PESQUISADORES DIZEM TER DESCOBERTO O QUE FAZ AS PESSOAS REJEITAREM A CIÊNCIA – E NÃO É IGNORÂNCIA. (Comentado)

Por que algumas pessoas acreditam que a Terra é plana.

JooJoo41/Pixabay

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Muita coisa aconteceu em 2016, mas uma das maiores mudanças culturais foi o surgimento de notícias falsas – onde reivindica verdades sem evidências por trás delas (por exemplo, a terra é plana) que são compartilhadas como fato ao lado conclusões baseadas em evidências e revistas por pares (por exemplo, clima mudança está acontecendo).

Pesquisadores têm cunhado esta tendência, o ‘movimento anti-iluminismo‘, e tem havido um monte de frustrações e apontamento de dedos sobre do que ou de quem é a culpa. Mas uma equipe de psicólogos identificou alguns dos fatores-chave que podem levar as pessoas a rejeitarem a ciência – e isso não tem nada a ver com o grau de instrução ou de inteligência delas.

De fato, os pesquisadores descobriram que as pessoas que rejeitam consenso científico sobre temas como as alterações climáticas, a segurança da vacinação, e evolução são geralmente tão interessados em ciência e bem-educados como o resto de nós.

A questão é que, quando se trata de fatos, as pessoas pensam mais como advogados do que como cientistas, o que significa que eles escolhem os fatos e os estudos que respaldam o que eles acreditam ser verdade.

Portanto, se alguém pensa que os seres humanos não estão causando mudanças climáticas, eles ignorarão as centenas de estudos que apóiam essa conclusão, mas prendem-se ao único estudo que podem encontrar que coloca em dúvida essa visão. Isso também é conhecido como  viés-cognitivo.

“Nós achamos que as pessoas vão tomar um vôo a partir de fatos para proteger todos os tipos de crença incluindo sua crença religiosa, suas crenças políticas, e até mesmo simples crenças pessoais, como se eles fossem bons em escolher um navegador web”, disse um dos pesquisadores, Troy Campbell da Universidade de Oregon.

“As pessoas tratam os fatos mais relevantes quando os fatos tendem a apoiar suas opiniões, quando os fatos são contra suas opiniões, eles não negam necessariamente os fatos, mas dizem que os fatos são menos relevantes”.

Esta conclusão foi baseada em uma série de novas entrevistas, bem como uma meta-análise da pesquisa que foi publicada sobre o tema, e foi apresentada em um simpósio da Sociedade para a Personalidade ea Psicologia Social convenção anual Em San Antonio.

O objetivo era descobrir o que está acontecendo de errado com a comunicação científica em 2017, e o que podemos fazer para corrigi-lo.

A pesquisa ainda não foi publicada, por isso não é conclusiva, mas os resultados sugerem que simplesmente se concentram nas evidências e dados não são suficientes para mudar a mente de alguém sobre um determinado tópico, visto que eles provavelmente terão seus próprios “fatos” para disparar de volta contra você.

“Onde há conflito sobre riscos sociais – das alterações climáticas para a segurança de energia nuclear para impactos das leis de controle de armas, ambos os lados invocam o manto da ciência”, disse um membro da equipe, Dan Kahan da Universidade de Yale.

Em vez disso, os pesquisadores recomendam examinar as “raízes” da falta de vontade das pessoas para aceitar o consenso científico e tentar encontrar um terreno comum para introduzir novas idéias.

Então, de onde vem esta negação da ciência? Uma grande parte do problema, os pesquisadores descobriram, é que as pessoas associam conclusões científicas com afiliações políticas ou sociais.

Nova pesquisa realizada por Kahan mostrou que as pessoas têm sempre escolhido fatos quando se trata de ciência – que não é nada de novo. Mas não foi um problema tão grande no passado, porque as conclusões científicas foram geralmente acordadas por líderes políticos e culturais, e promovido como sendo no melhor interesse do público.

Agora, os fatos científicos estão sendo empunhados como armas em uma luta pela supremacia cultural, Kahan disse Melissa Healy ao LA Times, e o resultado é um “ambiente de comunicação da ciência poluída”.

Então, como podemos fazer melhor?

“Ao invés de assumir atitudes superficiais das pessoas diretamente, adaptar a mensagem para que ele se alinha com a sua motivação”, disse Hornsey. “Assim, com os céticos do clima, por exemplo, você descobre o que eles podem concordar e, em seguida, criar um quadro de mensagens climáticas para se alinhar com os dados”

Os pesquisadores ainda estão  reunindo dados  para uma publicação peer-reviewed em seus resultados, mas eles apresentaram o seu trabalho para a comunidade científica para uma maior divulgação e discussão no mesmo período.

Hornsey disse ao LA Times que as apostas são altas demais para continuar a ignorar o “movimento anti-iluminação”.

“Movimentos anti-vacinação custam vidas”, disse Hornsey. “O ceticismo das mudanças climáticas retarda a resposta global à maior ameaça social, econômica e ecológica do nosso tempo”.

“Nós crescemos em uma época em que apenas presumimos que a razão e evidências foram as formas de entender questões importantes; não temas, interesses particulares, na tradição ou fé”,  acrescentou.

“Mas o surgimento do ceticismo climático e o movimento anti-vacinação nos fizeram perceber que esses valores de iluminação estão sob ataque”.

Fonte: Science Alert

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Comentários internos

O que o estudo aponta é que muitas vezes não é o analfabetismo científico a causa que leva as pessoas a negar as evidências ou as constatações científicas, mas o fato de serem seletivos e relativistas sobre o que aceitam como fatos. Geralmente, o critério de aceitação dos fatos é dado por suas tendências ideológicas, sociais e crenças religiosas.

Selecionar fatos ou deturpa-los criando uma percepção distorcida de um dado empírico e logicamente constatado não é fazer ciência, é simplesmente moldar os fatos segundo suas intenções culminando em uma estratégia ilógica e irracional.

No criacionismo, existe uma tendência de confirmação do observador em procurar ou interpretar informações de forma que estas confirmem pré-concepções próprias. A isto da-se o nome de viés de confirmação: tendência das pessoas preferirem informações que confirmem suas crenças ou hipóteses, muitas vezes independentemente de serem ou não verdadeiras.

Exemplo de conceitos da biologia (genética de populações deturpados para justificar crenças

Exemplo de conceitos da biologia (genética de populações) deturpados para justificar crenças religiosas (Design Inteligente)

O caso mais recente é dado pela constatação de tecidos-não resistentes em dinossauros e a defesa de que eles viveram em uma Terra-Jovem, junto aos homens. Esta postura ignora os dados produzidos pelos métodos de datação mostrando que dinossauros viveram há milhões de anos. Nestes casos há outros efeitos de viés cognitivos que acompanham a negação, como as pessoas que reagem negando as evidências pelo fortalecimento em suas crenças (Backfire effect). As mesmas tendências encontramos em geocentristas ou terraplanistas.

Existe a negação ou a tentativa de distorcer os dados produzidos por grandes grupos de pesquisadores competentes em suas áreas no caso do clima. O presidente americano Donald Trump é um exemplo, pois afirma que a tese de mudanças climáticas pelo aquecimento global é uma estratégia produzida pelos chineses por motivos econômicos. Entretanto, os maiores produtores de dados que constatam as mudanças climáticas são agencias americanas como a National Aeronautics and Space Administration (NASA) e a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), National Science Foundation (NSF) e a Departamento of Energy (DOE).

Ao perceber isto, sua intenção é então cortar financiamentos que impeçam as agências de seu país de produzir dados que vão contra seus interesses políticos e ideológicos.

Trump, e várias correntes europeias e americanas também seguem negando o papel fundamental da vacinação para a preservação da vida de crianças. A pseudociência ou o viés-cognitivo podem ser perigosos a saúde pública, pois negam fatos que estão diretamente ligados a manutenção e preservação da vida.

No caso da vacinação, a ideia de que elas causavam algum tipo de efeito colateral ligado ao autismo foi proposta por Andrew Wakefield em meados da década de 90. O artigo foi contestado e retirado de circulação porque trazia uma série de deficiências metodológicas e falsas correlações por vieses estatísticos. Entretanto, até hoje tem influenciado pessoas a acreditar que vacinas causam autismo. Existe um processo de ancoragem, ou, de focalismo em uma informação do passado – já refutada – que também faz parte do viés cognitivo e tende a ser erguido como uma verdade absoluta por grupos pseudocientíficos e negacionistas.

Talvez, o grupo que mais caracteriza o viés cognitivo (e por vezes cai na condição de bizarrices) seja o que bebe da fonte das conspirações. Uma medida para se safar das afirmações pseudocientíficas e conspiracionistas desses teóricos foi dada pelo astrônomo Carl Sagan:

“A pseudociência difere da ciência errônea. A ciência prospera com seus erros, eliminando-os um a um. Conclusões falsas são tiradas todo o tempo, mas elas constituem tentativas. As hipóteses são formuladas de modo a poderem ser refutadas. Uma sequência de hipóteses alternativas é confrontada com os experimentos e a observação. A ciência tateia e cambaleia em busca da melhor compreensão. Alguns sentimentos de propriedade individual são certamente ofendidos quando uma hipótese científica não é aprovada, mas essas refutações são reconhecidas como centrais para o empreendimento científico.

A pseudociência é exatamente o oposto. As hipóteses são formuladas de modo a se tornar invulneráveis a qualquer experimento que ofereça uma perspectiva de refutação, para que em princípio não possam ser invalidadas. Os profissionais são defensivos e cautelosos. Faz-se oposição ao escrutínio cético. Quando a hipótese pseudocientífica não consegue entusiasmar os cientistas, deduz-se que há conspirações para eliminá-la.”

— Carl Sagan. “O mundo assombrado pelos demônios”, editora Companhia das Letras, p. 28-29

O viés cognitivo tem se tornado bastante comum, tem poluído sim a ciência com afirmações tendenciosas, religiosas, motivações ideológicas e políticas. A internet tem sido utilizada como uma faca de dois gumes. Se por um lado ela democratiza o acesso a informação técnica e dados científicos, por outro congrega pessoas que compartilham das mesmas crenças e motivações ideológicas para negar e cooptar pessoas a ignorância ou a um modo de pensar anti-científico, direcionado a causas particulares. Essas congregações também cooptam informações científicas distorcendo-as de tal modo a confirmar suas crenças.

Um ponto tocado pelo texto acima – e que é de fundamental importância – diz respeito a notícias falsas. Vivemos uma situação política atual bastante conflitante, e os EUA também. Isto, de certa forma tem envenenado as reflexões que realizamos sobre diversos assuntos devido a enxurrada de discursos ideológicos que vem sendo propagada e que chega até as discussões científicas. Notícias falsas ou notícias tendenciosas com títulos subjetivos, somados a preguiça pela leitura, acabam direcionando-nos a uma reflexão superficial sobre diversos temas, não só científicos. Redes sociais têm este poder ambíguo e as notícias falsas tem pego a todos de surpresa, muitas vezes deixando-nos confusos sobre o que é fato e o que é boato. A propagação de falsas notícias científicas e propagandas usando jargões científicos tem sido comum, para dar um viés mais “formal” sobre assuntos que não tem relevância científica ou que carecem de fontes confiáveis. É importante que haja a publicação dos dados em artigos científicos e que estes sejam traduzidos em informações relevantes e compreensíveis aos leigos. Por isto, a divulgação científica se faz importante, ela populariza e democratiza o conhecimento tal como faz vários blogs e sites com bons conteúdos vem fazendo. A ideia destes divulgadores é fazer um convite as pessoas para refletirem juntas.

Aqui mesmo, no NetNature temos pontuado estas questões e convidado as pessoas a ler sobre diversos temas das ciências em geral. Entretanto, há maior interesse do público em assuntos ligados a evolução biológica. É preciso que as pessoas também se disponham a ler sobre outros assuntos ligados a ciência que não sejam só sobre evolução.

A informação científica deve estar ao alcance do público, pois se usada de forma correta e responsável leva a discussões importantes que tangem diversas decisões sociais e éticas: aborto (quando a vida começa), eutanásia (morte cerebral e estado vegetativo), transgenia (organismos geneticamente modificados) etc.

O papel da divulgação de ciência de qualidade faz-se fundamental para incentivar o pensamento crítico e cético mediante a certas verdades erguidas sem confirmações, e agora, incentivar o combate ao viés cognitivo que tem levado pessoas ao obscurantismo. As pessoas precisam aprender que os dados não existem para corroborar nossas tendências e nossas crenças. Haverá momentos em que o “não” batera de frente com nossas tendências ideológicas, nossas crenças e as verdades e fatos que selecionamos estão naturalmente sujeitas ao escrutínio. Ciência se faz descartando os erros e mantendo vivo as hipóteses que são sustentadas pelas evidências. Nossas crenças devem ficar de fora de nossa capacidade de observar dados e aceitar os paradigmas científicos.

Outro ponto importante é que cientistas de grande nome se apresentem fazendo este convite as pessoas, de questionar, aprender, compartilhar experiências e combater o viés cognitivo. Os cientistas precisam descer da torre de marfim e se tornar popularizadores de conhecimento genuinamente científicos. Somente com conhecimento genuíno é que teremos uma discussão rica e intelectualmente gratificante. Não é possível ter uma experiência mutuamente gratificante em discussões quando quem critica uma teoria – como fazem com a evolução – e apresenta uma base errada sobre o assunto. É extremamente comum encontrarmos críticos da teoria da evolução que ao caracteriza-la, descrevem-na com definições claramente saltacionistas, ou reduzem ela ao absurdo da mera aleatoriedade. Se o fazem por maldade, são infantis, se não, é ingenuidade. Portanto, é preciso combater estes modos de achar que pensam com o uso da razão e da ciência.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Viés cognitivo, Viés de Confirmação, Pseudociência, Negacionismo, Teoria da evolução, Mudanças climáticas, Terra-plana, Criacionismo, Anti-vacina.

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