QUEM ERAM OS NEANDERTAIS? – CULTURA, COMPORTAMENTO E TECNOLOGIA.

É possível obter pistas de como Neandertais agiam, pensavam e se organizavam combinando evidências fósseis com paleogenética, nosso conhecimento moderno em psicologia, etnografia e comportamento de primatas.

Uma exposição no Museu de Neanderthal, na Croácia mostrando a vida de uma família Neanderthal em uma caverna. Uma equipe internacional de pesquisa liderada por cientistas do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária em Leipzig, em 2006, partiu para ler o genoma Neanderthal com precisão. Foto: Reuters

Uma exposição no Museu de Neanderthal, na Croácia mostrando a vida de uma família Neandertal em uma caverna. Uma equipe internacional de pesquisa liderada por cientistas do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária em Leipzig, em 2006, partiu para ler o genoma Neanderthal com precisão. Foto: Reuters.

Estudos com DNAmit de 12 Neandertais encontrados em El Sindrón na região das Asturias (Espanha), além de evidências geológicas e paleoantropológicas indicam que eram indivíduos do mesmo grupo social que teria morrido por uma soterramento. Eram três adultos, três jovens, três adolescentes e três crianças. Os adultos seriam um homem e duas mulheres com detecção de produtos do cromossomo Y e não foi possível detectar o sexo das crianças. Houve a identificação de três linhagens maternas distintas. Dentre os adultos e jovens as três fêmeas pertenciam a linhagens maternas distintas enquanto todos os homens pertenciam a mesma linhagem materna. Isto sugere um sistema social com residência patrilocal, ou seja, as mulheres viveriam junto a famílias de seu par. Se este era um grupo típico, seria possível afirmar que Neandertais viveriam em grupos pequenos de baixa diversidade genética; mas esta é só uma família (Neves et al, 2015).

Os Neandertais clássicos viveram em uma Era Glacial e sua expectativa de vida raramente passava de 40 anos. Muitos fósseis são encontrados com fraturas e contusões semelhantes aos encontrados em peões de rodeio. A análise do esmalte dos dentes de Neandertais indicam que pelo menos 39% deles tinham sofrido algum tipo de deficiência nutricional. O mesmo tipo de análise encontrou um valor de 38% de deficiência nutricional nos esquimós do Canadá (Neves et al, 2015).

As condições de saúde dos Neandertais eram bem precárias, e isto também pode ser visto nos exemplares de “O velho” da La Chapelle-aux-Saints que tinha artrite grave, um problema no quadril e uma costela quebrada que se curou sozinha, além de poucos dentes na boca. Em Shanidar 1 (Iraque) um exemplar apresenta graves problemas na perna e no pé direito, uma fratura na face esquerda que deixou-o cego antes de sua morte. Também perdeu parte do braço ainda em vida. Em Shanidar 3 (um exemplar que não foi contemporâneo do Shanidar 1) passou um longo tempo com um ferimento de lança em uma de suas costelas antes de morrer. O ferimento parece ter sido causado por uma lança arremessada contra ele; um tipo de lança que não era confeccionada por Neandertais, mas que era presente nos grupos de Homo sapiens. Grande parte dos fósseis encontrados tinha algum ferimento e sobreviveram graças ao auxilio de seus pares, uma vez que fósseis muitas vezes mostram fraturas que foram curadas e não eram a causa da morte. É possível que eles se relacionassem de forma bastante semelhante a dos humanos modernos (Neves et al, 2015).

Existem evidências arqueológicas que demonstram como os Neandertais obtinham calorias com base em sua robustez óssea, massa corpórea e inserções musculares. Certamente o consumo calórico de Neandertais beirava os 3.000 – 5.500 calorias diárias, uma dieta que é semelhante á de atletas de grande desempenho. Para efeito de comparação, o homem moderno tem uma necessidade de cerca de 2.500 calorias.

É possível conhecer a dieta Neandertal a partir de isótopos de carbono e nitrogênio presentes nos ossos fossilizados. De acordo com os isótopos e a localização dos fósseis é possível inferir que se alimentavam primordialmente de mamutes e rinocerontes lanosos. Esses animais eram enormes e muito maiores que os atuais elefantes e não eram fáceis de abater em uma caçada. Como as ferramentas Neandertais eram rudimentares quando comparadas com a do Homo sapiens certamente eram lanças que poderiam ser arremessadas a distância. Evidências encontradas da Europa Central até o Cáucaso e em La Cotte de St. Brelade indicam um penhasco que hoje é parcialmente coberto pelo canal da mancha, mas que durante a Era do Gelo era parte de uma península. Nele foram encontrados restos de 11 mamutes e 3 rinocerontes lanosos que caíram de uma altura de 50 metros. Os ossos dos mamutes e rinocerontes eram grandes para serem carregados e foram descarnados no local do abate. Os restos encontrados em La Cotte são um exemplo do uso de uma estratégia em que o relevo é considerado a melhor arma de caça (Neves et al, 2015).

Não há evidência de que os grupos Neandertais discriminassem homens ou mulheres do ponto de vista da obtenção de calorias. Entre os caçadores coletores humanos é comum ver a mulher direcionada a coleta de frutas (obtenção de calorias alongo prazo), cuidado com a prole e os homens responsáveis pela caça. A análise de contusões nos esqueletos de Neandertais mostram que ambos os sexos tinham lesões, e demonstram o papel ativo da mulher na caça.

A caça com o intuito de direcionar as presas a grandes penhascos pode ter recebido auxilio de crianças Neandertais que afugentavam a caça, e os adultos machos e fêmeas matavam e descarnavam o animal. Após a consumação no local, carregavam pedaços de carne aos acampamentos. Todos esses comportamentos exigem complexas relações sociais e cooperação mútua, além de selecionar e memorizar lugares. Derrubar um mamute ou rinoceronte de 4 metros de altura e 8 toneladas exigiriam indivíduos com níveis de relacionamento e auto-confiança em um padrão muito superior a aversão do risco de serem mortos. Existem evidências de que Neandertais adaptavam sua dieta a estratégias de sub-existência aos recursos locais. Em dois sítios em Gibraltar nas cavernas de Vanguard e Gorham descobriu-se que á 50 mil anos atrás os Neandertais frequentavam o local para consumir moluscos, peixes, focas e golfinhos (Neves et al, 2015).

Análises de microfósseis presentes no tártaro acumulado de Neandertais indicam que sua dieta consistia também em vegetais cozidos. A análise demonstrou que consumiam plantas com gosto muito amargo sem nenhum valor nutricional, mas com aplicações medicinais. É possível que geneticamente sejamos diferentes de Neandertais em características como sentir certos gostos, por exemplo, o amargo. Em humanos isto esta relacionado a nossa capacidade de sentir o gosto da substância feniltioureia, mediada pelo gene TAS2R38. Descobriu-se que apenas um Neandertal do sítio de El Sidrón (Espanha) tinha este gene. Tudo indica que o uso dos vegetais tinham finalidades medicinais. A análise química de coprólitos (fezes fossilizadas) de Neandertais no sitio de El Salt (Espanha) datados em 50 mil anos e publicada na PLOS ONE em 2014 por Ainara Sistiaga da Universidade de La Laguna e colaboradores confirmou isto (Neves et al, 2015).

A técnica de confecção de ferramentas líticas usando a preparação de núcleos (Levallois) foi sendo modificada sucessivamente e adaptada a novos usos pelo Neandertal. Essa técnica é importante, pois experimentalmente permite concluir e aprender a intenção de quem produz ferramenta, ou seja, pela técnica e possível detectar certas nuvens cognitivas e descobrir quais objetivos se pretende alcançar, seguramente é uma técnica muito superior a observada em monos modernos. A destilação seca, caça por relevo, impermeabilização do couro, controle do fogo, uso de plantas medicinais e uso da linguagem indica um novo Neandertal completamente diferente aquele apresentado há algumas décadas atrás.

Os arqueólogos ainda tem certa dificuldade em encontrar artefatos arqueológicos que indiquem pensamentos simbólicos em Neandertais envolvendo arte e rituais.

Um artigo na Science de 2012 escrito por A.W.G Pike da Universidade de Bristol (Inglaterra) e colaboradores usaram a datação por urânio para estabelecer a idade mínima a pinturas rupestres encontradas em cavernas no norte da Espanha. As pinturas em geral são feitas utilizando pigmentos orgânicos o que impossibilita a datação por carbono 14. Nessas cavernas a pinturas estão coberta por calcita (diluída em água), que funciona como um depósito natural de urânio. Utilizando 10g do material retirado com broca e motor de dentista foi possível datar amostras de 11 cavernas da região de Altamira e El Castillo.

Em El Castillo, está presente o grande painel de mão (Panel de La Manos) na qual foi datado em entre 42 e 40,8 mil anos. Essa data cria um dilema importante, pois os sinais mais antigos de Homo sapiens na Espanha são de Morin e datam (95% de confiança) entre 42,8 e 40 mil anos. Desta forma há duas explicações plausíveis. É possível que tenha sido feita por Homo sapiens da cultura Proto-Aurinhecense que pintaram logo que chegaram a Europa, ou uma arte Neandertal já que sua presença na caverna era quase certa.

Mão estêncil na Cueva del Castillo, pelo menos, 37.300 anos de idade. Estas pinturas são tão antigos que eles duvidam que foram feitas pelo Homo sapiens, já que seu namoro poderia chegar a ser uma obra de neandertais, ou até mais, talvez, fazer repensar toda a cronologia das fases da pré-história .

Painel das mãos na Cueva del Castillo (Espanha), datado em pelo menos, 37.300 anos de idade. Estas pinturas são tão antigas que os pesquisadores duvidam que foram feitas pelo Homo sapiens e poderiam ser uma obra de Neandertais. Fonte: Reidekich

Um artigo de João Zilhão da Universidade de Bristol, publicado em 2010 na PNAS descreve a descoberta de conchas perfuradas encontradas em dois sítios associados a Neandertais. Sítios conhecidos como Cueva de Los Aviones e Cueva Antón datados de 50 mil anos em Múrcia (Espanha) na qual encontraram também pigmentos residuais amarelos e vermelhos. Não se sabe se havia sepultamentos intencionais com rituais feitos por Neandertais. Em 2014 William Rendu da Universidade de Nova York (EUA) publicou um artigo na PNAS onde afirma que na caverna La Chapelle-aux-Saints apresenta evidências suficientes para presumir que realizavam sepultamentos intencionais e que os corpos encontrados foram cuidadosamente introduzidos nas cavernas e não mostra evidência nenhuma de hibernação por animais que eventualmente poderiam tê-lo matado dentro da caverna. A dificuldade em ter certeza disto esta na ausência de artefatos simbólicos no local do sepultamento. Neandertais diferem de humanos em um ponto bem claro, são menos inovadores e embora a fixação de pontas em estruturas de lança de madeira tenha sido uma inovação e de toda sua complexidade social e espacial eles eram bem limitados embora muitas dessas tecnologias tenham variado ao longo de todo o tempo de sua existência, especialmente nos Neandertais clássicos. Muitas ferramentas eram criadas a partir de modificações de técnicas anteriores, mas mesmo assim produziram muito pouco (em função do tempo que existiram) quando comparado com o grande poder de inovação promovido pelo Homo sapiens (Neves et al, 2015).

Neandertais faziam ferramentas relativamente avançadas (Silberman, 2012), provavelmente tinham algum tipo de linguagem (cuja natureza é debatida e provavelmente incognoscível) e viviam em grupos sociais complexos. O sítio arqueológico de Molodova no leste da Ucrânia sugere que algumas habitações Neandertais usaram ossos de animais para serem construídas. A construção foi feita de crânios, mandíbulas, dentes, ossos da perna de mamute e teve 25 lareiras dentro (Abramiuk, 2012).

Evidências circunstanciais sugerem que Neandertais podem ter feito construções de algum tipo de embarcação no Paleolítico Médio (Gray, 2011). Os cientistas têm especulado que estas embarcações podem ter sido semelhantes a canoas, que estão entre os barcos mais antigos conhecidos no registro arqueológico (Gray, 2011). Ferramentas de pedra Mustierenses descobertas nas no sul das ilhas Jônicas sugere que Neandertais estavam navegando no mar Mediterrâneo por volta de 110 mil anos (Ferentinos et al, 2012) e seixos de mão feitos com quartzo, “picaretas” de três lados, e cutelos de pedra de Creta também têm sido recuperados datando 170 mil anos e se relacionando com Neandertais que datam cerca de 170 mil anos (Live Science, 2012).

Antigamente pensava-se que os Neandertais não tinham qualquer sofisticação para a caça, e até habilidades e competências para o descarnamento de carcaças (Financial Times, 2014), mas cada vez mais evidências sugerem que eles eram excelentes predadores (Bocherens et al, 2005), capazes de derrubar uma grande variedade de presas como veados, renas, javali ibex ou animais maiores, como auroques, mamutes e rinoceronte lanosos (Financial Times, 2014) No entanto, embora em grande parte carnívoros (Lichfield, 2006), estudos indicam que Neandertais também tinha cozinhavam vegetais em sua dieta (Bocherens et al, 2005). Em 2010, uma análise de isótopos de dentes de Neandertais encontrados vestígios de matéria vegetal cozido, e, mais recentemente, um estudo de 2014 de coprólitos de Neandertal (fezes fossilizadas) encontraram quantidades substanciais de matéria vegetal, contrariando a crença anteriormente eram exclusivamente (ou quase exclusivamente) carnívoros (Lichfield, 2006).

coprólitos - fezes fossilizadas - em amostras de solo retiradas do site pode representar o excremento humano mais antigo de sempre fossilizados e um ponto de inflexão na discussão em curso sobre o que, exatamente, os neandertais comiam. Um novo estudo conjunto do MIT e da Universidade de La Laguna em Espanha, liderada por paleoarchaeology Ainara Sistiaga de La Laguna e publicado na PLoS ONE, afirma ter encontrado prova no "pudim" fossilizada que os neandertais, de fato, consomem matéria vegetal. Eles não eram os "carnívoros empunhando clube" Nós pensamos que eles sejam, como o relatório MIT News Jennifer Chu diz.

Coprólito Neandertal  – fezes fossilizadas. Um novo estudo conjunto do MIT e da Universidade de La Laguna em Espanha, liderada pela paleoarqueóloga Ainara Sistiaga de La Laguna e publicado na PLoS ONE, afirma ter encontrado provas fossilizadas que os Neandertais, de fato, consumiam matéria vegetal. Eles não eram totalmente carnívoros segundo o relatório MIT News Jennifer Chu. Fonte: Genetic literacy project

O tamanho e a distribuição dos locais de Neandertal, junto com a evidência genética, sugerem que estes indivíduos viviam em grupos muito menores que humanos e que eram escassamente distribuídos (BBC News, 2014 & Kate, 2011). Alguns especialistas sugerem que esta disparidade sozinha foi um fator importante que contribui para a sua substituição definitiva pelo Homo sapiens, que podem ter ultrapassado demograficamente em uma proporção de 9-1 de acordo com algumas estimativas (BBC News, 2014). A sua densidade populacional inferior também podem ter aumentado a susceptibilidade a mutações causadas por consanguinidade (Kate, 2011).

Ossos de doze Neandertais foram descobertos em El Sidrón caverna nas montanhas de Atapuerca de Espanha. Acredita-se que se trata de um grupo social que foi massacrado há cerca de 50 mil anos atrás. A análise do DNAmit mostra que os três homens adultos pertenciam à mesma linhagem materna, enquanto os três fêmeas adultas pertenciam a diferentes. Isto sugere uma estrutura social onde os machos permaneceram no mesmo grupo social e as fêmeas eram de para fora (Vergano, 2014).

Os ossos dos El Sidrín mostram sinais de escalpelamento, sugerindo que eles foram vítimas de canibalismo, onde seus ossos também mostram sinais de que eles sofriam de escassez de alimentos, podendo ser vítimas do “canibalismo para sobrevivência” por outro grupo de Neandertal (Vergano, 2014). O esqueleto de St. Césaire 1 descoberto em 1979 na La Roche à Pierrot (França) mostrou uma fratura cicatrizada no topo do crânio, aparentemente causada por um ferimento profundo de lâmina. Os pesquisadores tomaram isso como evidência da presença de violência interpessoal entre os Neandertais (Tattersall, 2015).

A Teoria de que os Neandertais careciam de uma linguagem complexa foi difundida até 1983, quando um osso hióide de Neandertal foi encontrado na caverna Kebara em Israel. O osso encontrado era praticamente idêntico ao dos humanos modernos. O hióide e um pequeno osso que segura a raiz da língua no lugar, um requisito básico para a fala humana, Dessa forma, sua presença em Neandertais implica em alguma habilidade para a fala.

Muitos acreditam que mesmo sem evidências claras sobre a forma na qual o osso hioide funcionada é obvio que ferramentas avançadas como as do Período Musteriense, podem ser atribuídas aos Neandertais, pois não poderiam ser desenvolvidas sem habilidades cognitivas incluíndo algum tipo de linguagem falada. Pesquisadores identificaram genes extraídos de fósseis que dão sustentação a proposta de que Neandertais possuíam a capacidade de falar (Skinner et al,2007).

A janela mais evidente para a questão cognitiva e comportamento de Neandertais são os registros culturais que podem ter deixado embora a questão do simbolismo ainda não sejam unânimes. As ferramentas eram comparativamente simples e poucos registros foram deixados. O que é mais evidente são suas preferências alimentares, focadas em presas de grande porte. Na década de 90 arqueólogos começaram a encontrar essas evidências contraditórias que atribuíam ferramentas mais complexas aos Neandertais e muita divergência existe entre pesquisadores. Apropriações culturais podem ter acontecido quando Neandertais passaram a copiar as produções dos Homo sapiens. O fato é que muita descobertas foram feitas e vêm evidenciando a capacidade e inteligência Neandertal, muitas delas podendo evidenciar pensamentos simbólicos anteriores a chegada dos homens a Europa (Wong, 2015).

Plumas e ferramentas encontradas na Gruta di Fumane, região de Vêneto (Itália) indicam o uso de penas e conchas tingidas de vermelho datadas de 47,6 mil anos. Em Cueva dos Aviones e Cueva de Antón (Espanha) há conchas com pigmentos indicando serem usadas como adornos. Sítios da Itália e França indicam a tradição Neandertal de caçar águias para obter garras (e não carne) e penas entre 90 e 40 mil anos. As evidências para pensamentos simbólicos em Neandertais são fortes. Evidências no sítio de Maastricht-Belvedere (Holanda) respingos de pigmentos de ocre vermelho e oxido de ferro datam 250-200 mil anos e indicam pigmentos moídos e misturados em líquidos usados em processos decorativos á arte e usados no corpo, podendo representar processos simbólicos e habilidade cognitivas complexas exercida pelos confeccionadores traduzindo em simbolismos; característica definidora de humanos. Tal pensamento abstrato poderia estar presente no ancestral comumente as duas espécies, ou ter sido engatilhado evolutivamente. Em dezembro de 2014 uma concha entalhada encontrada na indonésia indicava um padrão geométrico que foi confeccionado pelo Homo erectus datado em 500 mil anos (Wong, 2015).

O sítio de Abri Du Maras (sul da França) abrigou Neandertais há mais de 90 mil anos e análises de ferramentas encontradas por Bruce Hardy do Kenyon College em Gambier Ohio revelaram evidências de atividades que eram comuns a nossa espécie. Ele encontrou resquícios de fibra vegetal, tiras, cordas de armadilhas, sacos embornais e madeira de ferramenta. A análise química dos isótopos dos dentes desses Neandertais relevou que eles se alimentavam de presas grandes, como bisões e mamutes.  E muitas vezes animais pequenos, como coelhos e peixes (Wong, 2015).

A base alimentar em vegetais e animais dos Homo sapiens trouxe vantagens em relação aos Neandertais. Apesar de ser mais complexo para humanos devido aos nossos cérebros grandes, nosso pequeno sistema digestivo não era adaptado a comer fibras e alimentos crus, como faziam os Neandertais. Portanto, a preparação de alimentos de origem vegetal trouxe profundo conhecimento. Os Neandertais de Abri Du Maras coletavam plantas, comestíveis como a pastinaca e bardanas além de cogumelos (não-tóxicos). Um estudo liderado por Amanda Henry do Instituto Max Planck (Alemanha) indicam que Neandertais da Eurásia consumiam espécies vegetais aparentadas ao trigo e cevada moderna cozinhando-as e deixando-as palatáveis. O tártaro do dente indicou componentes da tamareira, semelhantes a achados arqueológicos de nossa espécie (Wong, 2015).

Tecnologia neandertalense

As primeiras ferramentas líticas datam aproximadamente 2,6 milhões de anos e nos direcionam possivelmente ao Australopithecus garhi. Nos primeiros gêneros Homo, as primeiras ferramentas remetem ao H. habilis e H. erectus. As ferramentas mais antigas são classificadas como Olduvaiense (por terem sido encontradas na caverna da Garganta de Olduvai (Tanzânia) e compreendem seixos de quartzo, quartzita, sílex ou basalto, usando uma rocha percutora criando ferramentas de corte por indivíduos que certamente tinha hábitos carniceiros (Neves et al, 2015).

Richard Wrangham correlaciona o do fogo, cozimento de alimentos, aumento de eficiência energética da alimentação a encefalização a partir da origem do H. erectus. Colocando o uso sistemático do fogo a partir de 2 milhões de anos. Artigos de revisão do uso do fogo em sítios europeus feito por Will Roebroeks e Paola Villa e publicados na PNAS (2011) conclui que os H. heidelbergensis ocuparam o norte da Europa e já dominavam o fogo segundo evidências encontradas em estratos datados de 400 a 300 mil anos. A exceção é o sítio de Gesher Benot Ya´aqov (Israel) onde o uso controlado do fogo data 800 mil anos.

Neandertais tinham grande fluência no uso do fogo, que era constante em suas ocupações, e não era usado só pra cozinhar alimentos. O sítio de Campitello (Itália), datado de 200 mil anos mostra seu uso por proto-neandertais para produzir “adesivos” a partir de resinas de casca de árvore, usadas em cabos de ferramentas. A técnica chamada de destilação a seco, indica especificidade no procedimento e objetivos claros de converter as cascas em resina. Cascas eram aquecidas a 400°C em uma espécie de forno aberto coberto por pedras (Neves et al, 2015).

Os restos de um antigo, primitivo pit-fogo (lareira). Supostamente do Neanderthal ou Neolítico (cerca de 45000 anos a partir da presente).

Os restos de uma antiga fogueira Neandertal datada em cerca de 45 mil anos.

 A partir de 1,7 milhões de anos o H. erectus já usava machados de pedra bifáceis, dando origem ao que ficou conhecida como indústria lítica Acheulense. A técnica de produção foi encontrada pela primeira vez em Saint-Acheul (França) e era usar uma rocha percutora para produzir ferramentas e usar chifres ou ossos para trabalhar os detalhes. Por serem bifáceis eram simétricas tanto nas lascas quanto no uso genérico (Neves et al, 2015).

A próxima etapa de sofisticação de indústrias líticas ocorreu entre 300 e 200 mil anos dando origem ás ferramentas Musterienses na África e Europa (encontrada pela primeira vez na França, no abrigo de Le Moustier). Eram produzidos por H. heidelbergensis e Neandertais que preparavam núcleos de rochas para fazer as ferramentas. Uma preparação previa do seixo na qual se removiam lascas de forma planejada deixando uma região nuclear, que também se tornava ferramenta (Neves et al, 2015).

As indústrias Olduvaiense e Acheulense definem o Paleolítico Inferior. A tecnologia Musteriense define o Paleolítico Médio. O Homo heidelbergensis aparece com grande variação geográfica e temporal utilizando a tecnologia Olduvaiense e Acheulense, inclusive na China. Ferramentas Musterienses também são encontradas em Skhul (Israel) e Norte da África em sítios que podem ser de H. heidelbergensis.

Na Europa, este hominídeo usou tecnologia acheulense com uma progressão incrível tanto em qualidade quanto em quantidade nas variedades bifáceis produzidas. Evidências de ferramentas de madeira como lanças de mais de 2 metros foram encontradas em um sítio em Schoningen (Alemanha) e datadas em 350 mil anos associadas ao H heidelbergensis. Além disto, foram encontrados ossos de cavalos com marcas de corte e até dentes de tigre dente-de-sabre. Isto sugere que estes hominínios se dedicavam muito a caça e eram excelentes cooperadores entre si (Neves et al, 2015).

Neandertais seguem a tendência dos H heidelbergensis e aparecem associados exclusivamente a tecnologia Musteriense com ferramentais bifáceis, mas envolvendo facas, pontas articuladas, denticuladas raspadores e cortadores. Eles aparecem cognitivamente distintos dos H. heidelbergensis com concepções e idealizações mais complexas de ferramentas. Lanças de madeira com pontas de pedra afiadas fixadas por resina faziam parte do repertório de ferramentas Neandertais. Ao mesmo tempo a preservação destas ferramentas, especialmente as de madeira, são difíceis acontecer em registro fóssil, pois amadeira se decompõe rapidamente. Raros são os casos onde isto é bem preservado.

Em 2011 um artigo na Journal of Human evolution publicado por Nathan Wales da Universidade de Connecticut (EUA) construiu a partir de 245 grupos de caçadores-coletores um modelo para inferir o grau de cobertura do corpo necessário para que os Neandertais superassem o clima europeu na Era do Gelo. Durante o inverto seria necessário cobrir 80% do corpo, e nas épocas mais amenas apenas 30%. De acordo com os dados obtidos por Wales, certamente os Neandertais cobriam a cabeça em épocas de frio com capotas de couro obtidas de animais abatidos que eram amarrados ao corpo, já que nenhuma ferramenta de costura foi encontrada em sítios correspondentes a Neandertais (Neves et al, 2015).

Para tornar o couro maleável e macio os ossos eram usados como batedores-de-couro e estão associados aos sítios de Neandertais. Somente cinco amaciadores de couro foram encontrados até hoje, no ano de 2013, na região de Dordonha (França) e foram datados em 50 mil anos aproximadamente (Neves et al, 2015).

Alguns abrigos de H. heidelbergensis foram encontrados e fornecem evidências da organização espacial. Em 1966 no sítio de Terra Amata, Nice (França) foi encontrado um abrigo de rochas e madeira datado entre 230-400 mil anos embora tenha sido contestado por Paola Villa em 1983. Entretanto, o achado de Gesher Benot Ya´aqov (Israel) foi ocupado por grupos caçadores coletores datados em 800 mil anos e foram encontradas ferramentas Acheulense divididas em duas áreas de 7,5 metros de distância. Havia uma área só para preparação de comida e outra área para se alimentar e produzir ferramentas adaptadas tecnologicamente ao clima (Neves et al, 2015).

Até recentemente acreditava-se que Neandertais eram nômades, sem qualquer tipo de habitação ou organização espacial do trabalho. Com novos achados muitas destas odeias foram sendo descartadas, especialmente pelo achado de Moldova I (Ucrânia) datado em 40 mil anos onde foram encontrados pilhas de ossos de 3 mil mamutes acumulados e que serviam para a construção de abrigos (Neves et al, 2015).

Um artigo publicado na “Canadian Journal of Archaeology” por Julian Riel-Salvatore em 2013 destaca evidências de Neandertais semelhantes a de H. sapiens na caverna colapsada de Riparo Bombrini (Itália) com ferramentas Musterienses associadas e datada entre 45-35 mil anos (Neves et al, 2015).

Os sítios arqueológicos compostos por sepultamentos e ocupações de Neandertais mostram que o auge da espécie foi alcançado no Paleolítico Médio.

Essa cultura de técnica atribuída aos Neandertais, é designada como técnica Musteriense pois consistia na produção de ferramentas de pedra lascada produzidas através do desbastamento em leque de um bloco lítico inicial (o núcleo), onde se formavam lascas a partir das quais se encadeava a produção de diversos instrumentos, como machados manuais para tarefas específicas, ferramentas bifaces, raspadores, furadores e lanças. Muitas dessas ferramentas eram bem afiadas. No Paleolítico Superior eles desenvolveram materiais de nível tecnológico mais detalhados, com entalhes na pedra, designada como Chatelperronense (Johanson & Edgar, 2006) caracterizada pelo desdobramento lítico de técnicas do núcleo para construir peças menores e mais manuseáveis.

Sem título

Neandertais inventaram uma cola para produzir sua arma de caça com uma ponta de pedra presa a um cabo de madeira. A casca de bétula contém uma resina pegajosa. Os químicos descobertos Isso destilando a casca do vidoeiro e requer um ambiente livre de oxigênio e as temperaturas sustentados de mais de 650°F (ou 400ºC).

 Há evidências de que Neandertais usavam chifres, conchas e diversos materiais ósseos para fazer ferramentas, deixando sua Indústria óssea relativamente simples. Eles ainda incluíram tardiamente, objetos de adorno em osso e pedra na qual alguns autores cogitam ser imitações de técnicas do Homo sapiens, enquanto outros acredita ser ferramentas autônomas (Mellars, 2007).

Possuíam lanças que consistiam em eixos de madeira com uma seta de rocha em uma das extremidades presa com resina de plantas fabricadas para serem lançadas pelos Homo sapiens.

Embora tenham enterrado a maioria dos seus Mortos, os funerais dos Neandertais parecem ser menos elaborados que os humanos anatomicamente humanos. Neandertais tinham um conjunto sofisticado de tarefas normalmente associadas a humanos, como a construção de abrigos complexos, controle do fogo e a remoção da pele dos animais.

Particularmente intrigante é um fêmur de urso encontrado com quatro furos em uma escala diatônica feitos deliberadamente nele e que foi encontrado em uma escavação. Essa flauta foi encontrada na Eslovênia em 1995 próximo a uma fogueira do período de uso de tecnologia Musteriense feito pelos Neandertais, mas seu significado ainda é controverso.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Lanças, Calorias, Isótopos, Contusões, Relações sociais, Arte, Pintura, Linguagem, Ferramentas, Tecnologia, Olduvaiense, Acheulense, Musteriense, Sepultamentos

.

Referências

Abramiuk, Marc. The Foundations of Cognitive Archaeology, p. 199 (MIT Press 2012): “the encephalization quotient was slightly smaller”.
Bocherens, Hervé; Drucker, Dorothée G.; Billiou, Daniel; Patou-Mathis, Marylène; Vandermeersch, Bernard (2005). “Isotopic evidence for diet and subsistence pattern of the Saint-Césaire I Neanderthal: Review and use of a multi-source mixing model”. Journal of Human Evolution 49 (1): 71–87.
Ferentinos, G. Maria Gkioni , Maria Geraga , George Papatheodorou   Early seafaring activity in the southern Ionian Islands, Mediterranean Sea, Journal of Archaeological Science, In Press, Corrected Proof.2012
Gray, Richard (December 18, 2011). “Neanderthals built homes with mammoth bones”. Telegraph.co.uk
Johansson, Donald; Edgar, Blake (2006). From Lucy to Language. Simon & Schuster. p. 38
Kate, S (July 29, 2011). “Sheer Numbers Gave Early Humans Edge Over Neanderthals”. Wired.com.
Lichfield, John (September 30, 2006). “French dig up Neanderthal ‘butcher’s shop'”. The New Zealand Herald.
Mellars, Paul (2007). Rethinking the Human Revolution: New Behavioural and Biological Perspectives on the Origin and Dispersal of Modern Humans. McDonald Institute for Archaeological Research. p. 143.
Neves, W. A. Junior, M. J. R. Murrieta, R. S. S. Assim caminhou a Humanidade. Palas Athenas. 2015
Silberman, Neil. The Oxford Companion to Archaeology, p. 455 (Oxford University Press 2012)
Skinner, A., B. Blackwell, R. Long, M.R. Seronie-Vivien, A.-M. Tillier and J. Blickstein; New ESR dates for a new bone-bearing layer at Pradayrol, Lot, France; Paleoanthropology Society March 28, 2007
Tattersall, Ian (2015). The Strange Case of the Rickety Cossack and other Cautionary Tales from Human Evolution. Palgrave Macmillan. p. 202.
Vergano, Dan (April 22, 2014). “Neanderthals Lived in Small, Isolated Populations, Gene Analysis Shows”. National Geographic.
Wong, K. Mentes neandertais. Scientific American. Março de 2015.ANo 13.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s