O NEANDERTAL ERA UM Homo sapiens?

Até que ponto nossa espécie se confunde com os Neandertais? Se o limite de uma espécie e outra é dado pela capacidade de reprodução, o Neandertal seria uma outra espécie ou uma variedade de Homo sapiens? Essas são questões foram levantadas em muitos anos de estudos sobre Neandertais e humanos.

Representação de um Neandertal (esquerda) e um humano (direita)

Representação de um Neandertal (esquerda) e um humano (direita)

A hipótese de que Neandertais eram apenas uma variedade da espécie humana foi cogitada durante as pesquisas genéticas sobre Neandertais e suas semelhanças genéticas com humanos (95,5% de semelhança, diferindo somente em 3 milhões de pares de base) (Live Science 2006). Com o passar dos anos e de pesquisas, tal ideia foi sendo diluída diante das evidências genéticas e anatômicas. Nossa noção sobre quem eram os Neandertais mudou muito nos últimos anos, saindo da visão torpe e equivocada de um hominídeo robusto e desajeitado para uma espécie sofisticada cognitiva e socialmente. Com estas descobertas que elevam a moral do Neandertal, e a consolidação da tese de cruzamento deles com nossa espécie (Homo sapiens) é tentadora a ideia de unifica-los em um grupo taxonômico único. É tentador por vários motivos dependendo do grupo que se observa, e quais suas intenções.

Cientificamente, tal proposta de unificação permanece diluída pelo fato das diferenças anatômicas e genéticas (nuclear e mitocondrial) serem decisivas em coloca-los em uma espécie distinta. Deste modo, apesar de existir a corrente que deseja unifica-los taxonomicamente, ela é pouco expressiva e representada por poucos pesquisadores. Isto se dá porque diante das evidências, tal proposta se torna mais distante da realidade dos dados. Ainda assim, para pesquisadores como Marks e M. H. Wolpoff, Neandertais seriam melhor caracterizados como uma subespécie de H. sapiens.

A outra corrente não é científica, mas usa os dados científicos para defender tal unificação por conveniência (viés de confirmação): são os grupos anti-evolução. Este grupo visa unificar as duas espécies para argumentar que não há evolução humana uma vez que supostamente pertenceriam a uma única espécie, ignorando os dados científicos que colocam Neandertais e humanos em espécies distintas.

Mas como eles poderiam ser colocados em espécies distintas se apresentam 95,5% de semelhança genética?

A decisão de unificar, ou não, espécies não se dá pela observação unicamente das semelhanças genéticas. Embora as características genéticas informem muito, ela é apenas um critério, e precisa ser considerada de forma clara e objetiva. Se observássemos somente as semelhanças genéticas e apenas como números – ignorando seu significado fenotípico – deveríamos unificar desde chimpanzés a humanos em uma única espécie, uma vez que apresentam 99% de semelhanças genéticas (diferindo entre si entre 30 e 50 milhões de pares de bases).

De fato, se a unificação fosse feita pela simples semelhança genética – vista como números – então chimpanzés e todos os representantes da linhagem evolucionária humana (os gêneros Sahelantropus, Orrorin, Ardipithecus, Australopitecíneos e todas espécies do gênero Homo) seriam a mesma espécie, devido a aproximação genética deles. O problema de olhar as diferenças genéticas apenas em números – sem considerar o seu significado biológico – é que eles não representam um limite claro de onde termina uma espécie e começa outra.

Seres humanos e gorilas apresentam semelhanças genéticas de 98,4% entre si, e em comparação com orangotangos, somos 97% semelhantes. Entretanto, nós humanos não somos orangotangos, nem gorilas, nem chimpanzés, australopithecus ou Homo erectus: Então porque humanos e Neandertais deveriam ser a mesma espécie então?

Tais semelhanças genéticas são estabelecidas por relacionamentos filogenéticos, ou seja, temos ancestrais comuns, sejam eles mais distantes como os chimpanzés (aproximadamente 8 milhões de anos) ou com Neandertais (600-500 mil anos).

Isto significa que nosso ancestral comum com os Neandertais viveu há 600 mil anos atrás e se divergiu em duas linhagens: dando origem (e co-existindo) aos Neandertais na Europa e H. sapiens na África. A semelhança genética entre as duas espécies é dada, então, pelo compartilhamento de um ancestral em comum, ou seja, um pool gênico comum (matriz) que se dividiu em duas linhagens e seguiu caminhos evolutivos próprios, acumulado variações, mutações e recombinações distintas em taxas distintas.

Quando observamos o significado biológico destas diferenças genéticas mínimas entre humanos e Neandertais (ou entre humanos e chimpanzés) fica evidente que há expressivas diferenças: o diabo mora nos detalhes! O significado biológico destas diferenças genéticas aprendemos no ensino médio, estão contidos no que chamamos de genótipo e são expressos e evidentes no fenótipo. Isto quer dizer que, apesar das grandes semelhanças genotípicas entre humanos e Neandertais, a manifestação delas gera expressivamente fenótipos distintos.

Neandertais (acima) tem a porção medial da face projetada para frente. Em 1 protuberância occipital chamada de coque; 2 crânio alongado para trás; 3 apresentavam uma testa baixa; 4 porção supraorbital proeminente formando um arco sobre as órbitas oculares; 5 abertura nasal ampla com protuberâncias ósseas nos lados da abertura; 6 espaços atrás dos molares; e 7 não tinham queixo.Abaixo, crânio de H. sapiens. Clique para ampliar

Neandertais (acima) tem a porção medial da face projetada para frente. Em 1 protuberância occipital chamada de coque; 2 crânio alongado para trás; 3 apresentavam uma testa baixa; 4 porção supraorbital proeminente formando um arco sobre as órbitas oculares; 5 abertura nasal ampla com protuberâncias ósseas nos lados da abertura; 6 espaços atrás dos molares; e 7 não tinham queixo.Abaixo, crânio de H. sapiens. Clique para ampliar

Anatomicamente, os Neandertais e humanos tem diferenças consideravelmente grandes, seja no: tórax em forma de tonel nos Neandertais; nas diferentes caraterísticas dos membros posteriores e anteriores em sua relação com o tamanho corporal; a diferença entre os coeficientes de encefalização; diferenças cranianas do fechamento da abóbada craniana e seu formato; no arco zigomático robusto em Neandertais e a ausência de queixo; a arcada supraciliar exacerbada em Neandertais e tantas outras minúcias. Todas estas diferenças são claras no registro fóssil e certamente eram mais expressivas em aspectos neurológicos, fisiológicos (imunitários e psicológicos) e sociais que podem ser inferidas indiretamente.

Outra evidência disto vem de comparações com os chimpanzés. Apesar de humanos e chimpanzés apresentarem 99% de semelhança, este 1% de diferença é que faz de nós humanos não sermos chimpanzés e vice e versa. Este 1% de diferença é o que nos faz Homo sapiens e não Pan troglodytes. Neste 1%, representado em número, está contido os genes que nos diferenciam cognitivamente de chimpanzés. Se observarmos exclusivamente a diferença entre genes que estão ligados ao desenvolvimento do sistema nervoso em humanos e compara-los com chimpanzés, a diferença entre esses genes destas duas espécies é de 17%. Ao somarmos esta diferença (e tantas outras não citadas neste texto) com o sequenciamento global do genoma de ambas as espécies, teremos o resultado de 99% de semelhança, ou, 1% de diferença.

Portanto, há razões de sobra para suspeitarmos da alegação de que Neandertais e humanos são da mesma espécie: pelas diferenças. Ainda assim, há registro de cruzamento entre Homo sapiens e Neandertais a cerca de 50 mil anos atrás. Como explicar isto?

Apesar de serem espécies distintas – e estarem isolados geograficamente – alguns indivíduos podem servir como intermediários na troca de genes entre espécies recém-separadas. Este caso não ocorreu somente entre Neandertais e Homo sapiens, mas em borboletas do gênero Heliconius da Amazônia ou com chimpanzés e bonobos.

Em determinadas regiões da Amazônia, borboletas Heliconius de espécies distintas (H melpomene e H. eratus) trocam genes a partir de alguns indivíduos do sexo masculino que cruzam entre si: somente em determinados locais da floresta onde as duas espécies se encontram e fazem fronteira (Kronforst, 2007). Nossa definição de espécie é artificial, pois muitas vezes o limite de onde termina uma espécie e começa outra é subjetivo; ou seja, não é tão claro e demarcado.

Entre chimpanzés e bonobos isto também ocorreu. As duas espécies se separaram a cerca de 2 milhões de anos quando houve uma mudança no fluxo do Rio Congo, que corta a África. Ao longo do tempo, as duas populações ficaram isoladas dando origem aos chimpanzés de um lado e bonobos do outro. Eventualmente, a cerca de 500-250 e a 100 mil anos atrás, populações de bonobos conseguiram atravessar o rio e cruzar com populações específicas de chimpanzés. O resultado é que atualmente há populações de chimpanzés com conjuntos de genes (3%) mais próximos de bonobos do que de chimpanzés de grupos vizinhos (Marques-Bonet etal, 2016).

No caso de nossa espécie, humanos conservam cerca de 2-4% de genes que foram herdados da relação sexual que humanos e Neandertais tiveram a 50 mil anos atrás. Isto significa que a semelhança que temos com Neandertais (95,5%) veio de um ancestral comum com eles (o H. heidelberguensis), mas cerca de 2-3% desta porcentagem nós recebemos diretamente dos Neandertais via inter-cruzamento das duas espécies.

Este cenário mostra como depois de ancestrais humanos dividirem-se dos ancestrais dos neandertais, os dois grupos se cruzaram, pelo menos, duas vezes nos últimos 100 mil anos atrás, logo depois que os humanos modernos surgiram e deixaram a África pela primeira vez e depois novamente entre 47 e 65 mil anos atrás. Fonte: Science Magazine

Este cenário mostra como depois de ancestrais humanos dividiram-se dos ancestrais dos Neandertais. Os dois grupos se cruzaram, pelo menos, duas vezes nos últimos 100 mil anos atrás, logo depois que os humanos modernos surgiram e deixaram a África pela primeira vez e depois novamente entre 47 e 65 mil anos atrás. Fonte: Science Magazine

Estudos genômicos apontam para que a amplitude da diversidade genética das amostras coletadas em Neandertais superaria a encontrada em populações de seres humanos modernos, embora ainda seja bem menor do que as diferenças para os nossos ancestrais mais próximos, os chimpanzés. Isto indica que realmente Neandertais seriam uma espécie à parte da nossa. Entretanto, como o limite do fim de uma espécie e começo de outra é mais difícil quanto mais próximo filogeneticamente duas espécies são (espécies-irmãs), somente estes dados não seriam suficientes para estabelecer definitivamente o limite entre elas (Amos & Hoffman, 2010). Alguns pesquisadores são mais radicais e propõem cenários taxonômicos mais conservadores para toda a evolução humana: defendendo no máximo 5 espécies ancestrais e rejeitando as mais de 20 espécies identificadas no registro fóssil. Parte desta discussão permeou a descoberta do Homo naledi e o Homo erectus (Veja aqui e aqui)

Ao adotar uma postura muito conservadora, os seres humanos modernos e os H. sapiens arcaicos juntamente como os Neandertais e Denisovianos poderiam ser enquadrados em uma única espécie (Wolpoff, 2009). De fato, em casos mais extremos, poderia incluir chimpanzés e bonobos dentro do gênero Homo (Yu et al, 2003).

Isto ocorre devido a subjetividade de quando termina e começa outra espécie; e porque a classificação de espécies é artificial. Isto quer dizer que cada sistema de classificação de espécies que usamos, em última análise, só funciona para classificar os organismos que existem durante uma única fatia de tempo.

Quando tentamos observar as populações por períodos mais longos (a média de existência de uma espécie é de cerca de 1 milhão de anos), durante os quais as populações e os intercâmbios genéticos entre eles estão mudando continuamente, todos os sistemas de classificação desenvolvidos pela biologia falham e param de funcionar. Por esta razão a termo “fóssil-vivo” é inadequado: apesar de conservar características primitivas, a genética deste organismo foi sendo modificada, conservando algumas características e mudando outras.

A definição de espécie simplesmente não funciona para populações espalhadas por longos períodos de tempo. Na realidade, toda a vida é um gigantesco contínuo de troca genética em toda a história evolutiva da Terra; seja com Neandertais inserindo seus genes em Homo sapiens ou mesmo na mitocôndria (α-proteobacteria) perdendo seus genes para o DNA nuclear das células eucariotas que habitam (nos últimos 2 bilhões de anos).

Mesmo em mitocôndrias encontramos evidências em estudos que indicam que humanos e Neandertais compreendem espécies distintas. Estudos com DNA mitocondrial (DNAmit) indicaram que os Neandertais não pertencem a linhagem humana, sendo, portanto, melhor classificados como uma espécie separada (Homo neanderthalensis).

As primeiras investigações genômicas feitas sobre o Neandertal concentraram-se no DNAmit, que devido à herança estritamente matrilinear e vulnerabilidade subsequente à deriva genética é limitada. Temperatura e umidade são algumas das condições que vão determinar a degradação (ou não) do material genético nuclear com mais de 100 mil anos. Em DNAmit, por ser maior número de cópias por célula e serem de menor em tamanho tendem a ser preservados por mais tempo se as condições forem favoráveis (Neves et al, 2015).

Os estudos mostram que o DNAmit Neandertal está ausente em nossa espécie. Tal ausência pode ser causada pela morte de indivíduos da população de H. sapiens que cruzaram com os Neandertais (que também explica a ausência de genes em cromossomos-Y dos Neandertais). Também é possível que a deriva genética tenha ocorrido no DNAmit (embora seja raro) tornando incompatível e levando à morte fetal ou morte das crianças híbridas humanas por baixa aptidão. Também é possível que Neandertais machos tenham cruzado com fêmeas H. sapiens e, portanto, não contribuíram com DNAmit (uma vez que a herança é matrilinear) ou que o “híbrido” das mães Neandertais (cujos pais teriam sido H. sapiens) foram levados nos grupos de Neandertais e morreu com eles (Quora, 2016).

Um estudo feito por Svante Pääbo e colegas (2008) analisou o DNAmit de Neandertal e constatou que das 13 proteínas codificadas por ele, a subunidade 2 da Citocromo C-Oxidase da cadeia de transporte de elétrons mitocondrial tem experimentado o maior número de substituições de aminoácidos em ancestrais humanos desde a separação do homem de Neandertal. Além disto, que havia evidências de que a seleção de purificação no DNAmit de Neandertal foi reduzida em comparação com outras linhagens de primatas, sugerindo que o tamanho efetivo da população de Neandertais era pequeno: ou seja, no caminho oposto da espécie humana. Outra descoberta tentadora é que quando todas as substituições no DNAmit são analisadas, a linhagem Neandertal DNAmit é mais curta do que a linhagem humana em cerca de 20%. Isto demonstra diferenças importantes entre as duas espécies.

O que se nota ao analisar o DNAmit de Neandertais e humanos modernos é que são sequencias substancialmente diferentes (Krings et al, 1997, 1999).

Uma extração de DNA Neandertal realizada em 1997 na Universidade de Monique (Alemanha) e Universidade da Pensilvânia (EUA) de um número de 40 mil anos de idade encontrado em 1856 no vale de Neander (Alemanha) e reconstruiu 379 bases de DNAmit e comparou com 2.051 bases de DNAmit humano. Foram encontradas 28 diferenças, sugerindo que Neandertais não foram nossos ancestrais e não contribuíram com DNA mitocondrial para humanos modernos: o que caracteriza espécies distintas (Neves et al, 2015).

O estudo ainda apontou que o ancestral comum entre Neandertais e humanos deveria ter existido á 500 mil anos. Devemos notar que a contribuição analisada era somente do sexo feminino, tratando-se do DNAmit cuja prole herda da mãe (salvo raros casos pelo pai). Sendo assim, o DNAmit só conta metade da história. A outra metade é contada pelos genes do cromossomo-Y (herança patrilinear) que foram sequenciados a partir de Neandertais e que também estão ausentes no cromossomo-Y de humanos modernos.

Genes do cromossomo-Y do Neandertal diferem do humano moderno e não foram passados para nós. Os pesquisadores deste estudo descobriram algumas diferenças entre os códigos genéticos das proteínas no cromossomo-Y, onde 3 destas diferenças são mutações conhecidas nos genes humanos que provocam incompatibilidades específicas nos humanos do sexo masculino.

Assim, alguns antígenos derivados de um destes três genes são aparentemente responsáveis por uma resposta imunológica nas mulheres grávidas que ataca seus fetos, causando abortos. É possível que alguns destes genes incompatíveis no cromossomo-Y do Neandertal possa ter desempenhado um papel na separação entre os humanos antigos e os Neandertais, impossibilitando o cruzamento e favorecendo a tese de que de fato são espécies separadas. Os genes do cromossomo-Y representam entre 1,5 e 2% do DNA total das células (Mendez et al, 2016).

Do ponto de vista anatômico, há diversas características fenotípicas que demonstram as diferenças entre Neandertais e humanos. Citamos acima as características cranianas e corporais, mas há características específicas que demonstram desenvolvimento paralelo da encefalização em H. sapiens e Neandertal. Eles são apoiados por diferenças anatômicas relacionadas ao desenvolvimento e genética alterando o grau de conectividade encefálica (Neves et al, 2015).

Diversos estágios de desenvolvimento indicam que Neandertais alcançavam seu volume tamanho cerebral por caminhos desenvolvimentais distintos ao dos humanos; começando a desenvolver-se ainda no útero como os cérebros modernos e divergiam do nosso modelo padrão após o nascimento, durante uma “janela” crítica ao desenvolvimento cognitivo (Wong, 2015).

Neandertais têm os lobos frontal e occipital maiores que humanos modernos, seus lobos parieto-temporais são menores; associados a funções de informação tátil visual e auditiva, aprendizagem e memória, percepção especial e reconhecimento de linguagem traz análises sugestivas. O lobo occipital é responsável por informações visuais enquanto o frontal tem funções executivas, decisões morais, navegação social e encontra similaridade entre eventos. Medidas da cavidade orbital sugerem que Neandertais tinham investimento maiores no sistema visual em detrimento dos outros sistemas sensoriais (Neves et al, 2015).

Não só o desenvolvimento, mas o crescimento dos Neandertais pode ter seguido um padrão diferente ao dos humanos, sendo mais rápido e vantajoso, em um ambiente hostil, pois crianças menos dependentes dos adultos poderiam participar mais ativamente de caças e deixariam as mulheres livres para participar também das caçadas. Análises tridimensionais do crânio de crianças Neandertais mostraram que diferenças no crescimento craniano até os 2 anos de idade seria responsável pelas maiores diferenças entre eles e humanos modernos. O formato alongado e baixo do crânio do Neandertal indica um descompasso no crescimento encefálico em relação á abóbada craniana. A lentidão do crescimento cerebral em relação á abóbada da cabeça gera o coque occipital (Neves et al, 2015). O coque não é uma característica exclusiva dos Neandertais, alguns humanos modernos também possuem. Entretanto, a espécie humana não tem a calota craniana em forma de abóbada.

Além disto, 87 genes que são responsáveis pela produção de proteínas nas células são diferentes entre os humanos modernos e Neandertais. Curiosamente, algumas das diferenças gênicas estão envolvidas em respostas imunitárias e no desenvolvimento de células do cérebro em Homo sapiens (Ancient Origins, 2013), o que sugere diferenças cruciais para distanciar Neandertais e humanos de serem classificados em uma mesma espécie.

Em um estudo liderada por SUNY Downstate Medical Center, os pesquisadores identificaram novas evidências anatômicas apoiando a crescente convicção de que os Neandertais eram uma espécie distinta, separada dos seres humanos e não uma sub-espécie.

O estudo analisou todo o complexo nasal de Neandertais e envolveu pesquisadores de diversas formações acadêmicas. A pesquisa apoiada pelo financiamento da National Science Foundation e os Institutos Nacionais de Saúde indica também que o complexo nasal do Neandertal não era uma forma adaptativa inferior ao dos humanos modernos.

O presente estudo junta-se a um crescente corpo de evidências de que as vias respiratórias superiores deste grupo extinto funcionavam através de um conjunto diferente de regras fisiológicas como resultado de uma história evolutiva separada, especialmente pelo plano corporal e craniano. Isto acarretou em um mosaico de características não encontrado em qualquer população de Homo sapiens. Dr. Márquez e sua equipe de paleoantropólogos, anatomistas-comparados e um otorrinolaringologista têm contribuído para a compreensão do quão diferente é a espécie Neandertal, quanto ela difere dos humanos modernos e quais aspectos da sua morfologia craniana evoluiu como adaptações para frio.

Tal diferença nos traços nasais de Neandertais sugerem um desenvolvimento evolutivo distinto daquele dos seres humanos modernos. A conclusão do Dr. Lawson é baseada em quase quatro décadas de prática clínica, na qual ele já viu mais de 7 mil pacientes representando uma rica diversidade de anatomia nasal humana que foi comparada com a anatomia Neandertal a partir de morfometria (Lawson et al, 2014).

Conclusão

Diante das evidências genéticas (DNA nuclear, DNAmit e cromossomo-Y), anatômicas e desenvolvimentais, não há razão alguma para classificar Neandertais e humanos em uma única espécie. Isto não significa que sejam de fato espécies distintas, mas que de acordo com um corpo crescente de evidências o melhor modelo é que tais diferenças fenotípicas (ainda que haja grande semelhança genética) correspondem e representam espécies distintas de hominídeos relacionados filogeneticamente a partir de um ancestral comum.

A corrente científica que defende a unificação destas duas espécies em um único táxon deve demonstrar cientificamente que tais características apresentadas acima não correspondem – ou não-favorecem – a descrição de duas diferentes espécies. Deve também apresentar dados empíricos que justifiquem que apesar das diferenças anatômicas e genéticas, eles correspondem a um mesmo táxon. Devem também deixa claro o critério ou a demarcação usada (e justificar) para definir o fim de uma espécie e início de outra demonstrando que no caso Neandertal/Humanos esta demarcação não ocorreria.

Para a corrente anti-científica dos negadores da teoria da evolução, e em especial a evolução humana, os dados acima são claros ao pontuar quais evidências justificam o paradigma vigente; que humanos e Neandertais correspondem a espécies distintas apesar das semelhanças genéticas.

Infelizmente para os negadores da teoria da evolução, a busca por juntar as espécies pertencentes ao gênero Homo não se faz justificável. Se ambas espécies tiverem que ser unificadas, deve ser feito segundo as evidências (e não segundo crenças religiosas). Ainda sim isto não justifica o fim da evolução humana: uma vez que outros fósseis apresentam características que ainda estabelecem o relacionamento filogenético para nossa espécie.

Uma estratégia utilizada por tal grupo é argumentar que fósseis de Neandertal representam seres humanos antigos que morreram vítima de alguma síndrome genética. O problema desta especulação é que nenhuma síndrome genética foi identificada: e não faz sentido defender tal especulação porque os registros de fósseis de Neandertais correspondem atualmente a mais de 400 espécimes encontrados e estudados pelos paleoantropólogos e geneticistas. Os achados estabelecem indivíduos com características anatômicas e genéticas bem definidas, e não uma síndrome que assolou mais de 400 representantes.

Assim, observar unicamente as porcentagens e presumir que números aproximados (quantitativos) são suficientes para juntar ou separar espécies pode ser um critério impreciso se ignorarmos o que tais números estão representando (qualitativo). As “ligeiras” diferenças genéticas representadas em porcentagens correspondem a imensas diferenças na qualidade da informação genética, que ao se manifestar cria fenótipos distintos e podem isolar geneticamente indivíduos.

Neste sentido, com todas as evidências apresentadas formalmente e publicadas, não há razão alguma para unificar duas espécies com tantos aspectos idiossincráticos.

Saiba mais em: QUEM ERAM OS NEANDERTAIS? – ORIGENS E ANATOMIA NEANDERTALENSEQUEM ERAM OS NEANDERTAIS? – A GENÉTICA NEANDERTAL E DENISOVANAQUEM ERAM OS NEANDERTAIS? – PRINCIPAIS ACHADOS PALEOANTROPOLÓGICOSQUEM ERAM OS NEANDERTAIS? – CULTURA, COMPORTAMENTO E TECNOLOGIAQUEM ERAM OS NEANDERTAIS? – A EXTINÇÃO.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Neandertal, Homo sapiens, DNA nuclear, DNA mitocondrial, cromossomo-Y, anatomia, Morfologia, Genética, Evolução Humana.

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Referências

Amos W, Hoffman JI. Evidence that two main bottleneck events shaped modern human genetic diversity. Proc Biol Sci. 2010 Jan 7;277(1678):131-7. Epub 2009 Oct 7. PubMed PMID: 19812086; PubMed Central PMCID: PMC2842629.
Krings, M., Stone, A., Schmitz, R.W., Krainitzki, H., Stoneking, M., Pääbo, S., 1997. Neandertal DNA Sequences and the origin of modern humans. Cell 90: 19-30.
Krings, M., Geisert, H., Schmitz, R.W., Krainitzki, H., Pääbo, S., 1999. DNA Sequence of the mitochondrial hypervariable region II from the Neanderthal type specimen. Proceedings of the National Academy of Sciences USA 96: 5581-5585.
Neves, W. A. Junior, M. J. R. Murrieta, R. S. S. Assim caminhou a Humanidade. Palas Athenas. 2015
Wolpoff, M. H. (2009), How Neandertals inform human variation. American Journal of Physical Anthropology, 139: 91–102.
Wong, K. Mentes neandertaid. Scientific American. Março de 2015.ANo 13.
Yu N, Jensen-Seaman MI, Chemnick L, Kidd JR, Deinard AS, Ryder O, Kidd KK, Li WH. Low nucleotide diversity in chimpanzees and bonobos. Genetics. 2003 Aug;164(4):1511-8. PubMed PMID: 12930756; PubMed Central PMCID: PMC1462640.
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6 thoughts on “O NEANDERTAL ERA UM Homo sapiens?

  1. “Estudos com DNA mitocondrial (DNAmit) indicaram que os Neandertais não pertencem a linhagem humana, sendo, portanto, melhor classificados como uma espécie separada (Homo neanderthalensis).”

    Com a ressalva disso ser mais uma “evidência indireta”, de uma longa separação, e não critério de distinção de espécies.

    Se em algum canto isolado do mundo se encontrasse uma população que por todo o DNA nuclear é sapiens, mas tivesse por alguma razão histórica obscura e improvável DNA mitocondrial de neandertais, eles seriam ainda assim, sapiens.

    E poderia também de qualquer forma continuar se mantendo que sapiens e neandertais são espécies distintas, pela somatória de outras razões.

    • Entretanto, me parece válido ressaltar que duas populações que são capazes de se cruzar não são suficientes para dizer que são a mesma espécie. Na Amazônia temos borboletas do gênero Heliconius que em certas regiões, e em certos indivíduos fazem o papel da introgressão de genes entre espécies a partir de híbridos, mas ainda sim são espécies distintas. A reprodução me parece uma regra prática e útil a se usar, como critério ela as vezes falha.
      Me parece que para ter certeza da distinção ou não desses hominíneos teríamos que saber quantas vezes eles tentaram reprodução, ou com que frequencia conseguiram se reproduzir, e que tipo de pressões seletivas havia sobre a prole resultante. Observando o que temos de herança direta dos Neandertais, 2% (rastreado a 50 mil anos atras) me parece contribuíram pouco, até pelo pouco tempo que tiveram de contato…e me parece que os outro 98% de semelhança com eles vem do ancestral comum, o H. heidelbergensis. E claro, o DNA do cromossomo Y é diferente entre Neandertais e H. sapiens. Não sei se há motivos para coloca-los em uma mesma espécie. Suspeitar sim e tentar ver se o que nos próximos anos de pesquisa vai aproxima-los ou distancia-los mais….mas, me parece que estão se distanciando!!!

  2. Não entendi a diferenciação que mostra a porcentagem de genes de neandertais em detrimento da porcentagem em chimpanzés… Da onde vem os dados de 95,5%? Ainda assim, pode mesmo ser feita essa comparação considerando que se extraiu DNA de um fóssil?

    • O que foi dito é que da mesma forma que chimpanzés são colocados como espécies distintas, os Neandertais também devem, porque não são apenas as semelhanças genéticas que colocam indivíduos em uma mesma espécie. O fenótipo pode modificar porque ha outros mecanismos que interferem na expressão de genes. É natural que quanto mais próximos filogeneticamente dois grupos são, maior é a dificuldade em saber quando termina uma espécie e outra começa.
      A comparação é feita entre genes e/ou entre sequencias espaçadoras de DNA obtidas a partir do registro fóssil e comparada com as correspondentes humanas. O genoma de neandertais esta quase totalmente sequenciado em laboratório, obtido a partir de fosseis. Existe uma discussão bioética desde 2009 sobre a possível clonagem deles.
      Fósseis podem fornecer dados genéticos sim! Tudo vai depender do processo de fossilização que ocorreu e dependendo de como é feita a coleta do material – para evitar contaminação. Para isto existem métodos de contraprova, para evitar contaminação!
      No caso dos 95,5% de semelhança entre Neandertais e Humanos:
      Duas equipes de cientistas seqüenciaram separadamente grandes trechos de DNA extraído do fêmur de um espécime de Neandertal de 38.000 anos encontrado em uma caverna na Croácia há 26 anos . Uma equipe seqüenciou mais de um milhão de pares de bases e os outros 65.000 pares do genoma.
      http://www.livescience.com/1122-neanderthal-99-5-percent-human.html

      Edward M. Rubin, que é diretor deste departamento e do Joint Genome Institute (JGI) sequenciou uma fração do DNA nuclear de um fêmur Neandertal de Vindja (Croácia) datado em 38 mil anos e mostrou um ancestral comum com nossa espécie há cerca de 353 mil anos atrás, com uma separação completa ocorrida há 188 mil anos atrás. Seus resultados mostram os genomas de humanos modernos e Neandertais são pelo menos 99,5% a 99,9% idênticos
      https://www.sciencedaily.com/releases/2006/11/061116083223.htm ou http://www2.lbl.gov/Science-Articles/Archive/Genomics-Neanderthal.html
      https://netnature.wordpress.com/2017/01/10/quem-eram-os-neandertais-a-genetica-neandertal-e-denisovana/

      Svante Pääbo testou mais de 70 espécimes de Neandertal e concluiu que o genoma neandertalense é quase do mesmo tamanho que o genoma humano, com semelhança de 99,7% em comparação a ordem exata das bases nitrogenadas da dupla cadeia de nucleotídeos (Moulson, 2006).
      Moulson, Geir; Associated Press (20 July 2006). “Neanderthal genome project launches”. MSNBC.

      Em 2010 Instituto Max Planck sequenciou um DNA nuclear por completo de um Neandertal da Vindija (Croácia), datando-o entre 44 e 38 mil anos. O DNA de outros sítios (Espanha, Alemanha, Rússia) demonstrou que o ser humano e os Neandertais eram mais próximos do que se havia pensado, com semelhança genética de cerca de 99,84%.
      https://www.eva.mpg.de/neandertal/press/presskit-neandertal/pdf/Science_Green.pdf

      Espero ter ajudado!!!

      • Primeiramente, agradeço sua atenção.

        Eu entendi sobre o debate que põe em prova a especificidade de neandetal dentro de Homo sapiens utilizando a comparação do genoma de macacos “serem mais iguais”, foi isso que me gerou essa dúvida, que se realmente é confiável utilizar o DNA fóssil em uma comparação “de igual a igual” entre essas espécies, isso é, não deve ser considerado um viés de amostra pela possível (ou de certeza) degradação?
        Em relação ao fenótipo, acredito que tanto essa sinergia dos genes, que montam todo um mecanismo, quanto o a nível do indivíduo, que pode compreender alguns dos conceitos de isolamento reprodutivo (etológico ou ecológico) estando diretamente relacionados com o processo de especiação, “complicam a vida” dos pesquisadores que querem desvendar essas incógnitas.

        A minha dúvida dos 95,5% continua, pois vc citou o Rubim, o qual nos seus resultados mostram uma semelhança maior que essa.

        Eu penso que a pesquisa nessa área é fascinante ao mesmo tempo que é obscura e até abstrata (no sentido de epistemológica), pois minha visão é de que é feita de tiros no escuro guiados pelo som de um alvo.

        Parabéns pelo seu comprometimento com seu trabalho!

        (Se tiver a fonte da discussão sobre a clonagem dos genes e bioética, agradeço, estou fazendo um trabalho com o tema)

      • Bem, geneticamente há uma limitação dos genes que são encontrados no registro. Então os caras usam o que eles tem como ferramenta de comparação.
        Como há bastante dados genéticos de diversos espécies de Neandertais de diferentes datadas, da para se ter uma ideia comparativa interessante.
        Bem, quanto mais próximas filogeneticamente duas espécies são, maiores são as semelhanças genéticas, portanto, é natural que tal confusão ocorra quando se compara Neandertais e H. sapiens.
        No caso, a semelhança ocorre devido ambas terem um ancestral comum, que é o H. heidelbergensis. O Neandertal surge a aproximadamente 530 mil anos e o H. sapiens por volta e 190-200 mil.
        Não são só as evidências genéticas que expressam uma diferença entre as espécies. As diferenças anatômicas também: sejam elas cranianas ou pós-cranianas.
        E claro, há mecanismos epigenéticos na jogada também. No Neandertal foram observadas metilações do DNA do Neandertal e dos Denisovanos. Um mapa de metilação do DNA foi reconstruído onde os pesquisadores avaliaram os níveis de atividade gênica em todo o genoma Neandertal e comparou-os com o dos humanos modernos. Uma das principais conclusões foi obtida ao analisar a morfologia dos membros dos Neandertais. Os caras descobriram que as mudanças nos níveis do cluster de genes HOX de atividade estavam atrás de muitas das diferenças morfológicas entre os Neandertais e os humanos modernos, incluindo membros mais curtos, ossos curvos e muito mais.
        Esta neste artigo http://www.cell.com/ajhg/abstract/S0002-9297%2815%2900008-7

        Outra descoberta mais recente é que as fêmeas humanas modernas e os neandertais machos tiveram problemas para fazer bebês. Ou seja, raramente poderiam procriar. O Neandertal de El Sidrón tinha mutações em três genes do sistema imune, incluindo um que produz antígenos que podem induzir uma resposta imune em mulheres grávidas, fazendo com que rejeitem e abortem fetos masculinos com esses genes. Fonte: http://science.sciencemag.org/content/343/6170/471.full

        Bem, apesar disto houve um cruzamento há 50 mil anos. Mas só recebemos e ficamos com 2% deste material genético vindo diretamente dos neandertais.
        Eu arriscaria, diante disto, que parecem ser espécies distintas.

        Bom, 95% de semelhança é um valor bastante grande. Não sei se há semelhanças maiores. Se houver, vai se aproximar com a do chimpanzé. Ao que me parece, do ponto de vista genético, é nestes 5% (ou menos) que moram as diferenças genética entre nós e Neandertais.
        A média de semelhança entre homens em chimpanzés é de 99% (com algumas variações dependendo das populações de chimpanzés que se observa), e é nestes detalhes que moram as diferenças.

        A discussão sobre a clonagem esta aqui
        https://www.theguardian.com/commentisfree/2011/jun/23/clone-neanderthal-technology-ethical

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