DONALD TRUMP NOMEIA PRESIDENTE DE FACULDADE CRIACIONISTA PARA LIDERAR A FORÇA-TAREFA DE REFORMA DO ENSINO SUPERIOR. (Comentado)

Jerry Falwell Jr é presidente da maior universidade cristã.

Jerry Falwell fez campanha para Trump em Davenport e Iowa, em janeiro de 2016

Jerry Falwell fez campanha para Trump em Davenport e Iowa, em janeiro de 2016

Jerry Falwell Jr, líder da maior faculdade cristã do mundo, onde o criacionismo bíblico é ensinado ao lado da teoria da evolução, e agora vai liderar uma força-tarefa de Donald Trump na reforma do ensino superior.

Falwell, que foi um dos primeiros adeptos de Trump e cujo apoio ajudou a assegurar o apoio vital dos cristãos evangélicos, foi mencionado como possível candidato a Secretário de Educação.

Mas enquanto Falwell não se sente capaz de assumir esse papel, ele concordou em chefiar o grupo de trabalho de Trump. Ele disse que conversou com Steve Bannon, o controverso e poderoso conselheiro de Trump, sobre o papel.

Jerry Falwell Jr. estará liderando a força-tarefa de educação superior de Trump. Aqui está um livro de ciência que eu fui designado em sua escola em 2007.

Jerry Falwell Jr. estará liderando a força-tarefa de educação superior de Trump. Aqui está um livro-texto de ciência que foi designado em sua escola em 2007.

Embora os detalhes precisos do mandato do grupo da força-tarefa ainda estejam sendo elaborados, ele disse, que o objetivo seria “tirar o governo das costas do ensino superior”.

“No Departamento de Educação, há muita intrusão na crença independente”, disse Falwell ao Washington Post.

“Há muita intrusão na operação das universidades e faculdades. Tenho uma lista inteira de preocupações. Tem principalmente a ver com a desregulamentação”(ouça aqui o podcast).

A Liberty University não respondeu imediatamente a perguntas. Sr. Falwell foi rápido em dar seu apoio a Trump, e o magnata de Nova York viajou para a sua universidade em Virgínia e falou com os alunos, um pouco deformando a referência bíblica.

Em uma campanha, mesmo em Davenport, e durante as reuniões em Iowa, Falwell disse que decidiu apoiar Trump “porque o país está nesse ponto”.

No campus do Sr. Falwell Lynchburg, o salão de ciências é supostamente abastecido com o mais recente equipamento de laboratório, incluindo um sequenciador de genes e um espectrômetro de ressonância magnética nuclear. No entanto, os professores ensinam a evolução ao lado do criacionismo bíblico.

Donald Trump sobre as Questões - As opiniões de Donald Trump são coletadas de votos, excertos de discursos, press releases e outras declarações públicas, e são classificadas em uma escala de -10 (liberal) a +10 (conservadora).

Questões de Donald Trump – As opiniões de Donald Trump foram coletadas de votos, discursos, releases e outras declarações públicas, e são classificadas em uma escala de -10 (liberal) a +10 (conservadora).

David DeWitt, que é doutorado em neurociências pela Case Western Reserve University, preside o departamento de biologia e química da Liberty. Ele também é diretor de seu Centre for Creation Studies (Centro de Estudos de Criação).

Em Novembro de 2016, o Sr. Falwell reuniu-se com o presidente Trump e Mike Pence na Trump Tower, em Nova York.

“Deixo-lhes saber que uma de minhas paixões é reformar o ensino superior e a educação em geral”, disse Falwell ao Richmond Times-Dispatch.

“Eu disse a eles que eu estaria disposto – eu tenho um monte de responsabilidades aqui – mas eu estaria disposto a servir em alguma capacidade que tipo de educação traz de volta a alguma forma de sanidade”.

Falwell é advogado e filho do fundador da faculdade evangélica privada, o Rev Jerry Falwell, co-fundador da Moral Majority e arquiteto do movimento político cristão conservador que ajudou a impulsionar Ronald Reagan para a presidência em 1980.

A Liberty University não respondeu imediatamente a perguntas na quarta-feira.

Fonte: Independent

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Comentários internos

O primeiro ponto a ser tocado neste texto é que vemos uma manobra política ultra-conservadora se articulando para tentar equiparar evolução biológica e teoria da evolução, como é ensinado na faculdade criacionista. Entretanto, vale salientar que os principais centros de pesquisa do mundo rejeitam o criacionismo como ciência. A aceitação de tal movimento nos EUA não representa uma aceitação do movimento como ciência, justamente pelo caráter ideológico e religioso contido no discurso.

Aqui cabe uma digressão. Ciência se fundamenta em um método empírico de construção de conhecimento. A experimentação (que é reproduzível) tem como foco investigações de fenômenos naturais, cogitação de hipóteses, verificação, mensuração e elaboração de uma conclusão paradigmática, e não absoluta.

Criacionismo trata-se de uma crença e não de um ramo científico de estudo. Parte de uma concepção de fé promovida pela autoridade de um livro sagrado (cristianismo), uma tradição judaica e de revelação da palavra a partir de profetas culminando em um dogma, uma verdade absoluta que não pode ser negada e inquestionável.

Enquanto a ciência trata da palavra ensinada a partir do uso da razão, ou seja, com o logos (como na biólogos, paleontólogos, cosmólogos, arqueólogos…), o discurso mítico-religioso trata a Palavra (com “P” maiúsculo como sinônimo de verdade [de Deus] dogmática) como Aletheia: palavra revelada por uma entidade divina.

Enquanto o professor professa a palavra segundo o livre-pensar usando a razão e estimulando o desenvolvimento crítico, o profeta profetiza no sentido de catequizar ou relevar a verdade divina segundo uma doutrina mítico-religiosa (O mito das musas de Hesíodo ou de Moisés recebendo as revelações divinas no monte Sinai). É preciso ter cuidado com este tipo de abordagem, especialmente nos Estado Unidos cujas manobras políticas ultra-conservadoras mantém historicamente discursos de ódio, racismo e xenofobia muitas vezes pautados neste tipo de revelação e de postura obscurantista.

Inherit the Wind é uma parábola que ficcionaliza um caso real ocorrido em 1925, Scopes “Monkey” Trial (“O Julgamento do Macaco”)

Inherit the Wind é um filme de ficção que conta o caso real ocorrido em 1925 do Scopes “Monkey” Trial (O Julgamento do Macaco).

O que o texto acima deixa claro é que durante décadas o discurso da pseudociência criacionista usou várias manobras (igualmente pseudocientíficas) para tentar se findar como ciência: desde o Julgamento do Macaco (1925), o Epperson vs Arkansas (1968) e recentemente o termo Design Inteligente cujas raízes criacionistas foram reveladas no julgamento Dover vs Kritzmiller (2005).

Diante de tantas tentativas fracassadas de se apresentar como ciência, vários estados americanos passam por tentativas de catequismo criacionista usando manobras políticas e projetos de leis com palavras bem escolhidas e subjetividades para inserir na disciplina de ciências o ensino da Criação cristã, com o discurso de que isto seria democrático.

Não é por diversos motivos. Citarei três apenas: fere a primeira emenda americana, porque o ensino de criacionismo não é ciência como vimos acima (pelo método), e porque o ensino democrático trataria do ensino dos mitos de criação de todas as religiões e não do criacionismo bíblico.

As tentativas de fundamentar o criacionismo como uma disciplina equivalente a Teoria da evolução a partir de contatos e influencia política apenas fortalece o fato de que o criacionismo é um movimento fundamentalista.

Diante da incompetência em se apresentar como ciência por problemas com o método e aspectos epistemológicos idiossincráticos da ciência, o criacionismo tenta pela via da autoridade e das preferências ideológicas, político/religiosas se firmar forçosamente.

Trump vem acenando pra isto quando disse que quer diluir a barreira entre estado e religião que há nos estados Unidos. Isto pode ser um tanto complexo porque bate de frente com a Constituição americana, mas diante de um grupo fundamentalista é possível que “gambiarras” políticas possam tentar fura-la, como fazem os projetos de lei em Louisiana, Texas, Kentucky e tantas outras regiões dos EUA.

A questão é: ainda que ocorra a inserção do criacionismo nas escolas americanas, ele só será ensinado devido uma manobra política e não por mérito de se justificar pelo método científico. Para aqueles que gostam do discurso ultra-conservador meritocrata, seria vergonhosos, afinal: que mérito há nisto?

No Brasil, precisamos tomar cuidado. Existe uma onda ultraconservadora despertando no mundo, e o Brasil tem o costume de utilizar os EUA como referência de civilização e o modelo “American the way of life” como modo de vida. Adotar uma postura fundamentalista e inserir tais práticas no ensino afundará ainda mais a educação do país no obscurantismo. O Brasil atual passar por uma onda de discursos de ódio, analfabetismo científico e viés de confirmação para justificar posturas que são ideológicas e não de livre-pensar uma vez que a política e o ódio que tem despertado tem “envenenado” o uso da razão (logos) pelas paixões ideológicas. Basta visitar uma rede social e os discursos de ódio aparecem!

Há momentos em que podemos direcionar críticas á religião. Podemos exaltar os pontos positivos e negativos de suas atividades, mas (como sempre digo) o problema não é a religião em si, mas o que as pessoas fazem dela.

Sua prática deve estar sempre em exercício para quem se sente a vontade, mas os limites de prática devem ser estabelecidos e obviamente, sua inserção forçosa não corresponde a uma manifestação religiosa, mas sim de dominação, opressão e supressão da liberdade alheia. O cristianismo historicamente é reconhecido por sua atuação na Idade Média: catequismo, conversão forçada e sincretismo de símbolos religiosos alheios e quando nada disto for possível, a morte em nome de Deus era praticada comumente. A Reforma protestante também foi um banho de sangue com sua própria Inquisição.

De certa forma, a manobra criacionista é um tiro no pé, e só será aceita porque Trump esta tentando diluir a barreira entre estado e religião e fundar uma teocracia. De qualquer forma, serão os 4 anos mais longos do EUA, uma Idade Média particular onde o inferno será o cristianismo no poder atuando de forma rígida, tal qual muitos povos “moderados” do Oriente Médio. Paradoxalmente, o demônio ficara por conta do cristianismo: será o inferno cristão, com estas figuras fazendo papel da besta com as cabeças e seus diademas para quem ousar debater o papel de suas decisões o estrago que farão no ensino e no livre-pensar.

Enquanto os EUA se afunda em sua Idade Média particular, promovida por um presidente sem qualquer conhecimento na área de ciência básica o restante do mundo deve ser mais incisivo e claro na definição de ciência e separação do conteúdo pseudocientífico e viés cognitivo que eventualmente possa bater na porta da academia.

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Adendo sobre a Turquia

Recentemente o Ministério da Educação da Turquia decidiu retirar a teoria da evolução do currículo escolar. O vice-primeiro-ministro, Numan Kurtulmuş, foi à imprensa para defender as alterações. Para ele “a teoria de evolução já é arcaica e refutada” e “eu não considero discussões sobre ela corretas”.

O problema é que Numan é um muçulmano que legisla em causa própria. Ele estudou em escolas de cunho religioso, como a İstanbul Üniversitesi İşletme Fakültesi'(faculdade islâmica) e tem pretensões de rejeitar a evolução por motivações político/religiosas já que faz parte da frente conservadora turca, que é islâmica.

A questão é: quem é Numan para dizer “EU não considero que seja correta”? Qual a formação dele para refutar a teoria da evolução? Quais artigos publicados ele tem apresentando o novo paradigma vigente da biologia moderna? Simplesmente nenhum, e sua recusa não partiu de artigos científicas mas de poder político. Numan é um negacionista tal como os criacionistas cristãos!

O fato de ser teoria e haver uma movimentação da revista Nature e da comunidade científica na Turquia demonstra que Numan esta negando uma teoria vigente, e pelo que tudo indica, por motivações religiosas tal qual ocorre nos EUA ou aqui no Brasil.
A questão é, se ele não conseguir quebrar o ensino de evolução nas escolas turcas ele vai propor o ensino do criacionismo islâmico em aulas de ciência como é de praxe nas manifestações criacionistas?

Se este for o caso, vemos que o discurso religioso esta tentando se apoderar da ciência e mascar seus dogmas com uma roupagem pseudocientífica. Isto escancara o quanto o criacionismo precisa ser rejeitado, porque ele só se manifesta no seio de representantes fundamentalistas tentando catequizar e sincretizar a ciência.

Felizmente Cagatay Tavsanoglu, presidente da Sociedade Turca de Ecologia e Biologia Evolucionária, escreveu o artigo na Nature denunciando a alteração e pedindo à comunidade científica internacional apoio para o retorno da disciplina ao currículo das escolas turcas. A proposta curricular foi apresentada pelo Ministério da Educação no dia 13 de janeiro, e aberta para consulta pública até a sexta-feira passada. Ao todo, foram recebidas 184.042 sugestões: a maioria pedindo o retorno da teoria da evolução para os estudantes secundaristas.

No Brasil, os criacionistas manifestaram-se em apoio a Turquia, mas ingenuamente não perceberam (ou ignoraram) o fato de que o ensino criacionista turco não tem pretensão alguma em ser cristão e sim muçulmano, o que torna ainda mais claro que as manifestações criacionistas não devem estar em sala de aula porque não são científicas, mas sim embebidas em profundo caráter religioso, tal qual a tradição do país e dependendo de quem esta com o poder político em mãos. O criacionismo não se firma como ciência e corre para o autoritarismo político desesperadamente para ser aceito.

Nota-se também o quanto a democracia turca esta ferida, com tentativas de golpe e inserção de conteúdo religioso em escolas públicas partindo de ultra-conservadores.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Criacionismo, Pseudociência, Design Inteligente, Educação, Evolução.

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