desta espécie surgiram do Homo heidelbergensis (e se relacionam ao Denisovanos) (Neves et al, 2015) e primeiramente deram origem aos proto-Neandertais (Hedges, 2000) na Eurásia entre 600 e 350 mil anos atrás (ABC News, 2005). Os primeiros indivíduos definitivamente Neandertais datam entre 250 e 200 mil anos atrás (Financial Times, 2014). A data exata de sua extinção tinha sido contestada, mas em 2014, uma equipe liderada pelo professor Thomas Higham, da Universidade de Oxford usou uma técnica de datação por radiocarbono melhorada do material de 40 sítios arqueológicos para mostrar que os Neandertais entraram em extinção na Europa entre 41 e 39 mil anos; coincidindo com o início de um período muito frio na Europa, profundas transformações ecológicas e com a chegada do Homo sapiens (chamado de Cro-magnon) ao continente (Bischoff et al,2003).

Nenhum fóssil de Neandertal foi encontrado até hoje na África, mas alguns fósseis de Neandertais tem uma relação próxima com alguns achados ao norte da África, tanto em Gibraltar quanto do Levante; uma grande área do Oriente Médio ao sul dos Montes Tauro, limitada a oeste pelo Mediterrâneo e a leste pelo Deserto da Arábia setentrional e pela Mesopotâmia.

Região do Levante

Região do Levante

Em alguns locais do Levante, o Neandertal permaneceu até a data da chegada dos humanos modernos. Alguns fósseis de mamíferos do mesmo período mostram que animais adaptados ao frio estavam presentes, juntamente com os Neandertais na região do Mediterrâneo Oriental. Isto indica que os Neandertais estavam biologicamente melhor adaptados ao clima frio do que os seres humanos modernos, mas que foram deslocados em partes do Oriente Médio, quando o clima ficou muito frio. Alguns autores contestam isto com estudos recentes da morfologia craniana. Alguns estudiosos têm defendido que os Neandertais poderiam ser uma espécie asiática que se expandiu para a Europa, fazendo com que os Neandertais sejam uma espécie tropical, em vez de adaptada ao frio (Durham University, 2009 & O’Neill, 2011). Esta visão tem pouco respaldo atualmente.

A história da classificação dos fósseis da evolução humana é cheia de descobertas que são mosaicos de diferentes espécies, e ás vezes até mesmo de gêneros distintos, e conforme novos achados vão sendo feitos, esses indivíduos mosaicos podem, de fato, constituir uma espécie, ou passam a ser vistos como variedades de uma única espécie com uma amplitude ecotípica razoável. Este é o caso de algumas espécies de Australopithecus, Homo erectus e não seria diferente com o Homo neanderthalensis (Neves et al, 2015). Por exemplo, embora o Homo erectus seja semelhante a H. sapiens no sítio de Bodo Etiópia, e tenha sido datado em 600 mil anos com ferramentas da indústria lítica Acheulense, representam intermediários, e foi inicialmente classificado como Homem de Rhodésia ou H. rhodesiensis (Neves et al, 2015).

Quando a mudança climática levou a temperaturas mais quentes, os Neandertais começaram a variar morfologicamente. Muitos recuaram para o norte adaptadas ao frio, juntamente com as espécies de mamíferos. Aparentemente, essas mudanças populacionais induzidas pelo tempo decorreram antes que as pessoas modernas garantissem vantagens competitivas sobre o Neandertal, uma vez que estas mudanças ocorreram mais de 10 mil anos antes das pessoas modernas substituírem totalmente o Neandertal, apesar da recente evidência de alguns cruzamentos bem sucedidos (Durham University, 2009).

O desenvolvimento separado na linhagem humana, em outras regiões, como a África do Sul, pouco se parecia com o dos Neandertais da Eurásia. Um exemplo é Homo rhodesiensis, que já existia muito antes de qualquer Neandertal da Eurásia, mas tinha um conjunto mais moderno de dentes. Algumas populações de H. rhodesiensis pareciam estar no caminho para os modernos H. sapiens sapiens.

Neste caso, existem dois modelos principais que explicam a origem de nossa espécie e eles esbarram exatamente na questão do mosaico e características intermediárias e envolvem o Neandertal e o Homem de Rhodesia. O primeiro cenário indica que uma população mediterrânea de Homo antecessor seria derivada de Homo erectus.

O Homo antecessor então teria dado origem ao Homo rhodesiensis na África e ao Homo heidelbergensis na Eurásia. Não fica claro como o H. antecessor e H. heidelbergensis se relacionam, mas, neste cenário, a espécie humana surgiria na África fruto de Homo rhodesiensis (600 mil anos atrás) e os Neandertais como fruto do Homo heidelbergensis na Eurásia. O que complica este cenário é o fato de não se ter indicações alguma do Homo heidelbergensis na Ásia.

O segundo cenário, mais conservador, parcimonioso (e adotado) é de que o Homo heidelbergensis ocupava uma vasta extensão (e era morfologicamente diversificado) tendo dado origem ao Homo sapiens e Neandertal a partir de subpopulações (proto-neandertais) ainda na África (Neves et al, 2015). Este é o cenário mais evidente e que tem mais respaldo científico como estamos vendo.

De qualquer forma, as populações de H. rhodesiensis da Eurásia sofreram certa “Neandertalização”, se tornando anatomicamente mais próxima dos Neandertais.  Por exemplo, alguns H. rhodesiensis tinham como características um grande cume da testa proveniente da arcada supra-ciliar, que pode ter sido causada por evolução convergente.

Sendo assim, os Neandertais tinham um intervalo territorial que se estendida do Extremo Oriente como as Montanhas de Altai (mas não mais a leste ou sul), e aparentemente não chegaram á África. De qualquer forma, o Nordeste da África era território dos seres humanos modernos Homo sapiens há pelo menos 160 mil anos. Fósseis de 160 mil anos de idade fósseis de hominídeos encontrados em Jebel Irhoud, Marrocos foram previamente pensados ser de Neandertal, mas com novas análises ficou claro que pertenciam aos primeiros seres humanos modernos (Jordan, 2001).

Área de dispersão do Neandertal

Área de dispersão do Neandertal

Fósseis de Neandertal também foram encontrados em grandes áreas ao norte da Alemanha para Israel e os países mediterrânicos como a Espanha (Bilsborough, 2015) e a Itália (Max Planck Institute), sul da Inglaterra, oeste de Portugal e no Uzbequistão ao leste. Esta área toda não foi ocupada ao mesmo tempo. A fronteira norte teria sido colonizada com o aparecimento de períodos frios. Mas materiais do Paleolítico médio foram encontrados até mesmo mais ao norte, até 60°N, na Rússia (Arsuaga, 1989). Estas evidências ampliaram o território Neandertal em mais 2.010 km a leste, chegando as Montanhas de Altai, sul da Sibéria (Mallegni et al,1987 & Pavlov etal, 2004).

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Anatomia Neandertal

Neandertais são conhecidos por sua grande capacidade craniana, cerca de 1.600 cm3 em média, maior do que a dos humanos modernos. Um estudo descobriu que os cérebros de Neandertais eram mais assimétricos do que outros cérebros dos hominídeos (Laleuza-Fox et al, 2007). Em 2008, um grupo de cientistas produziu um estudo usando reconstruções tridimensionais de fósseis de crianças de Neandertal com base em achados feitos na Rússia e na Síria. O estudo indicou que o cérebro de Neandertais e de humanos modernos eram do mesmo tamanho no nascimento, mas que na idade adulta, o cérebro Neandertal se tornava mais desenvolvido e maior (Science Daily, 2013). Eles tinham quase o mesmo grau de encefalização (tamanho do cérebro e proporção de tamanho corporal) que os seres humanos modernos (Peña-Melián et al, 2011 & National Geographic, 2008). A anatomia do crânio do Neandertal contava com uma fossa supra-ilíaca, que consiste em um canal sobre a protuberância occipital externa do crânio; uma protuberância occipital chamada de coque; porção medial da face projetada para frente; crânio alongado para trás; porção supraorbital proeminente formando um arco sobre as órbitas oculares, uma capacidade encefálica entre 1200 e 1700 cm³. Neandertais não tinham queixo, apresentavam uma testa baixa, muitas vezes quase ausente; espaços atrás dos molares; abertura nasal ampla; protuberâncias ósseas nos lados da abertura nasal; forma diferente dos ossos do labirinto do ouvido, que é característico a cada espécie de hominínio.

Neandertais tem a porção medial da face projetada para frente. Em 1 protuberância occipital chamada de coque; 2 crânio alongado para trás; 3 apresentavam uma testa baixa; 4 porção supraorbital proeminente formando um arco sobre as órbitas oculares; 5 abertura nasal ampla com protuberâncias ósseas nos lados da abertura; 6 espaços atrás dos molares; e 7 não tinham queixo. Clique para ampliar

Neandertais (acima) tem a porção medial da face projetada para frente. Em 1 protuberância occipital chamada de coque; 2 crânio alongado para trás; 3 apresentavam uma testa baixa; 4 porção supraorbital proeminente formando um arco sobre as órbitas oculares; 5 abertura nasal ampla com protuberâncias ósseas nos lados da abertura; 6 espaços atrás dos molares; e 7 não tinham queixo.Abaixo, crânio de H. sapiens. Clique para ampliar

A anatomia Neandertal diferia dos humanos modernos, em que eles tinham uma construção mais robusta e características morfológicas distintas, especialmente no crânio, que gradualmente acumulou aspectos mais derivados como foi descrito por Marcellin Boule (The New York Times, 2009), especialmente em determinadas regiões geográficas isoladas. Estas incluem proporções dos membros mais curtos, um tórax mais amplo em forma de barril, um queixo reduzido e, talvez um notável nariz grande, que era muito maior em comprimento e largura do que o de seres humanos modernos (Financial Times, 2014).

Fósseis 170 a 30 mil anos indicam que Neandertais viveram nas duas últimas Eras Glaciais e Interglaciais (no Pleistoceno Superior). Na maior parte dos fósseis da Europa ocidental a morfologia típica Neandertal é prevalente, sendo caracterizada pelos achados europeu-ocidentais na última Era do Gelo entre 75 e 10 mil anos. Neandertais de outras regiões, de períodos Interglaciais tendem a ser menos robustos.

No geral, a anatomia e morfologia craniana de Neandertais mostra características menos neotênicas que humanos. Em humanos ela representa faces mais achatadas, com cavidade nasal, arcada supraciliar, maxila e mandíbula reduzidas. O volume encefálico de 1.520 cm3 enquanto Homo sapiens tem um volume de 1.300 – 1.400 cm3. Um cérebro maior remete a um peso corporal maior, já que a cabeça é a região mais pesada do corpo dos animais. Adaptação para uma melhora metabólica em ambientes de baixas temperaturas (Neves et al, 2015).

Uma comparação da morfologia craniana se refere ao Quociente de Encefalização (QE). Este refere-se a razão entre o tamanho cerebral real e o tamanho esperado em função do tamanho do corpo. Valores de QE inferiores a 1,0 indicam cérebros menores que o esperado; valores superiores a 1,0 indicam cérebros maiores que o esperado (Ridley, 2006).

Neste sentido, humanos modernos são mais encefalizados do que Neandertais, com QE=5.3 contra QE=4.0 dos Neandertais. Essa medida é considerada uma primeira aproximação para o nível de inteligência de uma determinada espécie. Outras espécies apresentam também índices interessantes: H. heidelbergensis com QE=3.5, H. erectus com QE=3.3, Australopithecus afarensis com QE=2.0 e chimpanzés Pan troglodytes com QE= 2.2~2.5) (Neves et al, 2015).

Um fóssil encontrado em 1908 em La Chapelle-aux-Saints (chamado de “Old Man” ou “O Velho”) foi erroneamente interpretado e re-examinado em 1950, quando descobriu-se que possuía características de Neandertal, com a capacidade craniana de 1.620 cm3. Possuía a arcada supraciliar exageradamente grande caracterizada como primitiva (Neves et al, 2015). Quando “o velho” foi encontrado no ano de 1908, por A. e J. Bouyssonie e L. Bardon em 1908 notou-se que tinha uma abobadado craniana baixa e grande cume na testa típico da espécie. Estima-se o fóssil tenha 60 mil anos de idade. O indivíduo foi severamente acometido por artrite e tinha perdido todos os seus dentes. Para ele por ter vivido alguém processou seu alimento, um dos primeiros exemplos de altruísmo Neandertal (semelhante ao achado de Shanidar I).

Neandertal "The Old man" ou "O Velho" encontrado em 1908 na La Chapelle-aux-Saints (França)

Neandertal “The Old man” ou “O Velho” encontrado em 1908 em La Chapelle-aux-Saints (França). Clique para ampliar

O achado de La Ferrassie I (França), em 1909 na França, apresentava um crânio bem preservado, arcada supraciliar saliente a testa baixa e inclinada para trás. Foi descoberto por R. Capitan estima-se que tenha cerca de 70 mil anos. Suas características incluem um grande coque occipital, crânio abobadado e dentes fortemente desgastados.

O achado de Le Moustier consiste em um crânio fossilizado, descoberto em 1909, no sítio arqueológico em Peyzac-le-Moustier, Dordogne (França). A cultura ferramenta Musteriense tem o nome de Le Moustier. O crânio, estima-se que tenha cerca de 45 mil anos de idade, e inclui uma grande cavidade nasal e um cume na testa um pouco menos desenvolvido com um coque occipital esperado em um juvenil.

O achado da caverna de Shanidar nas Montanhas Zagros (Curdistão iraquiano) contou com nove esqueletos encontrados que do Paleolítico Médio. Um dos nove restos estava faltando parte de seu braço direito, que foi quebrado ou amputado. A descoberta também é significativa porque mostra que ferramentas de pedra estavam presentes na cultura deste grupo. Um dos esqueletos foi originalmente pensado ter sido enterrado com flores, o que significa que algum tipo de cerimônia de enterro pode ter ocorrido. Embora isto, atualmente tenha sido descartado por Paul B. Pettitt. Em uma análise recente da microfauna dos estratos em que a sepultura foi cavada sugere que o pólen foi depositado pelo enterramento de roedores Meriones tersicus, que é comum na microfauna Shanidar e cuja atividade pode ser observada escavando hoje (Pettitt, 2002)

O achado de Amud 1 conta restos fossilizados de um Neandertal adulto, datados de cerca de 45 mil anos. É um dos vários achados da caverna Nahal Amud (Israel), alguns dos quais podem ter sido deliberadamente enterrados. Uma característica particularmente notável desta descoberta é a sua capacidade craniana, de 1.740 cm3, está entre as maiores já conhecidas para qualquer hominídeo, vivos ou extintos (Financial Times, 2014; Mason & Short, 2011).

Além da ampla cavidade nasal, a face Neandertal é marcada por um queixo recuado e maçãs do rosto grandes e retraídas, prognatismo médio-facial, com face projetada para frente puxada pelo palato. A mandíbula Neandertal é grande com uma fronte proporcional ao tamanho da face e ao uso dos músculos relacionados a mastigação. Tinham também dentes maiores que o do Homo sapiens, incisivos abaulados em forma de pá. O espaço retromolar entre o terceiro molar e o ramo ascendente da mandíbula é uma consequência do prognatismo da face combinado a necessidade de que os dentes fiquem em oclusão (Neves et al, 2015).

Shanidar nas Montanhas Zagros (Curdistão iraquiano) contou com nove esqueletos encontrados que do Paleolítico Médio.

Crânio de Shanidar, das Montanhas Zagros (Curdistão iraquiano) datado do Paleolítico Médio.

O endocast ou “endomolde” é uma técnica que cria uma replica do molde em resina das marcas do encéfalo na parte interna do crânio.  A análise paleoneurológica tenta associar a morfometria da endo-réplica com possíveis diferenças na organização encefálica.

Neandertais e humanos tem as mesmas assimetrias nos lobos occipitais esquerdo e direito. O occipital esquerdo costuma ser maior em Neandertais quanto em seres humanos modernos permitindo inferir que a maior parte dos Neandertais era destro. Uma forte tendência para favorecer a mão direita e uma das características que distingui o Homo sapiens dos chimpanzés e corresponde a assimetrias do cérebro que se acredita estar associada á linguagem e que marca fundamentalmente o comportamento humano. Diversos estágios de desenvolvimento indicam que eles alcançavam seu volume tamanho cerebral por caminhos desenvolvimentais distintos ao dos humanos; começando a desenvolver-se ainda no útero como os cérebros modernos e divergiam do nosso modelo padrão após o nascimento, durante uma “janela” critica ao desenvolvimento cognitivo (Wong, 2015).

Análises de endolmolde feitas por Ralph L. Holloway da Universidade de Columbia concluiu que o encéfalo de Neandertais e de humanos modernos são organizados de forma distinta.

Neandertais têm os lobos frontal e occipital maiores que humanos modernos, seus lobos parieto-temporais são menores; associados a funções de informação tátil visual e auditiva, aprendizagem e memória, percepção especial e reconhecimento de linguagem traz análises sugestivas. O lobo occipital é responsável por informações visuais enquanto o frontal tem funções executivas, decisões morais navegação social e encontra similaridade entre eventos. Medidas da cavidade orbital sugerem que Neandertais tinham investimento maiores no sistema visual em detrimento dos outros sistemas sensoriais (Neves et al, 2015).

O labirinto ósseo difere em H. sapiens de H. erectus é usado para diferenciar espécies devido sua especificidade; o tamanho dos canais semi-circulares são correlacionados proporcionais a massa corporal. Ele foi usado nos fósseis encontrados em Arcy-sur-Cure (França) e de modo geral, Neandertais possuem canais semicirculares menores que o de seres humanos. É possível que eles fossem menos ágeis que os humanos durante a corrida (Neves et al, 2015).

Crânios de Neandertal foram descobertos pela primeira vez em uma caverna da Bélgica chamada Engis em 1829 por Philippe-Charles Schmerling e em Forbes ‘Quarry, Gibraltar, em 1848 e foi apelidado de Gibraltar 1. Ambos foram encontrados antes da espécime encontrada na pedreira de calcário do Vale do Neander em Erkrath perto de Düsseldorf, em Agosto de 1856, três anos antes de Charles Darwin escrever sua grande obra “A Origem das Espécies” (Stringer, 2011)

O espécime, apelidado Neandertal 1, consistia em uma calota de crânio, dois fêmures, três ossos do braço direito, dois no braço esquerdo, parte do ilíaco esquerdo, fragmentos de uma escápula e costelas. Os trabalhadores que recuperaram este material acreditaram ser restos de um urso. Eles deram o material a naturalista amador Johann Carl Fuhlrott, que completou o estudo. Até o presente momento, mais de 400 Neandertais foram encontrados (Johansson & Blake, 2006).

A análise de 17 crânios datados de 430 mil anos do sítio de Sima de Los Huesos na Sierra de Atapuerca (Espanha) mostrou que os membros daquela população tinham sido precursores de Neandertais e que tinham cérebros menores que membros da mesma linhagem. É coerente a ideia de que Neandertais não herdaram seus cérebros volumosos do ultimo ancestral comum com os humanos modernos e sim que as duas espécies passaram por expansão cerebral paralelamente em contextos evolutivos posteriores a separação. Sua evolução pode ter dado oportunidade de aparecimento de outras diferenças cerebrais além do tamanho como as que afetam a conectividade dos neurônios e dos centros cognitivos do sistema nervoso (Wong, 2015).

A anatomia pós-craniana do Neandertal contava com uma estrutura corporal consideravelmente mais musculosa; dedos grandes robustos; caixa torácica volumosa e saliente; uma forma distinta da pélvis; grandes patelas; clavícula alongada; escápulas curtas e arqueadas; os ossos da coxa eram robustos e arqueados; as tíbias e fíbulas muito curtas; e as fêmeas seriam igualmente robustas (Pereira, 2004)

Sem título

Caixa torácica volumosa e saliente, em forma de tonel. Clique para ampliar

Neandertais podem ter sido ligeiramente mais baixos que a espécie humana. A evidência sugere que eles eram muito mais fortes do que os seres humanos modernos, com os braços e mãos particularmente mais fortes (Ravilious, 2007), enquanto eles eram comparáveis em altura. Com base em 45 ossos longos de 14 homens e 7 mulheres, os Neandertais machos tinham em média 1,64-1,68 cm e fêmeas 152-156 cm de altura (Helmuth, 1998). As amostras de 26 espécimes em 2010 encontrou um peso médio de 77,6 kg para os homens e 66,4 kg para as mulheres. Um estudo genético feito em 2007 sugeriu alguns que Neandertais podem ter tido cabelo vermelho ou loiro, juntamente com um tom de pele clara.

Um estudo com crânios de Neandertal crânios feito em 2013 sugere que a sua visão pode ter sido melhor do que a dos humanos modernos, devido a órbitas maiores e maiores áreas do cérebro dedicadas à visão (Froehle et al, 2009). Análises do molde da caixa craniana permitem reconstruir a forma externa do encéfalo de Neandertais. Cérebros de Neandertais eram um pouco mais achatados que o dos Homo sapiens. Mas mais volumosos (Wong, 2015). Um estudo de 2013 de Eiluned Pearce da Universidade de Oxford contornou as limitações e usou a orbita ocular e cavidade craniana que situavam os olhos e seus anexos para reconstruir a dimensão do córtex visual. Eles constataram que os Neandertais tinham orbitas significativamente maiores que humanos modernos, adaptadas a níveis de luminosidade mais baixos e habitar grandes latitudes. Com isto córtices visuais maiores. Com isto teriam menos tecidos nervosos em outras áreas cerebrais inclusive nas que auxiliam na constituição de redes sociais mais complexas. Há controvérsias sobre se de fato há meios de delinear e medir exatamente moldes do córtex visual. Além disto, as diversas faces de Neandertais eram maiores que a dos homens modernos e isto pode explicar orbitas maiores. E claro, paleoneurologistas mostram que pessoas variam imensamente em relação as suas áreas do córtex visual em relação a outras áreas do cérebro e portanto, tal variedade anatômica não parece corresponder a diferenças de comportamento.

A robustez Neandertal pode ser notada em seus membros superiores e inferiores e articulações. Eles apresentavam costelas grossas, arqueadas contrastando com as caixas torácicas cilíndricas dos H. sapiens. Os ossos do antebraço (entre o cotovelo e punho) e pernas (entre joelho e tornozelo) são mais curtos. Neandertais também apresentam uma pelve maior que a do H. sapiens. A pelve Neandertal do espécime de Kebara (Israel) apresenta canal nasal que é, em partes, semelhante ao dos humanos, porém adaptada a uma condição climática específica, oferecendo uma maior proporção corporal e eficiência na conservação de calor do que em aspectos da gestação (Neves et al, 2015).

A escápula Neandertal é diferente a da espécie humana por ter uma espinha mais alta e um acrômio mais distante do eixo de rotação, deixando a escápula mais alongada. Isso favorece a rotação do braço de Neandertais. Além disto, suas mãos distinguem pouco das mãos humanas e sugere que suas habilidades manuais eram semelhantes as do Homo sapiens. Uma das diferenças esta na falange distal (ponta do dedo) na qual é arredondada (Neves et al, 2015).

Implicações adaptativas

Neandertais apresentam esqueleto atarracado, de pequena estatura e bastante musculosos. A temperatura baixa e escassez de alimentos foram obstáculos comuns a Neandertais e a nossa espécie. Sabemos que os Homo sapiens enfrentaram as mesmas condições quando adentraram o território dos Neandertais. Os Homo sapiens superaram o desafio, os Neandertais parecem ter adquirido adaptações morfológicas ao frio, mas ainda sim, pereceram.

Anatomia comparada de um Humano com Neandertal. Clique para ampliar

Anatomia comparada de um Humano com Neandertal. Clique para ampliar

A anatomia pós-craniana de Neandertal já foi denominada “hipoerpolar” devido sua adaptação a climas frios; caixa torácica em forma de tonel, membros curtos como o antebraço e a perna.

A região ântero-posterior da pelve (ramo púbico superior) era alongada. Tais características aumentam a amplitude corporal (dando maiores volumes em relação superfície do corpo) e portanto auxiliam a retenção de calor (Neves et al, 2015).

A laringe do Neandertal era diferente em posição a dos humanos, sendo elevada e afetando a fala, mas deixou o nariz livre permitindo o aquecimento do ar antes de chegar aos pulmões. Combinada com o formato torácico certamente criava uma voz mais aguda e forte do que a de humanos. Uma análise da biomecânica do osso que suporta a musculatura da língua, o hioide, de Neandertais permite concluir que seu uso era indistinguível ao usado por humanos modernos, mas muito diferente ao presente em chimpanzés, sugerindo uma capacidade de articulação vocal avançada.

O crescimento e o desenvolvimento dos Neandertais podem ter seguido um padrão diferente ao dos humanos, sendo mais rápido e vantajoso, em um ambiente hostil, pois crianças menos dependentes dos adultos poderiam participar mais ativamente de caças e deixariam as mulheres livres para participar também das caçadas. Existem evidências que suportam esta afirmativa, como fósseis de crianças Neandertais com muitas características que consideramos típicas de Neandertais são adquiridas logo no início da infância como a robustez dos ossos, mandíbulas grandes, formato da caixa craniana e forame magno mais alongado. Análises tridimensionais do crânio de crianças Neandertais mostraram que diferenças no crescimento craniano até os 2 anos de idade seria responsável pelas maiores diferenças entre eles e humanos modernos. O formato alongado e baixo do crânio do Neandertal indica um descompasso no crescimento encefálico em relação á abóbada craniana. A lentidão do crescimento cerebral em relação á abobada da cabeça gera o coque occipital (Neves et al, 2015).

Dúvidas sobre o clima e a anatomia facial e nasal ainda são recorrentes. Um nariz largo ajuda a aquece o ar ou dissipar o calor em períodos de alta atividade, e uma face prognática reduz estresse da mordida na dentição anterior, os dados em populações humanas são controversos quanto a isto (Neves et al, 2015).

Fósseis com marcas de grande estresse na mordida, com dentes anteriores mais gastos e os molares sofrendo de taurodontismo (raízes dentarias fundidas lateralmente a câmara pulpar alargada), deixaram o dente mais resistente ao intenso uso. Além disto, Neandertais  apresentavam hipoplasia no esmalte dentário que é uma má-formação do esmalte durante  a calcificação dos dentes criando manchas, brancas e ranhuras dentarias. Pode ter ocorrido devido a um desenvolvimento proveniente de deficiências nutricionais. Isto poderia causar raquitismo (pela deficiência de vitamina D), manifestando-se em seus ossos, especialmente no radio, fêmur (esbranquiçados) explicando porque alguns de seus ossos eram curvos. Como há ossos que não sofreram com o raquitismo a explicação alternativa é a que a curvatura dos ossos se daria pela hipertrofia muscular como ocorre com outros hominínios.

A hipertrofia é vista nas marcas dos músculos e ligamentos dos ossos dos membros e das extremidades dos Neandertais, resultado de uma vida com, atividades físicas exaustivas (Neves et al, 2015).

Victor Rossetti

Palavras chave: Netnature, Rossetti, Neandertal, Homo Heidelbergensis, Homo sapiens, Homo antecessor, Homo erectus, Europa, Shanidar, La Ferrassie, Endomolde, Anatomia craniana, Pós-crâniana

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Referências

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